[Uma fanfic do universo DC que explora Gotham usando as visões contrastantes de uma estrangeira e uma Gothamita nativa aprendendo ao mesmo tempo que a distinção entre o submundo e a superficie da cidade é no mínimo subjetiva.
C. Gray é expert em muitas coisas, máquinas, marketing e manipulação; mas nada que aprendeu em ruas mal iluminadas envolve lidar com a teimosia bem-intencionada de Luna, que chegou do Brasil achando que paciência e positividade eram suficientes para a cidade das trevas]
Capítulo Um: Nem Tudo o Que Brilha é Ouro
Capítulo Dois: Trabalho Sujo
Capítulo Três: Cicatrizes São Permanentes
Capítulo Quatro: Pegue o Pombo! (Parte Um)
Capítulo Quatro: Pegue o Pombo! (Parte Dois)
Capítulo Cinco: Partes Orgânicas
Capítulo Seis: Se uma árvore cai...
Capítulo Sete: Virando Noticia
(Continua)
Playlist contendo as músicas de todos os capítulos!
ok but imagine a fic where duke is a Fully Cemented Batfam Member™ and all of the siblings know that he'll keep secrets/not snitch in exchange for favors. broke a comm on patrol? duke will replace it with one of his spares and keep it from bruce if they replace the spatula he accidentally melted making a snack at one in the morning. sneaking in a secret pet? he'll smuggle treats and blankets up in exchange for the last slice of pie at sunday dinner. mostly though he deals in favors
duke has racked up an extraordinary amount of favors from his siblings and somehow bruce + every other adult-adult he interacts with thinks he's an angelic little guy who can do no wrong. he doesn't have a solid plan for these favors until he falls on his face in front of a pretty person (thinking crossover, probably danny or peter bc i know their characters best but i am open to suggestions) and cashes in every single favor he has to impress them.
duke, sweating and panting: i need you to make me a three course picnic-style meal in the next hour
jason: why the hell would i-
duke: gargoyle incident, may of last year
jason, in an apron and holding a spatula: any allergies?
the whole family would be so confused because they've all become overworked unpaid interns for their newest brother seemingly overnight and all of their requests are so different
tim: duke just blackmailed me into taking sunset candids of him and won't tell me why????
dick: that's all you had to do? he sent me an invoice for a florist and his favorite barber that just said "pay or i'll tell :)" in the memo section
damian: thomas requested alfred the cat's presence for an undisclosed reason yesterday afternoon. the half-hour photo check-ins i required were extremely blurred and indecipherable
steph: he made me send him a list of my favorite movies but only if they had "questionable humor and unhinged cringe factors that make me seem like i have loser taste but i'm not actually a loser yk?" i do not know. i was on letterboxd for three hours until he was satisfied.
jason, exhausted to the point of delirium: chocolate strawberries...flan...chicken alfredo...juice....
meanwhile duke is basically running an underground trading ring to woo this person who is starting to think he's magic because of how many presents mysteriously appear in his presence
Sinopse: Um dia típico na vida de uma aluna da Gotham U. Luna tenta achar um furo de reportagem tirando aguá de pedra.
Os humanos, ao desenvolverem atividades cognitivas mais refinadas do que qualquer outro animal terrestre, deram uma nova função ao descanso; nele se processam memórias, solidificando o conhecimento, a falta de tal pode resultar em inúmeros atrasos. Tudo isso para dizer que a cidade da insônia esquece rápido, e quando não esqueçe, reprime.
Um dia em Gotham equivale a uma década em qualquer lugar relativamente tranquilo e a uma semana em São Paulo. É fácil esquecer os dias da semana com uma rotina fechada, ainda mais quando há tantas distrações - já se foram os dias em que o Batman se preocupava com o Capitão Calendário e o Rei Relógio, a “época de ouro” onde só os realmente insanos se propuseram a vestir fantasias e cometer atos criminosos. Hoje em dia isto é tão assimilado à cultura que pessoas realmente competentes estão assumindo mantos para disseminar suas doutrinas, tornaram o conceito de vilania uma cadeia alimentar a qual muitos não conseguiram se adaptar, com uma única exceção notável.
Mesmo assim, Gotham ainda se preocupa com futilidades, ainda mantém seus olhos em celebridades e drama, como a recente inscrição do filho mais notável de Bruce Wayne à Universidade de Gotham. Tim Drake, alguém que nunca demonstrou nenhum interesse público a seguir uma carreira acadêmica, que terminou o ensino médio com 14 anos e preferiu assumir os negócios da família logo mais, demonstrou a vontade súbita de se assimilar aos camaradas jovens, aparentemente se sentindo muito alienado em casa. Desde então, ficou quase impossível passar pelos corredores sem ouvir o seu nome.
“Você sabia que o Tim Drake foi o primeiro novato a vencer um debate em uma competição estadual? E ele nem faz parte do clube, só deixaram ele participar da platéia”
“Ele nunca aparece nas aulas, parece que ele cobre as horas mandatórias com ‘atividades extracurriculares’.. é estranho, mas ele sempre tira nota máxima nas provas, então acho que os professores não se importam”
“O cara é fechado com as fraternidades! Se você for amigo dele, tu só empresta a casa e ele patrocina, semana passada ele pagou Uber pra geral chegar em casa!”
— E ele pegou tipo, metade das minhas aulas. – Os cachos dourados de Steph, sempre frisados mas agora especialmente, tomavam quase todo o espaço do travesseiro. Suas bochechas rosadas, e sua voz ofegante, conversando mais com o teto do que com a pessoa sentada no canto de sua cama. – Tudo bem, ele tá em quase todas as aulas que a universidade oferece, mas ele só aparece quando eu decido sair do quarto, é super irritante.
— Hmm. – C. Não tinha prestado atenção na maioria do discurso, dissociando enquanto vestia suas roupas, observando o cenário rico do dormitório. Virou para a loira com um sorriso sarcástico – Você reclama do seu ex pra todos os seus ficantes?
— Só você, porque eu sei que não ouve. – Respondeu com um riso que, mesmo caçoando, ainda era tão luminoso quanto o Sol, tendo a mesma habilidade de fazer C. desviar o olhar.
O cenário era muito mais comparável com o lado de Luna do dormitório do que de C., Steph também tinha uma aversão a guardar roupas e arrumar a cama, mas os papéis espalhados continham informações mais exatas, a mecânica conseguia se ver no processo caótico de pensamento, folhas e folhas das mesmas informações, circuladas em pontos diferentes, até conseguirem conquistar seu posto sob a escrivaninha. Qual era a graduação dela, mesmo? Alguma coisa de medicina? Mas também reclamava de ter que escrever demais nas aulas.. É, C. não ia conseguir lembrar.
— Eu nunca fui muito boa com esse tipo de coisa. Se quiser, tem uma boa psicóloga que posso recomendar. – Se espreguiçou enquanto levantava da cama.
— É exatamente por isso que eu deixo você voltar. – Stephanie se esticou até apanhar seu celular da escrivaninha, afastando o cabelo da frente dos olhos para ver melhor o que quer que a tela mostrava. C. tomou o ato como a despedida que era, se apoiou sobre o parapeito da janela, e fez o mesmo percurso não-convencional até seu dormitório.
Era uma rara ocasião onde Luna estava em casa antes do final de semana, um livro acadêmico em seu colo e o celular ao lado, mais ansiosa do que o normal, checava a cada 10 segundos se Vale teria se distraído da viagem para mandar uma mensagem à segunda secretária; a jornalista e Devon estavam em Metrópolis para um evento. Como a maioria das oportunidades perfeitas, esta foi debilitada, a menina estaria no lugar de Devon como secretária pessoal se não fosse uma semana de provas, era de se morder as unhas:
— Dez corpos foram encontrados ontem. – Ela suspirou, já acostumada com as entradas triunfantes de sua colega de quarto, não levantou o olhar das palavras de Kant. – Lá perto da Velha Gotham, marcas de laceramento, concussão, partes do corpo faltando.. alguém teve a coragem de torturar o Papagaio, reconhece?
