Publico algunos capítulos de Kennedy, estoy corrigiendo este antiguo libro que escribí hace unos años y re-publicaré. j re crivello
9M79, era un número de taxi que le llevaba por Times Square. Pero para Mardi Grass, su alma había dado un vuelco, las imágenes que rodeaban la plaza eran de origen ruso, la antigua URSS, el acorazado Potemkin en un gran telón de 1905 y grafías de la hoz y el…
Publico algunos capítulos de Kennedy, estoy corrigiendo este antiguo libro que escribí hace unos años y re-publicaré. j re crivello
9M79, era un número de taxi que le llevaba por Times Square. Pero para Mardi Grass, su alma había dado un vuelco, las imágenes que rodeaban la plaza eran de origen ruso, la antigua URSS, el acorazado Potemkin en un gran telón de 1905 y grafías de la hoz y el…
Contras de ser hija de una científica: todos mis compañeros piden que les ayude con ciencias o matemática. Creen que sé y se ponen un poquito cargantes. Pros de ser hija de una científica: Conozco a gente cool. Y también están las vacaciones.
A diferencia de muchos de mis compañeros, yo sí puedo viajar en las vacaciones. Soy afortunada. El problema es que solo vamos a un lugar si es importante…
“As mudanças nunca ocorrem sem inconvenientes, até mesmo do pior para o melhor.”
– Richard Hooker
- Ótima escolha, senhorita – o senhor indiano admirou do outro lado do balcão, com uma mão alisando os fios compridos da barba grisalha que emoldurava os lábios grossos abertos num sorriso cálido, daqueles que formam rugas no canto dos olhos. Sua voz rouca era carregada de mistério, igual ao dos avôs quando contam histórias para suas netas dormirem, o que trouxe uma avalanche de lembranças de seu avô Dante, cuja tendência era transformar todas as histórias em algo sangrento – mas não necessariamente horripilante, apenas excessivamente nojento.
Serenity tornou a apreciar o pequeno elefante de bronze que segurava em mãos. Os detalhes em dourado cobriam estrategicamente o corpo do animal e lhe conferiam algo especial, que atraíra de imediato a atenção dela. Ela secretamente adorava elefantes. Não que tivesse o quarto repleto deles, longe disso.
- E o que o torna tão especial? – Questionou cética, mais uma vez ponderando a possibilidade de levar ou não o objeto, como sempre fazia antes de comprar alguma coisa.
- Há uma lenda por trás desses elefantes. Alguns dizem que eles são mágicos, capazes de unirem aqueles destinados um ao outro. – Seu olhar firme conferiu maior credibilidade, como se passasse horas a treinos até se tornar parte de sua natureza, ou como se realmente acreditasse no que dizia. Mas Serenity era teimosa demais para admitir que, de alguma forma, a história era interessante, ainda que clichê. – Mas uma bela mulher como a senhorita não deve precisar de magia para encontrar a alma gêmea – insinuou, por fim.
Serenity ignorou o comentário. Agradeceu e pagou pelo elefante, ansiosa para sair da pequena loja claustrofóbica dominada pelo cheiro de incenso e pelo calor que beirava ao insuportável. Se não tivesse desenvolvido e aprimorado seu autocontrole ao longo dos anos, teria entrado em pânico naquele local. Ou sequer teria entrado lá, a princípio. Ainda se perguntava por que o fizera.
No entanto, a Índia possuía uma magia indubitável. Suas cores vibrantes, seu movimento eufórico e alegre, suas vestimentas elegantes e suas construções magníficas, tudo influía numa atmosfera utópica, um mundo paralelo fora de sua realidade. Três meses no país já encantaram a tão exigente Serenity – também conhecida como Ofelia.
O celular no bolso de trás dos jeans velhos, que delineavam as curvas elegantes de suas pernas, vibrou, seguido logo pelo famoso refrão de Fly Me To The Moon. Ela fechou os olhos enquanto baixava a cabeça com pesar. Antony.
- Acabou meu tempo, Tony? – Mascarou a relutância da partida assim que atendeu a ligação.
- Nosso voo sai em uma hora, suas malas já estão quase arrumadas.
Ela suspirou, concluindo o quanto viagens a trabalho eram desgastantes, por mais que as amasse.
- Estarei aí em vinte minutos.
Voltou a observar a rústica loja da qual acabara de sair. As paredes externas laranjas se camuflavam perante as cores vibrantes das outras construções, o estabelecimento vendia quinquilharias para turistas, tal como todos os outros, no entanto, fora o único em que encontrara o suvenir que comprou.
- Unir almas gêmeas? Isso é ridículo – murmurou para si mesma a fim de afastar os pensamentos da garotinha ingênua de oito anos que há muito se perdeu em meio às circunstâncias da vida e que, vez ou outra, sussurrava em sua mente. Como naquele momento, em que uma parte – embora uma bem pequena – queria mesmo acreditar que ainda existiam finais felizes.
Os assentos marcados na primeira classe do avião que a levaria de volta para casa – se é que poderia chamar o apartamento em que morava de casa – foram ocupados uma hora mais tarde. Antony, seu agente, amigo e confidente de 27 anos, sentado ao seu lado, organizava sua agenda para os próximos meses, com um vinco saliente entre as sobrancelhas, sinal de que estava bastante concentrado. E ele detestava ser interrompido no meio de uma linha de raciocínio.
Conhecera-o há dois anos. Na época acreditava ser uma má ideia ter de trabalhar com alguém, mas, pela primeira vez, parou para pensar que Antony mostrou-se eficiente, profissional e compreensível para com a maneira com a qual ela trabalha, apesar de dar indícios de que não aprovava. Mas era o único que conhecia a obscuridade de seu passado, e entendia.
- Ofelia? – Escutou ao longe. – Ofelia, no que está pensando? – Antony questionou com evidente curiosidade no brilho dos olhos cor de chocolate. Ele poderia ser a pessoa mais profissional do planeta, porém era muito transparente, fazia parte de sua essência e era impossível reprimi-la. No início a irritava , com o tempo, esse detalhe da personalidade dele já não fazia tanta diferença.
- A pergunta de um milhão de dólares – comentou num humor seco, sem sinais de sorriso em seus lábios. – Só acho que trabalhamos bem juntos – continuou, sabendo o quanto era verdade ao escutar as palavras em voz alta.
