— Eu... Eu não pertenço ao seu mundo. – Ela uniu as sobrancelhas descobrindo como aquelas palavras em público não a corroeram como Willa esperava. Libertara. - É por isso que eu pareço um disco arranhado sempre pedindo para você entender, para você me ouvir, para você me compreender, porque no fundo, eu não entendo nada disso. Eu só finjo muito bem. – Ela gesticulou para si, compreendendo os seus sentimentos mais obscuros e aterrados em seu interior. Ela riu. A arte de falar o que sente era um desbravador dos males do mundo. - Eu não entendo o que diabos o Stone é. Um homem que leva um tiro na cara e não morre? Não é normal. Eu deveria achar isso estranho, não é? Ele viu a Guerra da Secessão acontecer, ele é mais velho do que o Steve e parece mais jovem do que eu e você juntos.
Amor é quando as diferenças não são mais capazes de separar.
Autor Desconhecido.
As diferenças nos separam, os pensamentos nos une.
Autor Desconhecido.
Ser um jovem rico, inteligente e atraente no Brasil certamente proporciona realizações acima das mais otimistas expectativas de qualquer pessoa normal. É exatamente assim, normal, que Jorge não se afirma. E autoafirmação é uma das especialidades do rapaz, tal qual a soberba, a vaidade e falta de amigos de verdade. Além de ser o mestre da expressão enojada, por que ele realmente acredita que está acima de qualquer pessoa, de qualquer regra e de qualquer coisa. Jorge é a epitome do que é ser um adolescente elitista e sente-se como tal: intocável. Todavia, no caso dele, com uma exagerada pitada de narcisismo e muitas colheradas de intransigência.
– Aquele judeu pensa que vai me atingir de alguma maneira com aquela festinha idiota… - Sussurrava Jorge para si mesmo. – Como ele está errado... – Continuou após beber todo o restante de vodca que estava em seu copo. Suas frases eram interpostas por gritinhos e outros barulhos típicos das pessoas que se deixam levar pela fúria e pela inveja. Tudo isso pelo fato de a house party de Davi, por pura coincidência e falha comunicativa, ter sido marcada no mesmo dia em que Jorge daria uma festa, uma vez que a única dentre os amigos mais próximos de Davi a ser convidada fora Maria Joaquina, que não avisou a ninguém sobre nenhuma das reuniões. Já totalmente admitindo sua frustração, Jorge ingeriu mais um copo com álcool bem depressa. – Isso não vai ficar assim, Rabinochato. Você me paga.
A relação de Jorge com os ex-colegas do colégio Mundial era a mais estranhamente tensa possível. Os outros não detestavam o rapaz, apenas não apreciavam a ideia de passar algum tempo com ele. Jorge também não odiava os outros. Era tudo uma questão de “não se envolver demais com a ralé”, exceto por Daniel. O desprezo dele pelo outro se dava pelo fato de ele ser “o mais desprezível dentre os pobres coitados que perambulam pelo planeta” e, mais concisamente, por ele ter quem Jorge mais desejava no mundo. Lá atrás pode ter parecido que o motivo do riquinho ter entrado para a escola Mundial foi sua amizade com Maria Joaquina, entretanto foi o fato de ter conhecido Mário em uma das festinhas de Maria que o fez migrar para a instituição. E quando Mário escolheu Daniel ao invés dele, o narcisista paulistano começou a cultuar um desprezo quase letífero pelo seu rival.
– Hey, Jorge, cara, do que é que você tá falando? – Um dos colegas ali presente perguntou após dar um leve toque em seu braço esquerdo. O anfitrião apenas o encarou com um esboço de sorriso voluptuoso nos lábios por alguns segundos antes de puxá-lo pela camisa para muito perto de si. Um beijo quente entre eles foi a cena da noite para todos os convidados e empregados.
– Meus caros, aproveitem a festa o quanto desejarem. – Disse o dono da casa em voz alta após o som ter sido reduzido e as atenções estarem voltadas a ele. – Eu e o Rafael vamos resolver algumas coisas lá em cima. Com sua licença. – Com um sorriso maroto no rosto, ele se dirigiu até seu quarto puxando o outro pela mão.