C. Assobiou em resposta, distraída em sua missão de achar uma folha específica ao meio de suas pastas.
— Já recebi dinheiro dele. Mensageiro do Pinguim?
— Aparentemente, não só dele. Os outros corpos eram parte de máfias diferentes, inclusive homens do Maroni. – Os dedos nervosos brincavam com o canto da página, olhos agitados enquanto desenhava a cena em sua mente – Isso provavelmente vai adiar ainda mais o julgamento.
— Não aceleraria? – Luna estalou a língua em resposta.
— A defesa atual afirma que o Maroni foi coagido a entrar na “indústria” após inúmeras ameaças contra a família, culpam um cadáver como a cabeça da operação, ter alguém ativamente caçando eles só vai dar mais oportunidades para plantar evidências. – Ajeitou a postura, desviando atenção até a sua companhia, as costas pesando contra a parede como se fossem colapsar sem o apoio. – Tudo isso acontecendo e a Senhorita Vale quer que eu investigue sobre a recepção do garoto de ouro à nossa universidade. Como vive, o que come, como se reproduz…
— Ah, essa é fácil, os Wayne praticam divisão celular. Já reparou que todos têm o mesmo focinho? – a frase arrancou um risinho de ambas, e assim acabou o assunto inicial. Não tinha muito o que acrescentar, já era a quarta história de assassinato essa semana.
— Você não pode me ajudar com isso? Ela disse que publicaria um artigo meu se achasse algo relevante o suficiente antes dela voltar! A Stephanie não fala nada sobre? – Luna suplicou, mas C. Respondeu antes que ela pudesse usar sua cara de coitada.
— A pessoa com quem eu mais falo, além dos meus clientes, é você, já não é muita coisa. – Finalmente achou a folha azul, a apoiando sobre a mesa, algo mais importante do que suas notas. – O máximo que a gente discute é “oi” e “tchau”. Mesmo se não fosse o caso, sem ofensa, eu não me importo o suficiente para perguntar sobre o nepobaby do momento.
Luna olhou para o seu livro, e então para a janela, teimosa demais para deixar o ar sair de seus pulmões.
— Eu posso tentar descobrir onde ele vai no horário de aula, ele tem registro de residência aqui no campus mas ninguém sabe onde ele mora. – E assim, desistiu totalmente de estudar. Apanhou o celular para vasculhar o fórum da faculdade.
C. abriu um sorriso de canto ao se deparar com a fixação familiar da amiga, e então voltou a se preocupar com o projeto. Teve que desenhar o núcleo da invenção baseado no achometro, parecia ser instável demais para desmontar, o que dificultava e achar suas funções - já estava no teste décimo-alguma coisa, a pilha de difusores queimados marcando cada tentativa.
Quando olhou para trás novamente, Luna já havia sumido, só se preocupado em levar sua mochila e vestir os sapatos, o resto do cenário, lençois bagunçados, papéis descartados e ursinhos jogados, permaneciam parados no tempo.
A estagiária já tinha um número de suposições, analisando a data de cada foto involuntária e associando ao cenário para descobrir possíveis grades; nada que iria coincidir com o dia de hoje, festas, pessoas de interesse, ela estava quase cogitando desenhar um mapa para triangular possíveis padrões quando percebeu o quão maluco isso parecia.
Valeria mesmo a pena publicar um artigo de fofoca? Ele estava no olhar público desde que nasceu, com certeza sabia se esconder muito melhor do que ela sabia procurar. Fora que com certeza deve haver métodos de defesa, a Wayne Security é segunda no mercado de segurança internacional e ele é o CFO de toda a W.E! Talvez se.. se ela conseguisse fazer ele ir até ela…
Desde que Vale deu a oportunidade, Luna esteve seguindo todas as redes sociais, profissionais e pessoais, de Tim Drake; algo que repudiava pois seu feed deixou de ser sobre animais e livros para aconchegar o conteúdo empresarial associado com o nome Drake, além de fofocas. O filho mantinha muito melhor sua imagem comparado ao seu pai adotivo, sem mergulhos do terceiro andar e dancinhas com estátuas de gelo, a coisa mais escandalosa associada ao nome Drake era sua relação vai e volta com uma “ninguém”.
Porém, quem procura sempre acha. Luna reconheceu um livro específico demais para ser uma cópia idêntica - A edição única da biografia de Percy Wright, incluindo exemplos de cada uma de suas obras; um tesouro nacional de Gotham que só estava disponível na biblioteca municipal. Era um chute cego, mas era um chute. A foto era de semanas atrás mas, no caso dele ainda não ter devolvido o livro, ela poderia presenciar esse momento.
O local era familiar, tinha passado a maioria do seu primeiro semestre lá, perdida entre paredes e paredes de possibilidades de se perder, as visitas ficaram cada vez mais escassas conforme as responsabilidades aumentavam, mas um rosto amigável a reconheceu:
— Nossa, jurava que a Amazon tinha roubado mais uma leitora de mim. – Brincou a bibliotecária chefe com sua voz suave, olhos fixados no pontinho azul bebê ao meio dos livros. Mesmo descontraída, conseguiu instigar um pulo surpreso de Luna, que se endireitou imediatamente.
— Claro que não! Só- só estou meio amarrada com o trabalho, seria difícil aderir os prazos. – Ela se forçou a olhar de volta para a ruiva, Barbara Gordon, alguém cuja reputação superou seu parentesco. Estava cercada de seus próprios feitos, recortes de jornais delatando vitórias como a renovação do código penal da cidade ou a renovação de centros culturais, fotos de celebrações municipais, nada que a vangloriasse, mas todas a envolviam.
Esta mulher com treinamento policial e anos de experiência está puxando assunto com uma jovenzinha muito culpada, uma situação maravilhosa.
— Não duvido nada, já tive meus encontros com a Vale. – Seu tom era sempre convidativo, fazia com que qualquer lugar que habitasse virasse um lar – Me surpreende você voltar, e fora da sessão de ficção. Vai estudar?
— É, sim, na verdade. – Mentiu pelos dentes. – Tenho um trabalho sobre a abstração da mente, pensei que seria um bom exemplo falar em termos práticos, pensei em Louis Wain ou Percy Wright.
— Ah, entendi. Eu não recomendaria Wain para esse tema, ele era um gênio mas a noção que as pinturas ficaram menos realistas conforme o transtorno progredia é um mito. – Direto para a ação, a bibliotecária já estava consultando os arquivos no computador geral. – Se quer mais opções, tem o Richard Dadd, mas já que veio aqui perguntando do Wright… – Alguns segundos se passaram antes que apertasse Enter. – Você é sortuda, em? Voltou hoje de manhã.
A mulher alinhou sua cadeira de rodas para que pudesse alcançar a caixa de livros devolvidos, a destrancou, e pôs o livro grosso sobre a mesa com facilidade. Luna respondeu com um sorriso sem graça, lá se vai a maior pista que tinha, e metade do dia.
— Obrigada! Eu sempre fiquei curiosa em saber quantas das obras dele são desacreditadas hoje em dia. – Uma verdade, desde que descobriu o impacto monumental que o artista e sua musa tiveram nas decorações, quadros e estatuetas de Gotham, manteve uma caça mental à presença do artista.
— Eu contei 367, a Lydia sempre se enfia aonde você menos espera. – A ruiva sorriu, retirando seus óculos para limpá-los – Depois que a poeira abaixar, pode ser seu projeto de férias. Eu poderia te dar pistas.
— Seria um grande desafio. – Infectada, Luna sorriu de volta – Eu não tenho muita esperança que a minha chefe me deixe aconchegada por muito tempo, mas vou lembrar da proposta quando puder.
— Cá entre nós, Luna. – Barbara chamou antes que a outra pudesse pisar para trás. – Tem um certo tipo de mente que precisa de desafios, pessoas como eu e você amolecem fácil se nos distrairmos por muito tempo.
