Chilling Adventures: Day, Ahreum and TY Montgomery feat. Ianthe Huang — Golden Days
Eu tinha aprendido que persistência e teimosia moviam o mundo muito cedo. Não importava quantas vezes os meninos maiores acertassem os tacos de lacrosse deles na minha cara e me arrancassem um dente, eu sempre voltava com a boca cheia de algodão pra prática do dia seguinte, e isso valia pra sempre que era desiludido na escola por alguém, e forçava meu corpo triste e exausto de sete anos pra fora da cama, pra encarar meus ex contatinhos com outros contatinhos.
Valia também quando minha mãe deixava a mim, TY e Ahreum com duas babás, e dizia que precisava trabalhar, que envolvia ela realmente atendendo alguém, dando aulas no estúdio dela ou criando conteúdo pra Internet. O último, sendo desculpa pra ficar cinco minutos sozinha em qualquer parte da nossa casa enorme fazendo qualquer coisa que não fosse colar band aid em machucados e separar brigas.
Mas não queria dizer que ela realmente conseguia.
— E eu queria dizer que também é importante ter momentos pra si mesma… — Minha mãe narrava pros seguidores dela, o que parecia ser uma live de um tutorial de maquiagem num dos muitos banheiros da nossa casa, que ela jurou que sabíamos da existência.
Normalmente as transmissões terminavam comigo e ela discutindo sobre o que era relevante ou não, enquanto Ahreum escalava a pia e tomava a autoria da live, misturando um monte de sombras e coisas no rosto, fingindo saber exatamente o que estava fazendo, quando TY não se juntava também, e usava seu tempo pra mostrar os presentes que aprendeu a deixar no peniquinho.
Minha mãe levou muito tempo até entender que ela não ia mais ter paz depois de ter três filhos, felizmente, ela tinha nós três pra guiar ela por esse caminho.
Se eu soubesse que as coisas iam terminar daquele jeito, não teria levantado da minha cama naquele dia. Victoria não perdia mesmo nada faltando a todos os sábados de piscina que a gente tirava quando a temperatura na cidade batia quase 45 graus na sombra.
Imaginava todos seus comentários raivosos e indignados, quando desistimos de pegar câncer de pele do lado de fora e fomos jogar UNO na sala de estar com o ar condicionado quase tocando Let It Go, vendo Ianthe ganhar pela oitava partida consecutiva sem nem se abalar e começar a fazer Day desconfiar dela, eu e TY muito exaustos daquelas discussões pra realmente nos meter.
— Isso não é humanamente possível! Você roubou! — Day declarou, indignado e apontando um dedo na cara dela, depois de perder pela nona vez.
— Você é péssimo e é por isso que eu não preciso roubar. — Minha prima mais velha fez questão de pontuar, dando um tapa na mão do meu irmão, o sorrisinho de quem estava tendo seu maior momento em vida. Por causa de um jogo maldito de cartas. — Você é péssimo. Não sei como ainda tem amigos, eu não andaria com uma pessoa que perde nove vezes no UNO.
— Eu te garanto que meus amigos não reclamam. — Meu irmão tentou defender sua honra, ou seja lá o que fosse, enquanto embaralhava as cartas de novo. — E quem faz também não.
— Você ta falando do Connor II? — E eu juro que minha intenção nunca foi expor ninguém, e que no fundo não tinha pensado nas minhas palavras antes de dizer elas, mas tinha sido mais forte que eu.
— Ficou com o Connor II? — E Ianthe foi mais rápida do que meu pedido de desculpas.
— Ele não é mais seu namorado faz quase um ano. — E Day mais rápido ainda em tentar tirar o dele da reta.
— Treeeeta. — E TY, mais que os dois, prevendo a merda que aquilo ia dar, deitado em alguma parte da sala, aparecendo só pra acompanhar a discussão de perto.
— Mas foi você quem criou essa regra ridícula. A de não poder pegar ex de parente.
— E você me dá mesmo atenção? Desde quando? Foi só uma mão amiga, Ianthe, não vou me casar com ele.
— Isso é ótimo, sério mesmo, porque fui a primeira garota na vida da maioria das suas ex namoradas.
A próxima coisa que eu sabia, era que estávamos eu e meu irmão caçula, cada um segurando uma almofada e sentados na escadaria, tentando nos proteger no campo de batalha que a sala de casa virou quando os dois começaram a jogar as outras um no outro.
— NÃO ACREDITO QUE FICOU COM MINHAS EX, IANTHE! ISSO É MUITO PIOR! — Almofada na cara.
— VOCÊ NEM GOSTA DE MENINAS, QUAL É O PROBLEMA? ELAS ME PEDIRAM, POR QUE EU RECUSARIA? — Almofada no braço.
