Las rocas más chicas que escupió la roca más grande se movían en la penumbra. Y se quejaban.
―Pero qué porrazo ―decía una, con la voz de un hombre.
―Todavía me está tocando, ¡quítese! ―decía la otra, con voz de mujer.
Ahí se me ocurrió sacar el celular del bolsillo de la parka y prender la linterna. No faltaba tanto para el amanecer, pero como el cielo estaba amurrado y llorando a mares, igual…
A house party do Davi, como todas as outras, estava bastante animada. Porém, como em todas as outras festas, Mário estava cansado demais para aproveitar. A música era boa, a comida e a bebida também, todavia o rapaz não sentia vontade de levantar, pegar um copo ou ir dançar no meio da galera. Sua presença ali era mera consequência de boa educação e falta de vontade de se indispor com os amigos. Da última vez que não foi a uma das festas dos colegas de vida, ouvira reclamações por uma semana inteira. As batidas das canções se remexiam em seu corpo, mas não conseguiam fazer com que ele se movesse em seus ritmos. Às vezes, alguns de seus amigos passavam pelo canto onde ele estava e ele afanava suas bebidas, afinal ele não queria ficar seco e o álcool sempre ajudava. Ele devaneava em mil e uma coisas quando foi trazido de volta por um leve puxão em seu braço.
Desde que chegara ali, Mário estava sentado naquele mesmo canto com a mesma pessoa. Não queria muito mais quando estava com Daniel. Há sete anos eles se conheciam e há sete anos Mário ama Daniel. Há três eles namoravam. Mário estava sentado em um pufe azul confortável enquanto Daniel se sentava ao chão e se colocava entre as pernas do namorado, de costas, sendo afagado. Os cabelos de Daniel têm cheiro de coco e Mário sempre achou aquilo encantador. Desde o terceiro ano, na Escola Mundial. O odor da fruta sempre lhe remetia ao sorriso do namorado. Mas o que não o lembrava? Aos olhos do namorado, Daniel tem a pele mais macia, o sorriso mais bonito, o abraço mais gostoso, os beijos mais saborosos, o corpo mais perfeito e é a companhia ideal.
Entretanto, diferente do companheiro, Mário é um rapaz de vida dura. Todas as conquistas eram muito mais difíceis, as batalhas eram constantes. A família Ayala tinha de fechar as contas no fim do mês, acertar dívidas, pagar parcelas, comprar provisões e mais e mais. Quanto mais o tempo passava, mais difícil ficava. O pai, Germano, já quase não era visto. Natália tinha de ficar em casa para cuidar de Diana e do velho Rabito e mesmo assim fazia costuras e bordados e crochês e tricôs. Mário cuidava de animais para completar a renda e estudava. O pouco tempo livre destinava aos amigos e, principalmente, a Daniel.
– Ei, Mário, o que houve? Cê tá com olhar tão distante? – Perguntara o namorado.
– Não é nada. Só tava aqui pensando.
– Em quê, posso saber? – Indagou mais uma vez Daniel enquanto se levantava e sentava no colo do amado.
– Em como eu adoro o cheiro do seu cabelo.
– O cheiro do meu cabelo? – Daniel sorrira o mais singelo dos sorrisos. E Mário adora ver Daniel sorrir.
– É. E de como seu sorriso é bonito. E de como eu te amo. – Caricias no rosto foram procedidas por um beijo. Molhado e demorado. Os sinos, as borboletas, o mundo giratório, tudo estava ali. Sempre estava quando se beijavam. Ambas as línguas não tinham pressa, eram há muito pacientes, já haviam explorado tudo que tinha a ser explorado, agora era só aproveitar. Pararam quando já não mais havia ar. Arfavam e encaravam-se olho a olho, sorriso a sorriso.
– Fala aí, casal meloso da escola! – Jaime aproximara-se jocoso como de costume. Cirilo o acompanhava. Para Mário era estranho não ver Maria Joaquina pendurada no namorado em um evento social.
– Jaime. Cirilo. – Daniel cumprimentou-os ainda sorrindo e ainda agarrado ao pescoço do parceiro.
– Pra vocês. – Cirilo atirara uma garrafinha de caipirinha para cada um.
– Valeu! – Mário abriu a sua e sussurrou um “não vai exagerar” no ouvido de Daniel antes de tomar um bom gole de sua bebida. – Cadê a Maria Joaquina, Cirilo? Ela tá sempre com você. Achei que ela pudesse distrair o Dani pra’gente dar uma azarada por ai. – Brincou. O namorado apenas fez um gesto negativo e o completou com um beijo.
– Sei lá. Ela foi atrás da Valéria.
– Por isso sou solteiro. – Caçoou Jaime. – Vocês todos parecem que são casados. Olha pra vocês! Não saíram desse canto desde que chegaram! Todo mundo que vê o Cirilão sozinho pergunta logo pela Maria Chatonilda e o Davi já tá ali com a Valéria na pista.
Segundos após, Maria Joaquina se apega ao braço de Cirilo novamente. Mário nota a pequena aglomeração e chama a atenção de todos. Ao se aproximarem, Valéria e Davi discutiam enquanto uma garota ruiva ria da situação. Quando Davi foi empurrado com força pela namorada em fúria, instintivamente, Mário foi na direção da garota para segurá-la, afinal aquela era a Valéria e pela expressão de raiva em sua face já muito avermelhada uma grande confusão estava para acontecer.
– Eu vou acabar com a raça dessa vaca! – A garota gritava. – Me solta! Me solta! – Ela gritava para Mário que segurava um de seus braços enquanto os outros amigos se dividiam entre acalmar a adolescente e tirar a outra menina dali. – Volta aqui, vadia do caralho! Deixa eu quebrar essa tua cara! – O furor da amiga fazia com que Mário não conseguisse mais mantê-la. Mas ele tentou até que não mais que de repente Valéria virou-se rapidamente com algo em sua mão livre e acertou o amigo com força na lateral da cabeça. Foi a voz de Daniel gritando seu nome que Mário ouviu por último antes de cair sem consciência.
A dor nas minhas costas me impede de permanecer sentada na cadeira giratória da biblioteca ao qual trabalho logo nas primeiras horas do expediente. Diariamente prometo-me não mais dormir no tapete herdado da minha mãe, mas sempre que estou com algum problema é a primeira coisa que costumo fazer.
Na biblioteca central de São Francisco trabalham três bibliotecários, e um deles, sou eu, então alegando que estou com dor de cabeça permaneço do outro lado do balcão apenas a espera de algum cliente que não possa encontrar outro bibliotecário disponível me encontrar. Mas, para a minha sorte, a manhã está silenciosa e o ambiente quase vazio. Apenas um, ou dois visitantes perambulando pelos corredores.
Sua cabeça encostada no vidro do carro, indicava seu tédio. Meredith queria manda-lo calar a boca, queria joga-lo fora do carro, estapea-lo. Infelizmente não podia.
A melodia de seu novo sing surgia em sua mente; acompanhou cantarolando mentalmente os trechos da musica, em Frances, não era comum cantar em sua língua natural, mas ela amava seu idioma.
