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Capítulo 118
Acordei em uma sala branca.
Cama macia, com um ótimo cheiro no local.
Ao olhar para o lado aos pouco, vi a mãe do Nathaniel e meu pai.
Meu pai me abraçou desesperado.
Eu sentia como se tudo fosse um sonho. . . Tudo parecia confuso.
"Aqui é o hospital de nossa família querida. Se sente melhor ?" Adélaide perguntava.
Eu fiquei calada . . . Ainda estava tentando por meus pensamentos no lugar . . . Eu sentia minha cabeça pesada e sinceramente ? Estava confuso saber o que foi sonho e o que foi real . . .
Infelizmente a pior parte . . . foi pesadelo. E um pesadelo muito real. . .
". . . Cadê minha mãe ?" perguntei.
Meu pai endureceu os ombros na mesma hora . . . Ele estava claramente abalado.
Adélaide ficou em silêncio, sem graça e sem saber o que falar.
". . . Cadê minha mãe . . . ?" Eu voltei a repetir.
E obtive o mesmo resultado.
Ali . . . Caiu minha ficha do quanto aquele pesadelo foi real.
Eu não conseguia lidar . . . Eu não consigo lidar . . .
"Cadê minha mãe ?" Eu repetia já sentindo o desespero tomar conta de mim.
"Boreal . . . Infelizmente sua mã--" no que Adélaide falava eu a interrompi bruscamente.
"CADÊ A MINHA MÃE ?!" eu falava tentando levantar e sentindo uma fisgada forte na barriga, automaticamente eu parei.
"Você deve repousar . . . O dia foi muto tenso. . . " Adélaide dizia.
"EU QUERO A MINHA MÃE ! ME DEVOLVAM ELA !" . . . Eu gritava . . .
"BOREAL ! A LUCIA MORREU !! SÓ ACEITE !" meu pai gritou de uma vez silenciando a sala.
Eu sei que ele está mal . . . Eu sabia que ele estava mal . . . Mas eu retruquei.
Eu gritei de volta.
"PRA VOCÊ POUCO IMPORTA ! VOCÊ NÃO LIGA OLHA ! TÁ FALANDO DA MORTE DELA NATURALMENTE !! VOCÊ TÁ DO LADO DA DIRETORA E DE TODO O RESTO QUE QUERIA PREJUDICAR MINHA MÃE !!" . . . Eu não sei o que me levou a fazer tais acusações mas . . . Eu precisava jogar a culpa em alguém . . . Eu precisava gritar com alguém . . .
E eu escolhi meu pai.
Nessa hora eu ouvi um rosnado forte seguido de latidos ainda mais poderosos . . .
Era o Charlie . . .
Ele parecia nervoso com tudo que falei, com todos os gritos.
Uma enfermeira então entrou correndo perguntando o que acontecia.
"Está tudo sob controle. Fique tranquila." Adélaide dizia.
A enfermeira chamou atenção sobre o cachorro e já estava pra tirar o Charlie.
"Francis sabe do cachorro e permitiu a entrada dele. Está tudo sob controle querida. Pode se retirar." Adélaide falava educadamente enquanto a enfermeira se retirava assustada.
"Deixarei vocês sozinhos . . . Por favor, se acalmem. E repousem." Adélaide então saiu com Charlie do quarto me deixando sozinha com meu pai.
Eu comecei a chorar na mesma hora que ela saiu.
Minha mente . . . Está tão confusa.
Tão cheia de sentimentos diferentes . . . Eu nunca pensei que . . . Perderia minha mãe.
Meu pai então me abraçou.
Eu estava dura mas relaxei e comecei a chorar ainda mais.
Não falamos nada, só ficamos abraçados . . .
Eu precisava disso, e acredito que meu pai também precisasse . . .
Ficamos em longo silêncio.
O clima fúnebre cercava o local.
Com grande dificuldade e demora eu me acalmei aos poucos.
"Desculpe pai . . . Falei coisas horríveis de novo . . . " falei deprimida.
"Tudo bem Boreal . . . Sua mente deve estar pior que a minha . . . " ele falava gentilmente e choroso.