— POR CAUSA DA REGRA, IANTHE! A NOSSA REGRA! — Almofada na barriga, suficiente pra grudar no piercing da minha prima mais velha e fazer ela chorar. — NÃO TEM IMPORTÂNCIA, PASSEI O RODO NOS SEUS CRUSHES TAMBÉM.
— PUTA MERDA, O MARK DO CLUBE DE CINEMA?
— PIOR. O DO CLUBE DE CINEMA, O DA EQUIPE DE NATAÇÃO E O VENDEDOR DE COLCHÃO.
Naquele momento, a almofada pendurada no umbigo de Ianthe não a impediu de correr atrás de Day até o derrubar no meio do caminho pra nossa cozinha, muito menos de começar a puxar as pernas dele como se estivéssemos em uma cena de filme de terror.
Pelo menos não tinham nada pra se machucar, até TY jogar um dos canudos de alumínio, que minha mãe tinha colocado nos nossos copos mais cedo, nas mãos de Day, e aquilo virar uma arma branca.
— Qual é o seu problema?! — Acusei meu irmão mais novo dando um tapa em sua testa, vendo meu outro irmão ameaçar Ianthe com o pedaço de metal, quando a mesma conseguiu o escalar e bater em seu peito.
— Me perdoa, eu to nervoso. Eu não sei o que eu to fazendo! — TY tentou se defender, as mãos jogadas no ar, tentando resolver a confusão da pior maneira possível.
— SE VOCÊ NÃO PARAR, VOU FURAR SEU SILICONE!
— E EU VOU QUEBRAR TODOS OS SEUS DENTES, DE NOVO! QUAL FOI A SUA DIFICULDADE EM ME CONTAR? PODERÍAMOS ESTAR AGORA FAZENDO FOFOCA DESSAS PESSOAS COMO AS DUAS PIRANHAS SEM CREDIBILIDADE QUE NÓS DOIS SOMOS.
Não sei dizer como terminou, desisti de ouvir o resto quando o assunto ficou baixo demais até pra mim, e é seguro, inclusive, dizer que não voltei a dar as caras na sala mesmo com os gritos e ameaças aumentando de tempos em tempos, porque eu não ligava mesmo.
Eu e Day nascemos com uma diferença de dois dias. Ele primeiro, eu depois, no mesmo mês, no mesmo ano, e muito além de festas de aniversário às vezes compartilhadas, nos conectavamos como se fossemos mesmo gêmeos de outra mãe e pai. Era mais fácil conversar com ele, às vezes parecia que um entendia o conflito do outro antes mesmo de expor e tínhamos nossos próprios ideais compartilhados.
— Eu abro as suas, você abre as minhas. — Instrui meu primo, lhe entregando minhas cartas de resposta das faculdades que tinha me inscrito.
— Okay… Então. Eu vou pela ordem de importância. — Day me deixou saber, ms entregando as suas, se sentando ao meu lado na frente do piano da St.Judes. — Navarro… É sua. Fizeram questão de dizer que está convidada pro programa de calouros no verão, e que… Seria uma honra contar com você lá. — Disse, ainda passando os olhos no papel, um dos braços envolvendo os meus ombros enquanto eu afundava meu rosto em seu peito, soltando um gritinho de puro êxtase.
— Princeton College… É sua. — O informei, abrindo um sorriso lendo a confirmação brilhando no final da folha, achando difícil continuar ao lado dele com todos os pulinhos que ele deu ainda sentado. — Também disseram que seria incrível ter você no programa de verão e que é uma honra.
— Parabéns, você mereceu.
Então, começamos a abrir as outras cartas, a maioria delas constando resultados positivos, as outras informando uma espera, e uma única indicando um convite. De Julliard. A porra da faculdade de Artes que só aceitava 24 alunos por ano.
Não sabia o que passava pela cabeça dele, mas sabia o que passava pela minha, e apesar de confusa, rápida e aos tropeços, parecia clara.
— Bom, que seja. Sou líder de torcida, não bailarina performática. Eu nem mandei nada pra eles. — Indaguei, sem saber se era raiva ou surpresa, pegando minha carta de suas mãos e entregando a dele no lugar.
— É um convite, não precisa se inscrever quando é convidado, porque eles não convidam pessoas, nunca. — Day tentou clarear as coisas, as pernas tremendo tanto que parecia que ia sair do lugar. — Viram a mim, viram você…
— Em alguma competição, em algum amistoso, as apresentações na academia… — Ia completando sua linha de raciocínio, tendo lembranças de cada vez que pisei em um palco na vida, e todas elas, por diversão.
Nas seletivas, a ideia de ter uma Universidade do outro lado do país interessada em cinco minutos da minha atenção não parecia real. Do mesmo jeito que eu e Day, pela última vez nos enfrentando em corais do ensino médio, também não.
