Vai gostar de cume assim lá no CEB! Tarefa difícil, mas vou tentar “resumir” aqui os 17 dias de aventuras na Chapada.
Dia 12 de maio era o dia marcado para o encontro da turma em Lençóis, porta de entrada da Chapada Diamantina. E para começar com o pé direito, desfrutamos de todo o sossego que só a Cachoeira do Sossego pode nos dar, seguindo pelo leito do Rio Ribeirão e passando por um Cânion. Na volta passamos pelo Ribeirão do Meio onde tem um escorrega natural e um poço convidativo. Mas no apressar da hora, e já satisfeitos com o banho no sossego, apenas apreciamos o visual e retomamos a trilha de volta a Lençóis antes que anoitecesse.
Foi no dia 13 de maio que o grupo ficou completo com a chegada do Mauro, após vôos e conexões. Partimos então para a Gruta do Lapão, que é a maior gruta de quartzito do Brasil. Na saída da gruta optamos pela descida pelo Rio do Lapão, uma ótima opção para banho e recarregar as energias. Ao rever as fotos dessa segunda atividade, isto é, nem tínhamos começado ainda a aventura pra valer, a primeira coisa que me vem na lembrança é o episódio da carteira. Mas tenho apenas o direito de contar que minha linda carteira, que deixei apenas com o necessário, identidade, cartão do banco, plano de saúde e dimdim, especialmente para a viagem, caiu e caiu e caiu. De um buraco a outro da gruta na linda hora feliz do lanche. Não cabe a mim a narração do resgate dela, e sim ao Antônio Dias e Fernando Borges, que acordaram 5h da manhã do dia seguinte e voltaram a saída da gruta, onde utilizaram diversas técnicas para trazer minha carteira de volta. Nossa, o que seria de mim sem eles? Tenho certeza de que eles irão adorar contar essa história novamente, até porque se eu contasse aqui, nem teria tanta graça, eu não tenho o mesmo talento que o Antônio para narrar esse fato. Problema resolvido, culpa esquecida e lição aprendida, pudemos dar inicio a aventura.
Nosso primeiro cume nos esperava, o Morro do Camelo, situado cerca de 4km ao norte do Morro do Pai Inácio, um dos cartões postais da Chapada, com sua silhueta retratando o perfil de um camelo. Partimos em transporte até a base, curiosos com as descrições que haviam sido pesquisadas, que precisaríamos de corda, que tinha lance de escalada, etc. Subimos um trepa pedra solta, danado pra torcer o pé de um, e chegamos ao paredão. Seguimos esse paredão até a fenda. Corda! Passamos por um lance, mas o segundo estava imbatível. Totalmente encharcado e escorregadio. Os guias subiram patinando e analisaram que dali pra diante ficaria pior ainda, a exposição aumentava. Cume cancelado! Conclusão: teremos que voltar a Chapada mais uma vez.
No dia seguinte seguimos de transporte para a vila Caeté-Açú que fica no Vale do Capão. Enquanto a maioria do grupo preferiu ficar por perto organizando as coisas, lavando roupas e indo a uma cachoeira próxima, Yuki e eu estávamos doidas pra ir a Cachoeira da Fumaça, pois o grupo que já tinha ido a Chapada em 2005 já a conhecia. Luciano nos acompanhou e tornou a custosa subida debaixo de sol forte do meio dia menos árdua, contando suas mirabolantes histórias de vida. Realmente valeu a pena matar a curiosidade desse imenso capricho da natureza com sua queda d’água de visual imperdível que se desmancha. Na descida ainda curtimos um lindo e desapressado por do sol.
Chega de moleza! É dado início a travessia Capão - Mucugê. Café da manhã reforçado, até mordida de sanduiche roubada teve. Quem conhece o comilão da turma sabe, deu mole o bicho Nhac. Casinha nas costas e lá vamos nós. Ô mundão, agora sim apreciando o verdadeiro visual da Chapada. Após a pausa no Córrego das Galinhas, seguindo pelos Gerais do Vieira, apreciando o morro com nome de gente, Manuel Victor, e todos os outros em volta a perder de vista, deixando o Morrão para trás. Chegamos bem na hora ao nosso primeiro acampamento na nascente do Rio Preto, a chuvinha rala esperou apenas a montagem das barracas e tomou conta. Ficou indo e voltando, para nos intimidar.