"Pai . . . Onde está minha mãe ?" perguntei.
"Ela . . . morr--"
"O corpo dela . . . Onde ele está . . . ?" perguntei tremendo enquanto interrompia meu pai que claramente achou que eu estava perguntando sobre "ela viva".
"Lucia . . . Está no necrotério do hospital.
Os pais do Nathaniel tiraram o corpo dela apressadamente após seu desmaio . . . " ele dizia.
Ali começou a vir na minha mente toda a cena . . . Estava mais claro.
Ali eu lembrei que o Nathaniel falou na frente de todos sobre meu filho . . .
Meu pai descobriu da pior forma . . .
E minha mãe . . . Encobriu até o fim . . .
A porta então foi aberta . . . Era o Charlie.
Ele voltou a entrar, mas dessa vez se deitou em silêncio do lado de minha cama.
"Ele . . . Está bem abalado com tudo . . ." Meu pai dizia acariciando a cabeça do Charlie, que não rosnava, não latia, não fazia nada.
Eu então decidi falar sobre o tal assunto polêmico que eu vinha escondendo . . .
"Pai . . . Eu sei que não é o melhor momento mas . . . Eu to gravida do Nathaniel a algum tempo . . . Desculpa escolher um momento desse pra falar, mas . . . Não quero mais guardar segredos de você. Eu contei pra minha mãe e---" Eu falei sendo interrompida por um abraço gentil de meu pai.
"Tá tudo bem . . . Nathaniel e Armin me explicaram tudo.Nós vamos cuidar muito bem do seu filho. É isso que sua mãe iria querer fazer." meu pai dizia.
"Eu . . . Não sei o que dizer . . . Eu não esperava por isso . . . Eu pensei que fosse brigar comigo . . . E . . . "
"Boreal . . . Eu brigo contigo porque me preocupo. Quero o melhor pra você. . .
E . . . Eu não quero que pense que eu sou um monstro ou que ficaria com raiva de você por estar grávida.
Confesso que em outra situação talvez eu ficasse um pouco mais exaltado, mas iria passar.
Eu fico feliz que você está cercada de gente que se preocupa contigo.
E essa criança parece que terá muita sorte por conviver com seus amigos. Eles são todos muito prestativos e se importam cada um do seu jeito com o bem estar um do outro.
Sei que fui ausente, é que eu não sabia como reagir a tudo que acontecia. E eu sabia que vocês estavam dando o melhor pra corrigir as coisas.
Só me restava acalmar a Lucia quanto a sua situação . . . mas . . . Quero compensar minha ausência . . . " meu pai sorria gentilmente apesar de melancólico enquanto alisava meu cabelo e retirava algumas mechas caídas no meu rosto.
Charlie se mantinha do nosso lado em silêncio.
Sem rosnar . . . .
Ele estava deprimido, MUITO deprimido . . .
Me atrevo a dizer que parecia estar pior do que quanto o Castiel morreu.
Ele não se mexia, não comia, não fazia nada.
Meu pai e ele ficaram juntos por horas na sala, e inclusive, meu pai fez carinho nele sem levar rosnadas e coisas do gênero.
"De onde vem o nome da minha mãe . . . ?" Perguntei repentinamente.
Meu pai parecia triste mas ele estava mais sorridente.
"Ela me disse que viu uma atriz com esse nome, Lucia Bose. Ela dizia que a primeira coisa que ela assistiu aqui na terra foi um filme dessa mulher, e dai tirou a ideia. . ." eu nunca havia questionado os nomes, eu sempre esquecia que eram nomes criados pra usarmos na Terra. . .
"E o meu . . . ? Você sabe ?" perguntei encolhendo a perna.
"Lucia me contou tudo . . . Você estava literalmente brincando com o Kentin enquanto decidiam seu nome e sua vida.
De repente, você foi até ela com o Kentin falando vários nomes dizendo ser o seu nome. Todos eles retirados de quadrinhos que o Kentin havia te mostrado.