Suspirou, graças á Deus eles finalmente haviam chegado ao condomínio que o empresário morava.
- Devo acreditar que você irá cumprir tudo que lhe pedi Meredith?
- Não, eu nem prestei atenção em seus absurdos.
- Meredith isso é sério, você uma vez em sua vida tem como seguir minhas instruções?
Seu tom não foi amigável, parecia estar controlando a voz para não sair às palavras berradas; ela revirou os olhos, se broqueando, uma vez, uma única vez poderia agrada-lo. Afinal, ele estava tentando lhe agradar, dando até um direito á visita no hospital onde seu irmão estava. Não poderia ser mais grata á ele.
- Ok, pode repetir.
- Fique longe dos meus filhos Meredith, não faça amizade, não se envolva – arregalou os olhos com o pedido, que tipo de pessoa ele era? Queria que ela fosse ignorante com os próprios filhos? Que ela fingisse ser uma pessoa mesquinha os ignorando? – Não quero que sua imagem seja manchada com você sendo vista com eles. Não quero que eles se envolvam com a mídia.
Engoliu em seco, ficando calada.
- Não quero que seu nome seja jogado na lama.
Foi o fim para ela, Mere voltou a se desligar do mundo. Ela não tinha pais, não tinha avós, mas de uma coisa ela sabia, graças ao ensinamento de sua madrinha. Pais deveriam querer o bem dos filhos, e pelo o que parecia, Mark não era um pai que queria. Ele estava se preocupando mais com a carreira dela, do que, com o bem estar dos filhos.
Agradecia pela a pequena família que tinha, ouvindo agora o homem, tinha dó dos filhos dele. Ele era um ogro estúpido.
O carro passou pelo portão de entrada, ninguém se deu o trabalho de cumprimentar o velhinho que estava na portaria sorridente. Se o controle dos vidros não estivesse bloqueado, ela teria abaixado á janela e desejado bom dia ao homem, porque ainda ano havia passado das 12 a.m; bufou.
O carro parou em frente á uma casa grande assim como todas as outras da rua, praticamente iguais.
- Agora se lembre – ele falou - não fique amiga deles Meredith, em hipótese alguma.
✈✈✈
Os garotos estavam sentados no tapete, na sala, vidrados. Os olhos de ambos se focavam nos instrumentos virtuais do videogame que realizavam.
A porta da casa se abriu e Logan que jogava videogame nem se deu o trabalho de virar para ver quem era; no momento ganhar a partida de Guitar Hero era mais importante de que sua curiosidade. O jogo estava quase terminando a rodada, era uma versão atualizada, no modo difícil, de sua música preferida.
- PUTA MERDA.
- Quem são esses, Mark? - a voz meiga surgiu no ambiente, fazendo ele virar o rosto para a porta e, observar a bela avultada loira que surgia pela fresta.
A loira que acompanha seu pai parecia á versão moderna da boneca Barbie, deveria ser mais um dos casos de seu velho. Voltou a encarar a tela da TV no momento que o publico começou a vaiar, já que várias notas musicais não foram tocadas, sendo deixadas para trás.
A menina continuou encarando eles, com curiosidade e seu pai mordia os lábios, tinha certeza que se controlava para não xingar-lhe na frente da loirinha.
- Meu filho e o amigo marginal dele.
- Poxa tio amigo marginal? – esbraveja Piter fingindo estar ofendido – Pensei que sua inteligência fosse maior que isso, precisa ampliar o vocabulário – Logan não segurou a gargalhada, seu pai não conseguia botar medo em todos, muito menos em Piter.
- Garoto petulante – resmunga com os olhos ardendo em brasa.
- Você que o xingou Mark, ele tem o direito de se defender. Larga a mão de ser chato.
Reprimiu outra gargalhada que ameaçava sair de seus lábios, Piter sorriu para ele como se dissesse o quão foda era, o comum. A menina havia sido bem áspera no tom de voz, impaciente.
Seu pai revirou os olhos, apontando para cima. O motorista vinha trazendo as malas logo atrás dele. Pegou a garota pelo braço, rudemente, arrastando-a para cima. A menina praguejou inúmeras palavras em outro idioma, olhando seu pai como se quisesse esgana-lo, e de fato queria.
Acompanhou a dupla até eles sumirem de sua visão. Esperou o momento certo para liberar a risada sonora, cheia de divertimento da situação que havia acabado de presenciar.
- Seu pai é um idiota.
- Eu sei.
- Agora sei por que você também é um.
- Vai tomar no seu cu – bradou para o amigo, sem paciência alguma. Deu start no jogo, iniciando uma nova partida, esquecendo que havia visitas desconhecidas em sua casa.
✈✈✈
Era quase sete horas da noite quando finalmente Meredith se livrou de todos maquiadores e assistentes que Mark contratará, finalmente tendo o quarto livre para si mesma. Não havia visto mais nenhum dos dois garotos engraçados e, muito menos conhecido a filha do Mitchel.
O vestido longo de cor preta, delineava corretamente as curvas de seu corpo. Pra quem tinha 16 anos, ela parecia mais velha dentro da veste elegante. Uma batida na porta do quarto lhe fez bufar antes de falar para quem quer que fosse entrar. Pela abertura da porta, surgiu uma garota loira, parecida com Mark, deduziu ser a filha dele que tinha 17 anos.
- Oi.
- Hey, você é a Mila não é?
A garota pareceu espantada por ela saber seu nome. Meredith sabia que não podia fazer amizade com a menina, nem com o garoto. Mas qual é, semanas enfiada em um lugar sem companhia não seria nada legal. Se pelo menos tivesse trago Juliet consigo, seria melhor.
- Ah sou eu sim, meu pai me mandou uma mensagem pra mim pedindo para verificar se você está bem ou precisa de algo – confessa corando.
- Você não é minha assessora, não precisa fazer isso – diz – Mark é um idiota sem noção – reclama.
- Na realidade era para meu irmão vir fazer isso, mas ele...
- Não quer saber de fazer nada para o pai, e nem gostou muito de saber que eu ficaria aqui – completou com um sorriso nos lábios, não se preocupando em interrompê-la. Meredith percebeu a hostilidade do garoto em relação á ela, somente pelo olhar e a falta de educação.
Mila pareceu ficar mais envergonhada ainda, pois atingiu a cor de um pimentão vermelho. Meredith queria rir, pois a garota parecia uma boneca. Estava sorrindo, cheia de divertimento.
- Meu irmão é complicado – procura tentar amenizar a impressão que o irmão passou, mas a francesa não ligava, porque se caso fosse ela no lugar tinha certeza que reagiria da mesma forma.
- Não precisa explicar – disse – deve ser difícil receber um completo estranho na sua casa – era o que imaginava, mesmo que fosse famosa e a mídia sempre estivesse falando de sua vida, ainda sim era uma estranha.
- Você realmente não se estressa.
- Você que pensa - fala rindo – eu somente sei atuar – pisca, continuando a gargalhar, era assim que a mídia falava dela; a garota amável, a garota educada, a garota pacifica. Muitos outros blah blah blah’s. A filha de seu empresário pareceu não aguentar também e lhe acompanhou na gargalhada.
