Era sempre daquela mesma maneira que as festas mais divertidas acabavam: com Valéria ou Maria Joaquina dando ataques de ciúmes em proporções estelares ou com Paulo ou Adriano caindo pelos cantos bêbados, drogados ou ambos. De maneira ou de outra, era sempre Jaime quem dava um jeito de intervir, fosse para segurar as amigas e afastá-las de quem quer que fosse o alvo de suas selvagerias ou para erguer os amigos do chão e carrega-los até um local mais seguro. Era sempre o prestativo Jaime ajudando os amigos em suas enrascadas e confusões, por isso era ele quem continuamente deveria estar menos desligado e geralmente presente.
Jaime crescera com aqueles mesmos amigos e por eles nutre um amor imenso, por isso o fato de sucessivamente precisar estar por perto não o incomoda. O coração do rapaz é abundantemente grande e bondoso e pelos companheiros faz o que for necessário. O que não o impede de aproveitar a juventude como só ele gosta. Palillo é um rapaz que sofreu enormes mudanças no decorrer de sua infância e adolescência. Quando menor, era o balofo da turma, o burro e o que não suportava estar na companhia de garotas por muito tempo. Atualmente é o mais atlético, deveras inteligente e garotas eram parte importante de sua vida.
Na house party de Davi, depois que a Valéria armou toda a confusão, Jaime ficara no quarto onde Mário estava, afinal aquele era seu melhor amigo no mundo todo. No momento em que a garota o acertou e ele caiu inconsciente, o rapaz Palillo, além de Daniel, foi, sem segundos pensamentos ou hesitação, em auxílio dele e depois a segurar a amiga enfurecida e a seguir a carregar o desfalecido até a cama em que ele estava atualmente.
– Hey, bro, tá tudo certo? Ainda tá vendo as coisas em dobro? – Jaime se aproximou de Mário para checar se o amigo estava bem depois do que pareceram horas, afinal Carmem já havia saído atrás de Adriano há bastante tempo.
– Tá tudo bem. Só uma dorzinha chata na cabeça, mas acho que vai passar assim que eu dormir um pouco. – Mário, aproveitando-se que os outros amigos estavam distraídos, sussurrou um pedido para o outro. – Faz um favor? A Valéria tá começando a me chatear com tantos pedidos de desculpa. Eu já desculpei, mas ela não acredita e... Enfim, eu quero ficar um pouco sozinho com o Dani e não quero ser o motivo do fim da festa, então leva geral lá pra baixo, por favor.
– Pode deixar. – Respondeu Jaime com um sorrisinho de canto. – Aê, pessoal, acho que o Mário tá querendo dormir um pouco e tem uma puta festa lá embaixo, então vamos geral pra lá! O Daniel é mais que suficiente pra cuidar dele. – E assim ele foi gentilmente empurrando um por um pra fora do quarto. Antes de fechar a porta atrás de si, deu uma piscadela fraternal para Mário e foi-se.
As pessoas lá embaixo estavam completamente envolvidas nas batidas das canções ali tocadas e no que quer que eles estivessem misturando com as bebidas. Era como se toda aquela confusão não tivesse acontecido ou como se as memórias de curto prazo deles estivessem seriamente em perigo devido à falta de vontade de se importar ou por culpa das substâncias que eles estavam pondo para dentro do corpo. Os pés se mexiam num ritmo frenético e os indivíduos se balançavam aparentemente felizes. Jaime se deixou levar rapidamente pelo ambiente e em pouco tempo já estava dançando com duas garotas em algum tipo de sanduíche adolescente bailante. Em instantes, latas de cerveja e vodca foram consumidas pelo rapaz que já agarrava habilidosamente as duas garotas com ambas as mãos segurando nádegas.
Por ali, Maria Joaquina e Cirilo acharam melhor se sentar um pufe qualquer para aproveitarem a companhia um do outro. Entretanto eles mais pareciam uma massa fundida tal qual era o nível de proximidade do casal. Beijos quentes e mãos em locais indevidos não estavam ausentes e, se não fosse pela música em volume alto, todos ali conseguiriam ouvir os sons prazerosos que Maria deixava escapar. Valéria e Davi dançavam como se nada tivesse acontecido, como se nenhuma tensão entre eles houvesse ocorrido há pouco tempo. Paulo, como de costume, se pôs em um dos cantos com uma garota qualquer e lá ficou a dedilhar o entrepernas dela enquanto perdia o fôlego em beijos demorados.
O típico círculo de espectadores que acontece em festas quando alguém está sendo um espetáculo particular se formou para Jaime e as meninas, que além de dançar agora se beijavam e lambiam eroticamente em frente a todos que desejassem assistir. A camisa do jovem Palillo já não mais estava à vista de ninguém e uma das suas parceiras entrelaçou a perna estrategicamente no quadril do garoto para facilitar a bailado voluptuoso do trio.
Toda a cena parou quando os três resolveram terminar aquilo em algum lugar mais privado. No caminho, Jaime avistou a figura de Jorge adentrar o local da festa. Indicando o local para as meninas, ele as mandou ir na frente e se dirigiu até o rapaz com uma expressão tão sorridente que nem parecia que ele estava indo falar com o riquinho que eles tanto evitavam.
– Jorge, mano! Não achei que você fosse aparecer aqui. Veio fazer o quê?