A frase soou pessoal demais para ter saído dos lábios de uma semi-desconhecida. Barbara carregava o ar de alguém culta, mais sábia do que o receptor, como uma técnica de intimidação passiva.
— É por isso que eu sempre tento achar sarna para me coçar – Luna riu, sem graça, abraçando o livro enquanto ia embora o mais rápido que podia sem correr.
Seu prioridade ao escapar de lá foi o cálculo mental de quantos dias ia ter que ficar com o livro para que Bárbara não suspeitasse da desfeita, já o segundo pensamento foi o quão relacionadas as principais figuras de Gotham estavam entre si, todos mantinham uma reputação atingível o suficiente para serem encontrados no dia a dia, algo que a maioria das elites repudia. Estaria caindo em uma armadilha parassocial meticulosamente criada por profissionais, ou era fácil assim se relacionar com os patrimônios imateriais da cidade?
Tentou testar a sorte na viagem de volta, folheando o livro em busca de qualquer risco descuidado possivelmente feito pela mesma caneta que assinou o último nome no registro dentre a contracapa, observando qual era a abertura natural do livro, o espaçamento das páginas, as orelhas nos cantos do papel, e tentando assimilá-las a alguém desconhecido. Usar luz negra seria exagero demais? Levou mais tempo do que se orgulhava, e uma grande quantidade de sangue indo direto para a cabeça, até que notou um padrão sólido o suficiente, o que quase a fez cair da cama; respingos de café semi-recentes, cola de post-it derretida, detalhes muito difíceis de perceber mas que apareciam mais frequentemente nas estátuas, ignorando obras de arte feitas em quaisquer meios se não granito, mármore e metal, desde as monumentais até gárgulas ao topo de prédios e mansões antigas.
Por que Tim Drake estaria estudando estátuas Gothamitas? Repetiu a pergunta para si mesma, esperando que o teto a respondesse. Não pode ser relacionado à musa de Wright ou o artista, já que obras envolvendo ambos eram amplas em método, não podia ser para uma classe, já que as que Luna tinha descoberto não estavam atualmente discutindo o assunto ou deixavam brecha para introduzi-lo. O relógio continuou girando, seus dedos apagando e escrevendo qualquer coisa que pudesse elaborar, até o fúnebre momento em que teve de admitir que qualquer teoria seria pouco mais do que especulação jornalística. Isto não é o que Lois Lane faria! Ela iria atrás de mais fatos, ela iria provar qualquer hipótese com as próprias mãos, ela.. não estaria sendo distraída por missões secundárias de sua colega de quarto criminosa, e focaria em seus objetivos.
Se comparar com seus ídolos deixou de ser motivador a muito tempo:
— Luna. Luna! – C. Chamou, sua presença cortando através da brisa antes que pudesse se tornar um redemoinho, mas seu tom não era nem um pouco reconfortante. Estava no mesmo lugar que de manhã, pouco havia mudado se não a aquisição de EPIs, luvas de plástico, óculos de proteção, ferramentas especializadas voltadas à algo reluzente em sua mesa.
— Oi?
— Eu preciso que você vá até o meu laboratório agora. – Não precisou dizer duas vezes antes que Luna pulasse da cama para colocar seus sapatos. C soldava sem camisa, manuseava armas letais sem nenhuma preocupação, o fato dela estar totalmente trajada no próprio quarto não era um bom sinal. – No galpão mais perto da caixa criogênica vai ter uma peça que se eu disser o nome você vai esquecer, me liga agora, mantêm a chamada, liga o video quando abrir a gaveta e eu te digo qual é. Não vai de ônibus, pega um Uber, eu pago depois.
Luna assentiu com a cabeça a cada comando, mas as questionou internamente, Uber em horário de pico para o Beco do Crime? Elas já tiveram que esperar meia hora por muito menos, elas, as duas juntas, C. Nasceu em Gotham, se ela está dando a ordem, é claro que já considerou as consequências, certo? Piscou para as luzes nascentes das ruas, um horário claro e escuro demais ao mesmo tempo, suas mãos geladas e cerradas, o celular ligado no bolso, misericordiosamente soluçando uma respiração, um xingo, ou um barulho qualquer de vez em nunca para servir prova da segurança de sua amiga. Engolia cada impulso de abrir a boca, com medo de quebrar qualquer transe necessário, sem saber das consequências.
Adentrar a parte mais perigosa de Gotham era como mergulhar nos mares polares, frio, húmido, uma sensação envelopante, de estranheza, que corroía qualquer resquício de conforto que trouxe do quarto. De repente, todos os olhares estavam em si, via silhuetas a todos os cantos, esquecendo de qualquer sorriso já exibido nestes perímetros, de todas as promessas de segurança, de todos os civis inoportunos que vivem por obrigação, da incapacidade moral de construções inanimadas, por mais que tentasse, e tentou muito, só podia pensar em como tudo sempre dá errado no Beco do Crime, como ele é chamado assim por um motivo, como é o ponto mais famoso de Gotham, como estava ali a mandato de uma fora da lei, como veio aqui para ficar mais próxima da ação, da realidade, dos super heróis.
— Desligue o celular. – Sentiu primeiro um frio na nuca, uma única sensação física gritando mais alto do que todos os nervos mentais que a importunavam a um segundo atrás. A voz mecânica, mutilada em sons dissonantes, surgiu imediatamente e naturalmente de lugar nenhum, como se as sombras, os cantos inalcançáveis pela visão periférica, tomassem forma física abruptamente.
Luna congelou, se C. ouviu o estranho pelo telefone, não respondeu de imediato. A figura pressionou o cano metálico mais fundo sob a pele do pescoço em sua frente como incentivo, mas não houve efeito. A única graça que o corpo em choque lhe proporcionava era movimentar suas pupilas, freneticamente e involuntariamente, esquecendo como respirar, assim como todas as dicas e aprendizagens que podiam acudir a situação.
Observou uma mão larga envolvida por couro preto se esticar até o bolso da frente e, sem pressa nenhuma, estender o celular até a frente de seu rosto para que ela mesma seguisse o comando. Os suspiros inconsistentes, desesperados, finalmente tomaram a atenção da outra pessoa na linha, que mal teve tempo de questionar o comportamento antes que a ligação fosse encerrada.
— Por que veio aqui? – A voz questionou, devolvendo o celular ao bolso em que estava, em sua outra mão a arma permanecia imóvel, fundida à vítima. Havia um poste a poucos passos atrás, alto e enferrujado, já acostumado a iluminar cenas similares desde a época em que seu brilho amarelado era moderno, inovador; lutou uma brava batalha contra o tempo, insistindo em iluminar a cena em instantes inconsistentes, mas o máximo que pode oferecer foram breves penumbras rubras, refletidas do capacete de quem atacava, promovendo a cena à um cenário digno de revelação fotográfica.
Capuz Vermelho teve toda a paciência do mundo até que ela cuspisse algo compreensível.
A língua de Luna podia cair a qualquer momento e sua didática estaria inalterada, de repente tudo estava grande demais, pequeno demais, frouxo ou apertado demais. O fundo de sua garganta ardia como se ácido corresse por cada milímetro, despejando-se em todo o seu sistema, desde a traquéia até suas pernas bambas, conseguia sentir os cachos soltos do penteado roçarem em sua pele como arame farpado, um peso no peito que a arqueava para a frente, seu coração e pulmões trabalhando juntos para purificar todo o medo que absorvia da atmosfera pútrida.
— A loja da minha amiga. – disse entre engasgos, os braços voando como imãs opostos em direção um ao outro, o que resultou em um som mecânico, forçando-a a cerrar os olhos. A arma estava travada a um segundo atrás, não mais. – Está- tá aberta. Ela me pediu para fechar.
— Bem tarde para almoçar, onde ela está a essa hora? – Mesmo com os sons agudos e grossos que formavam sua voz, havia uma monotonia constante em seu discurso, entediado, cotidiano.