✈✈✈
Logan estava sentado no banco de motorista, estacionado na frente da casa de Piter, esperando o garoto para irem ao evento ridículo que seu pai estava organizando. Era um carma ter que ir para um lugar cheio de velhos e velhas ignorantes, só para satisfazê-lo e não deixar sua irmã sozinha. Mila havia recusado seu pedido alegando que iria com a cantorazinha para o salão de festa. Coisa que não lhe agradou nenhum pouco.
Buzinou mais uma vez a fim de apressar o paspalho de seu amigo que já havia lhe rendido 20 minutos de atraso; a vaidade do Nolam lhe irritava, o menino parecia uma garotinha preste a ir para o primeiro baile. Felizmente ele não precisava fazer isso, sua beleza era natural, vinda do berço e da paternidade.
Olhou o relógio de pulso, banhado no ouro, tendo a noção de que já se passava das 08 a.p; seu pai poderia nem perceber sua ausência.
A luz da varanda acendeu e, finalmente, Piter saiu de casa, vestindo um terno branco, chique, assim como seria o evento. Logan estava quase igual, só mudava que seu terno era cinza, e a blusa social preta, assim como seu humor. Não havia posto gravado por não saber dar nó, e também porque odiava aquelas pequenas coleiras.
- Finalmente.
- Piter aqui tem que ficar gato para Meredith Charmen – disse apontando para si mesmo, revirando os olhos, Logan ligou o carro, esperando que o amigo entrasse de uma vez para dar partida.
Seu melhor amigo era um sem noção total, jamais que a loira iria cair em seus gracejos baratos, ou se deixaria levar pelo encanto que Piter não tinha. O garoto se enfiou no veiculo, afundando o corpo no banco do carona.
- Por que infernos você não esta usando gravata? – pergunta histérico, ao notar que o moçoilo Mitchel não usava.
- Simples gravatas são coleiras – respondeu – e eu não sou cachorro para usa-las – debocha, porque queria irritar Piter. O que aconteceu, já que o garoto bufou, resmungando.
- Imbecil.
- Vira-lata.
Piter lhe virou o tapa em sua cabeça, Logan começou a rir, dando partida no conversível. Piter sempre seria fácil de irritar para ele, o garoto parecia se ofender com tudo que ele dizia.
O carro era conduzido pela rua do condomínio, direto para o portão de saída, onde o Sr. Lankaster não estaria mais. Buzinou assim que parou de frente as grades motorizadas, esperando que o porteiro noturno liberasse a sua saída. Após uns minutos, o portão começou a se arrastar sozinho para o lado.
Acelerou o carro, saindo em alta velocidade pelas ruas do bairro, sem pudor algum. Ele gostava de correr. Algo que fazia quando estava dirigindo, somente para ganhar multas e irritar seu pai. O Sr. James ficava de cabelos em pé com seus atos irresponsáveis, propositais.
- Violet também vai?
- Não sei, não perguntei – responde seco.
- Cara como assim não sabe? Tipo vocês são melhores amigos, você deveria saber.
Revirou os olhos, entediado com o argumento de Piter, eram melhores amigos não gêmeos siameses. Mas na cabeça do desmiolado do Nolam eu deveria saber até a cor da tanguinha, se é que Violet tinha, dela.
- Onde seu irmão está agora?
- Eu sei lá.
- Cara como assim não sabe? Tipo vocês são irmãos, você deveria saber – imita Piter, debochando.
Bufou alto, quase que em sua cara, resmungando um palavrão que de nada o ofendia.
- Você deveria ser palhaço, seu nível de comedia e extremamente alto.
- Sério? – pergunta Logan sem tirar os olhos da rodovia. Já estavam perto do transito londrino, coisa que lhe irritava demais e o atrasaria ainda mais.
- Sim, extremamente alto para um surdo.
- Seu filho da puta.
Logan xingou, largando uma mão do volante, acertando o punho fechado no estômago de Piter.
- AI! – gritou o outro como uma menina – QUAL É O SEU PROBLEMA CARA?
La familia Lansgton y el sheriff Fred se ven obligados a enfrentarse a diversos secretos del pasado que creían olvidados cuando J. Martin Bellamy les sugiere que pidan la exhumación de los restos mortales de Jabob. Maggie, por su parte, decide prestar su ayuda al inquisitivo agente de Inmigración en su investigación mientras que el reverendo Tom Hale se encuentra con Jacob, su amigo de la infancia. Mientras, la familia Richards trata de asumir el inesperado regreso de Caleb, el segundo resucitado que llega a Arcadia.
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En el capítulo 02 de 'Resurrection'... La familia Lansgton y el sheriff Fred se ven obligados a enfrentarse a diversos secretos del pasado que creían olvidados cuando…
Olhei para o céu e o sol ainda brilhava forte, me perguntava que horas deveriam ser agora. As primeiras gostas de suor começavam a cair do meu rosto e logo parei pra descansar, de joelhos continuei a observar aquela ilha. Se não fosse pela cerca, qualquer um diria que seria uma ilha paradisíaca perfeita, exceto também pelo tom escuro e sombrio daquele mar.
Parte daquela cerca e todas placas ficava escondida pelas grandes árvores e rochas que estavam a frente, a impressão que dava era de que o restante da floresta estaria completamente cercado. Embora eu não conseguisse enxergar o fim da costa, e não é porque eu sou míope, aliás, eu nem enxergava tão mal assim. Mas pelo jeito era uma ilha bem grande. De costas para o mar senti uma estranha presença e ouvi um barulho, não tão alto, mas como se alguém tivesse saindo da água. Quando estava prestes a me virar para ver quem era tomei uma pancada forte na nuca. Foi tudo muito rápido, eu cai na areia e só pude ver seus pés, eram definitivamente os pés de um garoto. Tinha acabado de sair do mar e carregava algo grande consigo, um peixe? Havia algumas marcas de sangue, fiquei desorientado por uns instantes, quando recobrei a consciência ainda estava no mesmo local. Tentei agir rápido e logo me levantei assustado com o que havia acontecido. Algumas marcas de sangue na areia formavam uma pequena trilha que ia justamente em direção a um grande buraco na cerca que eu não tinha visto ainda, grande o suficiente para um adulto poder atravessar direto para a floresta. Quem havia feito isso? Bem, pelo menos agora eu sabia que não estava mais sozinho naquela ilha, se é que isso significava algo bom. Encarei aquela passagem por uns instantes e… não, sinto muito pessoal, não vou me aventurar nessa floresta, sonho ou não, chega de loucuras por hoje.
Eu já não sabia mais o que fazer quando há alguns metros a minha direita alguém gritou:
– Ei garoto! – uma voz suave em tom rude. Não consegui identificar de onde vinha exatamente até que, não tão longe, avistei uma garota atrás da cerca, corri imediatamente até lá. Assim que cheguei perto, não houve nem tempo para apresentações.