No fim, ela não sabia bem sobre essas coisa de origem, nacionalidades e afins e deixou você, uma criança, escolher seu próprio nome baseado em mangás. Sua mente ainda estava confusa após apagarem todas as suas memórias. Então foi fácil camuflar." ao ouvir aquilo . . . Eu não pude evitar de rir.
Como eu não lembrava disso ?
É engraçado pensar na situação . . . E triste lembrar que era uma situação que eu estava com minha mãe. . .
"Que idiota . . . " Eu ri de leve.
De repente bateram na porta, meu pai perguntou se podia permitir que entrassem e eu confirmei com a cabeça enquanto ele mandava a pessoa entrar.
Era o Armin, Azriel, Ambre e Dajan.
"Que bom que acordou." Ambre falava vindo até mim.
"Sim . . . Obrigada por virem." eu me calei e olhei pros lados.
Armin estava calado e ele parecia perdido nos próprios pensamentos.
"Afinal . . .o que aconteceu comigo ?" perguntei.
"Você quase sofreu um aborto espontâneo." Azriel dizia.
"COMO ASSIM ?! EU IA PERDER MEU FILHO ?!"
"Por conta de todo estresse que você passou, sim. Seria totalmente plausível, na verdade, era pra ter sofrido o aborto, porém, a bactéria que injetei mais cedo provavelmente afetou o bebê. E consequentemente ele resistiu a um aborto espontâneo." Dajan completava.
"A maior surpresa pra mim foi saber que estava grávida . . . " Ambre dizia rindo.
Eu então olhei um pouco triste pro Armin . . . Eu não saia o quanto foi dito sobre o bebe então tive medo de falar.
"Bem, o que importa é que você esteja bem não é mesmo ?" Azriel sorria.
Armin . . . Não falava nada.
Continuava quieto e aparentemente muito pensativo.
"Onde estão os outros . . . ?" perguntei.
"Dake está no outro quarto com Castiel, Nathaniel, Alexy e Lysandre. Os demais pais e alunos foram todos despachados. . . Maior parte sem memória." Azriel respondia.
"Dake ? Ele tá bem ??" falei levantando o corpo de uma vez.
"Sim . . . A operação ocorreu bem . . . Agora só resta a adaptação né . . ." Ambre respondia.
". . . Operação ? Adaptação ??"
". . . Dakota teve o braço amputado . . . " Armin finalmente falou algo.
Eu na mesma hora levantei da cama.
Eu precisava ver o Dake . . . Era inacreditável pra mim.
"Você tem que repousar Boreal !" Ambre dizia me direcionando a cama.
"Eu preciso ver o Dake ! ME levem no quarto dele." Armin só respondeu um "tá" e começou a me guiar.
"ARMIN ?! ELA PRECISA REPOUSAR !" Ambre gritava.
"Acha mesmo que vai adiantar ficar impedindo ela ? Ela vi e pronto. . . Se tem uma coisa que aprendi sobre a Boreal é que ela vai fazer se ela quiser fazer." Armin então me levou do quarto calmamente até o quarto do Dake.
O Azriel no caminho parou pra falar com a Bia que estava no fim do corredor chamando e acenando.
Ele pediu licença e foi a encontro da Bia.
Chegando no quarto, minha primeira visão foi o Dake . . .
E ele estava sem o braço . . .
"D-Dake . . . ?" eu já estava chocada com tudo . . . Depois de ver ele sem braço, eu fiquei mais apavorada.
"É . . .Parece que demorei muito pra ir no médico né ?" Dake ria normalmente.
"Como você pode rir ?! PORRA TU TÁ SEM O BRAÇO !! JÁ FALEI PRA PARAR DE RIR DISSO !" Castiel gritava.
". . . Pelo menos é um braço. . . O máximo que vou ter que fazer é aprender a escrever com o outro braço. Antes eu tinha chance de perder a vida pro meu tio . . . Aqui no hospital foi a primeira vez que eu dormi bem na minha vida.
Quando eu morava com meus pais eu dormia mal todo dia com as brigas deles ou com medo de alguém entrar pra cobrar eles por alguma coisa envolvendo trafico e todos fossem mortos.