No dia seguinte ela ainda persistiu, mas na primeira estiadinha, escapamos das barracas e saímos naquele nublado esquisito rumo ao segundo cume, a Serra do Esbarrancado, que culmina a 1.700m. A medida que se sobe a serra, a vegetação muda e nos surpreende com linda flora, lembranças que ficam na memória, mas que podemos capturar com nossas máquinas e levar de presente. Mas as nuvens ainda permaneciam no cume, e estávamos caminhando para dentro dela. E assim foi. A foto do cume ficou nebulosa, esperamos um pouco para ver se o tempo abria para poder apreciar tudo lá de cima, mas por ironia, a névoa só se foi quando já estávamos descendo. Menos mal, afinal, temos que dar prosseguimento a travessia. No dia seguinte o destino era a Toca do Gavião, seguimos passando por cima do Vale do Pati, vendo o Morro Branco, os Castelos, a ruinha. Quando chegamos na toca, nos livramos das cargueiras e seguimos leves e soltos pro alto do Cachoeirão, visual semelhante ao da Cachoeira da Fumaça, imperdível. Dessa vez uma parte do grupo bivacou na Toca, que teve o nome alterado para Toca dos Roncadores. Qualquer semelhança é mera coicidência! No quarto e possivelmente último dia da travessia, passamos pelos Gerais do Rio Preto. Na Toca do Caboclo fotografamos pinturas rupestres e tomamos banho no Rio Preto, uma piscina enorme que permitiu boas braçadas. Teve gente que até se libertou de todas as vestes pra curtir melhor o nado em total integração com a natureza. Só quem tava lá foi testemunha dessa entrega. Após a pausa refrescante, duas opções: seguir até Mucugê ou acampar no Rio Paraguaçú e continuar no dia seguinte. Após atravessar, já no cair do sol o Rio Paraguaçú, eu que já não estava sentindo nada, anestesiada, me juntei ao grupo que queria chegar a Mucugê. Foi o dia que mais andamos, de 8h até quase 20h. Mas a recompensa era um chuveiro e uma cama, uau! A metade que ficou acampada ainda pôde apreciar o amanhecer no Rio Paraguaçu, e curtir mais um banho no local que só vimos no escuro.
Destino alcançado com sussesso, Mucugê nos recebeu aconchegante! Luciano nos deixou, já satisfeito com a façanha alcançada até aqui. Dia livre, descanso merecido. Sem pressa fomos conhecer o Cemitério Bizantino que fica bem na entrada da cidade. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, com diferenciada beleza arquitetônica, capelas todas branquinhas e decoradas com estatuetas. Os corajosos e incansáveis ainda subiram até o Cruzeiro para apreciar o por do sol. A noite acompanhamos a banda da cidade dando início aos festejos de São João.
Não acabou não! Seguimos de transporte para Catolés, a segunda travessia era aguardada. A viagem foi longa, pudemos conferir a serra da Tromba no caminho. Descansamos na Cachoeira da Samambaia, já no final da tarde. Mais dois participantes nos deixaram, Airton ficou contundido, e Guilherme o acompanhou. Valeu pelo exemplo Airton, minha adimiração só engrandece! Partimos para o terceiro cume, o Pico do Barbado, o mais alto do Nordeste com 2.033m. Nossa, estava muito sol, matou viu. Mas chegamos lá e ficamos namorando o próximo cume, o Itubira. Na volta ainda sobrou energia para uma sinuquinha com cervejinha, de guias contra nós participantes, que saímos vencedores.
Sem perder o ritmo, demos início a travessia Catolés – Rio de Contas. Seguindo pelo Guarda Mor chegamos a mais um desafio. Um baita paredão. Haja energia pra subir aquilo com cargueira! Isso lá é maneira de começar uma travessia? Mas, falando particularmente da minha pessoa, esse foi mais um desafio superado, assim como os outros, daqueles que depois você exclama: Nossa, eu fiz isso! Que doideira! Esse é o gostinho, e que gostinho bom... E no acampamento na Toca da Mutuca ainda tinha ofurô natural, tudo a favor da nossa recuperação. Paredão vencido, e nada de alívio. No dia seguinte a trilha seguia acidentada e consumiu o resto das minhas energias. Chegamos a base do Itubira, eu satisfeitíssima com toda minha superação até aqui, resolvi ficar com as mochilas enquanto o restante conquistava mais um cume. - Que bom que você não foi. Disseram eles! A subida tinha sido chatinha, complicada, foram pelo lado mais difícil. Parece até que eu estava adivinhando. A descida que foi tranquila, por onde deveria ter sido a subida. Finalizando, ao chegar na estrada uma miragem! Tudo tinha dado certo e o transporte nos esperava direitinho conforme havia sido combinado.
Em Rio de Contas o dia de descanso realmente foi respeitado, depois de conhecer a Cachoeira do Fraga, fizemos até uma sessão cineminha, com o Filme “Abril Despedaçado” que tinha sido parte filmada bem ali onde estávamos, em Rio de Contas. Não tinha cenário melhor para assistir a esse filme.
Energias recarregadas, estávamos prontos para o quinto e último cume, pelo menos por essa vez. O Pico das Almas. E na volta ainda teve um delicioso banho numa prainha, pra lavar qualquer que seja a alma!
Nenhuma câmara fotográfica consegue captar totalmente a beleza e grandiosidade das paisagens vistas, pois estas são vividas onde há emoção, superação e conquista, tudo misturado e único. Passamos a ver a vida de um jeito bem mais simples, onde o simples é o mais valorizado. A toda família CEB, um grande abraço e até a próxima!
Texto que escrevi para ser publicado no boletim do CEB de Julho/Agosto de 2007. Luciana Alves.
Veja todas as fotos nos meus álbuns de férias 2007!