– Como você atravessou? – ela perguntou. Da minha estatura, pele branca e, bem… cabelos azuis? Sim, azuis, de uma coisa eu tenho certeza, não sou daltônico. Um azul escuro semelhante a cor do vasto oceano. Olhos também azuis, porém em um tom extremamente leve. Tão leve que quase confundi com cinza, mas definitivamente eram azuis. Vestia um belo vestido branco curto com um pequeno cinto dourado em sua cintura e seus pés estavam descalços. Apesar de tudo ela estava bem suja, o que era de se esperar de alguém em uma floresta. Enquanto eu a observava ela me encarava séria franzindo sua sobrancelha.
– Oi? – ela falou.
– Oi! – respondi.
– Você é surdo? – ela insinuou.
– Claro que não! Bem, na verdade eu não atravessei, mas se você quiser passar. Há um buraco um pouco mais pro lado, na sua direita. – expliquei.
– Sério? Ok! Obrigado. – ela respondeu. E sem hesitar foi na direção que eu falei, logo ela atravessou e chegou na praia. Fui até lá para fazer algumas perguntas.
– Onde estamos?
– Na praia é claro, mas não sei dizer exatamente. Eu perdi o mapa que eu tinha – ela respondeu.
– Qual seu nome?
– Não posso te dizer, acabei de te conhecer. Qual seu nome?
– Ora... não vou te dizer também. – indaguei.
– Que pena! Se você me dissesse o seu eu te diria o meu. – ela falou.
– Alan, meu nome é Alan Zack!
– Legal.
– E o seu?
– Não vou te dizer, desculpa.
– Mas você…
– Eu menti, problema? – disse ela. Mas que grosseria! Deu de costas pra mim e foi se banhar na água, estava bem suja. Não me surpreendo, enfurnada dentro desta floresta, quem não estaria?
– Olha, eu sei que é meio estranho… mas eu realmente preciso saber exatamente onde estamos, por favor… – implorei. Ela virou-se na minha direção e saiu da água.
– O que você está fazendo aqui? – ela perguntou.
– Não sei, eu vim parar aqui por acidente – falei. – Isso é um sonho?
– Sonho? Você é louco? – ela disse. Então me ignorou e foi andando em direção ao leste da praia.
Tudo estava ficando cada vez mais confuso, não sabia nem ao menos o que pensar. A essa altura, eu já não acreditava mais que estava sonhando porém, aceitar a possibilidade de que isso estava acontecendo, era quase que inaceitável.
Queria perguntar tantas coisas, só não sabia por onde devia começar. Também não sabia realmente o que acontecia nessa ilha, em que lugar do mundo eu estava agora? Agora que essa garota apareceu não posso deixar essa oportunidade escapar.
– Quem é você? – Fui surpreendido por alguém atrás de mim. Armado com uma pequena faca apontada para mim, um garoto de olhos verdes e cabelos escuros, meio ondulados porém não tão longos. Ele era alguns poucos centímetros mais alto que eu, pele clara e também suja, vestia roupas cinzas e rasgadas mas coberto por um manto preto. Seu braço e suas mão apontados pra mim com a faca, havia sangue e feridas incontáveis.
– Espere! Por que está apontando essa faca? – perguntei assustado. – Não estou aqui pra fazer nenhum mal a vocês.
– Vocês? – perguntou confuso. Mas logo ele olhou atrás de mim e pude ver que ele viu a garota de cabelos azuis logo atrás. – O que está fazendo aqui você também?
– Calma, estava fugindo e acabei chegando aqui. – ela respondeu.
– E esse garoto, está com você? – ele perguntou ainda apontando a faca para mim.
– Bem, diria que não.
Ele observou bem a situação, olhou para mim e viu minhas roupas não tão sujas e um pouco estranha para a “ocasião”. Camisa social azul clara e calça jeans. Não me encontrava com nenhum ferimento. A única coisa que tínhamos em comum, era o fato de estarmos todos descalços. Ele ficou confuso e pareceu desconfiar, mas guardou a faca.
– Vocês pretendem ficar escondidos aqui? – ele perguntou.
– Acho que sim, me parece ser seguro. Eles nunca vigiam esse lado. – disse a garota.
– E você garoto? – ele falou.
– Acho que há um grande engano ocorrendo, eu nem mesmo sei como cheguei aqui. – respondi.
– Como assim? O que aconteceu com você?
– Ele me pareceu um pouco perturbado... – disse a garota.
– Eu perturbado? Não vou nem responder essa sabe...
– Melhor não responder mesmo. – ela retrucou.
– De onde você veio? – o garoto perguntou. Mas antes que eu pudesse responder a menina interveu.
– Rapazes, chega! Todos nós temos coisas aqui que não queremos e nem devemos compartilhar não é? E você garotinho, não seja tão ingênuo, você nem ao menos nos conhece, nós estamos por conta própria aqui, cada um por si.
– Porém, se vamos ficar os três aqui eu sugiro que façamos um time. Para nos proteger. – sugeriu o garoto.
– Por mim tudo bem! – ela respondeu.
– Eu também aceito. – respondi. Algo muito estranho e perigoso estava acontecendo nesse lugar, aquela garota tinha razão, talvez eu não devesse confiar neles. Ainda assim, ela tentou me alertar e proteger, ela não disse meu nome a ele. Eu percebi que não ia adiantar ficar perguntando tudo, esperando sentado por respostas. Eles podiam não acreditar em mim também, eu teria de ser esperto e agir por conta própria. Enquanto eu não conseguir voltar para casa, eu vou ficar aqui com eles e descobrir o máximo que puder.
– Nós precisamos montar um pequeno abrigo.– disse o rapaz.
– Precisamos de comida também. – disse a garota.
– Eu tenho comida, pra ser mais exato, alguns peixes que eu “pesquei”.– ele respondeu.
– Espere! Então foi você que me acertou mais cedo? – falei.
– Bem… sim, me desculpe. Eu não queria que você me visse, não esperava encontrar alguém nessa praia. – ele explicou.
– E por que voltou? O que pretendia? – perguntei.
– Voltei porque eu havia chegado aqui primeiro, e eu não ia te matar se é isso que está pensando. – ele falou.– Bem, eu vou trazer tudo o que tenho, é melhor vocês esperarem aqui, pode ser perigoso lá dentro.
– Nós podemos nos abrigar por entre aquelas grandes rochas logo ali, só precisamos fazer uns ajustes... – disse a garota. – Não se preocupe, nós vamos te esperar aqui, e depois decidimos o que fazer.
Não demorou muito e eu e a garota fomos dar uma pesquisada na praia para achar um bom lugar, achamos duas rochas enormes onde podíamos nos esconder bem e acampar. Enquanto nós arrumávamos algumas folhas e galhos para camuflar o local e construir um pequeno “teto”. O outro garoto foi buscar a comida que ele tinha guardado, mas além disso, ele voltou com uns galhos enormes e muita madeira, trouxe três peixes grandes consigo. Eu era o único ali que não sabia o que fazer, então apenas observava e fazia o que eles diziam, logo nossa pequena “casa” estava pronta. O tempo foi passando e eu me deixei levar, porém os tons do céu já não mais me enganavam, um crepúsculo rosa pairava no ar e logo se preparava para dar lugar ao anoitecer.
