——— Senhoras e senhores, vos apresento DELILAH VIKTORIA-DELPHIN DE BÉRIOT, VIOLINISTA , uma CINCO vinda diretamente da Província de CLERMONT . Ela tem 23 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a JESSICA CLEMENTS.
A música e o amor eram fatores constantes na casa dos Bériot. Mesmo nos dias em que as forças de Adeline haviam se esvaído ante as reclamações sem sentido — apontando defeitos que sequer existiam em suas criações — ou precisava se trocar às pressas quando chegava em casa, para que seu marido e filha não notassem a sujeira que lhe fora jogada sobre a face como expressão da insatisfação das nobres para com os vestidos costurados. Era com uma força descomunal que a mulher encobria toda aquela negatividade, juntando-se aos amados no cantarolar que ecoava pela viela. Porém, nem mesmo todo seu esforço foi capaz de conter o que os anos trouxeram sorrateiramente. Delilah tinha pouco mais do que quinze anos quando o desgosto se apossou de sua mãe, enfermando o corpo frágil. E, após meses de profunda angústia e gastos maiores do que eles poderiam arcar, a morte veio visitar a pequena família.
Incapaz de lidar com o próprio luto e buscando abater as dívidas recém adquiridas, a fim de prover um futuro melhor à filha, Jean trabalhava e ensaiava dia e noite. A dor era transformada em algo belo sob seu toque, atraindo a atenção de um público mais refinado. As barreiras das castas, no entanto, ainda representavam um forte empecilho ao prodígio da música, alvo de preconceitos e humilhações constantes. Como uma luz de esperança em meio à negridão de desespero, lhe foi concedido a chance que poderia mudar por completo suas vidas: uma apresentação para a alta sociedade de Whites. As preparações foram feitas à perfeição e, por algumas semanas, a casa voltou a se encher de alegria, a melodia voltando a ressoar pelas paredes. Orgulharia a filha e a falecida amada, ele garantia a si mesmo. Há fatores contudo, que estão longe do controle de qualquer um, especialmente ao se tratar de uma intervenção maldosa. Inconformado com a possibilidade de ascensão do Bériot, o Dois sabotou o homem, acarretando no acidente que terminaria com o quebrar da mão dominante do músico. Ainda que houvessem provas contra a celebridade culpada, seria sua palavra contra a de um mero plebeu, tão desprezível quanto o restante de sua casta.
Amargurado, o homem afundou-se em bebidas, tornando os bares sua casa. A responsabilidade de pôr comida à mesa, então, foi transferida a Delilah — que, apesar de ter herdado seu talento e aptidão, ainda possuía uma carreira pouco estável por conta da tenra idade. A ingenuidade e doçura que antes eram características da menina, foram encobertas por camadas espessas de seriedade e um rancor para com o sistema hierárquico em que residiam. As intolerâncias a inquietavam, as injustiças a indignavam. Mereciam mais, precisavam de mais. Foi com esses ideais que demandavam por mudança que a Bériot adentrou o grupo de rebeldes, ansiosa pela extinção das castas. De personalidade passional, tornou-se um membro influente rapidamente. E logo lhe era apresentada sua primeira missão: infiltrar-se no castelo.
——— Senhoras e senhores, vos apresento BRANDON HASTINGS, SELECIONADO, um CINCO vindo diretamente da Província de ANGELES. Ele tem 26 ANOS e todos os criados comentam que é idêntico a DANIEL SHARMAN.
men.ti.ra [subs.] “ação ou efeito de mentir.”
“Um sétimo filho de um duque de Kent, ninguém que você ouviu falar, sério!”, “Um inventor com exposição em sua última noite em Angeles” ou “Apenas um ladrãozinho de meia tigela que vive nas ruas…” As versões são inúmeras. Foram tantas as mentiras que contara sobre si mesmo, sobre sua família, seus irmãos, suas posses, seu berço, que ele mal podia se lembrar qual era a verdade. Mentir era normal, principalmente se sua refeição ou sua vida dependesse disso desde que se entendia por gente. Filhos de artistas itinerantes, Brandon aprendeu desde cedo a arte do ilusionismo, ou era o que ele dizia. Sua real função era afanar carteiras enquanto os pais apresentavam teatros por toda Angeles. Os fantoches, as fantasias feitas a mão e surradas… Nada disso dava dinheiro o suficiente para alimentar e cuidar da família de sete pessoas. O pequeno garoto de fios castanhos e olhos azuis não se lembrava bem dos rostos de seus pais ou irmãos… Mas sabia que tinha sido por eles que contou as primeiras mentiras. O que podia se esperar de uma criança que não tinha nada? Mentir era sua única saída, até que ele já não era mais nenhuma criança. Podia ter aprendido o ofício dos pais, podia ter feito alguma coisa que não envolvesse enganar os outros por moedas. Mas então ele já havia tomado gosto pela coisa. As histórias saiam com tamanha facilidade que, por vezes, ele sequer se lembrava da realidade por detrás dos fatos enquanto as palavras lhe escapavam pelos lábios. Mentia, mentia tanto que no final do dia ele não se lembrava quem de fato realmente era.
so.nho [subs.] “sequência de ideias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega; devaneio, fantasia.”