Surpreso, Antony corou consideravelmente a ponto de permitir qualquer um enxergar as maçãs do rosto rubras por cima de sua negra pele. Dois anos juntos e os momentos de sinceridade imprevisíveis de Serenity ainda o chocavam, e possuía sérias razões em acreditar que jamais se acostumaria, jamais estaria preparado e sempre reagiria da mesma forma.
- Sim, trabalhamos. – Foi o que conseguiu responder para não fazer papel de bobo. E, então, retomou a compostura mais rápido que Serenity imaginara, retornando ao trabalho e deixando a colega imersa em reflexões.
Depois de horas no avião, Serenity reclamara em pensamentos sobre as costas doloridas, que a machucaram logo no desembarque. Os assentos acolchoados de couro ajudaram por algumas breves horas, depois tudo se tornou insuportável. As dores na nuca, que antes não sabia possuir, subiam à cabeça e latejavam.
Amaldiçoou a garotinha no assento da frente que não parava de resmungar, e quando esta foi ao banheiro com a mãe, desejou trancá-las lá até o avião abrir as portas e os passageiros começarem a desembarcar, mas Serenity se conteve com um exercício de respiração e contagem até dez, o que a fez se sentir como uma mulher neurótica na crise dos trinta. Quando Antony perguntou o que tinha, ela apenas balançou a cabeça, preferindo não dar voz à sua infeliz condição.
Seguiu impaciente e calada no restante do trajeto até seu apartamento – que de repente parecia longe demais – no vigésimo andar do Victorian Lux, um condomínio residencial exclusivo e luxuoso no Upper East Side de Manhattan. E o único lado positivo de tudo aquilo parecia ser a mudança de temperatura, que caiu. O inverno nova-iorquino agradava muito a mulher que crescera na pouca ensolarada Londres.
Estressada até o limite, deparou-se no elevador com a Sra. Ashworth, a síndica do prédio e a fofoqueira de plantão que todo bom condomínio de apartamentos deve, ou parece, ter. Nunca fingira simpatizar com a senhora de cabelos grisalhos e incontáveis plásticas no rosto – que tentava aparentar ter por volta dos sessenta quando, na verdade, estava na metade dos setenta; bem, as plásticas pararam de esconder a idade fazia muito tempo –, por isso, nem hesitara em lançar respostas atravessadas às perguntas enxeridas que lhe fazia.
E, mesmo sem ter dado nenhuma informação à senhora, sabia que ela ainda espalharia fofocas sobre sua chegada. Graças a ela, a reunião de moradores que acontecia mensalmente virava praticamente um debate especulativo a respeito da vida alheia; não demorou nem três encontros para Serenity classificar aquilo como inútil, o que não impedia os rumores de se espalharem por todo edifício e carinhosamente apelidá-la como “Boneca de Porcelana”. Não que ela apreciasse o nome, mas ele trazia certo alívio para o que vinha fazendo por tanto tempo: mantendo segredos bem guardados.
Com uma mochila nas costas e uma mala em mãos, esgueirou-se pela porta branca de madeira do 20A com o mínimo barulho possível por chegar durante o meio da madrugada.
Recebeu o aroma do apartamento como um tapa na cara. Quase três anos e ele ainda cheirava a imóvel novo saído da capa de uma revista, com seus sofás e poltronas de couro, iluminarias de luxo, piso lustroso e cortinas sedosas cobrindo as grandes janelas que davam vista para a capital cultural do mundo. Na verdade, o condomínio aparecera, sim, numa revista. Em diversas revistas. Diversas vezes. Cada vez que entrava se comprovava o fato de que não pertencia àquele lugar, porém, o desconforto já estava impregnado em seu corpo feito uma segunda pele.
Para sua surpresa, viu J deitado no sofá preto de couro em frente à grande televisão de tela plana da sala de estar, adormecido em pleno inverno, e a sensação de desconforto deu lugar a outro sentimento: inquietação. Era um estranho dormindo no seu sofá. Que estranhamente também era sofá dele. Colocando as coisas dessa maneira, Serenity se sentiu uma boba fazendo escolhas estúpidas três anos atrás. Não podia estar tão desesperada a ponto de aceitar dividir um apartamento com outra pessoa, poderia? Aparentemente sim.
De relance, enquanto rumava ao seu quarto, vislumbrou-o tremendo de frio e, de início, ignorou. Porém, à medida que desarrumava as malas e organizava as peças de roupas nas araras do closet, a consciência começou a pesar. Deixá-lo passar frio era muito errado, mas estava tão certa de que era insensível que foi pega desprevenida pela sensação de culpa que a atingiu. Num suspiro cansado, tirou do armário um cobertor.
A sala estava gelada, mesmo com as compridas janelas fechadas, e, pela fresta das cortinas cinzas, conseguia enxergar o brilho das luzes dos holofotes e dos outros prédios que iluminavam parcialmente o recinto. Após tantos anos convivendo com o ruído do movimento da “Cidade que Nunca Dorme” como trilha sonora, todo conjunto de iluminação e som tornou-se acolhedor até certo ponto. O bastante para que tivesse a certeza de que escolhera o lugar certo para morar, mas não o suficiente para fazê-la se sentir “em casa”.
Ao cobrir J com cuidado, sentiu a barba rala dele roçar as costas de sua mão e eriçar os pelos dos braços até a nuca, e viu-se reprimindo o que quer que tenha reverberado dentro dela, assim como a vontade que teve de passar as palmas das mãos no rosto dele e apreciar melhor a sensação, porque o que sentiu definitivamente não foi desejo.
Examinou sua face tranquila e admirou-se com os cílios longos do homem. Jamais havia lhe passado pela cabeça a ideia de que alguém poderia ser tão atraente enquanto dormia, até vê-lo com seus cachos amassados contra as almofadas, lábios finos entreabertos, nariz reto e queixo quadrado. Ele emitia um ronco baixo e, tinha que admitir, muito, muito charmoso.
Desvencilhou-se bruscamente das sensações que despertaram – observá-lo dormir era um inusitado momento de intimidade – e retornou apressada ao quarto com as mãos trêmulas do frio. Certo, se repetisse várias vezes, talvez acreditasse.