— Terminando um trabalho da faculdade. – Normalmente, se tratava de uma mentirosa horrível, mas a adrenalina a acudia assim como acode um gambá a fingir de morto. – Saiu mais cedo só que esqueceu de trancar a porta, e como a área é perigosa a noite-
— Alguém que tem um comércio no beco do crime mandou uma turistinha fechar a grade ao nascer da noite? Que irresponsável.
Através de todos os “eu vou morrer, é assim que eu morro” havia uma indignação persistente que fazia suas unhas encontrarem o sangue através dos antebraços. Por que um vigilante, se pode ser chamado assim, está perdendo tempo com uma civil qualquer? Ela oferece tão pouco como ameaça quanto como refém. Ele não tem coisa melhor para fazer?!
— A gente tem que aceitar ajuda de quem oferece – Murmurou e se arrependeu imediatamente, cerrando os olhos. Não era hora, e por muito menos ela já sofreu muito mais nas mãos de pessoas que não estavam segurando uma- qualquer que seja o nome da pistola.
— Tem mesmo.
Um som patético saiu dos lábios de Luna quando percebeu a ausência do cano sob sua pele, o Capuz não pareceu se importar. Levou a arma até o coldre em seu cinto novamente, sabendo que ela era esperta o suficiente para não sair correndo sem permissão.
Passou o segundo mais longo da vida da estranha a observando, e então deu um passo para trás.
— Você pode ir fechar a loja, mas não vai encontrar gente mais boazinha que eu quando voltar. – Sumiu tão rápido quanto apareceu. A menina não se atreveu a descobrir como, se convencendo que se olhasse para trás ia imediatamente perder a habilidade de olhar, simplesmente continuou andando, e andando, e então correndo, até quase se bater contra a porta de madeira “rústica” da loja.
Só teve um momento para ligar o celular após praticamente se jogar escada abaixo, perder de 10x1 para a tranca escondida do laboratório e desistir de procurar o interruptor, optando em ir direto para a gaveta mencionada e a iluminar com a lanterna do celular enquanto o mesmo apitava em um som repetitivo e ensurdecedor. Ligou uma vez, e então outra, é uma terceira, encarando as gerimbocas e parafusetas sem se atrever a tocá-las sem a permissão de C., tentando recuperar seu fôlego afogado pela sua falta de atletismo e ansiedade crônica, presa com os piores cenários possíveis, todos igualmente fundamentados. Ligou pela quarta vez, e então a quinta, quando finalmente teve uma resposta eletrônica, informando que o número discado estava inatingível.
Hi everyone!! You probs don't know me - I'm Cass! (Not like Cassandra Cain)
I decided to do this post in english so it'll reach farther! Basically - I'm writing a DC (Gotham focused) fanfic called "Quando o Sangue Não Seca" or "When the Blood Doesn't Dry" and I'm really excited to show people my interpretations of the characters.. problem is, I have VERY little experience with the comics
So I'm formally asking and begging for any of you experts to suggest some issues I could read - mostly trying to focus on character building and core characteristics of the main bat family
See this as an opportunity to see your favorite obscure comic moment (possibly) represented in writing! Is there a phrase or scene that rocks so much and shapes your blorbo into who they are as a person, but you never see anyone talking about it? Well, Cass will gladly talk about it!
Again, since it's Bat family based writing, I'm mostly looking forward to that, but if you just wanna drop a fun fact about your favorite DC character, feel absolutely free!!!!!
Eu poderia escrever todo um manifesto sobre esse homem e a relação quebrada que ele tem com mulheres, eu poderia ficar horas falando de como ele, assim como o Dick, teve que crescer muito cedo e como isso afeta a visão de vida dele
(PS: Vocês não estão preparados pro quanto eu amo o Damien)
Ao mesmo tempo que eu gosto de explorar como os traumas constroem o Jason como personagem (meus amigos que lêem os meus planos sabem que eu até pesei a mão na minha interpretação dele na QSNS kkkk) eu tbm tenho MUITA dó dele ::::---::::
Juuuuuroooooo que se vcs ficarem tristes demais com oq eu vou escrever, eu faço um capitulo comercial de manteiga luz no fim do túnel tudo oq ele merece S2
Sinopse: Luna e C tentam lidar com suas emoções da melhor maneira possivel, o que não é muito.
Com olhos marejados, ardendo em resposta ao cheiro intragável de metal e plástico queimado, rompendo a fina represa que segurava toda a emoção em seu peito, Luna cuspiu algo entre uma tosse e um soluço, recuperado em inspirações frenéticas, em um ato indigno, vergonhoso e desesperado, assistiu a silhueta de C. se tornar humana novamente, o cessar das chamas satisfeitas e saciadas. A mecânica havia atirado as peças do batarang contra a fornaça de maneira tão apta e responsiva que não percebeu o ardor de sua palma, agora evidenciando o ato com uma pingueira carmesim incessante. O laboratório ecoava cada respiro rasgado de ambas, segundos pesavam como horas, até que Luna, contra todo o senso, interrompeu qualquer que seja o raciocínio lívido de sua colega de quarto:
— O- o que–
— Era a porra de um batarang. – a frase que gritava mais alto entre o emaranhado, saiu de seus lábios como um livramento, como veneno recém provado. A claridez não durou muito antes do amálgama se manifestar novamente, teorias, planos, recursos, armadilhas, armas, tudo o que podia fazer e tudo o que a deixava impotente sobre a situação, o fervor que sentia em relação à antiga cena se acumulou ao fundo de sua garganta para dar lugar ao monstro com quem estava lidando.
O tom da cientista e sua subsequente anarquia contida em murmúrios incitou um calafrio em Luna, que finalmente teve a oportunidade de receber todas as implicações de se relacionar, mesmo que indiretamente, aos grandes nomes do crime de Gotham, sentindo o impacto como um balde de sangue pegajoso e frio, não seria dissipado facilmente. O pior de tudo, o que mantinha seus pés colados ao chão, era que tinha caminhado até aqui com seus próprios passos, ignorado o peso da amizade até que houvesse um pombo morto no chão e um batarang a metros de distância. Por que? Porque estava no beco do crime, na cidade do crime, com uma criminosa, por que havia se disponibilizado como cúmplice, em que momento a água finalmente ferveu, tarde demais para saltar fora?
— Vai embora. – O borrão tomou forma, ela não havia percebido que C. Tinha se aproximado até que sentiu duas mãos em seus ombros, chacoalhando até que uma porção das lágrimas escorreu de seus olhos, se deparando com uma expressão que nunca tinha visto antes. – Vai trabalhar, depois direto pro quarto. – disse com a mesma certeza que escrevia suas linhas de código – Seu almoço tá acabando.
Em qualquer outro dia, ela estaria bisbilhotando cada nuance através das palavras, tentando descobrir o motivo de sua conduta, as razões com a qual age, mas por desespero, por medo, por confiança cega e arrependida, Luna seguiu as ordens. Se removeu até não poder mais durante todo o caminho para fora do laboratório e além - com certeza deveria haver algum tipo de protocolo para isso, C. era sempre tão competente em tudo o que fazia, dizia estar no ramo a mais tempo do que poderia se lembrar, tem de haver um plano. Todas as cenas se repetiram por trás de seus olhos, nem sempre em ordem cronológica, ainda podia ouvir o som molhado do pombo - Pedrito - se deformando abaixo do pé de sua melhor amiga, tocando de novo, e de novo, o sangue derramado no chão manchou, consumiu, todos os prazeres anteriores com culpa, toda memória feliz agora cheirava a carne podre, teorias repercutiam sobre tudo o que não sabia e sobre tudo o que fez não sabendo, questionando como chegou até aqui.
— Eu sei que você não trabalha com a sua imagem, mas valeria a pena fazer um esforço, não? – A voz cortou a tempestade dormente, como se limpasse um vidro embaçado. Devon ainda estava terminando a primeira matéria de Vale enquanto ela montava um quadro branco com o seu notebook temporário, o projetando como única fonte de luz em sua sala; em qualquer outro dia, Luna veria a tolerância de sua chefe como o presente que era. – Se não por você mesma, por mim. Passou seu almoço com o Crocodilo?