Não é de se admirar que muitas coisas deram errado para o filho de artistas circenses. Por exemplo, seus pais morreram, seus irmãos foram parar em orfanatos, ele passou fome, fugiu de guardas, teve doenças…. Mas de uma coisa ele nunca pôde reclamar: sempre teve sua liberdade. O que não significava que ele a usava com sabedoria. Para ser honesto, Brandon tem plena consciência que estaria na cadeia se não fosse pelo velho Earl. O velho artista de rua vivia dos pequenos golpes que aplicava nos pobre inocentes que caiam em sua lábia. O cavalheiro andava distinto, sempre de terno e bem barbeado, seu linguajar sendo o que tornava difícil distinguir o golpe de uma boa oportunidade. Sem família, o pequeno Hastings estava sozinho, assim como Earl, e uma amizade surgiu dalí. O senhor ensinou todos seus truques, suas frases feitas, suas idéias para trambiques… Aquilo tirou Brandon das ruas, era verdade. O colocou numa casa na periferia de Angeles, de alvenaria e tudo. Tinha só uma pequena cozinha e um banheiro, nada do que se orgulhar, porém a vista…. Da pequena janela dava para ver todo o esplendor do palácio. Os muros, as paredes tingidas, os jardins…. Se não fosse pelos muitos quilômetros que os separavam, Brandon quase podia imaginar como era morar ali. Depois de um dia cheio de trabalho, ele sentava na sua pequena mesa com apenas um par de cadeiras e imaginava como seria se fosse dono de tudo aquilo. Guardas, castelos e servos… Ter respeito e dinheiro para comprar o que quisesse e nunca mais passar fome. Nem um pouco generoso, é verdade. Em nenhum momento de seus devaneios Brandon pensava em outra coisa a não ser na própria felicidade, no máximo pensava no Velho Earl, mas quem podia culpá-lo?
o.por.tu.ni.da.de [subs] “ocasião azada; circunstância oportuna, favorável para a realização de algo; ensejo.”
Brandon se lembrava de andar na pequena cozinha, atrasado para algum encontro importante no qual selaria um negócio importante de Earl. O velho trapaceiro já não era mais o mesmo, e passava grande parte dos dias na cadeira, contando histórias dos grandes golpes que já aplicara, das mulheres que conquistara, do dinheiro que conseguira. Brandon se divertia, ainda que soubesse todas de cor e salteado, mas desconfiava de que nenhuma delas era realmente verdade, ou eram, no mínimo, floreadas o suficiente para parecer atraente. A pequena televisão no canto do cômodo estava no mudo, mas imagens do palácio de Illéa, de cima, dava a entender que era um comunicado oficial. Os dois golpistas gostavam daquele tipo de coisa, afinal, tudo o que tinha a ver com a realeza era, instantaneamente, um motivo de lucro. Os dois ouviam os anúncios e logo tratavam de bolar uma ideia em cima daquilo com o qual podiam lucrar, no entanto, foi com um riso cômico que Brandon ouviu o anúncio da seleção da princesa de Whites. Não a conhecia, não sabia nada dela, e não tinha o interesse de conhecer. Mas, como sempre, o velho Earl tinha algo para dizer sobre aquilo. Quando o cinco chegou em cada naquela noite, a ficha de aplicação, documentos falsos — que pareciam muito reais — estavam em cima da mesa. Apesar de saber que o dono dos fios brancos podia facilmente enrolá-lo até que a única opção fosse se inscrever, ele não o fez. Deixou que o Hastings tivesse uma escolha. As chances de ser escolhido eram ínfimas, é verdade. Mas eram substancialmente maiores do que eram aquela manhã. No entanto… Não podia virar as costas para o amigo. E se ele fosse em frente com aquilo, era o que teria que fazer. Inventar um passado, uma família — uma que não fosse um bando de mentirosos e oportunistas —, uma que não incluísse o velho Eart. Não era dado a sentimentalismos, mas com um dar de ombros guardou o papel na gaveta. Não adiantava pensar em coisas que não levavam a lugar nenhum, pensou consigo mesmo. Nenhuma palavra sobre a seleção foi dita a partir de então. E, provavelmente continuaria assim se não fosse pelo corpo frio que Brandon encontrou, sentado na habitual cadeira. O queixo colado no peito, descansando, ainda de terno e gravata, como sempre. Brandon não tinha mais nada ali em Angeles. Pensou em partir… Paloma podia ser tão bom quanto Angeles. Podia bolar golpes e ali ninguém o conheceria. Mas foi só abrir a gaveta para empacotar seus poucos pertences que Brandon pensou que talvez ele não precisasse de muitos golpes para melhorar de vida. Ele só precisava de um grande golpe que desse certo. O velho Earl tinha visto aquilo, com seus olhos cinzentos cobertos de experiência, e agora ele simplesmente não tinha nada que lhe impedisse de ir em frente com aquilo.