Caiu na cama e se perdeu no meio de edredons e almofadas enquanto tentava acalmar a respiração e os batimentos cardíacos, e uma camada de poeira se levantou, fazendo-a tossir. Tinha se esquecido de que o quarto ficara três meses sem ser limpo. Cuidaria daquilo no dia seguinte.
Seria tão fácil cair no sono naquele instante, mas a consciência a impedia novamente de fazer o que queria. Quando jovem, tinha que dividir o banheiro com mais quatro pessoas; ao finalmente ter o seu próprio, permitiu-se longos banhos de banheira e desde então segue a rotina religiosamente, e saía somente quando não havia mais espuma.
Enrolada num roupão grosso de algodão, saiu do banheiro no instante em que Bon Jovi declamava que “estará ao seu lado até as estrelas deixarem de brilhar, até os céus explodirem e as palavras não rimarem”.
- Sery, não acredito que me deixou esperando para escutar Bon Jovi outra vez. – Uma voz grave e familiar soou nos ouvidos da jovem, fazendo-a sorrir instantaneamente. – Até quando pretende deixar “Always” como toque da minha chamada?
- Ninguém mandou você cantá-la terrivelmente no meu aniversário de sete anos. Além do mais, quem disse que demorei em atender por causa da música? – Defendeu-se. – Poderia ser porque aqui são três horas da manhã enquanto aí são cinco da tarde.
- Maldito fuso horário – murmurou para si mesmo. – Sinto muito, Sery, eu realmente me esqueci. Não acredito que tenha atendido mesmo assim.
- Acabei de sair do banho – tentou tranquilizá-lo.
Não funcionou.
- Quem em sã consciência toma banho às três da madrugada? – indignou-se.
- Quem passa quase vinte horas dentro de um avião. O que o faz ligar pra mim depois de tanto tempo? Está no seu turno de me convencer a aparecer?
- Claro, porque se dependesse de você, não seria nunca. – Era pra ser uma brincadeira, mas havia mágoa nas palavras, e Serenity se sentiu a pior pessoa do mundo por a causa dela. Talvez fosse.
O vislumbre de lembranças do passado assombrou sua mente exausta, fazendo-a se sentar na cama antes que caísse no chão, pois suas pernas ficaram subitamente sem forças. Queria dizer “sim”. Queria poder dizer “sim”. Fazia tanto tempo que não conversava com os irmãos que sequer se lembrava de como era agir em família, por isso os tratava com a mesma distância com a qual tratava os outros. A única diferença era que eles – seus irmãos – eram sua maior fraqueza.
- Pouco provável que eu vá este ano também – conseguiu responder, apesar do nó que se formou em sua garganta.
- Está fugindo para não ter que nos receber em sua casa? – O sarcasmo aliviou parte da tensão.
- Também – confessou. – É... Complicado.
O suspiro pesado de Sterling, seu terceiro irmão mais velho, revelou o quanto desacreditava naquelas palavras. Nem ela mesma se convencera tanto quanto gostaria. Estava perdendo a manha. Ou simplesmente perdendo as forças.
- Qual é a desculpa da vez?
Ele sabia a resposta, mas mesmo assim ela disse:
- Trabalho.
- Você é tão parecida com o papai – declarou com bastante amargura.
Pronto, Sterling acabou de ultrapassar os limites. O tema “pai” entre os Gêmeos Whitwell era um assunto delicado, provavelmente mais ainda para Serenity. E a menção por parte de Ster a deixou furiosa.
- Você não imagina o quanto – murmurou. – Ster, eu realmente preciso de algumas horas de sono agora, porque foi impossível dormir no avião. Podemos conversar outra hora? Quem sabe numa mais adequada ao meu fuso horário.
Sterling tinha conhecimento de que ela tentava se esquivar da conversa, como sempre, mas deixou passar.
- Tudo bem, Sery, me desculpe novamente. Mas você não vai fugir dessa vez, nem que eu tenha que procurá-la por toda Nova Iorque e arrastá-la.
- Boa sorte com isso – respondeu seca.
Antes de apertar o botão vermelho, conseguiu escutar do outro lado da linha, em voz baixa, um suave “sinto sua falta”. Seu coração palpitou e fechou os olhos com força para se acalmar. Lidar com a família era uma tarefa difícil e cansativa. Sabia que não deveria ser, que deveria ser a coisa mais gratificante em sua vida, mas como, se escondia tantas coisas dela?
Abriu os olhos aos poucos e de pronto se arrependeu. Verificou as horas, gemeu e enfiou a cabeça contra o travesseiro. Como conseguiu acordar às sete e meia da manhã? Onde estava sua juventude, aquela que lhe dizia para dormir até três da tarde, se necessário? Há anos não dormia bem e a noite passada não fora diferente, acordara uma vez pelos mesmos pesadelos. Pensando melhor, dormir até sete e meia era uma conquista.
Foi até a cozinha preparar um café forte e acomodou-se no sofá, já vazio. No meio da madrugada J deve ter retornado ao quarto, deixando para trás resquícios do cheiro do perfume que ela antes sentira, para o seu desagrado. Não tinha nada contra a fragrância, o problema era que ela havia se misturado à essência natural única de J, e a combinação afetava sua sanidade. Por sorte, o sofá estava frio, como se nem tivesse sido usado.
Passou de programa a programa na televisão sem prestar atenção. Repassava em mente a ligação de seu irmão na madrugada, e a mágoa em sua voz ainda a incomodava profundamente. A ideia de vê-los a entusiasmava e apavorava ao mesmo tempo. A covardia era uma característica que Serenity detestava em si mesma, mas da qual não conseguia abrir mão nem que sua vida dependesse disso.
- Não vai se decidir? – Serenity se assustou ao escutar uma voz aveludada perguntar com um suave acento britânico. Há tempos havia perdido o sotaque e, ao escutá-lo novamente, e tão de perto, logo veio em mente o par de olhos azuis que a fitaram em acusação durante anos.
Seu coração acelerou em pânico involuntário. Sentiu um aperto amargo no peito.
A intenção de Serenity em ignorar o companheiro estava fadada ao fracasso.
- Fique à vontade – entregou-lhe o controle sem olhá-lo.