Assim que escureceu, acendemos uma fogueira na praia, um pouco longe do esconderijo. Sentamos os três em volta, assamos um dos peixes e o repartimos entre nós. O clima era de um silencioso tenebroso, que logo foi sumindo.
– Vocês estão cansados? – o rapaz perguntou.
– Um pouco eu acho… – falei. – Mas por que?
– Acho que seria bom se revesássemos, dois de nós poderiam ficar vigiando por um tempo aqui fora, enquanto um poderia permanecer aqui, descansando.
Eu não sabia exatamente de que ou de quem eles estavam fugindo e se escondendo, mas devia ser algo sério, em vez de ficar perguntando, preferi deixar a conversar rolar e ver o que podia descobrir.
– É uma boa ideia. – falei.
– Se não se importam eu gostaria de descansar primeiro. – disse a garota.
– Seria bom se soubéssemos os nomes um do outro. – disse sem querer. Na mesma eles me lançaram um olhar estranho, mas fui em frente e tentei explicar. – Eu sei eu sei, tenham calma. É estranho não saber como chamar um ao outro, mesmo que mintam, seria bom que cada um de nós tivesse um nome, facilitaria nossa comunicação.
– Tem razão – disse ela. – Vou começar comigo então, meu nome é Diana.
– Ótimo! – falei.
– Luke, meu nome é Luke. – disse o rapaz.
– Meu nome é Alan. – falei. E por um milésimo de segundo Diana me olhou se perguntando “você está dizendo seu nome de verdade?”.
– Escutem, não entrem nessa floresta a noite. – disse Luke. – Há várias armadilhas dos vigias para nos pegar, se nos pegarem, por menor que seja o crime eles não terão piedade.
Escutei aquilo e tudo que consegui pensar foi “Armadilhas?” “Vigias?” “Crimes?” “País?”. Tentei disfarçar o quão apavorado fiquei naquela hora, mas acho que não adiantou muito.
– Qualquer um que entra aqui é considerado intruso. – ele continuou. – Mesmo que não seja um procurado mundo a fora, eles vão te tratar como um.
– Vou descansar, você e o Alan podem ficar vigiando por um tempo? – Diana pediu. – Quando quiserem trocar e só avisar.
– Sim. – Luke respondeu. – Alan, vou ficar logo ali a esquerda perto do buraco na cerca, você pode ficar por aqui mesmo.
– Tudo bem, boa sorte. – falei.
Luke e Diana se foram e eu fiquei ali sentado, o fogo se apagou e mal percebi. Olhei para o céu, não conseguia ver a lua. Havia poucas estrelas no céu, mas das poucas que eu podia ver, brilhavam intensamente. O tom sombrio daquele mar ao dia parecia estar estampado lá em cima, eu acho que devia voltar para casa, estava começando a aceitar a possibilidade de aquilo não era um sonho e não fosse, minha mãe deveria estar preocupada comigo agora. Olhei para o lado, Luke estava quase invisível na escuridão com sua capa preta, permanecia de pé.
Ouvindo o som das ondas eu não pude evitar, eu continua a pensar em como queria voltar para casa, cansado, fechei meus olhos por um momento e finalmente dormi.
Foi como se eu tivesse desmaiado lentamente, e para minha surpresa logo acordei. Abri os olhos e estava em frente a minha casa, na calçada, acho que dormi um pouco mas a sensação foi de apenas ter piscado o olho e chegado ali. Acho que isso já acabava com minhas duvidas, eu não acordei em minha cama, mas só para ter certeza, pus a mão no bolso da minha camisa e, estava lá, a folha que peguei da árvore.
Meu cachorro começou a latir e logo meus pais saíram pela porta desesperados, vieram correndo em direção ao portão.
– Alan!! – minha mãe gritou. – Onde você estava? Você sumiu e não disse nada.
Eu não sabia o que responder, o que eu poderia dizer?
– Entre rápido! Precisamos conversar – disse o Carlos, meu padrasto.
– Olhe pra você, esta sujo, descalço. – minha mãe disse. – Onde está seu amigo?
– Como assim? Que amigo?
– Vamos entre, lá dentro nós conversamos. – ela disse.
Eu entrei, tomei um banho rápido e desci, meus pais estavam sentados no sofá da sala me esperando. Minha mãe acabara de desligar o telefone.
– Bem, o que aconteceu com você? – minha mãe perguntou.
– É… sabe, nada demais, apenas sai e perdi a hora. Fui na casa de um colega. – inventei.
Minha mãe me olhou desconfiada, meu padrasto parecia ter acatado a explicação.
– Acordei hoje de manhã você não estava em casa, quando cheguei do trabalho também não. – ela disse. – O problema é que, seu amigo Nicolas sumiu, a mãe dele ligou para mim. Disse que faz 2 dias que ele não voltou para casa ainda, ela conseguiu falar com a Elizabeth mas ela não tinha visto ele, então ela lembrou de você. Fiquei preocupada, e mais uma coisa, você saiu descalço?
– É que minha sandália rasgou. – disse rápido. Ela pareceu não ter acreditado muito mas, resolveu ignorar. O mais estranho agora era, por que o Nico sumiu? O que será aconteceu com ele? Ele não estava bem quando veio me visitar, não fiz nada pra ajudar e comecei a me sentir culpado.
A campanhia tocou e minha mãe foi atender, da janela pude ver, era a Elizabeth. Uma grande amiga minha do colégio, na verdade, desde de que eramos crianças.
Ela estava com seus pais, fui até la fora também para falar com ela. Uma dos poucas pessoas do mesmo tamanho que eu, ela era ruiva, tinha cabelos longos e lisos. Olhos verdes, sempre foi uma das garotas mais bonitas do colégio. Mas também muito estudiosa e todo mundo dizia que ela era muito “nerd”. Ela não tinha muitos amigos além de mim e do Nico. Assim que me viu saindo de casa ela correu e me deu um abraço. – Ainda bem que você está aqui– ela disse. – Fiquei tão preocupada, a sua mãe e a mãe do Nico me ligaram.
– Eu não esperava por essa, o que deu no Nico? – falei.
– Não sei, aquele bobão é meio estranho as vezes. – ela disse.– Meus pais vão me levar na casa dele agora, você quer ir? Eu falo com meus pais pra te levarem e trazerem.
– Quero sim! Estou preocupado também.
– Tudo bem, espere aqui.
Elizabeth foi falar com seus pais que estavam conversando com a minha mãe no jardim naquela hora. Minha mãe disse que tudo bem e fui com os pais dela de carro até lá. Fiquei no banco de trás com a Elizabeth enquanto os pais dela conversavam alguma coisa na frente, eles eram bem reservados, não estavam falando sobre o Nico. O pai dela era um grande executivo, seu nome era Marcos. Sua mãe Sofia era advogada, o verbo estudar corria no sangue dessa família.
Quando nós chegamos na frente da casa, por volta das onze da noite. Todas as luzes da casa estavam acesas, era uma casa grande, bem maior que a minha. 2 andares em tons de marrom luxuosos, muro alto e um belo jardim. A mãe dele veio nos atender. Entramos e nos reunimos na sala, mas antes que sequer pudéssemos começar a conversar a mãe dele teve que gritar para os irmãos dele desligarem o som alto lá em cima, parecia que estavam fazendo uma festa dentro da casa.
