Eu, como boa amante de livros e atualmente com tempo de sobra, decidi criar essa página pra escrever um pouco sobre o que eu ando lendo e talvez sobre algo mais que me venha na cabeça.
Na foto, sou eu cheirando livro novo que chegou essa semana e que já está sendo aclamadíssimo por mim, o “Desterros”, da Natalia Timerman.
Desde o lançamento de Estação Carandiru, escrito por Drauzio Varella, a literatura brasileira se viu abastecida com livros da chamada “literatura da cadeia”. Explicando os pormenores da rotina de diversas facções criminosas país afora, livros como Cidade Partida e Abusado conquistaram o público pelo didatismo e capacidade de mergulhar o leitor em um universo áspero como a criminalidade das grandes metrópoles. O que Natalia Timerman faz com este Desterros, entretanto, é o exato oposto.
Psiquiatra do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, Natalia se dispõe a contar em quase 200 páginas suas experiências ao longo de alguns anos cuidando de estupradores, homicidas, ladrões e toda sorte de gente encarcerada num hospital-prisão. O que se lê em Desterros é o testemunho abafado da péssima condição a que são submetidos os humanos. Munida de Hannah Arendt, a autora atinge outro nível de literatura no momento em que vira participante ativa da escrita, trazendo muito mais sentimento do que jornalismo. Não há tempo a perder com didatismos – em Desterros, a verdade está lá dentro, e para conhecê-la é preciso entrar num lugar abafado e cheio de protocolos de segurança. Uma vez dentro, o leitor que se vire para sair.
Natalia causa desconforto enquanto parece esfregar uma lixa nos olhos de quem a lê – não há possibilidade de respiro ao conviver com essa gente. Porque é isso o que acabamos fazendo: conviver com personagens que ocupam de meros parágrafos a jornadas inteiras, como é o caso de Donamingo, angolana cuja história vai se desdobrando entre os capítulos como um falso respiro. Incômodo sem fazer concessões, Desterros desloca o foco e bota o leitor contra a parede. Desta outra terra, assim como os sentenciados, saia impune se puder.