Um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente, até J tomar a iniciativa de quebrá-lo:
- Obrigado pelo cobertor – disse em tom casual, passando de canal em canal, como Serenity havia feito minutos atrás.
- Não precisa agradecer.
Descobriu que J não era um daqueles adultos caretas que assistem jornais – ou esportes – todas as vezes que se colocam na frente da televisão. De todos os programas e canais existentes, escolheu justo um que transmitia um seriado policial. Um que, por sinal, Serenity adorava.
- Seriado policial? – Ela ergueu uma sobrancelha, de repente curiosa.
- Aparentemente minha fraqueza – lamentou ele com um pesar fingido.
Um pequeno sorriso se insinuou num canto dos lábios de Serenity, no entanto, era praticamente imperceptível.
- Isso é inesperado, acho que temos algo em comum.
- A maioria tem dificuldade em acompanhar os rápidos diálogos por causa do sotaque britânico.
Serenity calculou suas palavras antes de dar uma resposta.
- É, digamos que seria bem mais fácil se ele não o tivesse – encerrou num tom sombrio.
J, ignorante dos diversos sentidos que aquela simples frase carregava, levantou-se e levou o copo de café até a cozinha, dando uma brecha para Serenity avaliar as calças pretas e a camiseta branca, ambas de algodão, que ele usara para dormir. Ainda que a camiseta estivesse folgada e amassada, não tinha como esconder os ombros largos e os braços torneados de quem vai à academia só pra manter a saúde. Ele era charmoso, algo que nem ela conseguiria negar. E, sim, muito saudável.
- Obrigado pelo café e pela...
- Pare de falar sobre isso – cortou-o rudemente. Agradecimentos não eram algo que recebia com frequência, porque quem os merece, fez algo bom, e quem faz coisas boas, atrai pessoas, e ela com certeza não queria atrair ninguém. – Pare de me agradecer. Apenas esqueça.
Ele suspirou impaciente e esfregou a mão na nuca, que, ela reparou, estava tensa e tinha uma amostra dos músculos que desciam até as costas. Talvez não chegasse a ser nenhum David Gandy, mas poderia muito bem ser um Nick Bateman. Serenity praguejou mentalmente, se repreendendo por estar usando os conhecimentos que sua irmã Dani praticamente enfiou em sua cabeça quando eram adolescentes. Na época, tinha absoluta certeza de que nada daquilo lhe serviria para a vida, mas no momento parecia estar fazendo muito bom uso de toda aquela conversa sobre os modelos masculinos da Calvin Klein ou de qualquer outra linha de roupas masculinas. Linha de roupas íntimas masculinas, especificamente.
- Ora, me perdoe se fui mal educado com meus agradecimentos, não sabia que isso a ofenderia tanto. Com licença, preciso me arrumar para ir trabalhar. – A última palavra foi dita com tanta lentidão e ênfase que Serenity poderia ter se deliciado na pronúncia, se não soubesse que ele a alfinetava com a insinuação de que ela não trabalhava, e se não houvesse aquela droga de sotaque britânico.
De manhã era mais intolerante que de costume e ela odiava conversar. Por que fazê-la se sentir tão culpada por isso? Prometera a si mesma tentar manter certa “paz” e “harmonia” com seu colega de apartamento e controlar sua personalidade um pouco... Difícil, mas ele tinha que abordá-la justamente naquela hora do dia? Tudo bem, viajava bastante, mas não queria ser expulsa do apartamento.
Pela primeira vez em anos estava disposta a aceitar um copo de whisky ou, quem sabe, um brandy. E ainda nem eram nove da manhã.
A personalidade madura de J fora um dos fatores que incentivaram Serenity a aceitar morar com ele. Externamente, suas maneiras de pensar e agir eram tão semelhantes que formavam os companheiros perfeitos, mas ninguém era capaz de lidar com Serenity, nem ela mesma, às vezes.
Após J sair com sua mala de trabalho em mãos e Serenity fingir não dar a mínima importância, recostou-se no sofá, intrigada. Que “raios” de profissão ele exercia?, queria saber. Na noite anterior era pouco evidente, contudo, quando passou por ela, soube que o perfume dele não era uma simples colônia, mas um Acqua Di Giò. E, Deus, ele vestia mesmo um Zegna? O que leva alguém a usar um terno desses àquela hora da manhã?
Seus dedos formigaram, ansiosos para tocar no peito do homem e descobrir se era mesmo digno de um dos suspiros que Dani tanto dava. De acordo com ela, somente o tato era capaz de julgar se alguém tinha o corpo perfeito para uma exposição nas revistas de moda. Serenity sempre desconfiara que a irmã só quisesse mesmo sentir o peitoral deles sob as mãos, mas lá estava ela agora, querendo provar se as teorias eram corretas.
Jamais passou pela cabeça que J fosse algum trabalhador comum, afinal, moram no Victorian Lux, mas não esperava tanta ostentação – ou será que sempre fora assim e só agora percebeu? Sentiu-se uma desleixada com sua calça moletom e camiseta lisa branca de mangas longas, não que quisesse ficar apresentável para ele, apenas odiou a sensação de desconforto que sentiu com suas roupas confortáveis.
O que queria com todas aquelas dúvidas, afinal? Até noite passada, sequer tinha reparado no homem! Então, por que de repente se tornou tão consciente de sua presença? Porque ele certamente tinha muita presença, ao menos para ela.
“Alguns dizem que eles são mágicos, capazes de unirem aqueles destinados um ao outro”, a voz do vendedor indiano ecoou em lembranças. Serenity balançou a cabeça, afastando as ideias. Era bobagem, uma grande bobagem. Uma bobagem que certamente sabia mexer com o inconsciente das pessoas. Nunca fora uma pessoa curiosa a respeito da vida alheia, e não queria começar a ser, principalmente com J.
Abriu os e-mails em seu celular para distrair os pensamentos e leu o último enviado por Antony, poucos minutos atrás. Enfiar a cara no trabalho era a melhor tática para afasta qualquer outra coisa que se escondia nos recônditos de sua mente. Nem quando trabalhara com Johnny Depp agira de maneira tão boba, e ele era seu ator favorito!