– Isso aqui é uma festa, não? O que você acha que eu vim fazer? – Respondeu o outro sem nem encarar seu interlocutor. Ele procurava o rosto de Mário ou algum mais interessante.
– Hey, não precisa ser grosso! Só quis dar as boas vindas, já que eu tenho certeza que ninguém mais faria isso. – Jaime falou sem nem tirar o sorriso do rosto.
– Whatever, Jaime... – As palavras desapareceram momentaneamente quando Jorge ergueu o olhar e viu o torso atlético de Jaime ali exposto regado com um belo e sincero sorriso. – ... Uhm... Você... Uh... – Depois de alguns milésimos de balbucios incompreensíveis e olhares quase devoradores direcionados ao garoto a sua frente, Jorge finalmente falou algo que fazia sentido. Pena que não foi exatamente o que ele queria. – Porque diabos você está sem camisa?
– Ah, isso? – Palillo riu e passou a mão sensualmente pelo tórax desnudo propositalmente para provocar o já instável menino com quem conversava. – Eu estou indo pro quarto do Davi com umas companhias fazer umas coisas bem safadas. Quer se juntar a nós?
Jorge, em segundos, imaginou como seria fazer tais safadezas com Jaime, mas quase que imediatamente pôs uma expressão ultrajada em seu rosto. – Claro que não! Imagina se eu me faria esse tipo de coisa com você! Eca! – Ele pôs o máximo de desprezo que conseguiu nessas palavras para disfarçar o fato de que ele realmente considerou a possibilidade. – Enfim, sai da minha frente que eu tenho coisas melhores para fazer.
Jaime riu quando o outro saiu andando a passos curtos na direção da maior aglomeração da festa. – Um dia, Jorginho, um dia eu te dou um trato. – E mudando o sorriso de feliz para safado, ele foi até onde as garotas estavam à espera dele.
Uma. Duas. Três. Sete. Dez. Uma dúzia de mensagens fizeram o celular da garota vibrar ruidosamente sobre a mesa de madeira desgastada. A cada vez que o enfadonho barulho chamava sua atenção, Carmem se enfurecia. Não precisava ler para saber qual o conteúdo das mensagens, porque os amigos estavam a incomodando desde as duas da tarde. “Carmem, não esqueça a festa do Davi.” “Não vai furar de novo, Cá!” E não eram apenas mensagens de texto, só da Maria Joaquina já haviam sido oito chamadas. Mais duas da Valéria e uma surpreendente do Jaime.
Para Carmem, a expressão vida fácil não tinha muito sentido. Desde que se recordava, sua família tinha dificuldades para fechar o orçamento no fim do mês e por diversas vezes uma ou outra conta ficava sem ser quitada. E ela cresceu assim. A família sempre viveu de maneira simplória e Carmem sempre foi a mais simples das garotas. E a mais fofa, a mais amada e a mais esforçada. Até porque nada para ela vinha fácil, tudo era suado, tudo era difícil, tudo necessitava um esforço que seria demais para qualquer uma de suas amigas mais financeiramente saudáveis, mas não para ela que já estava habituada demais à situação financeira em que vivia com seus pais e seu irmão. E o mais interessante é que nenhuma das dificuldades ou lutas ou pormenores de sua vida dividida entre escola, curso e trabalho, o sorriso no rosto da garota era imutavelmente gracioso.
“Nada de festa até eu terminar esse projeto.” Mentalizava a menina que lia e escrevia freneticamente. Além de tudo, Carmem é aplicada. Não é inteligente como Daniel nem rica como os outros e, para manter a bolsa de estudos, precisa que suas notas estejam sempre altas. Por isso estava ignorando a festa e seus amigos, mesmo que quisesse estar lá com eles. A técnica estava funcionando bem até que seu celular vibrou mais uma vez por volta das onze e meia da noite. Em primeiro impulso ela ignorou novamente, porém ao ver qual número a incomodava dessa vez ela avançou tão rápido para apanhar o aparelho que quase o derrubou.
– Alô. Paulo? – Ela tentou não demonstrar em sua voz o que sentia.
– Carmem. Onde você está?
– Em casa terminando o projeto de Biologia. Por quê? – Indagou. O misto de certa dúvida e empolgação começando a crescer nela.
– Certo, certo. Quer que eu vá te buscar? – Se ofereceu Paulo do outro lado da linha.
– Hmm... – A garota ponderou por alguns instantes. O projeto era importante demais para ser abandonado. Todavia a suposta seriedade monótona na voz do outro lado a fazia querer jogar tudo para o alto e ir com para onde quer que ele a levasse. – Se não for incomodar...
– Não vai. – Ele a interrompeu. – Espera só um pouco que estou chegando.
– Paulo, não... – Ela foi interrompida mais uma vez quando o rapaz encerrou a chamada. Sem muitas alternativas, ela tomou um banho muito rápido e pôs um vestido, arrumou o cabelo em um perfeito rabo de cavalo, colocou as lentes de contato, deu uma desculpa qualquer para sua mãe que ainda achava que sua garota estava acima de qualquer suspeita e entrou no táxi com Paulo assim que o rapaz chegou para apanhá-la.