– Me desculpem, eu não sei o que deu na cabeça desses meninos. – disse Helena, a mãe do Nico. – O irmão sumiu e estão assim… me perdoem.
– Está tudo bem, não se preocupe. – disse Marcos. – Como você está?
– Eu estou bem, preocupada é claro, mas bem. Que bom que você apareceu Zack, nós achamos que você tinha sumido também. – ela disse.
– Muito obrigado, estou preocupado também. Na verdade eu vi ele, ele foi lá em casa de madrugada e depois disse que ia para casa, não sei o que aconteceu depois. – falei.
– Você tem certeza disso? – Helena me perguntou.
– Absoluta! – falei.
– Então ele não deve estar muito longe, deve voltar logo.– disse Marcos.
– Acontece, mas ele volta sim. – Sofia falou. – Não fique angustiada Helena, vai dar tudo certo.
– Seu marido está em casa? – Marcos perguntou.
– Não, ele foi procurá-lo... – ela respondeu. Ela parecia bem triste, falava com um tom de voz baixo e sempre assoando o nariz.
– Nós precisamos ir, mas vamos ficar atentos a qualquer coisa. Se precisarem de ajuda é só ligar. – disse Sofia. Eu olhei para Elizabeth, ela estava sentada no sofá inquieta. A musica voltou a ficar alta.
– Desliguem esse som agora!! – gritou Helena. – Como é que vocês podem estar assim numa hora dessas? Me desculpe pelo transtorno Sofia, Marcos, muito obrigado pela visita.
– Não tem de que, se precisar é só ligar. – Sofia falou.
– Eu os acompanho até a porta. – disse Helena.
Quando nos levantamos, um grupo de mais ou menos dez jovens desceu as escadas da casa, com champanhe, uns com camisa outros sem, deviam estar festejando muito. Antes que pudéssemos passar pela porta eles nos “atropelaram” e foram pela frente.
– Tchau dona Helena! Obrigado pela festinha – disse um deles, um rapaz loiro e alto.
– Já vai tarde Miguel. – ela respondeu. – Francamente Jéssica, não sei como você ainda sai com esse rapaz.
Jéssica era a irmã do Nico que agora estava na cozinha, acho que esse tal de Miguel devia ser o novo namorado dela.
– Eu conheço esse garoto. – Elizabeth sussurrou em meu ouvido. – Ele é um dos novatos na nossa escola.
– Sério? Não acredito. – falei.
– É sim, infelizmente eu acho. Vamos ver depois de amanhã, quando as aulas começarem. – ela falou.
– Já não estou muito animado... – eu disse.
Depois que os “festeiros” foram embora, nós fomos embora e os pais de Elizabeth me deixaram em casa. Meus pais já estavam dormindo, felizmente, sem mais perguntas. Depois de tudo o que aconteceu eu me perguntava como seria de agora em diante, o que eu iria fazer, me lembrei da Diana e do Luke, não sei se esses são os nomes deles mesmo mas enfim, o que será que eles estão fazendo? Como eles encararam o meu “sumiço” ? Será que eu ainda vou voltar? Melhor, quero eu voltar parar aquele lugar? Tanta loucura e agora o Nico resolveu sumir. Subi para o meu quarto e fui dormir, dessa vez, não tive nenhum sonho, talvez por sorte. Na verdade, acho que devia parar de falar como se fossem “sonhos” de agora em diante.
Depois de toda essa loucura que aconteceu nessas últimos dois dias, eu finalmente tive um dia normal, uma boa noite de sono. Um dia se passou, e já era hora de voltar colégio, eu estudo no Recife, um pouco longe de casa então sempre saio cedo, na verdade, tento. A Elizabeth e o Nico estudavam juntos comigo num colégio estadual do Recife, Ginásio Pernambucano. Cheguei no colégio às sete em ponto, os portões já estavam abertos. Em meio a tantas caras novas, sem querer acabei esbarrando com a Elizabeth.
– Nossa! Chegou cedo hoje, que milagre. – ela disse rindo.
– Nem vem, sempre chego cedo. – indaguei.
– Ta certo então senhor pontual…
– Como você está? – perguntei.
– Normal e você?
– Normal também eu acho – disse. – bem, o que seria normal?
– Sei lá… – ela riu. – Acho que nós não ficamos na mesma sala esse ano, parece que fizeram algumas mudanças.
– Sério? Que droga.
– Pois é.
Fomos andando juntos pelos corredores em silêncio por um tempo antes do sinal tocar, vimos a lista dos alunos novos. Antes da aula cada sala iria fazer uma pequena recepção, quase havia me esquecido disso. Nós ajudamos alguns que estavam perdido e demos algumas informações. Esse ano nós tínhamos novatos em todas as salas, inclusive no último ano, poucos, mas tínhamos.
– Você já viu o Nico? – Elizabeth me perguntou.
– Não. Você encontrou com ele?
– Sim. Ele está um pouco estranho. – ela disse.
– Mas por que? Ele não falou com você?
– Só um “oi”, ele passou rápido, não tenho nem certeza se ele me notou direito.
– Vou conversar com ele assim que puder. – disse. – provavelmente nós ficamos na mesma sala, como sempre.
– O sinal vai tocar daqui, eu vou procurar minha sala nova. – Elizabeth falou. – Te vejo mais tarde, até mais.
– Até. – acenei.
Minha sala era a segunda a direita no último corredor, enquanto ia pra lá mantinha minha cabeça baixa fingindo estar escolhendo alguma música no celular. Eu realmente não sabia como ser o cara descolado do ultimo ano passado pelo corredor, a saída era fingir estar distraído com alguma coisa, agir “normalmente”.
Quando cheguei na minha sala havia poucos alunos, mas o professor já estava lá. Com suas roupas sociais de sempre, óculos quadrado, era o professor Thiago. Ele é professor de história e geografia, também é formado em arquitetura. Mas sua paixão sempre foi ensinar, um dos caras mais legais que já conheci.
– Olá Alan! – me saudou sorrindo. – Há quanto tempo, como vai rapaz?
– Estou bem, “normal” – sorri. – E o senhor, como vai?
– Melhor impossível, minhas férias não foram tão animadas, não via a hora de voltar a trabalhar.
– Não tem quase ninguém aqui. – falei.
– Pelo visto vamos ter muitos atrasadinhos hoje, e você chegou cedo, parabéns. Já começou bem o ano. – ele ironizou, todo mundo dizia isso, é que geralmente eu sempre sou o atrasado. – Sente-se, vamos começar com uma dinâmica, na nossa sala temos apenas três novatos chegando se não me engano.
Eu me terceira cadeira da fileira do meio, nem muito na frente nem muito atrás, nem muito nerd nem muito bagunceiro. O sinal tocou e o Nico entrou na sala bem na hora e seguiu direto para a ultima fileira e sentou na última cadeira.
– A maioria de vocês aqui já me conhece e já foram meus alunos – disse o professor em voz alta. – Alguns não são novatos mas nunca tiveram aula comigo, aos novatos, sejam bem vindos.
