Sinopse: A rotina de uma tecnóloga do crime é mais puxada do que parece. C. Gray tenta ajustar sua agenda e dar conta de cada entrega para o trabalho. O pombo de Luna acaba bagunçando suas tarefas.
O grafite de sua lapiseira quebrou novamente, as migalhas voando pela mesa. Aproveitando o momento, pegou o papel e amassou, arremessando em direção à lixeira já transbordando as ideias descartadas.
C. passou as mãos sobre os cabelos, suspirando irritação. Nenhum rascunho conectava ao outro, nenhuma ideia alcançava seu objetivo e nem seria suficiente para agradar a nova encomenda daquele semestre. O fundo de sua garganta começou a incomodar e desejou um copo de água ou café.
Levantou-se da mesa acumulando as folhas ainda intactas, guardando em uma pasta simples e acomodando-a na bolsa antes de sair do quarto. Trancou a porta, atravessou o corredor e sentiu a brisa da manhã no pátio dos dormitórios. Não respondia mais do que rápidos “Bom dia” conforme passava entre os colegas, chegando à área dos prédios com salas.
A voz de seu professor trouxe mais um peso para lidar.
— Como anda o trabalho da semana, Senhorita Gray?
Era o Senhor Opazuje da aula de matemática, a única matéria que dividia com Luna.
— No caminho, professor. — estendeu a mão para um cumprimento rápido.
— Se precisar tirar alguma dúvida, sabe que pode me chamar.
C. Gray concordou com um sorriso afável e cansado. Em sua experiência de universitária aquela frase queria dizer:
“Me diga que ao menos pensou no que fazer para o trabalho”.
— Na verdade, se o senhor não estiver tão ocupado, talvez possa me ajudar na optativa. Acabei misturando os rascunhos achando que ia dar certo, mas talvez seja melhor só escolher um.
— Claro, não se pode fazer de tudo ao mesmo tempo.
C. declarou querer ter ouvido isso antes. Apresentou ao professor uma ideia que não planejava realizar, apenas utilizou a primeira que flutuava solta em sua memória.
— Mas isso já mexeria demais com a questão molecular. — ponderou o professor.
— Não entendi.
— Você está quase descrevendo um reator. O objetivo dessa atividade é você desenvolver uma estrutura com base nos cálculos, mas não precisa contar cada molécula.
Ambos riram. O Senhor Opazuje exalava o ar de um tio divertido que casara com a tia rica, e virou professor por amor ao ensino. C. particularmente criara um afeto por esta relação.
Partiram para os portões do campus, discutindo tanto sobre aquela atividade curricular que C. aproveitou para realmente anotá-la mais tarde, querendo fazê-la real.
Chegou no quarteirão de sua rua e parou para abrir a antiga porta de madeira, observando o interior do local pela janela adornada em seu centro antes de entrar. A poeira tinha claros picos maiores onde ninguém importou de prestar limpeza, contrariando locais brilhantes e notavelmente usados recentemente. C. havia se esforçado para manter a mesa e bancada do caixa convidativas. Ficava aos fundos daquele cômodo repleto de prateleiras velhas com objetos decorativos e mecânicas completas mas abandonadas ou defeituosas sem esperança, os relógios cuco não cantavam o horário, as bailarinas na caixa não dançavam, e C. observava sua loja sentindo ser parte daqueles objetos, completamente inúteis.
Atravessou o balcão, vislumbrando as engrenagens, bijuterias e bonequinhos de madeira sentados na prateleira de vidro dentro dele. Um ímpeto fez com que puxasse o ar até encher os pulmões por completo, soltando com força ao ponto de parecer ter se afogado.
O estômago de C. havia roncado pela terceira vez, clamando o almoço, e percebeu então que faltava o café da manhã. O relógio no canto de seu monitor piscou 10:00am. E Benjamin trouxe suas garras agrupadas, em formato de concha, vazia.
— Eu esqueci de trazer café, de novo. — deu um leve tapa para afastar a mão mecânica, e alcançou o cabo de uma chave de fenda sobre a mesa. Desparafusou um conjunto da tampa inferior de um cilindro de pressão. O cheiro de mostarda e maionese deu-lhe enjoo. O “Sr.” Rei dos Condimentos teve um combate com algum bat-familiar que conseguiu puxar as mangueiras da arma, e quando tentou consertar trocou as posições, invertendo os molhos. Queria muito uma batata-frita agora.
Levantou-se da mesa e levou os cilindros e conectores pelo laboratório até uma pia inox, onde usou uma mangueira de gatilho para limpar os componentes.