– Então... – O rapaz se aproximou dela. A mão esquerda pousou discretamente na perna da garota. Paulo cheirou-a no pescoço e mordeu-a no lóbulo da orelha. A menina suspirou de leve e entrou em estado de quase êxtase por alguns instantes. Apesar de ser uma garota forte, aquela era uma das poucas fraquezas de Carmem: Paulo. O calor do corpo dele, cada toque, cada palavra a deixava inebriada e ela embarcava fácil em qualquer viagem abstrata que ele a guiasse. A mão boba do garoto perambulou pela perna dela enquanto sua boca já beijava a de Carmem, que retribuía quase que toda submissa.
– Paulo, espera... – Depois de uma intensa batalha intensa, a vontade da razão conseguiu subjugar os anseios do corpo e a jovem afastou o menino de si enfim. – Eu não quero começar tudo de novo... – Ela foi interrompida novamente, dessa vez por um simples dedo nos lábios.
– Começar o que? Carmem, eu gosto muito de você. – Ele retirou o dedo dos lábios dela assim que percebeu que ela o ouviria. – Eu sei que eu errei feio várias vezes, mas eu me arrependi. – A expressão no rosto dela não demonstrava nenhum sinal de que ela acreditava nas palavras dele. – Acredita em mim, Carmem, por favor, acredita. Eu me arrependi de verdade. É sério.
– Você se arrepende muito desde que a gente era criança, Paulo, e, sinceramente, nunca vi mudança real. – Ela disse sem encarar o garoto, que já preparava a carinha de coitado que tanto a desarmava.
Quando ela achou que ele iria iniciar mais de seus discursos sem fundamento nenhum e repletos de promessas vazias, ele a surpreendeu agarrando-a pela cintura e a puxando para mais perto, colando seus corpos e seus lábios e num beijo quase lascivo. Por mais que a razão gritasse que aquilo não era uma boa ideia e não seria nem em um milhão de anos, seu corpo a traiu e lá estava Carmem mais uma vez nos braços de Paulo correspondendo o beijo no mesmo calor. A mão boba dele entrou em ação mais uma vez passeando livre pela perna dela a partir do joelho parando por preciosos segundos para apertar a parte interna da coxa. Exatamente onde o calor era maior e a umidade também foi que a mão se deteve. O indicador e o médio se contentaram em dedilhar a área mais sensível entre as pernas da garota sobre o tecido macio de sua roupa de baixo. Carmem não mais conseguia conter seu corpo e sua respiração estava descompassada e ruidosa. Ela se amaldiçoava em pensamentos por estar mais uma vez se deixando entregar ao que parecia ser o mais prazeroso dos erros enquanto a outra mão de Paulo já se ocupava sem cerimônias de um dos seios dela.
– Se os dois não quiserem ficar por aqui mesmo, é melhor parar com isso no meu táxi. – Foi apenas com a ríspida voz do taxista que Carmem conseguiu despertar do transe em que se encontrava para afastar Paulo de si. A respiração ainda estava descompassada e a garota arfava como se ali o ar fosse difícil. Ainda bastante embaraçada, ela se desculpou com o homem que dirigia e deu umas tapinhas no braço do garoto ao seu lado ao perceber seu sorrisinho satisfeito.
– Eu não sei por que você insiste tanto. – Ela repreendeu o jovem com uma cara que mesclava vergonha e raiva.
– Porque você gosta. – Ele respondeu ainda sorrindo. – E nem adianta negar.
– Cala a boca, Paulo.
O resto do caminho foi todo com ela encarando a paisagem do lado de fora da janela e dando as costas ao garoto enquanto ele tecia comentários e listava as qualidades que faziam dele um namorado perfeito. Ela fingia ignorar, porém organizava o que ela concordava e o que discordava da lista dele em sua cabeça. E antes que ele a convencesse a se deixar levar novamente, o carro parou à porta da casa de Davi, onde um pequeno tumulto estava formado. Ao perguntarem a uma garota ruiva que estava por ali arrumando os cabelos, a resposta não pareceu chocar nenhum dos dois.
– A louca da Valéria... – E tudo pareceu se explicar automaticamente na cabeça dos dois, que interromperam a garota ao sair em busca da amiga. Eles bem sabiam que Valéria enfurecida era igual a problemas king size.
Na grande garagem da residência dos Rabinovich, área principal da festa, apenas Adriano e Davi se mostravam como rostos mais amigos. Adriano viajava tão alto que seus olhos já estavam a ficar esbranquiçados, portanto de nada adiantava interroga-lo, então Davi se fez a escolha mais obviamente sensata. Sem necessidade de uma interpelação, o judeu começou a contar o acontecido assim que os dois se aproximaram dele.
. . .
Parcialmente deitado na cama de Davi, Mário ainda estava levemente atordoado quando Paulo e Carmem entraram. Valéria estava sentada à beira da cama murmurando desculpas e perdões aos amigos. Cirilo e Maria Joaquina estavam lá também batendo papo com Jaime, que estava completamente desgrenhado. Antes de ir até o amigo na cama, Carmem se dirigiu até Maria e a abraçou em cumprimento. Um sorriso amigável foi direcionado a Cirilo.
– Antes tarde do que never, Cá! – Joaquina disse descontraidamente.
– A culpa por eu estar é do Paulo, que foi me buscar em casa. – Carmem respondeu já virando sua atenção para Jaime. – E você, Jaime? Estava na confusão também?
– Tecnicamente. Quem mais aqui consegue segurar a Valéria quando ela entra em modo Hulk?
– O que aconteceu exatamente? O Davi me contou lá embaixo, mas algo me diz que ele está omitindo muitos fatos importantes. – Carmem lançou a pergunta para qualquer um dos três que quisesse responder.