— Perdão, senhorita Vale. – murmurou em resposta, ajeitando os óculos para tentar, só tentar. Vale grunhiu em resposta, não suportava qualquer conversa onde a outra parte não se anunciasse claramente, mas um olhar mais demorado a convenceu a ter piedade.
A repórter adicionou a foto que Luna havia tirado ao canto da imagem, circulando a aparição ao fundo, atrás de Sinal podia se ver um relance de Robin Vermelho se ocupando com homens mascarados portando roupas chamativas, algo que não chamaria atenção se não qualificada a novidade dos trajes; trajes costumários de mestres de cerimônia, ternos pretos e amarelos, mascaras de tragédia e comédia, Vale demarcou cada peça para possivelmente delimitar as origens do uniforme.
Ao centro, um frame do discurso maníaco que assombrou todos os receptores em uma área de 5 quilômetros, interceptando até mesmo o canal oficial de notícias dentre estes limites, uma mulher com cabelos loiros, platinados e enrolados à moda dos anos 50, vestida com collant e terno amarelos cujas golas formavam um símbolo de estrela com suas golas, olhando fixamente para a câmera enquanto todo o dinheiro do banco municipal de Gotham abrasava, iluminando seu sorriso diabólico. Uma mensagem sobre visibilidade em todos os sentidos, cada palavra capturada na foto ao seu lado, uma página do caderninho de Vale, cuja escrita sofreu as consequências de um vôo turbulento, mas era legível com esforço:
— Este ato, caros espectadores, é tão insignificante quanto inundar um formigueiro. Não me confundam com outros malfeitores e seus motivos proféticos para cometer crueldades, meu foco não é dificultar as suas vidas, não mais do que pessoas com poderes além dos meus já as arruínam. Amanhã, todo este dinheiro vai ser substituído, impresso novamente, e este ato será esquecido por aqueles cegos, os malditos conformistas e suas vacas gordas, mas você, cujos olhos reluzem com a verdade inata de meu ato, você, meu amigo iluminado, irá lembrar, irá se revoltar, irá engolir a verdade amarga entre todos nós, Gothamitas e além.
Vejam a luz, vejam que este dinheiro não era meu ou seu, era deles, tudo é sempre de quem compra, quem horda e quem protege. Não é de Bruce Wayne, Não é de Oswald Cobblepot, há mãos oleosas que agarram nossas vidas, espremem nossos olhos e se banham em nosso sangue para então, sobre a escuridão que criaram, decepar cada parte de nós, pedaço por pedaço, e nos dar de comer. Vocês agradecem as refeições, os circos, os teatros, leem seus roteiros com sorrisos, vivem e matam de acordo. Eu não me ausento desta realidade, mas irei evidencia-la, tomarei meu próprio papel, eu, Illuminata, os ofereço humildemente uma tocha para que caminhem por si mesmos a caverna afora.
Luna estremeceu ao ver uma linha vermelha, traçada pela caneta digital de sua chefe, conectar o papel à um artigo antigo sobre o Charada, informações privilegiadas continuaram contidas em seus lábios trêmulos:
— Ela nos deixou um presente, é por isso que você está aqui. – Luna lançou um olhar nervoso à mulher que parecia ler sua mente, a voz de Vicki soava muito mais fúnebre do que seu falsetto típico e performático. – Todas as conexões que foram interceptadas já estavam comprometidas a meses, o comissário foi gentil o bastante para compartilhar que o ataque alertou as autoridades locais antes mesmo de ser cometido, e depois que essa “Illuminata” fugiu, os computadores da delegacia receberam os códigos exatos da intercepção. Tudo indica que ela “emprestou” o plano do pateta de verde. Olha isso, a área expandia a cada semana e meia, o pilantra usava pombos- pombos! - para implantar os transmissores.
Vale não desperdiçava elogios, era difícil a surpreender após anos lidando com a pior escória que a cidade da insônia tinha a oferecer. Voltou à foto de Luna, recortando um dos capangas, cuja mascara tinha sido quebrada por um bastão metálico, correspondendo com o rascunho que Luna tinha oferecido como tributo em troca de sua ocupação, uma matéria que nunca viu a luz do dia sobre um dos mais recentes clientes de Harvey Dent.
— Reconhece? – Usou os olhos arregalados da menina como confirmação, mas permitiu que ela balbuceasse mesmo assim.
— É um Maroni. – Quando tudo estava perdido, Luna se apoiava sobre o seu conhecimento como a única âncora em um mar lívido, foi tão grata pela oportunidade que ousou anunciar uma frase completa. – O nome dele é Bill, eu lembro! Ele quem tentou.. tentou negociar com o senhor Dent. Mas eu tenho certeza que essa mulher não estava ligada com a familia quando eu pesquisei. Por que alguém que tem o cargo dele iria se rebaixar a ser um capangas?
— Se for para acreditar no discursinho dela, propina. Se eu for seguir o seu texto.. – em outra aba, as palavras escritas em uma noite de insônia e muita cafeína tinham sido coloridas com fundos amarelos, azuis, e vermelhos. A postura da secretária mudou com tal reconhecimento. – Os Maroni estavam gastando bem mais com o tribunal do que deveriam, mas as sessões passaram a ser adiadas a partir daqui, quando o maior comprador da gangue foi assassinado. Eles estão sem dinheiro, mas Salvatore Maroni ainda está confortável.
Vale digitava na mesma velocidade que falava, um processo bagunçado e genial, mandou a foto dos maltrapilhos para um de seus analistas, anexou o documento como prioridade em seu chat com Devon, tudo enquanto bebia uma garrafa desnecessariamente grande de água.
— Sobre o pilates de terça, – Assim, Luna notou que debaixo de seus pés não havia chão, estava pisando nas nuvens e admirando as estrelas antes de ser puxada, finalmente, à superfície. Tinha aprendido a lidar com suas frustrações ao respirar e repetir “Quando acabar, eu não vou sentir mais”, o pensamento vibrava em sua mente como um colar de choque toda vez que se atrevia a lembrar do corpo que provavelmente ainda estava sangrando no laboratório da mecânica.
Quando seu turno finalmente terminou, após dar “tchau” para todos, devolver o seu crachá à secretaria, lavou seu rosto no banheiro do zelador, um santuário recluso cuja água era boa o suficiente para os padrões de Gotham, vomitou e cobriu o cheiro de bile com os produtos disponíveis, já tinha experiência em se fazer útil com mãos trêmulas e olhos alagados, tinha cinco minutos para chorar, contando o tempo de secar as lágrimas, fechar os olhos por tempo o suficiente para que não aparentassem avermelhados, e escovar os dentes. Chegou adiantada no ponto de ônibus, impedindo que qualquer vídeo vertical tomasse mais que quatro segundos de seu tempo antes de passar para o próximo, a mesma prática com seus pensamentos, não queria pensar sobre o único lugar para qual podia ir ou a única pessoa que poderia ouvi-la.
Tinha um ritual, uma prece, ao voltar para casa assistia as luzes da cidade acenderem, a vilã da semana falhou em fazer deste um desprazer. Luzes são as mesmas em qualquer lugar, o céu de Gotham era tão escuro que nem mesmo a lua tinha força para competir contra as trevas todos os dias, mas Luna gostava de imaginar que os postes, janelas, e placas eram estrelas terrestres que a guiavam à frente, sempre estariam lá, sendo algo sólido e presente. Sua mãe já havia decorado o horário, ligava e tomava o tempo calculado da descida do onibûs até a chegada ao quarto, não é como se tivessem amplos assuntos a serem discutidos, nada de novo, nada de significante.
Havia um zumbido incessante em sua orelha esquerda. Coincidência ou não, era o mesmo lado onde sua cabeça portava o olho danificado. Ambas as órbitas estavam listradas, veias rubras permeando o branco ocular. Quando baixou-as para observar a mão, o lábio contorceu em uma careta, além da pele de sua palma em bolhas, sentia o sangue borbulhar dentro do corpo. Tudo fervia.