“Sei que retornara de viagem há algumas horas, no entanto, estão preparando um evento onde requisitam sua aparição, no fim do ano. Se lesse as cartas e os e-mails, saberia o quanto isso seria vantajoso. Por favor, pense a respeito.”
“Direto e reto”, Serenity pensou. Antony com certeza não tinha medo de se impor quando era por meio de mensagens. Talvez porque assim não desse pra ver – ou sentir – o olhar gelado e duro de sua empregadora. Ou escutar as palavras rudes que Serenity não conseguia parar de pronunciar.
A vida a tornara cautelosa e recusava-se se expor publicamente, porque desencadearia um processo de “investigações” por parte dos jornalistas sobre seu passado e sua vida pessoal. O que menos precisava era de alguém xeretando os incidentes que desestruturaram sua família e sua vida, e sabia bem como os paparazzi eram bons em fuxicar a vida alheia e descobrir coisas que nem as próprias celebridades se lembram de terem feito.
“Envie-me todas as cartas pelo correio”, enviou de volta para Antony e deixou de lado o aparelho.
Disposta a deixar a questão “Jayden” mofando num canto abandonado da mente, pegou uma série de produtos de limpeza, um conjunto de panos, uma vassoura e um aspirador. Se não limpasse cada grama de poeira existente no quarto, Serenity sabia que não conseguiria fazer mais nada, porque o peso da sujeira se sobreporia a qualquer outra coisa. Ela tinha quase um T.O.C. por limpeza, e seus irmãos a provocaram muito por causa disso quando mais novos.
É como dizem: “velhos hábitos nunca morrem”.
Poucos minutos após guardar todo material de limpeza e lavar os panos sujos, Serenity encontrou J na bancada da cozinha comendo um donut coberto com muito açúcar e recheado com bastante chocolate. O rosto dele, todo lambuzado, a fez lembrar uma criança, o que era muito cômico, visto que ele ainda trajava aquele terno ridiculamente caro e elegante.
Quase sentiu uma risada borbulhar na boca do estômago. Quase. Há muito não tinha essa sensação, por isso lhe era incomum; seu organismo reagiu como se um ser estranho tivesse invadido seu corpo e este estava tentando combatê-lo. No entanto, não conseguiu evitar que um sorriso brincasse em seus lábios enquanto o avaliava de cima a baixo.
- O que está fazendo? – Formulou uma pergunta retórica, sem nenhum pingo de acusação por ele estar comendo seus donuts. Soou até um pouco rude, infelizmente nada poderia fazer quanto a isso.
- Sinto muito – ele prontificou-se assim que a viu, profundamente envergonhado. – Estava morrendo de fome e não consegui evitar.
Com um movimento de mão em desdém, respondeu:
- Não importa. – Avaliou o cansaço de seu corpo e as bolsas ao redor dos olhos negros e profundos, suplicando por algumas horas de sono, conhecia bem os sinais, via-os todos os dias quando se olhava no espelho. – Você precisava deles mais que eu. E parece que os apreciou mais do que eu jamais seria capaz.
Pequenas manchas rosadas pintaram as maçãs do rosto de J. Aquele homem malditamente lindo estava corando! E, como se fosse possível, ele ficava cada vez mais atraente. Maldição.
- Obrigado, eles estavam realmente bons – contou depois de chupar os dedos, tão lambuzados quanto o redor da boca.
- Parece que eu jamais saberei, não é mesmo? – Serenity não perdeu a oportunidade de agir um pouco como uma vadia, atuação que aprendera ao longo dos anos.
J fez uma expressão horrorizada de culpa, o que deixou ela mesma com um pouco de culpa.
Por que tudo o que ela fazia rebatia e a atingia de volta?
- Realmente, me perdoe, eu compro outros pra você.
- Esqueça. – Ela achava impossível ficar brava com um homem lindo que tinha o rosto cheio de chocolate e sequer notava isso. – Se preocupe mais em limpar a boca, ficou um pouquinho de chocolate no canto.
Quando J verificou com as mãos o canto errado dos lábios, Serenity instintivamente pegou um guardanapo e ela mesma o limpou. Alguns segundos se passaram até ela erguer os olhos, perceber o quão próximo seus rostos se encontravam e, então, subitamente, recuar.
- Antes de ir, limpe toda essa sujeira.
Retornou ao quarto, passou a tranca na porta e respirou fundo.
Todas as horas que ele ficou trabalhando só acarretaram numa crescente ansiedade dentro dela. Estava enlouquecendo! E cedo demais, por sinal. Como se focar num mistério fictício quando havia um enorme do outro lado do apartamento, implorando para ser revelado?
Vê-lo causou-lhe um impacto inédito, para o qual não estava preparada. Sua camisa branca continha alguns botões desfeitos, revelando um bronzeado recatado – coberto pela quantidade certa de pelos – que imediatamente a deixou seu ar. Os cabelos da cor do mais puro carvalho apresentavam-se em uma perfeita bagunça, e conseguiu imaginar o homem passando as mãos neles incontáveis vezes, num gesto que considerava ridiculamente sedutor.
Sempre fora tão bonito?
Para completar todo conjunto atordoante, tinha mesmo que tocar no sujeito? Se soubesse que ondas elétricas de vários volts fossem penetrar pelos dedos e percorrer todo canto de seu corpo, talvez tivesse pensado duas vezes antes de ser tão imprudente.
Foi ao banheiro, se preparar para deitar. Estava pensando demais. Sempre pensava demais, o que costumava considerar uma qualidade, mas entendeu ser um grande problema. Porém, deitada em sua cama king size, tinha a cabeça repleta de J a impedindo de dormir ainda que estivesse com as pálpebras pesadas em demasia.
Maldição. O que, diabos, acontecia com ela? Por que agora?
Virou-se para seu criado-mudo, fitando o pequeno objeto que trouxera da Índia.
- Você é o causador de tudo isso? – Acusou. – Isso é loucura. – Concluiu, por fim, cedendo ao sono, que seria breve.
O pequeno objeto, então, pareceu brilhar, o que Serenity já acreditava ser fruto de sua imaginação ou dos sonhos que se apoderavam de seu inconsciente.
