Décimo primeiro capítulo - Minha caminhada da vergonha
Arthur: Bom dia Margô, tudo bem?
Bia: Margô, quarta-feira vai ter churrasco em casa. Não consegui te avisar antes porque quando fui na sua casa você não estava. Não venha com desculpas, você vai comparecer. Beijos.
Já era meio dia e qualquer coisa quando eu acordei, ou seja, estava tecnicamente atrasada para o churrasco da Bia.
Sabia que provavelmente encontraria muita gente que não conheço, o que me deixava levemente desanimada, mas tudo bem, meus amigos também estariam lá e eu daria um jeito de me distrair.
Depois de ficar um tempo deitada olhando para o teto do meu quarto, que estava escuro porque eu ainda não tinha me dado o trabalho nem de empurrar a cortina, levantei e tomei banho. Ao sair do banheiro ouvi o interfone tocar, mas o ignorei.
- Margô, é a Rafaela que está aqui! – berrou a minha mãe - Manda subir! – respondi.
Absorvi a informação e continuei dentro do meu quarto me arrumando. Em vinte minutos estava pronta, mas ainda não tinha visto quem estava na sala do meu apartamento.
A porta do meu quarto dá para um corredor que dá para a sala, ou seja, quando a abri vi a Rafa, a Maitê, o Lucas, o Arthur e o Matty.
Assustei-me.
Não sei se era mais surpreendente ver o Arthur sentado no meu sofá depois de ter me dado um fora, ou o Matty junto de todo mundo depois de me dispensar (sem ao menos saber que tinha feito).
Por alguns segundos fiquei os encarando, os que foram suficientes para entender a informação.
- Vamos? – disse o Lucas.
Apenas consenti com a cabeça.
Peguei meu celular e a chave de casa e fomos os seis em direção a casa da Bia.
Assim que ela abriu o portão vi muita gente desconhecida. Além dela, a única alma conhecida era a Helena, que veio correndo nos cumprimentar logo que chegamos.
Sentamos todos na beira da piscina, colocando os pés dentro dela, e começamos a nutrir assuntos aleatórios.
Logo a Helena sentou do meu lado para conversarmos “em particular”.
- Esse é o garoto que você ficou na fogueira? – ela disse baixinho para mim - O Arthur? É sim… - Ele é tímido, né?
Antes de responder, olhei para ele, que estava mudo em meio a todo mundo, apenas segurando um copo de alguma mistura de vodka. Pensei: realmente, o Arthur era alguém tímido, mais tímido que todos os meus amigos… Mas era alguém que (agora, infelizmente) tinha chamado minha atenção.
- É, ele é tímido… E um amor – respondi tristonha, ainda o observando. Ele me olhou bem naquele momento e rapidamente virei meu rosto para a Helena. - Mas e aí, você vão ficar de novo? Você podia levá-lo para o quarto da Bia e agarrá-lo! Aposto que ela não ia ligar em ceder o quarto para vocês por alguns instantes – ela disse animada.
Dei uma risada bem boba. Pobre Helena que acha que eu e Arthur seremos o próximo casal a se formar.
- Sinto te informar, mas acho que não… - Como assim “não”? – ela indagou totalmente indignada. - Longa história, Helena… - Eu tenho até de noite para você me contar. - Eu perguntei se ainda ficaríamos e, segundo ele, fomos só algo daquele final de semana da fogueira… Então já viu né!
Ela respirou alto e fez silêncio por uns instantes; era óbvio que ela não esperava aquela resposta e nem sabia o que me dizer.
Apenas a olhei e levantei as sobrancelhas “dizendo” com ela que “ó, agora cê entendeu?”.
Para já começar a me distrair do assunto “Arthur”, tirei os pés de dentro da piscina e os balancei um pouco para secá-los levemente. Entrei na casa da Bia para buscar algo para comer e lá não tinha ninguém lá dentro. Senti que aquela cozinha era o lugar perfeito para que eu habitasse. Muito o que comer e beber e ninguém para me encher o saco.
Logo, ouvi alguns passos e desviei o olhar para o corredor para poder ver se conseguia saber quem havia entrado.
Avistei um Arthur totalmente molhado e claramente tonto de tanto que já tinha bebido.
Eu conhecia a fama que o Arthur tinha quando bebia demais da conta. No meu rosto surgiu um sorriso por imaginar que ele estava alterado e que eu lidaria com o Arthur que não é tímido como o sóbrio.