C. Gray puxou o ar pela boca, a garganta seca sendo refrescada, deixando para trás a temperatura abafada do laboratório. Estava agora nos becos das ruas estreitas, onde a umidade densa trouxe prazer para sua pele, embora não esfriava aqueles sentimentos.
Existiam poucas coisas que odiasse mais do que sentimentos. Aquele em principal, a impotência. Inferioridade por um acaso, o erro cometido por outro que chegara até ela, em seu território e conformidade. Descaracterizando todo seu trabalho, trazendo risco a tudo que já construiu e se importou.
Logo após a impotência, estava seu ódio. Este era um guia corporal, mecanismo de resposta e inibidor da consciência.
Sua voz estava aprisionada pelo ar ocupando os pulmões, evitando uma fuga alarmante.
Com as costas voltadas para a parede, o rapaz ergueu o pé e descansou a sola do sapato na mesma. O joelho dobrado estalou, fazendo-o inclinar para massageá-lo.
Se arranhou procurando o celular entre algum dos bolsos, entre as faíscas ardentes de seus olhos buscou aquele mesmo contato da manhã. Enviou um chamado breve, lido como convite.
Os passos de coturno chamaram sua atenção na entrada da rua, onde ela dobrou a esquina.
— Eu sabia que iria aceitar o jantar alguma hora, C#. — Ele sorriu.
C#, a mecânica e tecnóloga de especialidade em armamento, aproximou-se do rapaz sem proferir uma palavra, indício ou humor.
Ele a assistiu puxar algo de dentro da jaqueta, seguido por um longo minuto de dor. A carcaça da RPD rasgou parte de sua bochecha, o maxilar ficando úmido conforme o sangue escapava da ferida. Antes do próximo golpe, ele arrumou a postura, erguendo-se e evitando a investida. C# agarrou o cano com as duas mãos e empurrou-o contra a parede, prendendo-lhe pelo pescoço.
Balbuciando, ele tentou questionar “O que?” ou “Por que?”. A saliva dissolvia no sangue, tingindo seus lábios.
Com a garganta pressionada, batia contra o ferro desesperadamente, inútil contra as mãos de C#. O oxigênio passava como uma fina linha até os pulmões, demorando a enchê-los.
Ergueu a perna e usou o joelho contra seu estômago, o suficiente para afastá-la e poder chutar o mesmo local. A garganta livre recebeu o ar em um engasgo.
— Que porra foi essa?! — Raspou a palma da mão no rosto, como se pudesse recolher o sangue. Avançou na esperança de pegar o cano de ferro, em vão pelo desvio e contra-ataque de sua oponente.
Sentiu-se sem escolha. Baixou o corpo, alcançou uma pistola ao lado de dentro da jaqueta e virou o cano na direção de C#.
A última pessoa a portar uma arma em sua face emergiu aos pensamentos. A difusão de luz dos postes tonalizou sua visão, a parede atrás do rapaz ficou vermelha como aquela máscara. A lembrança amassou seu âmago em chamas. A cólica sentimental pareceu expandir como úlceras dentro do corpo.
A bala atingiu os tijolos do outro lado do beco, o clarão de luz formando um curto flash. C# ergueu a carcaça daquela RPD ao pescoço dele, a ponta atravessando da frente às costas da garganta.
As sombras estavam dançantes, os tons variados com chapisco. O sangue despejou em cascata pelo buraco vazio. O corpo perfurado descansava sentado no chão.
Luna ergueu o olhar para a porta do quarto. As dobradiças rangeram e os passos tortos de C. Gray entraram devagar. As amigas encararam-se no silêncio, apenas a Lua iluminava pela janela sem cortinas. Cada uma permaneceu sentada na própria cama, acolhendo-se pela presença sem interação.
C. olhou para o próprio pé esticado, pendendo para fora do colchão. Estava morno pelos raios do Sol que levantava.
Ergueu os olhos e observou Luna, ela apoiava as costas na parede e tinha o rosto enfiado em um livro de capa centrada por uma caveira rodeada de flores. Os olhos estreitos para as letras.
Enquanto a colega passou a noite lendo, C. ocupou o tempo desenhando. Traçou um objeto que agora jazia apoiado entre os lençóis, uma caixa de bateria preta, do tamanho de sua palma, na qual há dias pegou do quarto de Stephanie Brown em suas visitas. Sem rótulos, marca de origem ou medida de amperagem, ela abriu a capa e rabiscou o circuito. Era diferente dos padrões, mais forte do que um carregador portátil, e não compreendeu para qual tipo de dispositivo serviria.
Um bocejo a fez cobrir a boca com a mão, e Luna imitou.
— O que é isso?
— Uma bateria, ou um carregador. Estou tentando descobrir.
— Cuidado para não levar um choque.
— Acho que já acabou a energia. Vou testar no medidor mais tarde. — espreguiçou o corpo, estalando as juntas ao levantar da cama. — Temos aula em poucas horas.
Sinopse: A rotina de uma tecnóloga do crime é mais puxada do que parece. C. Gray tenta ajustar sua agenda e dar conta de cada entrega para o trabalho. O pombo de Luna acaba bagunçando suas tarefas.
O grafite de sua lapiseira quebrou novamente, as migalhas voando pela mesa. Aproveitando o momento, pegou o papel e amassou, arremessando em direção à lixeira já transbordando as ideias descartadas.
C. passou as mãos sobre os cabelos, suspirando irritação. Nenhum rascunho conectava ao outro, nenhuma ideia alcançava seu objetivo e nem seria suficiente para agradar a nova encomenda daquele semestre. O fundo de sua garganta começou a incomodar e desejou um copo de água ou café.
Levantou-se da mesa acumulando as folhas ainda intactas, guardando em uma pasta simples e acomodando-a na bolsa antes de sair do quarto. Trancou a porta, atravessou o corredor e sentiu a brisa da manhã no pátio dos dormitórios. Não respondia mais do que rápidos “Bom dia” conforme passava entre os colegas, chegando à área dos prédios com salas.
A voz de seu professor trouxe mais um peso para lidar.
— Como anda o trabalho da semana, Senhorita Gray?
Era o Senhor Opazuje da aula de matemática, a única matéria que dividia com Luna.
— No caminho, professor. — estendeu a mão para um cumprimento rápido.
— Se precisar tirar alguma dúvida, sabe que pode me chamar.
C. Gray concordou com um sorriso afável e cansado. Em sua experiência de universitária aquela frase queria dizer:
“Me diga que ao menos pensou no que fazer para o trabalho”.
— Na verdade, se o senhor não estiver tão ocupado, talvez possa me ajudar na optativa. Acabei misturando os rascunhos achando que ia dar certo, mas talvez seja melhor só escolher um.
— Claro, não se pode fazer de tudo ao mesmo tempo.
C. declarou querer ter ouvido isso antes. Apresentou ao professor uma ideia que não planejava realizar, apenas utilizou a primeira que flutuava solta em sua memória.
— Mas isso já mexeria demais com a questão molecular. — ponderou o professor.
— Não entendi.
— Você está quase descrevendo um reator. O objetivo dessa atividade é você desenvolver uma estrutura com base nos cálculos, mas não precisa contar cada molécula.
Ambos riram. O Senhor Opazuje exalava o ar de um tio divertido que casara com a tia rica, e virou professor por amor ao ensino. C. particularmente criara um afeto por esta relação.
Partiram para os portões do campus, discutindo tanto sobre aquela atividade curricular que C. aproveitou para realmente anotá-la mais tarde, querendo fazê-la real.