Quando fui morar com meu tio eu dormia mal todo dia pois não sabia quando ele ia decidir vir abusar de mim . . . Depois que cresci pensei que ia tudo melhorar mas ele passou a me bater se eu fosse de contra . . .
Por isso ele quebrou meu braço, pra me manter sobre controle . . . Ele não sabia que eu ia me rebelar tanto . . . E ele sempre me viu como o moleque medroso e burro . . .
Eu assumo, eu não sou muito esperto apesar de ser mais esperto que o Castiel . . . E sou medroso quando o assunto é meu tio. . . Mas . . . Ver vocês agindo contra coisas piores e mais influentes me deu um pouco de coragem." Dake dizia.
"MAIS ESPERTO QUE EU ? VAI SE FODER !" Castiel gritava.
"Você estaria fazendo piada com falta de braço e ainda por cima ia usar o braço arrancado pra jogar nos outros e coçar as costas Castiel. Cala a boca." Ambre falava estressada.
"VAI SE FODER TAMBÉM ! EU NÃO TO FAZENDO NADA DEMAIS ! MAS VOCÊS TEM QUE IMPLICAR COMIGO PORRA ! NÃO RECLAMEM DEPOIS." Castiel então se sentou num banco ali perto.
Eu então fui até o Dake e abracei ele.
A vontade de chorar tomou conta de mim.
"Desculpa Dake . . . É culpa minha . . . " eu falava chorando.
Dake me abraçou de volta.
"Do que você tá falando ?! Você me salvou !!" Dake dizia.
"Deixa de ser idiota ! Se tudo acontece com vocês é culpa do meu magnetismo e--"
"Meu tio sempre me espancou. Eu sempre tive uma vida complicada desde criança,e eu não morava sequer perto de você.
E posso te garantir que conheci muita criança com problemas até piores que os meus . . . E essas crianças não te conheciam e não conhecem.
Então . . . Não tem nada a ver contigo.
Na verdade eu me considero sortudo. Como sempre digo: Quem sabe ao invés de perder um braço eu não tivesse perdido a vida ?
Te conhecer me fez conhecer o Nathaniel, o Armin, até o ruivo viado do Castiel e o cara de hamster ali. E vocês todos me ajudaram. Então se culpa pelas coisas boas também já que quer se culpar pelas coisas ruins o tempo todo." Dake falava com muita calma.
"Você . . . Tá calmo demais pra uma pessoa que perdeu um braço." eu falei chorosa.
". . . Eu to realmente feliz que me livrei do meu tio. Não ligo se o preço foi um braço." Dake dizia.
"Se livrou ?" O que ele quis dizer ?
"A organização de controle alienígena conseguiu pegar alguns dos responsáveis pelo colégio.
Aparentemente eles fecharam um acordo com pessoas de fora da organização, organizações mundiais e mais potentes para conseguir maior acesso a permissões.
Boris foi um dos professores levados pra investigação." Nathaniel dizia.
"O mais importante é que não descubram nenhum segredo grave nosso. Isso poderia complicar muito nossos planos e ainda mais a vida de todos aqui . . . " Lysandre dizia.
"Acredito que não vá acontecer nada. Eles disseram que estão todos mortos, e bem, na lógica não teria como ler uma mente morta certo ?" Ambre dizia.
"Eles leram a mente do Azriel mesmo ele estando morto. Então acho que seu argumento não valeu de nada querida." Alexy respondia.
E falando no diabo, Azriel entrou na sala com Bia.
"Bia ?" todos expressaram assustados.
"Eu . . . Expliquei algumas coisas pra ela. Ela fez questão de vir aqui ver vocês . . . " Azriel respondia.
"D-Desculpa . . . Eu precisava ver se estava tudo bem." Bia dizia.
"Ah tá sim. Obrigado pela preocupação." Dake dizia sorridente.
"E sua mãe ?" Armin perguntou para Bia.
"Ah . . . Ela parece ter esquecido tudo que aconteceu no evento, mas está bem . . . Graças aos pais do Nathaniel. Aliás, obrigada pela assistência." Bia então se curvou agradecendo.