Nessa hora entrou um rapaz na sala, alto e de olhos azuis, cabelos loiros um pouco cacheados. O típico “galã”, camisa social branca de manga curta e calça jeans cinza, devia ser um dos novatos. – Desculpe o atraso Thiago. – ele disse com uma cara entediada. – Tudo bem, Hélio já chegou? – o professor respondeu calmo.
– Hélio? Ah, bem, não sei. Deve estar vindo.
– Tudo bem, preciso apresentar ele a turma depois.
O rapaz sentou sentou bem na frente da sala, pensando bem eu já tinha visto ele, será que era o tal Miguel que estava na casa do Nico? Minhas dúvidas acabaram quando o professor o apresentou.
– Pessoal, esse é o Miguel. Ele chegou na cidade há pouco tempo e vai estudar com a gente, recebam o bem. – disse o professor Thiago. Ele pediu para que todos fizéssemos uma dinâmica. Dividiu todos nós em duplas,e nos deu 5 minutos para conversar, depois nós trocaríamos de dupla. Nico ficou com o novato Miguel, eu fiquei com uma garota estranha, de óculos e aparelho. Não que eu a julgasse pela aparência, porém ela me olhava de um jeito estranho. Tinha o cabelo divido em duas tranças e algumas sardas no rosto.
– Oi Zack... – disse ela tímida .Isso era mal, ela sabia o meu segundo nome e eu não sabia nem o primeiro dela. – Você lembra de mim? – perguntou ela.
– Mais ou menos... – respondi. Apesar de não lembrar nem um pouco.
– Eu sou Catarina, eu era da outra turma ano retrasado. – disse ela me encarando e alisando o cabelo. – A gente se falou uma vez no laboratório.
Acho que ela estava… bem,deixa pra lá. Os cinco minutos se passaram e eu disse. – Opa! O tempo acabou, que pena. – me levantei para trocar de par rapidamente.
– A gente conversa depois então?! – ela gritou de pé. A sala toda ouviu, morri de vergonha só de pensar no que estavam pensando. Olhei para o professor e ele sorriu amigavelmente para mim, mas na verdade, não foi tão amigável assim para mim naquela situação. Ainda de pé eu ouvi um barulho de forte empurrão na parede, assim que me virei vi o Nico empurrando o novato contra a parede, o tal do Miguel.
– Você não entende nada! – Gritou Nico. – Não fique se achando.
– No fundo você sabe que é verdade, agora me solte.
O Nico deu um soco no Miguel, tão forte que deixou o nariz dele sangrando. Sem pensar duas vezes Miguel revidou, acertou um soco na cara do Nico também.
– Você é tão idiota! – Miguel gritou.
– Cale a boca –Nico retrucou. Mas antes que continuassem a briga o professor os apartou.
– Vocês dois parem agora mesmo! Miguel nós já conversamos sobre isso. E você, há outras maneiras de resolver problemas sem ser brigando. Os dois venham comigo agora mesmo. Os três saíram e a porta da sala foi batida com força, então o silenciou dominou toda a sala.
Eles estavam demorando muito,alguns na sala riam e comentavam, mas eu estava muito preocupado. Não entendi nada sobre o motivo da briga, afinal o que esse tal de Miguel disse pra deixar o Nico daquele jeito? E o por que o Nico estava assim? Nem ao menos falou comigo quando chegou. Fui até a porta da sala, abri e dei uma olhada nos corredores, Elizabeth estava passando e logo parou para falar comigo.
– O que houve com aquele idiota? – perguntou.
– Não sei ao certo, quando vi os dois já estavam brigando. Nico e Miguel, o novato – respondi.– Aquele que você me mostrou na casa dele quando estávamos lá, quem é esse cara?
– Não sei muito sobre ele. Mas só pelo que sei já posso dizer que não vale um real. – ela disse. – Tenho que ir agora, depois falo com você.
– Ok! – respondi.
Voltei para sala e assim que me sentei o professor Thiago retornou, e trouxe um homem com ele. Todos deram atenção, um cara alto, pouco mais que o Thiago. Ele era ruivo, natural porém de um tom escuro quase vermelho, seu cabelo era um pouco longo. Sua barba era ruiva também. vestia um terno preto com gravata e tinha óculos redondos. Com certeza esse cara não devia ser daqui, talvez de outra cidade estado, quem sabe até outro país.
– Eu vou precisar sair para resolver um problema agora na direção. – disse o professor Thiago. – Esse é o professor substituto de vocês, Hélio, um grande amigo meu e está aqui no colégio temporariamente. Ele leciona história, e também é formado em psicologia. Ele vai ficar com vocês um pouco enquanto eu tenho que sair, vejo vocês mais tarde.
O professor saiu e o outro homem não disse nada, apenas se sentou na cadeira em frente ao birô e ficou nos observando. Eu preciso conversar com o Nico, ele deve estar passando por uma fase difícil em casa, as bolsas deles ainda estavam na sala, do Nico e o Miguel. Porém Thiago não voltou e o dia na escola seguiu normalmente, eu não consegui ver o Nico depois disso tudo, quando o último sinal tocou e todos saíram da sala, eu fiquei lá esperando o Nico voltar para pegar a bolsa. O professor substituto então entrou na sala, pegou a bolsa do Miguel e saiu, mas não antes sem olhar para mim com uma cara de “O que você está fazendo aqui ainda?”.
Uns vinte minutos se passaram e o Nico não voltou, eu fiquei pensando na “viagem” que eu fiz, o que será que aconteceu com o Luke e a Diana? Será que eles estão procurando por mim? Não… eles mesmo deixaram bem claro… “cada um por si”. Mas o que era aquele lugar? Por que eu fui até lá? Se eu realmente tenho poder de me teletransportar, como isso funciona? Eu precisava manter isso em segredo, mas ao mesmo tempo eu queria muito testar meus limites. Ainda me pego pensando se estou vivendo um sonho, se estou ficando louco, se é tudo uma ilusão. Ali mesmo sentado naquela cadeira eu fechei meus olhos e tentei me concentrar o máximo que pude, eu não pensei exatamente em um lugar específico, apenas em sair daquele lugar. Demorou alguns segundos, mas logo eu senti meu corpo se esvaindo, como se eu estivesse sendo sugado e sumindo pouco a pouco, eu imaginei se conseguiria voltar para aquela ilha só para ver o que tinha acontecido, mas acho que era tarde demais para tentar me dar uma direção. Abri meus olhos e eu estava agora sobre o telhado da escola, de pé, a escola tinha uns três andares e não tinha escada para o teto. Ótimo! Que legal, o que eu ia fazer agora? Por sorte era de concreto. Observei a cidade, ventava forte mas era um dia de sol, eu consegui me teletransportar por conta própria, sem sonhos. O que era esse poder e por que eu o possuía? A quem eu poderia pedir ajuda? Droga, eu vou enlouquecer se tiver de viver assim a vida toda, indo e voltando, desaparecendo.