El ciclo Irreversión surge del trabajo conjunto de dos amigos músicos:Victor Rosales y Fran Malbrán. De su admiración por un sinfin de bandas y artistas y su contínua búsqueda de nuevos sonidos, surge la idea de hacer coexistir de alguna manera esa heterogeneidad musical en una obra completa.
"Irreversión" es el nombre de esa obra. Un ciclo de versiones multimediales que absorberá, mascullará, deformará y reformará de manera irrestricta, irreverente e irreversible (entre otros "irres") composiciones de orígenes, estilos y mensajes diferentes, no para homogenizarlas, sino para ponerlas cara a cara y esperar que se guiñen un ojo.
Era ainda nove da noite, mas a casa dos Rabinovich já retumbava com a música alta. Pernas e corpos se entredançavam conforme a batida eletrônica invadia os jovens tímpanos dos presentes. O anfitrião, Davi, andarilhava todo prosa por lá e acolá com petiscos, bebidas e o que mais fosse que os adolescentes ali quisessem. A garagem era grande e os carros que ali viviam não lá estavam, tal como os pais do rapaz, que trabalhavam em todo o país. O judeu incorpora o típico garoto da elite paulistana: rico, sem apreensões, inconsequente. Há algumas latinhas de cerveja, a preocupação com as posses ainda se fazia presente, mas agora tudo vibrava em ondas alucinadas.
O ambiente parecia ficar mais escuro e mais intenso a cada tute da trilha da festa. Os pés já não mais se concerniam com o ritmo, queriam só se mover, só jogar energia fora. O cheiro nicotizado de marijuana era bem-vindo em quase todas as narinas e o álcool era saboreado de boca em boca por quem quer que desejasse. Os dançantes dali eram todos adolescentes, eram todos menores de idade, todos irregulares. No meio da improvisada pista, um emaranhado de braços e bocas femininas aprisionava o rapaz atlético que se atrapalhava nos beijos e não mais sabia se os recebia ou se os dava. Num canto menos barulhento, dois rapazes se abraçavam carinhosamente e se deixavam levar pelo afago um do outro. Um loiro se sentava por demais largado em um espaço qualquer exalando muita fumaça enquanto conversava com interlocutores invisíveis. A morena que não bebe e nem fuma observava tudo muito atenta e seus olhos varriam cada centímetro do lugar como que a procura de alguém, ao identificar um moço com cara de tédio que tinha uma garota qualquer pendurada em seu pescoço, andou até ele e fez sua voz ser ouvida mesmo com todo aquele barulho.
– Paulo, cadê a Marcelina? – Alícia indagara. – Já procurei muito, mas não acho ela.
– Ela não quis vir. – Respondeu Paulo quase que insolente sem nem desviar o olhar.
– E ela ficou sozinha?
– Quando eu saí a empregada ainda estava lá. – O rapaz finalmente olhou para Alícia. Desvencilhou-se da menina que se agarrava a ele e tirou dum bolso da calça um molho de chaves. – Vai lá. Talvez ela goste de te ver. – E atirou as chaves para a morena, que as apanhou no ar e se virou nos calcanhares para sair, mas não sem antes um gesto de desaprovação.
Carregando uma garrafa de vodca em uma mão e Maria Joaquina na outra, Cirilo apareceu todo sorrisos e gracejos. Agora os Cuecas Sobreviventes estavam todos ali. A namorada do moreno, como de costume, pisava em ovos ao andar e olhava os desconhecidos de esguelha e com os lábios tão retorcidos que ela mais parecia sentir dor a repulsa.
– E ai, Davi! – Cumprimentou o amigo com o ritmado clape-clape de sempre.
– Wow! Vodca de verdade! – Disse o judeu apreciando a bebida engarrafada. – O Paulo trouxe uma merdinha brasileira qualquer que não derruba ninguém. – Riu do próprio comentário. – Mas pelo menos a coisa boa toda é ele que fornece.
– Cadê a Valéria, Davi? – Maria Joaquina perguntou varrendo o local com o olhar a procura da amiga. – Vocês estão sempre tão grudados.
– Como se você largasse o Cirilo, né Chatonilda. Tá agarrada no braço dele como se fosse um macaco. – Davi respondeu despretensiosamente. – E a Val tá lá na varanda do meu quarto. Ela falou alguma coisa sobre a música tá muito alta, sei lá. Eu acho que fiz alguma coisa, mas não faço ideia do quê.
– Lilo, vou lá ver o que é que ela tem. Se a Carmem resolver vir, diz pra ela ir pra lá também, tá. – Maria Joaquina avisou ao namorado e se despediu com um beijo.
– Chega ai, bro! – Davi chamou o amigo e o guiou até um canto onde havia uma caixa com bebidas e gelo. – Tem uma caipirinha aqui que nem parece ser industrial. Deliciosa demais, meu.
– Aquele ali no meio daquelas meninas é o Jaime? – Perguntou Cirilo a Davi apontando para o embolado de corpos no meio da pista.
– E quem mais seria? – Essa foi a resposta. – Tó. Experimenta ai.
Quase instantaneamente, Jaime se aproximou. Sozinho. Bochechas, lábios, queixo e testa manchados de diversas cores. Respiração ainda ofegante e sorriso satisfeito. A gola da camisa polo estava desmazelada e os botões já não mais entrariam em suas casas. Os braços arranhados e o pescoço era uma confusão de chupões que brigavam por espaço tais quais as garotas que os fizeram. Davi e Cirilo o encararam com típicos olhares que significavam algo entre a surpresa e a banalidade, já que Jaime era sempre o centro das atenções femininas nas house parties. Reunidos, os Cuecas Sobreviventes clapearam todos juntos a saudação do clube.
– Um pouco de diversão nunca matou ninguém. O Jaime leva isso muito ao pé da letra, né não? – Comentou o anfitrião com Cirilo, que sorriu abertamente depois de bebericar sua caipirinha.
– Cala a boca e passa a cerveja. – Pediu Jaime. – Não sei por que merda o Davi gosta tanto de Brahma. Essa cerveja é ruim pra cacete. Daqui a pouco vai querer beber cerveja sem álcool. – Falou o rapaz depois de dar uns goles.
– Não é uma má ideia. – Sugeriu Cirilo.
– Boa ideia? Tá de zoa, né? Mano, cerveja sem álcool é a mesma coisa que trepada sem gozada! – Jaime reclamou antes de beber mais de sua bebida.