Bia encarava o Dajan sem parar.
E todos estávamos assustados olhando pra ela e tensos.
Ninguém sabia como reagir.
". . . É impressionante . . . Minha mãe se assustaria ao ver o corpo do meu tio andando saudável e vivo por aqui . . . " Bia dizia.
"Vejo que já sabe que não sou seu tio né." Dajan respondia.
"De certa forma . . . Talvez." Bia respondia.
"O quanto você falou pra ela Azriel ?" Armin perguntou.
"Eu falei sobre eu ser o Dylan, sobre ele ser o Dajan, expliquei por alto dos rituais . . . Ela está muito envolvida, eu não poderia deixar que Bia se arriscasse ainda mais tentando entender tudo. Até porque pode acabar sobrando pra ela." Azriel respondia.
"Está correto em faze-lo. A situação atual requer atenção e cuidado da parte de todos os envolvidos. E Bia me pareceu de confiança por toda convivência que venho tendo." Lysandre respondia.
"Eu . . . Tive muito tempo pra pensar em quanto estava trancada naquele armário. Os gritos, as coisas acontecendo . . .É tudo tão louco e inacreditável e ao mesmo tempo parece que tudo tem lógica e sentido. É muito confuso . . . E eu entendo o porque de manterem segredo.
Ouvir aqueles tiros e gritos me fez concluir ainda mais que onde estava pisando era perigoso." Bias falava pensativa.
"Os tiros foi eu . . . Eu estava tentando afastar meu tio . . .
Infelizmente os tiros não fizeram nem cocegas do meu tio e . . . Ele me pegou.
Por sorte o Armin passou na hora no local e começaram a ter uma discussão verbal onde ele conseguiu convencer meu tio de me soltar.
Mas claro que ele não confiou no Armin." Dake dizia.
"Muita coisa que falei foi blefe. O que importa é que ele caiu, ou pelo menos fingiu que caiu" Armin completava.
"Eu vi o garoto jardineiro jogar a Ambre, Boreal-sama e Rosalya no buraco e corri . . . Depois de resgatar as meninas no buraco, elas falaram que o zelador antigo tinha jogado elas lá dentro . . . Porque o zelador faria isso ?? Ele estava junto com a diretora ?" a Bia falava.
"Pelo que eu sei através do meu tio . . . O zelador antigo era considerado um traidor.
Ele falou que ia voltar e nunca voltou porque a diretora não quis dar a vaga de volta a ele.
Inclusive o Jade entrou como jardineiro porque ele era filho do zelador que insistiu bastante pra diretora contratar ele.
No fim ela demitiu ambos. No caso do Jade ela dizia sobre um tal tráfico mas . . . Todos sabemos que não tem nada a ver com ele ter sido acusado de traficar drogas." Dake falava.
"Então . . . O zelador queria ajudar ?" Ambre dizia.
"Assim como o Jade." Armin completou.
"Eles claramente tentaram manter as meninas do buraco em segurança. Isso é notável." Nathaniel comentou em seguida enquanto parecia pensativo.
Bia então com olhar muito pensativo e triste falou da minha mãe.
". . . Desculpe tocar nesse assunto . . . Eu não pretendia mas . .. É inevitável . . .
Porque . . . Mataram a . . . " ela parou e respirou fundo enquanto olhava pra mim, que por reação automática só virei o rosto.
"OK . . . Vou simplificar a explicação da Debrah pros que não entenderam e pra poder te explicar tudo Bia.
A Boreal e sua mãe são de outra dimensão. Elas "puxam" tudo da outra dimensão para essa.
Literalmente são um ímã de bizarrices e paranormalidades.
Agora vamos a explicação desse fenômeno . . . " Armin então pegou um caderninho e uma caneta que estava na mesa ao lado do Dake.
"Pegue um caderno de pauta comum.
Nesse caderno tem varias linhas certo ?
Imagine que cada linha é uma linha temporal diferente e cada folha uma dimensão diferente.
Durante uma viagem temporal você pode trocar de linha, cada linha tem seu destino, sua reta.