Ele estava sentado no chão do banheiro tirando os tênis. Fiquei o observando da porta e dando risada. Quando ele terminou, estendi a mão para ajudá-lo a levantar. Depois fui atrás da Bia.
- O Arthur está todo molhado e… - Eu vi, eu vi… Vou pegar roupas do meu pai e já te dou para você entregar pra ele. Coloca as roupas dele na máquina, ela também seca…
Fui em direção ao banheiro novamente e entreguei uma pequena pilha de roupas para o Arthur.
Ele fechou a porta e eu fiquei do lado de fora esperando ele me entregar as roupas molhadas. Assim que ele abriu a porta, peguei tudo e dei as costas.
Mas ele segurou um dos meus braços.
- Margô! – ele exclamou, claramente com a voz arrastada por causa da bebida.
Meu coração disparou.
Virei-me rapidamente.
- Minhas meias… – ele disse inocentemente ao me entregá-las.
Respirei aliviadamente.
Mas ele me abraçou… E meu coração voltou a palpitar.
- Obrigado… – ele disse e eu pensei: por que diabos, Arthur? - … por me ajudar. Eu não ia gostar de ficar todo molhado.
Eu ri. Realmente aquele era um Arthur bem alterado. Se não fosse, ele não estaria falando algo tão óbvio.
- Tudo bem, Arthur… Não foi nada.
Achei que ele me soltaria, mas continuou me abraçando enquanto deixava a cabeça descansando no meu ombro.
Eu já não lembrava que segurava as roupas do Arthur, mas quando elas escorregaram dos meus dedos e fizeram o maior barulho ao tocar o chão, voltei a pensar na existência delas.
Imediatamente nós dois nos agachamos para pegá-las do chão.
A mão do Arthur tocou a minha e elas ficaram em contato por alguns segundos. O olhei e ele já me observava. Era aquele olhar que eu desejava, aqueles “googly eyes” que antecediam um possível beijo. Mas aquela definição de “nós” ecoava na minha cabeça. “Fomos só algo daquele final de semana”. “Fomos só algo daquele final de semana”. “Fomos só algo daquele final de semana”. “Fomos só algo daquele final de semana”.
Levantei-me rapidamente. Meus olhos estavam fechados representando a dor que eu sentia em não conseguir beijar o Arthur.
Ele acabou pegando as roupas e entregando-as nas minhas mãos.
- Desculpa… – ele disse por perceber aquela pequena confusão que tinha acontecido.
Eu apenas saí.
Fui para a área de serviço da casa da Bia e deixei as roupas dentro da secadora. No caminho de volta passei pelo Matty, que conversava com alguma garota. Ele tinha um copo de bebida na mão e o tirei enquanto percorria meu caminho. Todo o conteúdo desceu pela minha garganta.
Era vodka com qualquer coisa. Espremi os olhos. Aquilo desceu queimando. Só eu sei o quanto odeio o gosto de vodka.
Eu era uma Margô alterada, não por qualquer bebida alcóolica que eu tivesse ingerido, mas por nervosismo… Puro nervosismo.
Mas eu fingi que nada tinha acontecido, que nada me incomodava.
Sentei novamente na beira da piscina, ao lado da Helena. Encostei minha cabeça no ombro dela e comecei a falar.
- Quase nos beijamos lá dentro, mas eu não fui capaz de completar a missão. O Arthur está bêbado e eu não estou com amnésia… – disse baixo e rapidamente para que ninguém ouvisse. - Como assim você não o beijou, Margô?!?! – a Helena fez o favor de gritar.
Todas as pessoas em volta me olharam e eu tinha certeza que meu rosto havia corado numa dimensão imensurável. Coloquei as mãos sobre o rosto e em pouco segundos desejei inúmeras vezes que aquele momento pudesse ter sido apagado.
- Desculpa… – disse a Helena, baixinho, enquanto observava todas as pessoas que estavam a nossa volta.
Apenas a olhei com cara de quem queria sumir mais do que nunca.
- O que houve, gente? – disse o Arthur, ao aparecer inesperadamente sabe-se lá de onde.
Ninguém respondeu. Todos me olhavam esperando que eu dissesse algo, mas a minha boca continuou calada.
Helena segurava um copo com bebida e eu o tomei da mão dela e bebi o que tinha lá. Mais vodka para uma Margô que tem horror por esse líquido com gosto de morte.
Acho que menti para mim mesma quando pensei que o copo do Matty seria o único que eu beberia… Veio o da Helena, da Rafa, da Bia, do Lucas e muitos outros.