Maria Joaquina fez um resumo do que de fato acontecera sem parar para respirar em nenhum momento. Ao final, Paulo se encontrava atrás de Carmem com um dos braços em volta de sua cintura. A garota percebeu os olhares confusos dos três amigos quando ela não se desvencilhou do rapaz.
– Paulo, chega né. – Disse ela ao se separar dele para ir checar como Mário estava. Felizmente ele já estava melhor, apenas a cabeça doía onde Valéria o acertara.
A noite parecia estar caminhando para a normalidade ao passo que a festa voltara a acontecer, os convidados a enlouquecer na música, no álcool e no que mais que os deixasse em estado de êxtase festivo. Isso até um dos primos do Davi adentrar o quarto para falar que um garoto loiro que parecia estar muito alterado estava passando mal num dos banheiros da casa. Todos ali trocaram olhares. Todos ali tiveram o mesmo pensamento: Adriano. Mas apenas uma pessoa dali saiu em ajuda dele. Paulo não ficou nem um pouco feliz quando Carmem deixou o aposento em direção ao local onde Adriano estava.
...
No banheiro, Adriano estava debruçado sobre o vaso sanitário vomitando. Carmem rapidamente se pôs ao lado dele. Era óbvio que ele não estava em seu estado normal. Se bem que “estar em seu estado normal”, no caso do garoto, era algo um tanto quanto inusitado. A mistura de maconha e álcool não era muito boa. Adriano estava sempre com um cigarrinho de marijuana e mais da erva em um pacotinho em algum de seus bolsos. Ele frequentemente está alto pela maconha e quando não está, é visivelmente sequelado. Todavia, ele conseguira chegar ao coração de Carmem de alguma forma que nem ela entendia. E a ciência de que ele era muito apaixonado por ela era algo que a garota tinha. Mas ela sempre tivera medo de não conseguir corresponder tais sentimentos a altura e acabar por machucar o rapaz.
– Drico, você tá muito mal? – Ela perguntou em um volume de voz baixo quando já estava bem próxima dele.
– Carmem? – Ele ergueu a cabeça para olhar para ela. – O que você está fazendo aqui? – A expressão de doente no rosto dele se fundiu com um profundo embaraço. Carmem era a última pessoa no mundo que ele queria que o visse naquele estado. A pele branca do rapaz empalidecida pelo mal estar ruborizou rapidamente. – Não... Eu... Você... Não... Sai... – As palavras se embaralhavam completamente e se perdiam no trajeto cérebro-boca, o que resultava nuns vocábulos soltos que não faziam o menor sentido. Ele, depois de uns instantes e mais alguns jatos expelidos, se levantou, lavou o rosto, se apoiou em uma parede e se dirigiu a Carmem. – Desculpa, Cá. Não era pra você me ver nesse estado. – A tontura não o deixou caminhar direito quando tentou ir em direção à saída.
– Para, Drico. Deixa eu te ajudar. – Disse ela se colocando sob um dos braços dele para auxilia-lo em seu caminhar. Após algumas recusas, ele finalmente permitiu e ambos caminharam até um dos quartos indicados por Davi. Ela o ajudou a deitar e sentou na cama bem perto dele. Os orbes do rapaz eram os mais bonitos que Carmem já vira e o olhar o mais puro e sincero.
– Você já pode ir. – Disse Adriano um tanto quanto sério, que, depois de um tempo e vários copos d’água, já estava voltando à sobriedade. – Não precisa ficar aqui tomando conta de mim. Vai lá curtir a festa com o Paulo.
– Não seja bobo. Por que eu não ficaria aqui? Você não está bem e eu não vou te deixar sozinho.
O rapaz desviou o olhar e uma lágrima escorreu solitária por sua face. O desconforto por Carmem estar ali naquele momento era enorme e a garota percebeu. Entretanto ela não é o tipo de pessoa que abandona os que gosta, mesmo contra a vontade deles. Ela estendeu a mão até o rosto dele e o acariciou. – Você não precisa se envergonhar, Drico. Por quantas coisas a gente já passou? A gente já se conhece há tanto tempo que nem faz sentido você ter vergonha de mim. – O sorriso dela era tão confortante que ele se envergonhou por estar envergonhado. Ele quis se desculpar mais uma vez, mas ela o impediu. – Não precisa se desculpar, querido.
– Fica aqui comigo, então. – Ele pediu.
– Eu já estou aqui. – Ela respondeu com o mesmo sorriso aconchegante.
– Não... Eu quero dizer... Aqui. – Ele indicou o lugar ao lado dele na cama.
Ela não conseguiu esconder a surpresa pelo modo repentino como o pedido surgiu. Estranhamente, ela queria abraçar Adriano e ficar ali até que tudo se ajeitasse, até que ela conseguisse organizar tudo que sentia, pois confusão era a palavra mais adequada para descrever como ela estava em relação a seus sentimentos. Ela sentia uma poderosa atração por Paulo e nutria intensos sentimentos por Adriano e qualquer que fosse a maneira que olhasse essa situação, ela sempre via alguém saindo ferido. Eram poucas as vezes que ela deliberadamente deixava de ouvir sua razão e seguia seu coração e aquela foi uma dessas vezes. Sua cabeça dizia para resistir e apenas ficar ali como uma amiga a apoiar um amigo, mas seu coração pedia pelo loiro que ali a encarava com um olhar acolhedor.