Digamos que o Nathaniel estava no fim da linha 2 da folha 2 do caderno, onde ele nasceu no caso, e quando ele usou a maquina ele passou pro inicio da linha 1 da folha 2.
Ao fazer isso ele mudou de linha temporal E DE TEMPO. Afinal, ele foi pro INICIO da linha 1 quando ele estava no FINAL da linha 2.
Ele não só trocou de linha temporal como trocou de "tempo".
Aqui entendemos como funciona linhas temporais. Certo ?" Armin pausou a explicação e olhou pra todos na sala que prestavam atenção em sua explicação.
Castiel então levantou a mão.
"Fala Castiel." Armin questionava.
"Como faz pra mudar a linha se ela já é reta ? Essas porra de maquina e tudo mais." Castiel perguntou algo interessante até.
"Eu ainda não entendi bem essa parte.
Mas eu tenho duas teorias . . .
A primeira é que mesmo com alteração a linha é reta e destinada a "ser aquilo mesmo". Ou seja, achamos que estamos controlando e mudando os acontecimentos mas na verdade eles são constantes e só "mudamos" de linha ao fazer essas mudanças.
Mas também pensei na possibilidade de que a maquina possa servir de caneta . . . E assim eu riscar um novo caminho a partir de qualquer momento da linha, assim, super lotando o espaçamento entre uma linha pra outra." Armin então traçou uma linha com a caneta do meio de uma das linhas do caderno e criando outra por cima . . .
"Tecnicamente, linhas temporais são dimensões. Então isso ficou confuso pra mim." Bia falava.
"Então agora vamos pro ponto da Boreal, explicação de seu magnetismo sobrenatural e o mais importante de tudo pra matar suas dúvidas: Dimensões.
A Boreal e sua mãe não são da folha 2, elas são da folha 1 do caderno, ou seja, outra dimensão." Armin então pegou a folha 1 e colocou sobre a folha 2 do caderno.
"Não tem como mudar de folha, cada folha é isolada uma da outra e cada uma tem suas própria linhas temporais e eventos, por isso o planeta da Boreal não é encontrado. Ele existe na folha 1, não na folha 2. Ele tem suas próprias linhas e historia.
O ponto é: Alguma coisa furou a folha 1 abrindo um buraco que desse pra ver a folha 2." Armin então pegou a ponta da caneta e fez um pequeno furo na folha 1, assim, dando pra ver a folha 2.
"Por esse pequeno buraco a Boreal e sua mãe passaram pra folha 2 e agora por elas não pertencerem a folha 2 constantemente elas atraem coisas estranhas pra tentar por tudo nos eixos, elas atraem coisas da folha 1, da dimensão delas, pra folha 2, a nossa dimensão.
Cada vez mais esse buraco fica maior por conta da confusão feita e da pra ver mais a folha 2 e menos a folha 1.
O buraco provavelmente está enorme já, e por isso a frequência de coisas que acontecem tem aumentado TANTO." Armin explicava aumentando ainda mais o buraco com a caneta aos poucos.
"E porque a diretora queria acesso a esse "buraco" ? Tem algo que ela quer da outra dimensão ?" Bia perguntava.
"Sim. Poder.
Como as realidades estão confusas e tentando se encontrar pra evitar o pior, passou a existir certas paranormalidades na folha 2 que não existiam. Tudo faz parte da realidade tentando coexistir com a outra folha que está se rasgando.
A diretora acelerou o processo.
Ao realizar o ritual com uma das pessoas da outra dimensão ela automaticamente abriu ainda mais o buraco e agora, não sei como, ela parece ter maior controle de tudo. Ainda preciso pesquisar mais a respeito . . ."
Dake então começou a gemer de dor repentinamente.
"Dor fantasma ? Já ?" Nathaniel dizia indo até o Dake.
"Acho que sim . . . de novo . . ." Dake falava rindo e parecia sentir dor.
Nathaniel então pediu pra que chamássemos a enfermeira e pediu pra que nos retirássemos.
Todos saíram do quarto.
Meu pai estava conversando com a Adélaide no corredor.
