28. The one that got away
Caminhei cerca de trinta minutos até chegar em casa. Quando entrei meus pais haviam acabado de acordar e estranharam o fato de eu já estar lá.
— E você acordou cedo por quê? – Minha mãe perguntou depois que eu menti dizendo que havia ido embora pra eles não terem que ir me buscar.
— Eu mal dormi, na verdade. – Menti novamente. – Cheguei bem tarde e aí a gente ficou conversando, estávamos sem sono.
— Hum. Chegaram que horas?
— Umas cinco, por aí. – Falei me afastando.
— Nossa senhora hein! E como foi a festa?
— Legal, mãe... – Respondi enquanto subia as escadas.
Entrei pro quarto e fui direto pra cama. Me joguei na mesma e ali fiquei por longos minutos.
Não demorou pra Alícia invadir minha mente. A noite passada, o momento em que nós ficamos — ou melhor, o momento em que eu a beijei — ficou rodando na minha cabeça como um carrossel. Eu não podia negar que havia gostado do beijo dela, e muito menos que havia gostado da maneira como ela cuidou de mim. Qual é! Nem minhas amigas me levaram pra casa delas e aí vem uma completa "desconhecida" e faz isso? Ela era mesmo um amor.
Não me lembro quando foi que eu peguei no sono, mas acordei com meu celular vibrando debaixo do travesseiro. Minha cabeça ainda doía, um sinal de que a ressaca naquele dia ia ser de matar.
— Alô... – Atendi ainda com voz de sono e sem vontade nenhuma de falar.
— Onde você está, Luna? – A voz estridente da Carol ecoou do outro lado da linha.
— Em casa.
— Você foi pra casa daquela garota? A... Como é mesmo o nome dela?
— Alícia. E fui sim, por quê?
— Dá onde você conhece ela?
— Ela é amiga do Gabriel.
— Ah, menos mal. E você foi embora como?
— Andando. Vim mais cedo antes que meus pais fossem me buscar aí.
— Falei pros meus que você foi embora cedinho por que não estava se sentindo muito bem. Fiz certo?
— Fez. Obrigada.
— Desculpa não ter te trago pra cá ontem, você sabe como minha mãe é.
— Sei sim, relaxa. – Falei. – Vou desligar agora, tá? Minha cabeça tá explodindo.
— Tá bom cachaceira. – Ela riu. – Depois a gente conversa, beijo!
— Beijo, tchau.
Desliguei a chamada e no visor marcavam 10:15. Bloqueei o celular novamente e cochilei um pouco mais, até 11:30, quando levantei e fui tomar um banho.
A dor de cabeça havia passado um pouco, mas infelizmente ainda doía. Durante a tarde, quando meus pais saíram, tomei mais um comprimido e fiquei na sala vendo tv, eu não estava com ânimo pra nada, só queria que meu estômago e minha cabeça parassem de doer logo. O estômago principalmente, já que ele não estava me permitindo comer nada, e quando eu comia, ele jogava tudo fora de novo.
Na quarta-feira Marina e o resto do pessoal me convenceram a ir tomar açaí com eles, então vesti um short de tecido azul marinho com alguns detalhes num tom de azul mais claro e uma camiseta larguinha também azul. Calcei um par de havaianas pretas, fiz uma maquiagem leve, coloquei alguns acessórios — anéis, colar e brincos — e peguei uma bolsa com o resto das minhas coisas.
Saí de casa e caminhei lentamente até uma praça que havia ali perto de casa, quando cheguei já estavam todos lá.
— Aleluia! Tô louca pra tomar meu açaí e você fazendo hora. – Rafaela brincou.
— Pode ir fofinha, não pedi pra você me esperar. – Brinquei e todos riram enquanto ela fingia estar ofendida.
Abracei todo mundo e fomos para a sorveteria. Depois de pedirmos nos sentamos em uma mesa no segundo andar e ficamos conversando sobre coisas bobas.
— E que festa foi essa que vocês duas foram? – Lucas perguntou se referindo a festa que Carol e eu fomos.
— Na casa de um amigo meu.
— Que amigo é esse que a gente não conhece? – Marina perguntou.
— Não conhecem mesmo não. – Ela riu. – Ele é amigo de um ex meu, a gente sempre conversa, aí ele me chamou pra ir. Só não chamei vocês por que a Mari e a Lu já foram comigo. Eu não ia levar o bonde todo sendo que ele nem conhece vocês né?
— Eu não me importaria de ir. – Marina disse. – Tendo bebida de graça eu tô indo. – E riu.
— A Luna encheu a cara, vocês precisavam ver. – Carol riu.
— Ai, nem me lembre. – Revirei os olhos.
Eu não queria lembrar que bebi demais e muito menos do motivo que me fez beber demais. Só queria esquecer aquela cena e aquele idiota do Gabriel.