Com um sorriso, ela deitou-se ao lado de Adriano, a cabeça sobre o peito do rapaz e os braços em volta dele calorosamente. Ele, por sua vez, abraçou Carmem com carinho. E eles conversaram sobre tudo que era agradável para se falar naquele momento e riram de leve e trocaram carícias e se aninharam ainda mais um no outro. E se deixaram ali, como se nada mais fosse tão importante, como se aquele momento e aquela pessoa fossem os únicos em todo o mundo. E eles cultivaram sentimentos.
– Ei, Carmem, sabe de uma coisa? – Adriano perguntou despretensiosamente.
– O que? – Carmem indagou ainda deitada na mesma posição e com o mesmo sorriso satisfeito.
Era ainda fim de tarde quando Marcelina resolveu que voltar a seu quarto era o melhor a fazer. Quarto esse que se tornara sua fortaleza. Um cômodo aconchegante na grande casa dos Guerra. À porta branca, externamente, uma plaqueta segurada por adornos florais mostrando o nome da possuinte do local em tipografia cursiva adoravelmente esculpida em madeira e pintada em um tom claro de cor-de-rosa. O interior era adornado com duas poltronas brancas, uma espaçosa cama muito macia com lençóis azulados, uma estante, uma bancada com livros, um laptop e mais outras coisas de pouca relevância. Tudo sobre um carpete bastante felpudo que fazia massagem aos pés que ali andavam sem calçados. O enorme espaço na parede com muitas fotos de jovens sorridentes estava intocado há alguns meses, sem adição ou subtração de imagens.
Ali, Marcelina estava sempre sozinha e sozinha ela se sentia protegida. Dali só para a escola e alguns raros passeios com os amigos. Pouco comia e muito chorava. As covinhas que sempre se mostravam em suas bochechas quando um sorriso se brincava em seus lábios já eram raros turistas. Os ossos pareciam querer mostrar-se mais do que deveriam, o que conferia à garota um aspecto cadavérico que aumentava a cada dia. A pele perdera a cor e Marcelina a vontade de viver.
Há quase um ano ela morria aos pedacinhos. Há quase um ano seu primeiro amor partira. Kokimoto era o melhor amigo de Paulo desde muito crianças. Marcelina cresceu na presença do pequeno japonês. A amizade cúmplice desenvolveu uma semente que se mostrou ser amor no primeiro beijo. Marcelina era cada dia mais uma adolescente apaixonada com corações flutuantes rodeando sua cabeça e borboletas batendo as asas em seu estômago. Kokimoto correspondia cada ato de afeto à altura. Apesar de jovens, planos foram traçados por eles e até pelos pais. A união das famílias parecia algo aprazível demais. A menina amava seu pequeno samurai e ele a sua gatinha. Todavia, contos de fadas não existem e humanos têm tanto amores quanto vícios. E os de Koki eram muitos. Numa noite, uma mistura qualquer foi demais para o garoto e na manhã seguinte ele jazia morto em seu quarto ao som de Midnight Train to Georgia.
O colchão macio a afagou num abraço calmante e ela desejou dormir, mas a vida parecia não querer lhe conceder pedidos e a garota foi obrigada a fitar o teto enquanto lágrimas escorriam incessantes de seus olhos que apreciavam imagens distantes, de um passado que sabia o que significava um sorriso. Não precisou de muitos minutos para apelar para as pílulas que repousavam em suas embalagens no criado-mudo à esquerda de sua cama. Com a eficácia que só a química farmacêutica pode proporcionar, quinze exatos minutos depois, Marcelina adormeceu pesadamente. As imagens que ela viu enquanto dormia poderiam ter sido facilmente confundidas com sonhos felizes, reapresentações subconscientes de alegrias pretéritas, porém, para a menina, eram os mais dolorosos pesadelos, as lembranças que mais machucavam. E ela certamente recordaria de cada uma delas quando despertasse.
. . .
Depois de algumas tentativas sem sucesso no interfone, Alícia concluiu que Marcelina estaria sozinha em casa. Com a mente já trabalhando em hipóteses horríveis, ela usou a chave que Paulo lhe dera para entrar na residência dos Guerra. O hall de entrada estava escuro, assim como a sala de estar e ninguém respondeu quando a morena chamou alto. Com as teorias em sua cabeça ficando mais horrendas, ela subiu pelo caminho já bastante conhecido até o quarto de Marcelina. Tropeçou uma vez e xingou feio. “Por que essa casa tem de ser tão grande?” Toda a preocupação se esvaiu à certeza de que a amiga estava bem e apenas dormia. “Como um anjinho.” Alícia sentou-se na cama e acariciou o rosto pálido de Marcelina.
– Tão frágil. – Ela afastou uma mecha de cabelo da face da amiga. – E tão meiga. – As mãos de Alícia agora afagavam uma das de Marcelina.
Enquanto divagava em lembranças de quando eram crianças, de quando o sorriso da amiga era sempre bonito e constante e alegre e cheio de vida, ela percorreu com o indicador uma cicatriz que se apresentava hedionda num dos pulsos da outra.