"Eu vou pra casa agora . . . Amanhã volto pra falar com vocês." Castiel dizia.
"Vou também . . . Preciso ver se tá tudo bem com o Leigh já que a Rosa reapareceu." Lysandre dizia.
"Waaah queria ir com você Lys." Azriel falou fazendo manha pra cima do Lysandre.
"E eu não quero que você vá." Lysandre falou friamente.
"Nossa Lys é tão malvado comigo !" Azriel falava ainda mais manhoso.
Era engraçado . . .
Eu mal falei com todos, só fui pro meu quarto.
Bia então veio ate mim correndo e me deu um abraço.
"Vai ficar tudo bem tá ?" ela dizia com aquela voz fofa dela . . .
Eu queria ter tido força pra abraçar ela de volta . . . Mas eu não conseguia . . .
Eu me sentia . . . Sem força.
Eu me sinto sem energia alguma . . .
Levaram uma parte de mim . . .
Eu então entrei de volta pro meu quarto e me deitei.
Sentia um pouco de dor ainda, mas nada me incomodava tanto quanto meus próprios pensamentos . . .
Armin entrou em seguida.
Ele foi silencioso.
Entrou e se sentou do lado da minha cama.
Ele então colocou uma caixa de chocolate no meu colo.
"Feliz aniversario." Ele dizia.
Eu puxei a mão do Armin e a caixa pra baixo do cobertor e fiquei encolhida.
Nem lembrava que era meu aniversario . . .
"Melhor presente de aniversario . . . Obrigada mãe" falei chorando.
Armin apertou minha mão antes de encostar a cabeça em mim.
Fiquei lá, chorando até dormir.
Armin estava bem silencioso, só acariciava meu cabelo volta e meia.
Eu apaguei totalmente . . .
Na manhã seguinte . . . Era bem cedo quando fui acordada repentinamente.
Era o Azriel.
Ele estava muito inquieto na porta do meu quarto.
"O que houve ??" Perguntei assustada e ainda muito sonolenta.
Armin estava falando com ele na porta.
"Eu . . . Estava me retirando." Azriel dizia inquieto.
". . . Tá . . . Mas parece que viu um fantasma, está mais pálido que o normal. O que aconteceu ?" perguntei.
Armin olhava pra ele e ele encarava de volta.
"Armin . . . Você me prometeu não esconder nada." falei já irritada.
". . . E não pretendo . . . Mas . . . Esperava um momento melhor pra dar noticias, só isso." Armin falava inquieto.
". . . Fale logo . . . " eu sabia que não tinha como ficar pior.
"Eu não sei bem o que aconteceu . . . Ontem a noite eu vi o Charlie na rua quando estava levando a Bia pra casa dela.
Ele . . . estava com a diretora.
Ela discutia com ele.
Ela falava coisas tipo "é uma pena que você não possa responder" e debochava dele constantemente.
Charlie mordeu ele e tudo mais . . .
Então . . . A diretora falou algo que . . . eu precisava falar.
Mal dormi.
Nathaniel falou pra eu esperar o dia seguinte . . . E--"
Eu estava impaciente e gritei com ele pra ele continuar a falar . . .
Eu me sinto péssima . . . Com tudo.
Minhas atitudes, com as de todos, com tudo . . .
". . . Ela falou pro Charlie que é graças a ele que a dona Boreal está morta.
Que ele foi o estopim pro portal que liga as duas dimensões ter se aberto.
Ele mordia muito ela.
Até que . . . Ela falou algo como "como se sente de ver sua filha sendo criada por um homem que sua esposa escolheu em outra dimensão." então ele começou a latir forte . . . "
Quando o Azriel falou isso eu fiquei confusa . . . Como assim . . . Filha ? Esposa . . . ?
. . . Charlie ??
"Pera . . . Como assim . . . Charlie ? Eu filha dele . . . ? Você quer dizer que . . . "
"A alma no corpo do Charlie ? Qual foi colocada ? Sim . . .