– Ei! O que você está fazendo aqui? – fui surpreendido por uma voz atrás de mim. – Você é da minha sala não é? – perguntou. Era o Miguel, mas o que diabos ele estava fazendo no telhado? Como ele chegou aqui?
– Sim, sou? O que você está fazendo aqui? – indaguei.
– Eu perguntei primeiro. – ele retrucou.
– Não te interessa. – falei para ele.
– Que seja… vão a merda todos vocês! – ele disse. Me lançou um olhar desconfiado, queria dizer alguma coisa mas se calou.
– Por que você e o Nico brigaram? – perguntei. Mas ele não me respondeu, foi andando sobre o telhado até o outra lado e pulou. Será que ele tinha escalado aquilo tudo? Bem, isso não importava, será que ele me viu fazendo o… “teletransporte?”. Eu fechei meus olhos para tentar me concentrar, dessa vez eu me lembrei de como era sala e fixei a ideia de que queria voltar. Senti a mesma sensação de novo, pouco a pouco meu corpo ia se esvaindo enquanto eu me concentrava, e uma forte pressão me sugava. Provavelmente durava uns trinta segundos até acabar e quando eu abri os olhos de novo, eu estava lá na sala na mesma cadeira que estava sentado antes. A bolsa do Nico não estava mais lá, droga! Perdi tempo com tudo isso, mas acho que estou aprendendo a controlar meus poderes, talvez. Eu peguei minha bolsa me levantei e saí da sala, quando fechei a porta, no corredor não muito longe, de costas para mim alguém estava me observando. Eu fiquei imóvel naquela hora e imaginei quem podia ser.
– Ei cara! – disse em um tom malicioso. – Eu vi o que você fez.
Eu me virei e era o Miguel, ele voltou e ficou me esperando, provavelmente quando me viu no telhado suspeitou de algo.
– Como assim? Do que você está falando? – falei tentando disfarçar.
– Não se faça de bobo nem tente me enganar. – ele disse enquanto se aproximava.– Você sabe bem do que estou falando, eu vi o que você fez. Você se teletransportou.
Acordei meio assustado. Olhei para o lado e vi a Nat sentada comendo chocolate enquanto assistia desenho.
Eu: Já tá na hora de ir pro colégio?
Nat: Falta meia hora pro ônibus passar.
Eu: Vou tomar banho rapidão.
Nat: Certo. Já arrumei tuas coisas. As roupas tão na tua cama e a mochila tá arrumada, filhinho.
Eu: Valeu, mãezona. - me aproximei e dei um beijo na bochecha dela - Você é demais.
Devo ser muito amado, porque pra Nat fazer isso só pode ser muito amor. Mas preciso ser um pouco mais responsável.
Tomei banho, vesti a roupa que estava sobre a cama, calcei meu tênis e peguei a mochila.
Eu: Bora, que dá tempo da gente comprar um lanche.
Nat: Certo. Está frio hoje, né? - falou enquanto vestia a sua jaqueta, se levantava e pegava a mochila.
Pegamos o elevador e descemos rapidão, logo fomos no tio do lanche que era tio da Nat de verdade. Ele e a mulher dele nos adoravam, nunca cobraram nada pelo lanche.
Nat e eu pegamos um sanduíche e uma pepsi. E fomos comendo até o ponto de ônibus, onde assim que pisamos o ônibus havia chegado. Sentamos nas últimas cadeiras pois são sempre as vazias e podemos ficar a vontade, Nat ficou na da frente e eu na última de trás. Um monte de gente entrou após a gente, mas ninguém importante, até que uma garota baixinha, loira e de olhos negros entrou. Haviam vários lugares disponíveis, mas ela veio para trás.
!: Posso sentar aqui?
Nat: Claro. - falou se ajeitando na cadeira e sorriu.
!: Você é a Natalie, não é?
Nat: Sim, e você é a Anna.
Anna: Como sabe meu nome?
Nat: Como você sabe o meu? - ela retrucou, entre uma risada.
Anna: Bom, - falou entre um sorriso - meus pais eram amigos dos seus pais e sempre nos aniversários da sua mãe e do seu pai, eles iam e me levavam. Eles nos obrigavam a ficar juntas brincando. Você cresceu. Está diferente.
Nat: Espera, Montessori? Anna Montessori?
Anna: Isso!
Nat: Desculpa não te reconhecer. É difícil te ver grande. Você mudou mais que eu, mas continua com o mesmo jeito doce.
Anna: Ah, obrigada e sem problemas! - falou, cruzando os braços e se encolhendo - Está frio, não é?
Nat: Ah, toma aqui. - falou tirando a jaqueta e colocando em Anna - Eu não estou com frio.
Anna: Ah, não precisava! - sorriu, vestindo a jaqueta - Obrigada, depois lhe devolvo, sim?
Nat: Sem problemas.
Eu estranhei. A Nat estava com frio e mesmo assim deu a jaqueta para Anna. Estranho porque até uma garota consegue ter mais educação que eu. Gostei da Anna. E Nat já a conhece. Elas se dão muito bem pelo jeito, foram conversando o caminho todo. Foi estranho ver Nat falar tanto.
O ônibus chegou e os alunos foram descendo lentamente. Puxei Nat e deixei Anna ir saindo na frente.
Eu: Quem é a guria?
Nat: Depois te explico melhor, certo?
Eu: Certo.
Nat: Vamos. - falou abraçando minha cintura.
Eu: Não to afim de aula hoje. - falei colocando o braço ao redor de seus ombros.
Nat: Também não.
Fomos a aula. Passou a primeira aula, segunda aula, terceira aula e, finalmente, o intervalo, que veio junto de um aviso do diretor.
Diretor: Assim que retornarem as salas, serão liberados. E será assim a semana toda, por causa dos problemas nos banheiros que vocês utilizam. Obrigado.
Logos retornamos a sala e todos foram liberados. Logo na hora da saída lembrei da tal Anna e fui perguntar a Nat qual a história da Anna.
Nat: A gente se conheceu quando eu tinha 9 anos. Nossos pais nos apresentaram e ficamos amigas. - respirou fundo e prosseguiu - Todo ano os pais dela vinham várias vezes no ano, então quando eu tinha 12 anos aconteceu algo estranho. Eu fiquei com vontade de beijar ela. E a beijei. A minha surpresa foi que ela correspondeu. Então ficamos nisso até eu fazer 15 e meus pais se mudarem pra cá.
Eu: Isso quer dizer que vocês tinham algo? Tipo namoro?
Nat: Bom, só ficávamos uma com a outra, então acho que sim?
Eu: Espera, você é...
Nat: Eu gosto de pessoas, mas prefiro as garotas.
Eu: POR QUE NUNCA ME FALOU? - gritei animado.
Nat: Você nunca perguntou.
Eu: Posso falar de garotas com você, que legal.
Nat: Não se anima muito não.
Anna: Oi gente! Vocês já vão?
Nat: Si-
Eu: E aí, Anna! Meu nome é Luciano, sou o melhor amigo da Natalie. Quer ir com a gente lá em casa?
Nat: Que sutíl.
Eu: Shh, calada.
Anna: Quero. - falou mordendo o lábio e olhando para a Nat.