A temperatura da água trazia um aspecto cristalino, e C. lembrou que o Sr. Frio esperava uma inspeção no tanque da arma criogênica. Um potencializador, talvez. Vaga-lume também havia comentado uma ideia, algo que aumentasse o alcance do lança-chamas, sem diminuir a capacidade do gatilho. E aquela outra que precisava de um rascunho para saber como acoplar todos os componentes sem explodir seu ambiente de trabalho.
O cansaço puxou seus ombros para baixo, e deixou-se ali por um momento, sentindo a água esfriar as mãos. Lutaria com um Robin por uma xícara de café.
Na mesa, Benjamin sentiu a vibração de seu celular e fez o favor (programado) de levar o aparelho até ela, atendendo a chamada.
— Eeei, carpinteira.
— É mecânica. — desligou a torneira e deixou os itens na pia, secando as mãos na barra da camisa e pegando o telefone. — O que tem pra hoje?
— Hoje eu não tenho nada, perdi um carregamento pra uma capa preta e sapatinho de elfo. — o rapaz tinha um tom de derrota, mas não surpreso.
— Meus pêsames. O que sobrou pra mim então?
— Era uma boa RPD, mas se nem você der jeito, vai virar meu peso de porta.
C. abafou um riso.
— Me encontra no ponto que deixo ela bonita pra enfeitar sua porta de entrada, tá bem?
— Ótimo, você é minha decoradora preferida. — ouviu uma risada curta do outro lado da linha antes de desligarem.
O Sol já estava em algum lugar atrás dos prédios, formando sombras nos cantos da calçada. C. caminhava sem pressa, as mãos dentro dos bolsos da calça, a máscara de meia-face pesando no interior do casaco corta-vento.
Avistou um topo de antena atrás dos demais apartamentos, muito à frente, no centro de Gotham, onde ela sabia que o Clube dos Máscara Negra voltava a funcionar.
Aquele clube devia ter ficado caído anos atrás, assim como suas memórias e dúvidas saltando da escuridão. Virou uma esquina, aproveitando o vão entre dois prédios e puxando sua máscara. Infantilmente, sentia que as roupas sem cor cobriam-na como mesclada às sombras, e sua mente vagava nelas.
O Máscara Negra foi um bom consumidor naquela época. Pedia algo e pagava alto, foi suficiente para entrar naquele prédio uma única vez para receber pessoalmente e ganhar um drink de recordação. Ao menos foi o que o convite dizia.
Quando desceu do elevador, o recepcionista pediu para a jovem construtora esperar naquele salão de visitas abaixo do andar do escritório principal. Um sofá se estendia ocupando mais da metade do centro em uma lua azul-marinho, com um mini bar na ponta oposta ao elevador.
C. Gray apreciou um coquetel, passeou naquele tapete felpudo e vislumbrou a vista. Gotham pela noite era perigosa no térreo, mas a metros acima do chão era linda nos bairros ricos. As luzes dos outros prédios eram festivas, dançando no céu. Observou-as por alguns minutos. E então viu a antena do outro lado da rua, no topo de um hotel de luxo.
Alto, bruto, uma sombra escura até que um feixe de luz alcançou-o por alguns segundos. A máscara vermelha brilhando em sua direção, e pior fora o longo cano de metal em seu ombro.
C. construiu aquela arma, e ela deveria estar num caixote nos fundos do prédio, não no topo daquele hotel.
Um arrepio percorreu suas espinha, Capuz Vermelho estava mirando uma bazuca na direção do Clube do Máscara Negra.
Lembrar daquele Capuz Vermelho era confuso agora. C. pensou que ele havia sido morto tentando tomar o crime de Gotham. E o como lhe encontrou naquele beco à algumas semanas, fingindo ser apenas um encontro de negócios e tendo implantado as armadilhas para explodir no esgoto, não parecia o mesmo vigilante que conhecera. Estava frágil.
— Arrancaram sua língua como arrancaram seu olho? — chamou o rapaz na poça de luz de um poste. A longa bolsa de academia pesando no ombro.
C. havia atravessado mais duas quadras sem perceber.
— Eu deixei na boceta da sua mãe. Esqueci de tirar.
O rapaz soltou o ar pelas narinas, um riso inconformado. Tirou a bolsa do ombro e estendeu a alça para a mecânica.
— Coisa simples. Acertaram no corpo, o gatilho foi pro saco e uma outra conseguiu perfurar a câmara.
— Eu ia saber só de olhar pra ela, obrigada. — recolheu a sacola sem titubear, atravessando a alça pelo peitoral.
— Bom dia então. — o rapaz não declarou um valor, então C. soube que encontraria dentro da bolsa, ou ele sairia daquela rua sem as pernas.
Passou os dedos sob o zíper e abriu o suficiente para a luz alcançar um dos rolos de papel no fundo, o verde desbotado das notas de Gotham era lindo.
— Menos de dois dias, provavelmente.
Fechou o zíper.