Foi seu pai Boreal . . . Desculpa dar essa noticia assim . . . Deve ser chocante mas . . . Eu precisava falar a verdade sobre seu pai, só não sabia como te contar sem te deixar abalada, principalmente depois de tudo que vem acontecendo . . ." Azriel falava claramente triste com a noticia que tinha acabado de me dar.
"Como assim . . . Meu pai ??? Eu . . . Não acredito . . . " sabe . . . meu mundo parece que a cada segundo que passa desaba mais.
Eu . . . Não sei como eu to em pé . . . Na verdade . . . Eu não to em pé faz tempo. O Armin tá me arrastando.
"Meu pai . . . Meu pai biológico . . . Tá no corpo do Charlie ?" eu falei espantada.
". . . Sim . . . E aparentemente ele teve influencia de alguma forma com o fato de você e sua mãe terem sido sugadas pra Terra . . . " Azriel dizia sem graça.
As atitudes do Charlie com minha mãe começaram a fazer sentido.
O porque dele ter me tratado bem tão rápido também . . .
"Minha mãe morreu . . .
Meu pai biológico está preso em um cachorro zumbi demoníaco . . .
Todos ao meu redor estão cada vez piores . . .
Quando minha vida se tornou isso . . . ?" eu falei frustrada.
"Ele continua sendo o Charlie Boreal. . . " Armin dizia.
"NÃO É SIMPLES ASSIM ! ELE . . . É MEU PAI ! PRESO EM UM CACHORRO !!
OLHA QUE FRASE RIDÍCULA DE SER DITA !
MEU PAI ESTÁ PRESO EM UM CACHORRO !!
. . . Meu pai . . . Comeu cadáveres pra ajudar o Castiel . . .
O que ele está passando esse tempo todo por minha causa ??
O QUE EU TO FAZENDO TODO MUNDO PASSAR ?!
SE EU NÃO EXISTISSE NÃO IA TER ESSES RITUAIS !" eu gritava.
Armin me segurou firme.
"Boreal ! Você ouviu a parte de que aparentemente ele teve culpa ??"
"SE TIVESSE COMO EU VOLTAR PRA ONDE EU VIM ! COMO EU MORRER !! QUALQUER COISA !! EU . . . NÃO POSSO CONTINUAR TRAZENDO TANTA COISA NEGATIVA PRA VOCÊS !!" eu gritava.
A vida de todos que amo está cada vez pior . . . Eu não posso simplesmente olhar esse caos, saber que eu sou a causa e virar as costas.
"Boreal não começa com essa ideia de novo . . . Isso vai fazer mal, você vai passar mal de novo. E não sabemos se você e o bebê vão suportar a outra tentativa de aborto espontâneo vinda do seu corpo." Armin falava.
"TODO MUNDO TÁ MORRENDO ! SE EU E MEU FILHO MORRERMOS QUE DIFERENÇA FAZ ?? AH ! TODA !
PORQUE NÃO VAI TER UM ÍMÃ NA TERRA PRA TRAZER COISAS NEGATIVAS." Armin me segurava com força.
A enfermeira entrou repentinamente e viu o caos.
Ela então me deu um sedativo em meio a confusão . . .
Tudo apagou . . .
Sabe . . . São muitas informações . . .
Eu sei que já tive muita informação bizarra na minha vida . . .
Mas, meu copo estava cheio. Ele tava transbordando já . . .
Acumulou tudo.
A minha mãe . . . Quebrou o copo completamente, e agora não consigo mais segurar noticia nenhuma . . .
Vi gente morrer, matei pra viver, vi gente sofrer muito, vi pessoa vir de outra linha só pra me manter viva, soube que o futuro tem uma doença que se assemelha a que matou meu pai, minha mãe morreu . . .
É muita coisa . . .
Eu . . . Não consigo mais suportar . . .
Sinceramente ? Não quero mais escrever . . .
Pra mim já chega . . .
"Ele" que escreveu no meu diário pedindo pra que eu anotasse tudo . . . Eu estou desistindo.
Pra mim já Chega.
Escrever só me faz remoer mais tudo isso . . . Eu não tocarei mais nesse diário . . .
. . . Até porque morto não escreve . . .
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