– Como nós deixamos chegar a esse ponto? – O criado-mudo com inúmeras caixinhas de comprimidos fez Alícia sentir-se um pouco mais culpada. – Se eu tivesse te dado mais atenção... Se eu tivesse mais com você... As coisas poderiam ter ido por um caminho totalmente diferente, não? – Sentada no chão e se apoiando na cama, ela encostou a cabeça na de Marcelina. – Mas talvez não seja tarde demais. Eu tô aqui e vou estar sempre. – Como se a outra estivesse ouvindo e a encarando, Alícia disse aquelas palavras como uma promessa. E postou um beijo carinhoso nos lábios adormecidos para selá-la.
Devagar, ela pôs a cabeça de Marcelina a repousar em suas pernas e pôs a passar os dedos nas madeixas da que dormia, afagando-as. Cantarolou várias músicas enquanto devaneava, ignorou algumas várias chamadas telefônicas e acabou adormecendo ali mesmo.
A house party do Davi, como todas as outras, estava bastante animada. Porém, como em todas as outras festas, Mário estava cansado demais para aproveitar. A música era boa, a comida e a bebida também, todavia o rapaz não sentia vontade de levantar, pegar um copo ou ir dançar no meio da galera. Sua presença ali era mera consequência de boa educação e falta de vontade de se indispor com os amigos. Da última vez que não foi a uma das festas dos colegas de vida, ouvira reclamações por uma semana inteira. As batidas das canções se remexiam em seu corpo, mas não conseguiam fazer com que ele se movesse em seus ritmos. Às vezes, alguns de seus amigos passavam pelo canto onde ele estava e ele afanava suas bebidas, afinal ele não queria ficar seco e o álcool sempre ajudava. Ele devaneava em mil e uma coisas quando foi trazido de volta por um leve puxão em seu braço.
Desde que chegara ali, Mário estava sentado naquele mesmo canto com a mesma pessoa. Não queria muito mais quando estava com Daniel. Há sete anos eles se conheciam e há sete anos Mário ama Daniel. Há três eles namoravam. Mário estava sentado em um pufe azul confortável enquanto Daniel se sentava ao chão e se colocava entre as pernas do namorado, de costas, sendo afagado. Os cabelos de Daniel têm cheiro de coco e Mário sempre achou aquilo encantador. Desde o terceiro ano, na Escola Mundial. O odor da fruta sempre lhe remetia ao sorriso do namorado. Mas o que não o lembrava? Aos olhos do namorado, Daniel tem a pele mais macia, o sorriso mais bonito, o abraço mais gostoso, os beijos mais saborosos, o corpo mais perfeito e é a companhia ideal.
Entretanto, diferente do companheiro, Mário é um rapaz de vida dura. Todas as conquistas eram muito mais difíceis, as batalhas eram constantes. A família Ayala tinha de fechar as contas no fim do mês, acertar dívidas, pagar parcelas, comprar provisões e mais e mais. Quanto mais o tempo passava, mais difícil ficava. O pai, Germano, já quase não era visto. Natália tinha de ficar em casa para cuidar de Diana e do velho Rabito e mesmo assim fazia costuras e bordados e crochês e tricôs. Mário cuidava de animais para completar a renda e estudava. O pouco tempo livre destinava aos amigos e, principalmente, a Daniel.
– Ei, Mário, o que houve? Cê tá com olhar tão distante? – Perguntara o namorado.
– Não é nada. Só tava aqui pensando.
– Em quê, posso saber? – Indagou mais uma vez Daniel enquanto se levantava e sentava no colo do amado.
– Em como eu adoro o cheiro do seu cabelo.
– O cheiro do meu cabelo? – Daniel sorrira o mais singelo dos sorrisos. E Mário adora ver Daniel sorrir.
– É. E de como seu sorriso é bonito. E de como eu te amo. – Caricias no rosto foram procedidas por um beijo. Molhado e demorado. Os sinos, as borboletas, o mundo giratório, tudo estava ali. Sempre estava quando se beijavam. Ambas as línguas não tinham pressa, eram há muito pacientes, já haviam explorado tudo que tinha a ser explorado, agora era só aproveitar. Pararam quando já não mais havia ar. Arfavam e encaravam-se olho a olho, sorriso a sorriso.
– Fala aí, casal meloso da escola! – Jaime aproximara-se jocoso como de costume. Cirilo o acompanhava. Para Mário era estranho não ver Maria Joaquina pendurada no namorado em um evento social.
– Jaime. Cirilo. – Daniel cumprimentou-os ainda sorrindo e ainda agarrado ao pescoço do parceiro.
– Pra vocês. – Cirilo atirara uma garrafinha de caipirinha para cada um.
– Valeu! – Mário abriu a sua e sussurrou um “não vai exagerar” no ouvido de Daniel antes de tomar um bom gole de sua bebida. – Cadê a Maria Joaquina, Cirilo? Ela tá sempre com você. Achei que ela pudesse distrair o Dani pra’gente dar uma azarada por ai. – Brincou. O namorado apenas fez um gesto negativo e o completou com um beijo.
– Sei lá. Ela foi atrás da Valéria.
– Por isso sou solteiro. – Caçoou Jaime. – Vocês todos parecem que são casados. Olha pra vocês! Não saíram desse canto desde que chegaram! Todo mundo que vê o Cirilão sozinho pergunta logo pela Maria Chatonilda e o Davi já tá ali com a Valéria na pista.