— Quando tá com a gente ela quase não bebe né. Duas Skol Beats e já tá querendo parar. – Lucas disse.
— Pois é! – Concordou Carol. – Ela juntou com uma menina lá e bebeu todas. Só vi ela no final da festa.
— Que menina? – Luc perguntou de novo.
— Eu não teria me juntado a ela se você não tivesse me largado pra ficar com aquele cara e se a Mariana não tivesse sumido de vista. – Falei. – E é uma conhecida minha, amiga do idiota. Alícia.
— Nunca vi. – Ele disse. – Mora por aqui?
— No canal um.
— É uma que passou na frente da pousada no dia da nossa formatura? – Marina perguntou.
— Sim, ela mesma! – Assenti.
— Nunca vi essa menina também. – Disse. – Quantos anos ela tem? Onde ela estuda?
— Gente... Eu não tenho a ficha da menina não. – Ri. – Se falei com ela quatro vezes foi muito. Mas acho que ela tem uns dezesseis anos, e não sei onde estuda.
— Apresenta. – Lucas disse com malícia.
Olha amigo, eu acho que ela não joga no teu time não...
Tive vontade de rir, mas segurei e apenas balancei a cabeça deixando um sorriso escapar.
— Apresento, uai. Vamos ver. – E deixei uma risada escapar.
Ficamos ali mais um tempo, até terminarmos nosso açaí, e depois voltamos para a praça. Quando chegamos lá tinha um grupo de conhecidos nossos sentados em um dos bancos e fomos até lá cumprimenta-los.
— Aí, aproveitando que vocês tão aqui, vai ter resenha lá em casa sábado, vocês sabem onde eu moro, apareçam lá, só levar bebida. – Maria Clara, uma das garotas que estavam no grupo, disse.
— Já estou lá, sou sua vizinha mesmo. – Rafaela disse.
— Se der eu vou também. – Falei.
— Vão mesmo, vai ser legal. – Ela sorriu.
Ficamos ali por mais um tempo e depois fomos nos sentar num outro banco. No tempo que ficamos lá, um dos garotos, Luiz eu acho, não tirava os olhos de mim, e aquilo estava me incomodando. Ele já havia pedido pra ficar comigo no início do ano, quando nos vimos pela primeira vez, e eu não quis, e pelo visto ele ainda estava interessado. Não, meu amor!
— Vocês animam ir pra casa de Maria sábado? – Carol perguntou.
— Eu até que animo. – Falei.
— Meu irmão deve ir, então eu provavelmente vou com ele. – Disse Marina.
— Vamos todos então. – Lucas falou.
E ficou combinado que nós iríamos.
Voltamos para casa no fim da tarde e quando cheguei me deparei com uma mensagem do Gabriel.
— Você está de brincadeira, né? Caralho! Mais cara de pau impossível! – Falei comigo mesma enquanto olhava pra mensagem que dizia:
“Ei, você sumiu, gatinha. Tá fugindo de mim? Espero que não! Precisamos conversar e resolver aquele nosso lance, ainda sinto sua falta. Te amo.”
— CARA DE PAU, IDIOTA, BABACA, IMBECIL, ESCROTO!!!! – Gritei para o celular na esperança de que, de alguma forma o Gabriel escutasse, lá da casa dele, ou onde quer que ele estivesse.
Não, ele não me viu naquela festa, ele não fazia ideia de que eu tinha o visto com aquela garota e depois que eu desci com a Alícia, fui eu quem não o vi mais. Certamente tinha ido embora pra comer aquela piranha em algum canto mais reservado. Mas tudo bem, foi melhor, se eu os visse, no estado em que estava - ultra bêbada, eu com certeza faria alguma merda.
Visualizei a mensagem e não respondi. Apaguei a conversa e bloqueei o celular. Em seguida fui para o banheiro e tomei um banho relaxante, depois daquela mensagem eu estava precisando relaxar.
E como se já não bastasse, comecei a pensar na Alícia.
Que caralhos estava acontecendo comigo? “Ela é uma garota, Luna!” eu repetia pra mim mesma o tempo todo. Mas era difícil não me lembrar do nosso beijo, da forma como ela cuidou de mim, dos braços dela, do cheiro...
— Chega! – Falei alto e me arrependi assim que minha mãe, lá da cozinha, perguntou com quem eu estava falando. – Pensei alto, mãe. – Falei. E não menti.
Depois daquilo decidi encerrar o banho e ir para o meu quarto me distrair com alguma coisa. Resolvi assistir um filme, e o deixei carregando enquanto fui a cozinha comer alguma coisa, depois voltei para o quarto e dei play. O filme era uma comédia das boas, e me ajudou a esquecer um pouco as coisas.