Chegou no quarteirão de sua rua e parou para abrir a antiga porta de madeira, observando o interior do local pela janela adornada em seu centro antes de entrar. A poeira tinha claros picos maiores onde ninguém importou de prestar limpeza, contrariando locais brilhantes e notavelmente usados recentemente. C. havia se esforçado para manter a mesa e bancada do caixa convidativas. Ficava aos fundos daquele cômodo repleto de prateleiras velhas com objetos decorativos e mecânicas completas mas abandonadas ou defeituosas sem esperança, os relógios cuco não cantavam o horário, as bailarinas na caixa não dançavam, e C. observava sua loja sentindo ser parte daqueles objetos, completamente inúteis.
Atravessou o balcão, vislumbrando as engrenagens, bijuterias e bonequinhos de madeira sentados na prateleira de vidro dentro dele. Um ímpeto fez com que puxasse o ar até encher os pulmões por completo, soltando com força ao ponto de parecer ter se afogado.
O estômago de C. havia roncado pela terceira vez, clamando o almoço, e percebeu então que faltava o café da manhã. O relógio no canto de seu monitor piscou 10:00am. E Benjamin trouxe suas garras agrupadas, em formato de concha, vazia.
— Eu esqueci de trazer café, de novo. — deu um leve tapa para afastar a mão mecânica, e alcançou o cabo de uma chave de fenda sobre a mesa. Desparafusou um conjunto da tampa inferior de um cilindro de pressão. O cheiro de mostarda e maionese deu-lhe enjoo. O “Sr.” Rei dos Condimentos teve um combate com algum bat-familiar que conseguiu puxar as mangueiras da arma, e quando tentou consertar trocou as posições, invertendo os molhos. Queria muito uma batata-frita agora.
Levantou-se da mesa e levou os cilindros e conectores pelo laboratório até uma pia inox, onde usou uma mangueira de gatilho para limpar os componentes.
A temperatura da água trazia um aspecto cristalino, e C. lembrou que o Sr. Frio esperava uma inspeção no tanque da arma criogênica. Um potencializador, talvez. Vaga-lume também havia comentado uma ideia, algo que aumentasse o alcance do lança-chamas, sem diminuir a capacidade do gatilho. E aquela outra que precisava de um rascunho para saber como acoplar todos os componentes sem explodir seu ambiente de trabalho.
O cansaço puxou seus ombros para baixo, e deixou-se ali por um momento, sentindo a água esfriar as mãos. Lutaria com um Robin por uma xícara de café.
Na mesa, Benjamin sentiu a vibração de seu celular e fez o favor (programado) de levar o aparelho até ela, atendendo a chamada.
— Eeei, carpinteira.
— É mecânica. — desligou a torneira e deixou os itens na pia, secando as mãos na barra da camisa e pegando o telefone. — O que tem pra hoje?
— Hoje eu não tenho nada, perdi um carregamento pra uma capa preta e sapatinho de elfo. — o rapaz tinha um tom de derrota, mas não surpreso.
— Meus pêsames. O que sobrou pra mim então?
— Era uma boa RPD, mas se nem você der jeito, vai virar meu peso de porta.
C. abafou um riso.
— Me encontra no ponto que deixo ela bonita pra enfeitar sua porta de entrada, tá bem?
— Ótimo, você é minha decoradora preferida. — ouviu uma risada curta do outro lado da linha antes de desligarem.
O Sol já estava em algum lugar atrás dos prédios, formando sombras nos cantos da calçada. C. caminhava sem pressa, as mãos dentro dos bolsos da calça, a máscara de meia-face pesando no interior do casaco corta-vento.
Avistou um topo de antena atrás dos demais apartamentos, muito à frente, no centro de Gotham, onde ela sabia que o Clube dos Máscara Negra voltava a funcionar.
Aquele clube devia ter ficado caído anos atrás, assim como suas memórias e dúvidas saltando da escuridão. Virou uma esquina, aproveitando o vão entre dois prédios e puxando sua máscara. Infantilmente, sentia que as roupas sem cor cobriam-na como mesclada às sombras, e sua mente vagava nelas.
O Máscara Negra foi um bom consumidor naquela época. Pedia algo e pagava alto, foi suficiente para entrar naquele prédio uma única vez para receber pessoalmente e ganhar um drink de recordação. Ao menos foi o que o convite dizia.
Quando desceu do elevador, o recepcionista pediu para a jovem construtora esperar naquele salão de visitas abaixo do andar do escritório principal. Um sofá se estendia ocupando mais da metade do centro em uma lua azul-marinho, com um mini bar na ponta oposta ao elevador.
C. Gray apreciou um coquetel, passeou naquele tapete felpudo e vislumbrou a vista. Gotham pela noite era perigosa no térreo, mas a metros acima do chão era linda nos bairros ricos. As luzes dos outros prédios eram festivas, dançando no céu. Observou-as por alguns minutos. E então viu a antena do outro lado da rua, no topo de um hotel de luxo.
Alto, bruto, uma sombra escura até que um feixe de luz alcançou-o por alguns segundos. A máscara vermelha brilhando em sua direção, e pior fora o longo cano de metal em seu ombro.
C. construiu aquela arma, e ela deveria estar num caixote nos fundos do prédio, não no topo daquele hotel.
Um arrepio percorreu suas espinha, Capuz Vermelho estava mirando uma bazuca na direção do Clube do Máscara Negra.
Lembrar daquele Capuz Vermelho era confuso agora. C. pensou que ele havia sido morto tentando tomar o crime de Gotham. E o como lhe encontrou naquele beco à algumas semanas, fingindo ser apenas um encontro de negócios e tendo implantado as armadilhas para explodir no esgoto, não parecia o mesmo vigilante que conhecera. Estava frágil.
— Arrancaram sua língua como arrancaram seu olho? — chamou o rapaz na poça de luz de um poste. A longa bolsa de academia pesando no ombro.
C. havia atravessado mais duas quadras sem perceber.
— Eu deixei na boceta da sua mãe. Esqueci de tirar.
O rapaz soltou o ar pelas narinas, um riso inconformado. Tirou a bolsa do ombro e estendeu a alça para a mecânica.
— Coisa simples. Acertaram no corpo, o gatilho foi pro saco e uma outra conseguiu perfurar a câmara.
— Eu ia saber só de olhar pra ela, obrigada. — recolheu a sacola sem titubear, atravessando a alça pelo peitoral.
— Bom dia então. — o rapaz não declarou um valor, então C. soube que encontraria dentro da bolsa, ou ele sairia daquela rua sem as pernas.
Passou os dedos sob o zíper e abriu o suficiente para a luz alcançar um dos rolos de papel no fundo, o verde desbotado das notas de Gotham era lindo.
— Menos de dois dias, provavelmente.
Fechou o zíper.
— Qualquer coisa pode me ligar, se quiser um jantar, não sei.
— Eu ainda prefiro sua mãe. — despediu-se com um sorriso gracioso.
Benjamin segurava a bolsa como uma arara enquanto C. esvazia seu conteúdo. A arma era grande, o cano foi desmontado para caber na sacola, intacto. O gatilho foi quebrado por fora, mas parecia funcionar em seu mecanismo. O buraco na câmera da munição chamava atenção, entrou por um lado e saiu pelo outro, mas o interior parecia mais defeituoso.
Abriu a carcaça da arma, observando cada componente.
Na entrada, Luna apareceu acompanhada do cheiro de comida. Com um pulo, C. alegremente foi encontrá-la, se deparando com uma ave em suas mãos.
— Trouxe cru?
Se Luna tentou esconder o quão cansada estava, falhou. Uma risada amena surgiu e se dissipou.
— Eu achei ele na rua, machucado. Houve um fuzuê na rua hoje e eu, eu..
— Relaxa, primeiro vamos comer. Antes que eu morda esse pombo. — C. segurou-a pelos ombros e dirigiu-nas ao balcão vazio no laboratório, uma mesa de metal alta e banquinhos de pernas longas.
Luna descreveu um dia enorme para uma única manhã.
— Mas o que vai fazer com ele depois do veterinário?
— Eu meio que pensei nele..ficar?
— Aqui? — C. ergueu as sobrancelhas. A faculdade não permitia animais nos dormitórios, e o laboratório não era funcional para um.