Segundos após, Maria Joaquina se apega ao braço de Cirilo novamente. Mário nota a pequena aglomeração e chama a atenção de todos. Ao se aproximarem, Valéria e Davi discutiam enquanto uma garota ruiva ria da situação. Quando Davi foi empurrado com força pela namorada em fúria, instintivamente, Mário foi na direção da garota para segurá-la, afinal aquela era a Valéria e pela expressão de raiva em sua face já muito avermelhada uma grande confusão estava para acontecer.
– Eu vou acabar com a raça dessa vaca! – A garota gritava. – Me solta! Me solta! – Ela gritava para Mário que segurava um de seus braços enquanto os outros amigos se dividiam entre acalmar a adolescente e tirar a outra menina dali. – Volta aqui, vadia do caralho! Deixa eu quebrar essa tua cara! – O furor da amiga fazia com que Mário não conseguisse mais mantê-la. Mas ele tentou até que não mais que de repente Valéria virou-se rapidamente com algo em sua mão livre e acertou o amigo com força na lateral da cabeça. Foi a voz de Daniel gritando seu nome que Mário ouviu por último antes de cair sem consciência.
Era ainda nove da noite, mas a casa dos Rabinovich já retumbava com a música alta. Pernas e corpos se entredançavam conforme a batida eletrônica invadia os jovens tímpanos dos presentes. O anfitrião, Davi, andarilhava todo prosa por lá e acolá com petiscos, bebidas e o que mais fosse que os adolescentes ali quisessem. A garagem era grande e os carros que ali viviam não lá estavam, tal como os pais do rapaz, que trabalhavam em todo o país. O judeu incorpora o típico garoto da elite paulistana: rico, sem apreensões, inconsequente. Há algumas latinhas de cerveja, a preocupação com as posses ainda se fazia presente, mas agora tudo vibrava em ondas alucinadas.
O ambiente parecia ficar mais escuro e mais intenso a cada tute da trilha da festa. Os pés já não mais se concerniam com o ritmo, queriam só se mover, só jogar energia fora. O cheiro nicotizado de marijuana era bem-vindo em quase todas as narinas e o álcool era saboreado de boca em boca por quem quer que desejasse. Os dançantes dali eram todos adolescentes, eram todos menores de idade, todos irregulares. No meio da improvisada pista, um emaranhado de braços e bocas femininas aprisionava o rapaz atlético que se atrapalhava nos beijos e não mais sabia se os recebia ou se os dava. Num canto menos barulhento, dois rapazes se abraçavam carinhosamente e se deixavam levar pelo afago um do outro. Um loiro se sentava por demais largado em um espaço qualquer exalando muita fumaça enquanto conversava com interlocutores invisíveis. A morena que não bebe e nem fuma observava tudo muito atenta e seus olhos varriam cada centímetro do lugar como que a procura de alguém, ao identificar um moço com cara de tédio que tinha uma garota qualquer pendurada em seu pescoço, andou até ele e fez sua voz ser ouvida mesmo com todo aquele barulho.
– Paulo, cadê a Marcelina? – Alícia indagara. – Já procurei muito, mas não acho ela.
– Ela não quis vir. – Respondeu Paulo quase que insolente sem nem desviar o olhar.
– E ela ficou sozinha?
– Quando eu saí a empregada ainda estava lá. – O rapaz finalmente olhou para Alícia. Desvencilhou-se da menina que se agarrava a ele e tirou dum bolso da calça um molho de chaves. – Vai lá. Talvez ela goste de te ver. – E atirou as chaves para a morena, que as apanhou no ar e se virou nos calcanhares para sair, mas não sem antes um gesto de desaprovação.
Carregando uma garrafa de vodca em uma mão e Maria Joaquina na outra, Cirilo apareceu todo sorrisos e gracejos. Agora os Cuecas Sobreviventes estavam todos ali. A namorada do moreno, como de costume, pisava em ovos ao andar e olhava os desconhecidos de esguelha e com os lábios tão retorcidos que ela mais parecia sentir dor a repulsa.
– E ai, Davi! – Cumprimentou o amigo com o ritmado clape-clape de sempre.
– Wow! Vodca de verdade! – Disse o judeu apreciando a bebida engarrafada. – O Paulo trouxe uma merdinha brasileira qualquer que não derruba ninguém. – Riu do próprio comentário. – Mas pelo menos a coisa boa toda é ele que fornece.
– Cadê a Valéria, Davi? – Maria Joaquina perguntou varrendo o local com o olhar a procura da amiga. – Vocês estão sempre tão grudados.
– Como se você largasse o Cirilo, né Chatonilda. Tá agarrada no braço dele como se fosse um macaco. – Davi respondeu despretensiosamente. – E a Val tá lá na varanda do meu quarto. Ela falou alguma coisa sobre a música tá muito alta, sei lá. Eu acho que fiz alguma coisa, mas não faço ideia do quê.
– Lilo, vou lá ver o que é que ela tem. Se a Carmem resolver vir, diz pra ela ir pra lá também, tá. – Maria Joaquina avisou ao namorado e se despediu com um beijo.
– Chega ai, bro! – Davi chamou o amigo e o guiou até um canto onde havia uma caixa com bebidas e gelo. – Tem uma caipirinha aqui que nem parece ser industrial. Deliciosa demais, meu.
– Aquele ali no meio daquelas meninas é o Jaime? – Perguntou Cirilo a Davi apontando para o embolado de corpos no meio da pista.
– E quem mais seria? – Essa foi a resposta. – Tó. Experimenta ai.