Rafael foi empurrado na cama assim que ambos adentraram o aposento e Jorge engatinhou da entrada até o colo do companheiro após trancar a porta e acender as luzes. Sem delongas ou carinhos desnecessários, ambas as camisas foram jogadas ao chão, assim como todas as outras peças de roupa que não eram calças ou cuecas. E quase que instantaneamente o atrito de pele contra pele transformou o cômodo em uma câmara prazerosa. Jorge, apesar da pouca idade, sabe exatamente como dar prazer a alguém. Sua língua, quando não estava ocupada na boca do parceiro, passeava por todo espaço exposto do corpo do outro enquanto suas mãos vagavam pelo perímetro entre as pernas de Rafael, que ocupava ambas as suas mãos com os firmes glúteos do mais jovem sempre que podia. Com as calças fora do caminho, Jorge se preocupou em lamber todo o caminho entre o pescoço e a virilha do mais velho até chegar ao prêmio principal. Lá, ele se ocupou bastante com todo o comprimento que dispunha enquanto seu cúmplice deixava sons de puro deleite escapar demonstrando o quão bem ele estava sendo trabalhado. A visão de Jorge fazendo aquilo entre suas pernas e o encarando com o olhar mais libidinoso que ele já vira dirigia Rafael ao êxtase máximo daquele ato. A cada segundo ele se aproximava mais e mais da tão esperada sensação e quando ele já se preparava para se deixar liberar, o mais novo parou abruptamente, se pôs de pé e atirou as roupas do outro sobre ele.
– Fiquei entediado. Sai daqui. Agora. – Respondeu Jorge à expressão de confusão do parceiro. – AGORA! – Ele gritou ao perceber que o outro nem se movia para obedecer a sua ordem. Rafael levantou-se com suas roupas nas mãos e saiu furioso do aposento. O anfitrião deitou-se em sua cama ainda desnudo para mergulhar em pensamentos e naquele repentino tédio. Tão súbito quanto o que acontecera naquele quarto há pouco tempo, Jorge levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu-se impecavelmente e saiu. Alguns dos convidados notaram que o dono da festa acabara de sair, mas a maioria estava absorta demais para perceber. Ele entrou no carro e o motorista o levou direto para a casa de Davi.
O tempo que passei pensando foi insignificante para qualquer conclusão. E mesmo que acreditasse naquela situação sobre Ishihara. Isso mudaria os momentos que passamos juntos? Necessariamente não passamos o tempo conversando, eu não o conhecia ao certo para acreditar nisso ou não. Só que o que me deixava mais irritada nessa situação era a incerteza de ter a oportunidade de o rever. Eu me sentia patética ao defender talvez quem eu nunca mais visse.
Já não sabia quantas vezes o repertório de músicas tinha tocado. Arranquei meus fones irritada, de ouvir músicas, de ninguém ter me interrompido nos pensamentos, dos meus próprios pensamentos. Fui a frente do espelho para ver minha aparência.
Imbecil. Onde estava a cara amassada de passar o dia todo na cama? Passei a mão pela minha franja , tentando a prender atras da orelha, numa tentativa inútil, pois ela voltava a cair em meus olhos pelo comprimento. Fechei os olhos e respirei profundamente. O que os Meus estavam fazendo?
Desci as escadas que davam acesso ao meu quarto. Ninguém na sala de jantar...
Um verdadeiro mausoléu era aquela casa. Sonhei tanto enquanto humana numa casa, com gente se movimentando, bagunçando, falando alto. Agora estava morta e os meus se preocupavam mais com si mesmos do que com qualquer outra coisa.
Atravessei o longo corredor com seus quartos inabitados e finalmente encontrei alguém que de certo modo entreteria minha cabeça. Anis. Sentado numa poltrona e lendo um livro. Sentiu minha presença e me olhou ao entrar a sala. Passei por ele e cheguei a ampla janela, de onde podia ver o lago. Percebi que ele fumava, o que eu achava politicamente incorreto, por mais que achasse lindo o ver fumar.