– E tu já trepou sem gozar? – Caçoou Davi.
– Pra lá! Aqui é Jaime Palillo, mano. Não tem essa, não. Comigo é satisfação garantida.
– Claro! – Troçou, dessa vez, Cirilo.
– Qual foi, Cirilo? – Jaime sorriu de braços abertos para o amigo. – Eu acho que você já tá nessa de Maria Chatonilda há tanto tempo que tá ficando muito acomodado. Tudo tá bom, tudo de boa.
– Esse daqui já nasceu com essa fixação de Maria Joaquina. Vai morrer com ela. – O amigo judeu debochou antes de virar uma garrafa da tal caipirinha.
– Sério, brother? Porque que eu saiba, você tá com a Valéria há um tampão também. E desde que eu te conheço você é afim dela. E vocês namoram desde a Mundial. Eu e a Maria começamos bem depois.
– Qual é? A Val... – Davi foi interrompido por uma garota ruiva qualquer que lhe avisou que um “carinha aleatório” estaria vomitando na cozinha. O judeu correu com a tal menina até o cômodo, mas ninguém estava vomitando em nada. – Qual é a tua... – Interrompido mais uma vez pela mesma garota, agora sem o vestido vermelho que usava. O sutiã preto com enchimento ornava bem com a calcinha branca de bolinhas escuras. No rosto dela, um sorrisinho provocante dançava bonito. Em passos lentos ela se aproximou e encostou corpo em corpo. Uma das mãos dela guiou uma das dele até uma de suas nádegas parcialmente expostas. A outra mão, levada toda, se colocou estrategicamente sobre a virilha do moço. Safada, ela assoprou uma brisa no pescoço de Davi, que se arrepiou e deixou escapar um leve som que estava escalado entre um fôlego e um gemido. Os dedos dele na bunda dela se fecharam um pouco, assim como a mão da adolescente ao perceber o que aquele crescimento queria dizer.
Uma mordidela na orelha e um beijo no pescoço depois, Davi se desvencilhou da ruiva, apanhou o vestido e entregou a ela. Confuso, alto pelo álcool e excitado, o menino quase se deixara levar pelo desejo. Pediu para que ela saísse da sala e se desculpou enquanto ela colocava o vestido no corpo novamente. Já na porta, Davi a chamou.
– Cara, tu sabe que eu tenho namorada. Qual é a tua? Tá querendo me foder?
– Era pra ser o contrário, mas acho que você é idiota demais pra isso. – A ruiva debochou descaradamente do anfitrião.
– Tu fumou o quê, cara? – Davi estava completamente vermelho. – Quer saber, vaza da minha festa. Vaza logo, vadia! E sai pela porta de trás. – Saiu da cozinha depois de encarar a garota com olhos furiosos. Do lado de fora, encarou a porta e a socou. “Que merda foi essa?” Mas virou-se de supetão quando ouviu uma voz familiar lhe chamar.
– Davi? O que houve? – Perguntou Valéria ao ver o namorado socando a porta sem motivo aparente. O rubor e a expressão não ajudaram o garoto. – Quê que você tava fazendo ai? Porque você tá assim todo estranho?
– Eu? Nada não. – A voz saiu trêmula demais. – Era só uma garota que queria vomitar na cozinha. Mas eu mandei ela pra fora. – Desculpa pífia. Agora estava completamente denunciado. – Por que não vem dançar comigo? O Paulo trouxe umas paradas bem maneiras. – Desconversou.
– Não sei por que motivo, mas não tá colando essa sua conversa. – Disse a loira enquanto ambos se encaminhavam de volta à garagem, onde a festa acontecia.
– Relaxa, Val. – Os braços se apertaram em volta da cintura de Valéria. – Quando foi que eu menti pra você?
Ela se contentou e apenas sorriu. Na pista, abraçados, eles dançavam animados quando a tal garota ruiva se dirigiu até eles e perguntou ao garoto se a bunda dela era macia o suficiente para o gosto dele. A expressão que repentinamente tomou conta do rosto de Valéria já contava o que iria acontecer.
Llevaban alrededor de tres horas ahí, un pequeño chico de rizos color chocolate y ojos esmeralda brillosos lloraba y lloraba, sin detenerse, mientras, su mejor amigo, Louis Tomlinson, aquel chico de piel tostada, ojos azules y con un toque de gris; con cabello castaño oscuro, acariciaba la espalda del pequeño de dieciséis años, quién maldecía cada cinco minutos.
–Eso Hazz, suéltalo todo, eso ayuda. –Río Louis, recibiendo un codazo por parte del menor.
–Hablo en serio, tonto.
–Yo también, peque.
–Louis, tienes dieciocho, no te creas tan grandesito.
–¿Qué? Oh, lo siento, no pude oírte ya que estaba pensando que mañana empiezo la Universidad y estoy en un parque abandonado consolando al llorón de mi mejor amigo.
–Lo siento. –
El Tomlinson sonrío y se acercó más a Harry, abrazándolo por el cuello, atrayéndolo a su cuerpo. El pequeño Styles lo abrazo, dejando que tu cabellera fuera el reposo de la barbilla de Louis, mientras las lágrimas seguían saliendo de sus hermosos esmeralda, seguro al día siguiente no podría abrir los ojos de lo inflamados que estaban.
–Está bien Hazz, sólo recuerda que yo siempre estaré aquí para ti, así tenga mañana que ver a la Reina Isabel, siempre para mi pequeño gatito.
–¡No me llames así!
–Gatito, gatito, gatito, gatito. –Louis río.
Harry sólo lo veía con un infantil puchero en los labios, normalmente él no se comportaba así, sólo con sus amigos de toda la vida, Niall, Liam y Zayn, claro, además de su mejor amigo desde siempre, Louis Tomlinson.
La forma como ambos se conocieron fue la más común de todas, vecino nuevo, no tenía amigos y el Tomlinson estaba junto a los otros tres mencionados, lo siguiente que pasó fue que juntos los cuatro, se acercaron a Harry y lo hicieron parte de su “círculo”. Cosa que no fue difícil, tenían mucho en común, y la química que existía entre Louis y el chico nuevo era completamente increíble. De hecho, ni con Zayn, Liam y Niall se llevaba tan bien.