Quase instantaneamente, Jaime se aproximou. Sozinho. Bochechas, lábios, queixo e testa manchados de diversas cores. Respiração ainda ofegante e sorriso satisfeito. A gola da camisa polo estava desmazelada e os botões já não mais entrariam em suas casas. Os braços arranhados e o pescoço era uma confusão de chupões que brigavam por espaço tais quais as garotas que os fizeram. Davi e Cirilo o encararam com típicos olhares que significavam algo entre a surpresa e a banalidade, já que Jaime era sempre o centro das atenções femininas nas house parties. Reunidos, os Cuecas Sobreviventes clapearam todos juntos a saudação do clube.
– Um pouco de diversão nunca matou ninguém. O Jaime leva isso muito ao pé da letra, né não? – Comentou o anfitrião com Cirilo, que sorriu abertamente depois de bebericar sua caipirinha.
– Cala a boca e passa a cerveja. – Pediu Jaime. – Não sei por que merda o Davi gosta tanto de Brahma. Essa cerveja é ruim pra cacete. Daqui a pouco vai querer beber cerveja sem álcool. – Falou o rapaz depois de dar uns goles.
– Não é uma má ideia. – Sugeriu Cirilo.
– Boa ideia? Tá de zoa, né? Mano, cerveja sem álcool é a mesma coisa que trepada sem gozada! – Jaime reclamou antes de beber mais de sua bebida.
– E tu já trepou sem gozar? – Caçoou Davi.
– Pra lá! Aqui é Jaime Palillo, mano. Não tem essa, não. Comigo é satisfação garantida.
– Claro! – Troçou, dessa vez, Cirilo.
– Qual foi, Cirilo? – Jaime sorriu de braços abertos para o amigo. – Eu acho que você já tá nessa de Maria Chatonilda há tanto tempo que tá ficando muito acomodado. Tudo tá bom, tudo de boa.
– Esse daqui já nasceu com essa fixação de Maria Joaquina. Vai morrer com ela. – O amigo judeu debochou antes de virar uma garrafa da tal caipirinha.
– Sério, brother? Porque que eu saiba, você tá com a Valéria há um tampão também. E desde que eu te conheço você é afim dela. E vocês namoram desde a Mundial. Eu e a Maria começamos bem depois.
– Qual é? A Val... – Davi foi interrompido por uma garota ruiva qualquer que lhe avisou que um “carinha aleatório” estaria vomitando na cozinha. O judeu correu com a tal menina até o cômodo, mas ninguém estava vomitando em nada. – Qual é a tua... – Interrompido mais uma vez pela mesma garota, agora sem o vestido vermelho que usava. O sutiã preto com enchimento ornava bem com a calcinha branca de bolinhas escuras. No rosto dela, um sorrisinho provocante dançava bonito. Em passos lentos ela se aproximou e encostou corpo em corpo. Uma das mãos dela guiou uma das dele até uma de suas nádegas parcialmente expostas. A outra mão, levada toda, se colocou estrategicamente sobre a virilha do moço. Safada, ela assoprou uma brisa no pescoço de Davi, que se arrepiou e deixou escapar um leve som que estava escalado entre um fôlego e um gemido. Os dedos dele na bunda dela se fecharam um pouco, assim como a mão da adolescente ao perceber o que aquele crescimento queria dizer.
Uma mordidela na orelha e um beijo no pescoço depois, Davi se desvencilhou da ruiva, apanhou o vestido e entregou a ela. Confuso, alto pelo álcool e excitado, o menino quase se deixara levar pelo desejo. Pediu para que ela saísse da sala e se desculpou enquanto ela colocava o vestido no corpo novamente. Já na porta, Davi a chamou.
– Cara, tu sabe que eu tenho namorada. Qual é a tua? Tá querendo me foder?
– Era pra ser o contrário, mas acho que você é idiota demais pra isso. – A ruiva debochou descaradamente do anfitrião.
– Tu fumou o quê, cara? – Davi estava completamente vermelho. – Quer saber, vaza da minha festa. Vaza logo, vadia! E sai pela porta de trás. – Saiu da cozinha depois de encarar a garota com olhos furiosos. Do lado de fora, encarou a porta e a socou. “Que merda foi essa?” Mas virou-se de supetão quando ouviu uma voz familiar lhe chamar.
– Davi? O que houve? – Perguntou Valéria ao ver o namorado socando a porta sem motivo aparente. O rubor e a expressão não ajudaram o garoto. – Quê que você tava fazendo ai? Porque você tá assim todo estranho?
– Eu? Nada não. – A voz saiu trêmula demais. – Era só uma garota que queria vomitar na cozinha. Mas eu mandei ela pra fora. – Desculpa pífia. Agora estava completamente denunciado. – Por que não vem dançar comigo? O Paulo trouxe umas paradas bem maneiras. – Desconversou.
– Não sei por que motivo, mas não tá colando essa sua conversa. – Disse a loira enquanto ambos se encaminhavam de volta à garagem, onde a festa acontecia.
– Relaxa, Val. – Os braços se apertaram em volta da cintura de Valéria. – Quando foi que eu menti pra você?
Ela se contentou e apenas sorriu. Na pista, abraçados, eles dançavam animados quando a tal garota ruiva se dirigiu até eles e perguntou ao garoto se a bunda dela era macia o suficiente para o gosto dele. A expressão que repentinamente tomou conta do rosto de Valéria já contava o que iria acontecer.