–Isso deveria lhe fazer mal. - Respondi de costas para sua poltrona ao observar a paisagem.
–Não tenho que me preocupar mais com isso. Já morri.
–Argh! É repugnante ouvir isso...
–É a realidade. Agora posso me permitir a esses prazeres.
Não lhe respondi. Ele gostava de ser o que era.
–Ficaste o dia inteiro trancada no quarto. Nem ao menos ouvi as músicas que escuta alto.
–As ouvi no fone. Com meus pensamentos.
Anis em momento algum parou de "ler" seu livro , e mesmo assim respondia.
–Bem, você sabe que nunca tive problemas contigo, então espero que não se ofenda em lhe dizer que tu dá vida a essa casa?
–Isso é uma ofensa? - Carreguei na voz uma ironia.
–É, eu sei que para você não é.
Fiquei mais um tempo pensativa, ali atras da poltrona de Anis, a admirar o sol que se posicionava mais a cima do lago que o refletia.
–O dia está bonito, queria ir lá fora.
–Pois vá! Sabe muito bem que não quimamos com o sol, nem viramos cinzas.
–Como se passasse imperceptiva com essa palides. Onde estão os outros?
–Léti foi cavalgar. E eu não sei de seu Senhor.
–Affe...eu não quero saber dele. E porque insiste em o tratar assim pra mim. É como se ele mandasse em mim.
–Seja como for, você não pode negar o que ele é.
Suspirei cansada dessa história.
–Anis...- engoli a seco minhas palavras. - Sei que já perguntei tantas outras vezes a vocês...Mas é que..Vocês sempre lembram que Lawrence teve piedade....
–Eu já lhe disse que tens que perguntar isso a ele. Aqui todos sabem tanto quando eu. Quando você surgiu entre nós ... carregada nos braços dele. Ele simplesmente disse: Vale a pena....
–Mas...
–Nos alimentamos de sangue só. Aqui, nós não temos intenções em transformar ninguém. Oras... minhas respostas não vão lhe ajudar em nada. - Ele então fechou o livro e se encaminhou até mim. -Vamos ao lago, pequena!
Puxou minha cabeça até seus lábios, o tocando em minha testa.
Simplesmente aceitei com a cabeça.
No caminho até o lago, Anis não deixou o silêncio reinar entre nós. Falava sobre num sei o que chamado Baraka que tinha muitos significados no marrocos. Algo sobre o livro que lia....E que eu devia aproveitar a eternidade e ler mais.... cada dia novos escritores surgem... e muitos são bons.
Uma coisa era certa, Anis sabia aproveitar bem a eternidade.
Avistamos Léti vindo sorridente de sua cavalgada. O por do sol a deixava ainda mais dourada e radiante, em cima daquele cavalo caramelo. Vestida com calça de montaria e uma camiseta normal preta, era inevitavel naum ver como sua pele branca na luz brilhava.
Ela veio rapido, e com facilidade saltou de seu cavalo.
–Perderam uma cavalgada e tanto!
–Eu não dou muito certo em cima desses animais.
–Nebula é incrível. - Ela dizia ao fazer carinho na cabeça do animal. - E se vira muito bem a noite. É uma pena não poder o transformar.
–Saberia as consequencias? - Anis a advertiu.
–Tadinho, come planta....como iria se alimentar de sangue. -Ela ainda assim o entendeu mas ignorou.
–É um animal irracional.
–Pensa melhor que muitos humanos.
–Vocês não vão caçar? - tentei apaziguar aquele discurso mudando de assunto.
–É logo esta na hora... - Anis observava o sol ir embora .
–Vem conosco?-Léti me perguntou.
–Estou sem animo.... -me fiz de desintendida.
–Bem, teremos que ir a um lugar mais longe...ontem não fizemos certo em os tres caçarem na mesma região, foi arriscado.
Abaixei a cabeça pensativa. E decidi ir embora dali, não queria ouvir sobre caça de humanos.
–Bem...talvez eu beba de algum animal...aqui da floresta. -Triste respondi.
–Desde que não seja meu Nebula... -Léti respondeu ao soltar o animal e ele correr para floresta.
–Nunca teria coragem.