— Qualquer coisa pode me ligar, se quiser um jantar, não sei.
— Eu ainda prefiro sua mãe. — despediu-se com um sorriso gracioso.
Benjamin segurava a bolsa como uma arara enquanto C. esvazia seu conteúdo. A arma era grande, o cano foi desmontado para caber na sacola, intacto. O gatilho foi quebrado por fora, mas parecia funcionar em seu mecanismo. O buraco na câmera da munição chamava atenção, entrou por um lado e saiu pelo outro, mas o interior parecia mais defeituoso.
Abriu a carcaça da arma, observando cada componente.
Na entrada, Luna apareceu acompanhada do cheiro de comida. Com um pulo, C. alegremente foi encontrá-la, se deparando com uma ave em suas mãos.
— Trouxe cru?
Se Luna tentou esconder o quão cansada estava, falhou. Uma risada amena surgiu e se dissipou.
— Eu achei ele na rua, machucado. Houve um fuzuê na rua hoje e eu, eu..
— Relaxa, primeiro vamos comer. Antes que eu morda esse pombo. — C. segurou-a pelos ombros e dirigiu-nas ao balcão vazio no laboratório, uma mesa de metal alta e banquinhos de pernas longas.
Luna descreveu um dia enorme para uma única manhã.
— Mas o que vai fazer com ele depois do veterinário?
— Eu meio que pensei nele..ficar?
— Aqui? — C. ergueu as sobrancelhas. A faculdade não permitia animais nos dormitórios, e o laboratório não era funcional para um.
— Bem, quem sabe, eu não sei, se..
— Ele vai acabar espetado no Benjamin.
C. girou na cadeira, comendo sua marmita, evitando o olhar de Luna. Sabia muito bem o que viria a seguir, a amiga mostraria as órbitas brilhando como um filhote e concordaria com o que disse, só para fazê-la sentir pena e optar pela opção que havia pedido.
— E aqui não tem nada para um pombo. Ele vai querer bicar meus fios.
O pombo havia caminhado pelo chão do laboratório, curioso quanto às cores de Benjamin, e escalou a mesa do computador. Perto o suficiente, Benjamin aproximou o núcleo das garras, observando o animal passeando sobre as ferramentas, tropeçando em peças enquanto soltava arrulhos.
Na área da bancada, após a caixa de ferramentas, as partes da arma aguardavam. Todas caíram no chão, junto ao pombo, fazendo C. pular do banco.
Enchendo a boca, deixou soltar um alto e forte PORRA extravasando a frustração. Luna atravessou o outro lado da mesa, alcançando a ave.
— Não dá pra ele ficar. Definitivamente. — C. recolheu a arma, separando as peças pela bancada e contabilizando se tudo estava presente.
Câmara, gatilho, punho, cano. Tudo parecia correto. Do compartimento da câmara cairá em sua mão uma chapinha de carepa disforme, quase como um triângulo, uma das paredes claramente quebrada e as pontas encurvadas diferentemente. Deixou-a na mesa com as outras partes.
Nas mãos de Luna, o pombo começou a se contorcer. Debatendo, a garota contraiu os dedos como se queimasse, deixando-o voltar a cair no chão em espasmos.
— Ele me deu um choque! — movia os dedos com um arrepio.
A ave estava com as costas voltadas para o chão, os pés chutando em todas as direções, seu bico abrindo em engasgos, uma luz fluorescente iluminou seu interior, saltando do fundo da garganta e de trás de seus olhos. A origem vinha do peitoral quase transparente à medida que aumentava seu brilho.
As duas observavam o animal em choque.
C. tomou coragem e aproximou-se, empunhava uma lámina de corte na mão e usou-a para abrir a cavidade esverdeada.
A luz emergiu da fenda.
O laboratório raiou em verde, tomando as sombras onde as lâmpadas não estavam acesas. A voz ecoou, retumbando de volta para o fundo de seus tImpanos.
— O que é, o que é? — Travesso, o homem apoiava ambas as mãos sobre a bengala, uma cartola pendurada nos dedos. O terno verde escuro destacava os pontos de interrogação na cor preta, grandes e robustos ao traje — Corre em um só rumo. Não é água mas tem a corrente. Te cria e te mata igualmente.
A charada ressoou no ar por um segundo. Luna espantou-se. Charada, o vilão, estava holográfico em sua frente, divertindo-se com sua surpresa.
C. revirou os olhos.
— O seu cu.
Luna arfou com a rudez da colega.
— Ora, vamos, Senhorita. Onde foi guardar seu senso de humor?
— Mesma resposta.
— O pudor também. — o homem desfez a pose, girando o chapéu até encaixá-lo na cabeça e afastando o topo curvado em interrogação da bengala. — Bem, eu devo confessar. — ele junta as mãos, simulando uma oração de olhos abertos — Não esperava ser seu rosto a encontrar meu pombo-tótipo.