— Não vou aceitar. Não posso. — Proferi apertando minha squeeze de água com as mãos, piscando os olhos tão rápido que jurei que meus cílios iam descolar, enquanto andávamos os dois, de um lado para o outro, no backstage. — Day, eu decidi que queria ser líder de torcida desde os meus quatro anos. Não tem um só dia que eu não pense na Gabi Butler e no quanto quero chegar no patamar dela… Eu sei que é só a droga de uma Universidade comunitária, contra a droga do maior Conservatório de artes do país, mas é a minha droga de Universidade comunitária.
— Eu não quero, não posso querer. — Meu primo prosseguiu com suas próprias preocupações, esfregando as mãos na calça social, a voz de Yves Corazon treinando as próprias escalas sendo a trilha sonora de nossa crise existencial dupla. — Eu sou engenheiro… Pelo menos sei que quero me tornar um. Eu quero construir um mundo novo, Ianthe, não fazer parte de um completamente diferente. É a minha vida inteira, o meu maior sonho. Eu sempre soube.
Tinha certeza que no momento de silêncio, ele começou a pensar nas vezes em que também dançou, cantou e tocou por amor, assim como eu, e como aquele mundo conectava nós dois a vida inteira, e agora ali pela última vez, quando só um de nós ia conseguir ir pra próxima fase, e quem sabe chegar na Nacional.
— Não vou se você não for. — Sabia que não podia fazer aquilo, mas sabia também que àquela altura, estávamos na mesma sintonia.
— Eu também não vou se você não for. — Então o senti alcançar uma de minhas mãos, me fazendo parar no meio do corredor, e a próxima coisa que nós dois vimos, foi minha tia, e sua mãe, que tinha nos introduzido todo aquele universo desde o berço, e que morreria por uma notícia daquelas.
— Se você não contar, eu não conto.
Não importava quem ia terminar em primeiro naquele dia, quem podia acabar chegando em Nova York no final das contas, mas o fato de que depois que a formatura passasse, e o verão também, eu ia pra Navarro, e ele Princeton, como tinha que ser, mesmo que a gente se perguntasse depois o que poderia ter acontecido se fosse o contrário.
As chances de eu contrair alguma infecção ou desenvolver alguma doença aleatória e absurda depois do transplante, eram tão reais e presentes quanto a realidade de que mesmo tomando os meus remédios e me cuidando quando necessário e não também, eu podia acabar morto no final de um dia que começou bem.
Começou com uma febre muito leve aqui, e depois uns sangramentos nasais ali, e quando percebi, talvez tarde demais, estava sendo hospitalizado pela milésima vez em vida, por causa de só um dos muitos efeitos colaterais a longo prazo que eu já sabia que estava sujeito a ter.
— Então, eu não vou ficar careca. — Comentei por cima das explicações do meu médico, enquanto ele mostrava as bolinhas brilhantes em um dos meus exames, todas no meu nariz. — E nem morrer daqui seis meses.
— São só pólipos. Ainda é câncer, mas não o tipo que pode tirar você do caminho atual e sem problemas que está. — O mais velho me assegurou, segurando um dos meus ombros como se eu ainda batesse na altura de seu joelho e ali, já não tivesse o ultrapassado em altura.
— Não é ainda. — O corrigi, como sempre fazia, porque não podia me dar ao luxo de dar a mim mesmo um minuto de paz.
— Não é, ainda, mas esperamos que não seja, mesmo no futuro.
Na mesma semana, depois de tirar cada um deles do meu nariz, soube que minha lista de remédios ia ser cortada pela metade, depois de quase cinco anos, como tinham me prometido, e na semana seguinte, conheci Yul pela primeira vez, e só consegui carregar ela nos meus braços depois de saber que ela não tinha a menor chance de ter os mesmos problemas que eu no futuro. Pensada e planejada pra evitar um pesadelo que minha mãe não ia ser mais capaz de lidar, uma segunda vez.
— Ela é tão preciosa. — Sussurrei pra minha mãe, deitado ao seu lado em sua cama de hospital, vendo minha irmã caçula passar de parente pra parente no quarto, porque nunca pareciam ter o suficiente dela.
— Mas você é ainda mais. — Minha mãe me deixou saber, uma das mãos apertando minha bochecha, a outra segurando meus ombros com força. — Mesmo que ela seja mais fofinha agora, e não reclame a cada cinco minutos o quão grudenta eu sou, você é mais precioso.
Não podia e não queria sentir ciúmes de uma garotinha recém nascida, não quando Day e Ahreum saíram do outro lado do mundo pra ver seu rosto gordinho sujo de catarro, não quando Ianthe faltou em uma de suas peças só pra tentar ensinar ela a piscar pros outros bebês do berçário, não quando eu mesmo tinha deixado passar uma das entrevistas pra faculdade pra ouvir ela chorar e cuspir na minha cara toda vez que a pegava no colo. Ela era preciosa, e era importante agora, também, e, mais uma vez, tinha juntado cada pessoa daquela família na mesma cidade. Um sinal feliz.