— Bem, quem sabe, eu não sei, se..
— Ele vai acabar espetado no Benjamin.
C. girou na cadeira, comendo sua marmita, evitando o olhar de Luna. Sabia muito bem o que viria a seguir, a amiga mostraria as órbitas brilhando como um filhote e concordaria com o que disse, só para fazê-la sentir pena e optar pela opção que havia pedido.
— E aqui não tem nada para um pombo. Ele vai querer bicar meus fios.
O pombo havia caminhado pelo chão do laboratório, curioso quanto às cores de Benjamin, e escalou a mesa do computador. Perto o suficiente, Benjamin aproximou o núcleo das garras, observando o animal passeando sobre as ferramentas, tropeçando em peças enquanto soltava arrulhos.
Na área da bancada, após a caixa de ferramentas, as partes da arma aguardavam. Todas caíram no chão, junto ao pombo, fazendo C. pular do banco.
Enchendo a boca, deixou soltar um alto e forte PORRA extravasando a frustração. Luna atravessou o outro lado da mesa, alcançando a ave.
— Não dá pra ele ficar. Definitivamente. — C. recolheu a arma, separando as peças pela bancada e contabilizando se tudo estava presente.
Câmara, gatilho, punho, cano. Tudo parecia correto. Do compartimento da câmara cairá em sua mão uma chapinha de carepa disforme, quase como um triângulo, uma das paredes claramente quebrada e as pontas encurvadas diferentemente. Deixou-a na mesa com as outras partes.
Nas mãos de Luna, o pombo começou a se contorcer. Debatendo, a garota contraiu os dedos como se queimasse, deixando-o voltar a cair no chão em espasmos.
— Ele me deu um choque! — movia os dedos com um arrepio.
A ave estava com as costas voltadas para o chão, os pés chutando em todas as direções, seu bico abrindo em engasgos, uma luz fluorescente iluminou seu interior, saltando do fundo da garganta e de trás de seus olhos. A origem vinha do peitoral quase transparente à medida que aumentava seu brilho.
As duas observavam o animal em choque.
C. tomou coragem e aproximou-se, empunhava uma lámina de corte na mão e usou-a para abrir a cavidade esverdeada.
A luz emergiu da fenda.
O laboratório raiou em verde, tomando as sombras onde as lâmpadas não estavam acesas. A voz ecoou, retumbando de volta para o fundo de seus tImpanos.
— O que é, o que é? — Travesso, o homem apoiava ambas as mãos sobre a bengala, uma cartola pendurada nos dedos. O terno verde escuro destacava os pontos de interrogação na cor preta, grandes e robustos ao traje — Corre em um só rumo. Não é água mas tem a corrente. Te cria e te mata igualmente.
A charada ressoou no ar por um segundo. Luna espantou-se. Charada, o vilão, estava holográfico em sua frente, divertindo-se com sua surpresa.
C. revirou os olhos.
— O seu cu.
Luna arfou com a rudez da colega.
— Ora, vamos, Senhorita. Onde foi guardar seu senso de humor?
— Mesma resposta.
— O pudor também. — o homem desfez a pose, girando o chapéu até encaixá-lo na cabeça e afastando o topo curvado em interrogação da bengala. — Bem, eu devo confessar. — ele junta as mãos, simulando uma oração de olhos abertos — Não esperava ser seu rosto a encontrar meu pombo-tótipo.
— Imagino. Muito pouca gente pegaria um pombo na rua.
C. mirou um olhar irônico para Luna, que continuava boquiaberta.
— Ele está machucado. Eu não queria deixar lá sozinho!
— Mas que coisinha romântica. — Charada vangloriou. — Agora, coloque de volta onde achou.
Luna empertigou-se. Um grande criminoso de Gotham vira seu rosto e agora deu-lhe uma ordem. Um arrepio subiu sua espinha. E se ele descobrisse mais sobre ela?
— Veja bem, Senhor. — C. retomou a conversa — O pombo está descartável. — Com a faquinha usada para abrir a cavidade da ave, apontou para o corpo rígido. — Isso é material orgânico? — Ela mirou a lâmina na luz, observando a umidade — Agora já não vejo uso que te sirva. Posso descartar?
Charada voltou sua atenção outra vez.
— E deixar que tome meu trabalho para suas obras? — ele guardou a bengala debaixo do braço. — Acha que eu sou o que? Um maluco?
— Levando Gotham em consideração, você é são. Foi assim que saiu de Arkham, não foi?
C. deu de costas, bajulando e negando contato a ele, como se fosse um costume.
— Ah, sim. — a voz pareceu soar um pouco mais alta no holograma — Aquele lugar me propôs um ótimo.. abrigo. E perdido tão fácil embora encontrados tantos por ai..
— Um amigo? — Disse Luna.
— Oh, como me alegra uma garota esperta!
C. deixou que eles se entretessem enquanto observava o monitor. Bisbilhotou uma aba depois da outra, observando circulantes da rede do laboratório.
Luna sempre se perguntou se o vilão criava as próprias charadas, não entendendo o como. Agora sentia que elas apenas saltavam na mente daquele homem, totalmente formadas e prontas durante um diálogo ou monólogo. Ao outro lado, C. ocupava as mãos sobre o teclado na mesa. Chegando a empurrar as peças da arma para o canto, Benjamin estava separando-as como quem contabiliza cada item. Dentre os demais, pinçou com suas garras uma lasca de ferro na cor preta. C. desviou o olhar da tela, observando aquele pedaço solto de material.
A voz de Charada reverberou novamente.
— Quem sabe? Não se toca, mas te cega, ofusca estrelas e chega acompanhada pelas sombras?
C. virou para eles, finalmente esboçando algum receio no rosto.
— O que mais você vai querer?
— Então a resposta está na ponta da sua língua?
— Suponho que já sabe que tenho trabalho a fazer. Resuma sua constatação, por favor. — o pedido de educação pareceu raspar sua garganta com espinhos.
— Sabe, Gray. Seu trabalho é muito bem elogiado. Eu ouvi seus clientes em Arkham. Além, além, em uma cela escura, em um corredor silencioso, sem cérebro perambula, faça sol ou faça chuva permanece repugnante, mas sempre estático, fez-te—
O banco da mesa caiu, o som calando o homem. Gray aproximou-se do pombo, quase cobrindo a faixa de luz do holograma.
— O que você quer?
E Charada sorriu.
— Agora que sua atenção é minha, querida, vamos conversar sobre essa sua ideia de querer patentear Gotham e suas ferramentas.
Adaptando para uma postura de reunião séria, Charada deixou a ponta da bengala bater no chão e pular enganchando a curva em seu antebraço, ajeitando a coluna e parecendo mais alto.
— Trabalho a quem me pagar.
— Acredito que tenha um resquício de—
— Minha agenda está cheia.
C. não esperou que ele começasse a falar novamente, encurtou a distância até o corpo do pombo esmorecido e Charada pareceu se encolher no holograma, sendo coberto pela sola de sua bota, até que a luz apagou.
— Você pisou nele! — Luna gritou, preocupada com a ave — Não precisava machucar ele mais ainda!
— Luna, agora não.
— Você não precisa agir dessa forma! O Charada pode ser uma ameaça e você ainda fala com ele desse jeito, e não precisa machucar algo só pra—
— Luna, agora não! — C. havia voltado para a mesa do monitor, pegando as peças daquela arma. Luna arfou, ajoelhando para ver o corpo aberto e pisoteado. Do rasgo inicial saltavam respingos de um sangue coagulado, seu interior era repleto de fios imitando ou substituindo veías.
— Ele já sofreu tanto nas mãos do Charada..
— Eu acho que tenho algo pior pra ficar preocupada..
— Você é tão insensível! Meu Deus. Como pode?
C. ergueu as duas metades da carepa encontradas no núcleo da arma. Ambas levemente triangulares, as pontas curvadas e afiadas. Girando-as até encontrar as paredes iguais onde racharam, C. perdeu o ar nos pulmões.