— Imagino. Muito pouca gente pegaria um pombo na rua.
C. mirou um olhar irônico para Luna, que continuava boquiaberta.
— Ele está machucado. Eu não queria deixar lá sozinho!
— Mas que coisinha romântica. — Charada vangloriou. — Agora, coloque de volta onde achou.
Luna empertigou-se. Um grande criminoso de Gotham vira seu rosto e agora deu-lhe uma ordem. Um arrepio subiu sua espinha. E se ele descobrisse mais sobre ela?
— Veja bem, Senhor. — C. retomou a conversa — O pombo está descartável. — Com a faquinha usada para abrir a cavidade da ave, apontou para o corpo rígido. — Isso é material orgânico? — Ela mirou a lâmina na luz, observando a umidade — Agora já não vejo uso que te sirva. Posso descartar?
Charada voltou sua atenção outra vez.
— E deixar que tome meu trabalho para suas obras? — ele guardou a bengala debaixo do braço. — Acha que eu sou o que? Um maluco?
— Levando Gotham em consideração, você é são. Foi assim que saiu de Arkham, não foi?
C. deu de costas, bajulando e negando contato a ele, como se fosse um costume.
— Ah, sim. — a voz pareceu soar um pouco mais alta no holograma — Aquele lugar me propôs um ótimo.. abrigo. E perdido tão fácil embora encontrados tantos por ai..
— Um amigo? — Disse Luna.
— Oh, como me alegra uma garota esperta!
C. deixou que eles se entretessem enquanto observava o monitor. Bisbilhotou uma aba depois da outra, observando circulantes da rede do laboratório.
Luna sempre se perguntou se o vilão criava as próprias charadas, não entendendo o como. Agora sentia que elas apenas saltavam na mente daquele homem, totalmente formadas e prontas durante um diálogo ou monólogo. Ao outro lado, C. ocupava as mãos sobre o teclado na mesa. Chegando a empurrar as peças da arma para o canto, Benjamin estava separando-as como quem contabiliza cada item. Dentre os demais, pinçou com suas garras uma lasca de ferro na cor preta. C. desviou o olhar da tela, observando aquele pedaço solto de material.
A voz de Charada reverberou novamente.
— Quem sabe? Não se toca, mas te cega, ofusca estrelas e chega acompanhada pelas sombras?
C. virou para eles, finalmente esboçando algum receio no rosto.
— O que mais você vai querer?
— Então a resposta está na ponta da sua língua?
— Suponho que já sabe que tenho trabalho a fazer. Resuma sua constatação, por favor. — o pedido de educação pareceu raspar sua garganta com espinhos.
— Sabe, Gray. Seu trabalho é muito bem elogiado. Eu ouvi seus clientes em Arkham. Além, além, em uma cela escura, em um corredor silencioso, sem cérebro perambula, faça sol ou faça chuva permanece repugnante, mas sempre estático, fez-te—
O banco da mesa caiu, o som calando o homem. Gray aproximou-se do pombo, quase cobrindo a faixa de luz do holograma.
— O que você quer?
E Charada sorriu.
— Agora que sua atenção é minha, querida, vamos conversar sobre essa sua ideia de querer patentear Gotham e suas ferramentas.
Adaptando para uma postura de reunião séria, Charada deixou a ponta da bengala bater no chão e pular enganchando a curva em seu antebraço, ajeitando a coluna e parecendo mais alto.
— Trabalho a quem me pagar.
— Acredito que tenha um resquício de—
— Minha agenda está cheia.
C. não esperou que ele começasse a falar novamente, encurtou a distância até o corpo do pombo esmorecido e Charada pareceu se encolher no holograma, sendo coberto pela sola de sua bota, até que a luz apagou.
— Você pisou nele! — Luna gritou, preocupada com a ave — Não precisava machucar ele mais ainda!
— Luna, agora não.
— Você não precisa agir dessa forma! O Charada pode ser uma ameaça e você ainda fala com ele desse jeito, e não precisa machucar algo só pra—
— Luna, agora não! — C. havia voltado para a mesa do monitor, pegando as peças daquela arma. Luna arfou, ajoelhando para ver o corpo aberto e pisoteado. Do rasgo inicial saltavam respingos de um sangue coagulado, seu interior era repleto de fios imitando ou substituindo veías.
— Ele já sofreu tanto nas mãos do Charada..
— Eu acho que tenho algo pior pra ficar preocupada..
— Você é tão insensível! Meu Deus. Como pode?
C. ergueu as duas metades da carepa encontradas no núcleo da arma. Ambas levemente triangulares, as pontas curvadas e afiadas. Girando-as até encontrar as paredes iguais onde racharam, C. perdeu o ar nos pulmões.