Pero pasaron los años, y tanto Zayn como Louis terminaron al año siguiente de la entrada de Harry, mientras que Louis se preocupó en postular para una Universidad, Zayn puso la excusa de que esperaría un poco a Liam para ingresar juntos en la Universidad de Artes, aunque Liam cogería la rama de Fotografía y Zayn prefería lo que era las Artes Plásticas. Niall y Harry eran un año menores que Liam y dos menores que Louis y Zayn. Así que en ese momento, Liam estaba en su último año y los más pequeños en su penúltimo.
Ese día, todo había ocurrido gracias a una discusión que tuvo Harry con sus primos, como siempre, desde que se mudaron a su casa todos sus parientes porque en su ciudad natal, se les quemó su hogar gracias a un accidente en la cocina; Harry no estaba contento. Anne, la madre de este, estaba emocionada de compartir casa con sus parientes a quienes veía con suerte una o dos veces al año, pero para el pequeño Styles, no era tan fácil. A él no le gustaban sus primos, algunos eran toscos, lo golpeaban con solo hablarle, otros demasiado egoístas y gruñones, además de que no faltaba el típico primo que se metía en su vida hasta más no poder.
Harry descubrió al idiota de Tom revisando su celular y lo mandó a la mierda, quitándoselo, para su mala suerte, pasaba su tía por el pasillo y al instante se sobresaltó por la forma como el chico de rizos llamó a su hijo. Luego vino la discusión entre Anne y su hermana y después su propia madre diciéndole a Harry que se disculpe con Tom por ser tan maleducado. Ahí fue cuando no aguantó más y se salió corriendo de la casa.
Louis aún recordaba esa llamada a su celular: “–¿Aló? –¿Louis? Habla la mamá de Harry ¿Mi hijo está contigo? –No señora, no ha venido ¿Sucede algo? –Es que se fue corriendo de la casa y ya va a anochecer, estoy preocupada. –No se preocupe, por favor, yo lo buscaré y me encargo de llevarlo a su casa. –Por favor cariño, te lo encargo. –Sí, no hay problema.” Sonrío para sus adentros en lo que Harry continuaba insultando a cada uno de sus parientes jóvenes.
–¿Acabaste, gruñón?
–No me llames gruñón, tú estarías igual o peor que yo.
–No, yo los mato. –
Harry soltó una pequeña risa y Louis aprovechó ese detalle para lanzarse sobre su amigo, empezando a hacerle cosquillas por las costillas, suavemente. Harry, quién no lo vio venir, ahora solo se retorcía entre carcajadas bajo el tacto del mayor, mientras sus ojos se llenaban de lágrimas de nuevo, pero ahora a causa de que casi no podía respirar y su estómago le dolía.
–¡Ya! ¡Ya! ¡Me rindo!
–Di que soy sexy, Harold.
–Eres sexy, Lewis.
Louis se detuvo y entonces se levantó, ayudándole a Harry a pararse, este lo miró con el ceño fruncido y le dio un leve empujón, segundos después Louis ya lo estaba abrazando por el cuello, caminando de regreso a la casa del más pequeño. Los dos jóvenes se movían de lado a lado, parecían borrachos, pero es que siempre que se abrazaban por el cuello, se les hacía tan complicado caminar, Harry era más bajo que Louis, y sus pasos eran más cortos, mientras el Tomlinson daba pasos seguros y firmes, Hazz parecía estar a punto de caer, como un bebé ciervo recién levantándose cuando apenas acaba de nacer.
–¡Camina bonito! –Río Louis y Harry lo miró mal.
–Eso hago ¿Cómo se camina feo?
–Como tú caminas.
–Cállate.
Se rieron suavemente y continuaron caminando, ninguno decía nada, no hacía falta, ahora ambos miraban hacía el suelo para ver la diferencia entre el caminar de uno y del otro. Y sí, Louis tenía razón, caminaban completamente diferente, más sin embargo, era gracioso, así que no cambiarían, eran unos amigos tan disparejos que se llevaban perfecto, ya saben, como dos partes de un rompecabezas, no necesariamente es igual, pero encaja de la mejor manera.
–Louis…
–¿Qué pasa, Hazz?
–Mañana empiezas la Universidad –Harry suspiró. –Vendrás a verme después para contarme todo ¿Verdad?
–Claro ¿Por qué lo preguntas?
–Bueno, es que, ya sabes, todos dicen que cuando uno va a la Universidad, todo cambia, nuevos amigos, menos tiempo y tarde o temprano te olvidas de los amigos de la secundaria, con nosotros no pasará eso ¿Cierto? Porque no me gustará la idea de perderte, tú entiendes.
Harry parecía un trabalenguas hablando, sin embargo, Louis comprendió cada detalle de lo que dijo, y esto causó que una pequeña sonrisa se formara en su rostro, atrayendo más a Harry hacía él.
–Si me olvido de ti, golpéame ¿Te parece?
–Eso no tienes ni qué dudarlo. –Río el más pequeño.
–Wow, no sabía que estabas tan desesperado por golpearme. –Entonces Hazz se encogió de hombros, provocando un puchero en Louis. –A lo que me refiero, Harry, es que es imposible que me olvide de mi mejor amigo, prometértelo ahora es muy tonto, porque no sé ni siquiera si mañana seguiremos vivos, pero si sucede, sé que te demostraré que siempre serás lo más importante para mí, ¿Entiendes, Styles?
Harry sintió sus mejillas arder, pero negó con la cabeza, no podía mostrarse avergonzado, ni mucho menos comentarle a Louis como su corazón empezó a saltar en su pecho, como si se fuera a salir y decirle esas palabras que el Styles tanto se esforzaba por guardar en lo más profundo de su ser.
–Gracias, Lou. –Murmuró.
–No tienes que agradecer, aún no te demuestro nada.
–Bueno, pero igual… Gracias.
–De acuerdo, raro. Gracias a ti.
–¿Por qué?
–Por estar conmigo, Hazz, y por sobre todo, por mostrarme tu lugar secreto para pensar.
–Eso es porque eres tú, Louis, no tengo secretos contigo.
Pero, si había uno, uno que jamás le diría, nunca.