Post 2 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Prólogo 2
Dia 0 Data 28/04/2017 Cidade: Sevilha, Espanha
Não lembro exatamente quando decidi fazer o caminho de Santiago de Compostela, talvez quando morava na França, porém, acredito lembrar quando devo ter escutado sobre ele pela primeira vez.
Durante minha época de universitário nos anos 2000, em algum papo com um amigo, ele contou sobre sua febre de ler livros de literatura enquanto lia livros acadêmicos, dentre eles, ele leu o famoso livro de Paulo Coelho, “O Diário de um Mago”, cujo personagem principal realiza o caminho como parte do enredo, assim como o próprio autor o fez na década de 80 (livro que eu ainda não li). Para quem não sabe, esse livro é o motivo pelo qual meio mundo ficou sabendo do caminho e deseja fazê-lo.
Do nada, decidimos. Um dia iríamos fazer o caminho de Santiago de Compostela juntos, sem motivos ou prazos para tal.
Muito tempo se passou e meus pais decidiram fazer o famoso Caminho depois de ouvir que algum conhecido o havia feito. No entanto, nunca o fizeram (até o momento), apesar de terem realizado alguns treinos, lido sobre o tema e comprado alguns equipamentos básicos.
Mais tempo se passou, conhecidos fizeram o Caminho, outros comentaram que o fariam ou que sabiam de alguém que o havia percorrido recentemente. Parecia que a peregrinação era como ir para Buenos Aires, todos haviam ido, exceto eu (destino tão próximo que nunca visitei).
Como já dito anteriormente, morei na França onde conheci outras pessoas que tinham o mesmo sonho. Foi aqui que alguém me indicou ver o filme “The way”, principal motivo de envio de peregrinos da América do Norte, segundo pesquisa empírica minha. O sonho parecia estar lá, mas não a obstinação. Talvez daí a vontade, fazer aquilo que outros só falavam, vivenciar o sonho dos outros.
Pois bem, estava no lugar e hora certa, morava na França, meu curso iria acabar em setembro de 2015 e por que não terminar minha temporada na Europa com chave de outro realizando o mágico Caminho de Santiago de Compostela? Para essa época do ano, o caminho mais indicado era o Francês com destino ao noroeste espanhol na região da Galícia, cuja capital é Santiago de Compostela. No entanto, a peregrinação foi abortada umas 3 vezes, pois outras oportunidades se abriram e se fecharam na França de outubro de 2015 até o final do ano seguinte.
Ao voltar para o Brasil, e deixar a França e seus benefícios para trás, no final de 2016, eu me decidira em fazer o caminho em abril de 2017. Até lá, voltaria a pular as 7 ondinhas em praias brasileiras na virada, iria a casamentos de amigos e aguardaria o nascimento do meu sobrinho. Agora era a hora de tomar cabo dos eventos, até um ponto.
Abril de 2017, volto à Europa, faço as últimas compras (apressadas e desnecessárias) e começo a vida de turista pré-caminho. Grande erro. Abraçar o mundo é perigoso, bem como o orgulho ou a teimosia, que quase me custou a peregrinação antes mesmo de começá-la e que me custaria muito nas semanas seguintes.
Mas vamos seguir a ordem cronológica dos fatos.
Antes de começar o caminho em Sevilha, eu fiz turismo na Espanha passando por Barcelona, Madri, Granada e Córdoba. Enquanto as visitava, fiquei dia e noite com minha bota (pesada) de caminhada para me habituar com ela além de evitar mais peso na mochila com um calçado secundário de passeio. O uso e abuso da bota acabou por fadigar meu calcanhar direito em Madri. Fadigar é outra palavra para distender, estirar e/ou inflamar meu tendão de Aquiles. Isso tudo ocorrendo dias antes de começar a “Vía de la plata” (ou também chamado Mozarábe).
Ah claro, por que esse caminho em vez do Francês? No meio das postergações, uma brasileira na França me comentou dos monumentos romanos que poderiam ser vistos ao percorrê-lo. Busquei no Google e, imediatamente, gostei dele. Engraçado, nunca mais vi essa brasileira (c’est la vie).
Para situar você no meio disso tudo, darei uma breve descrição sobre os caminhos até Santiago de Compostela. A peregrinação é livre e não possui somente um caminho pré-determinado. Diferentemente do que se pensa, não é um caminho exclusivo e isolado do mundo, são estradas, geralmente, rurais que se interligam passando por vilarejos do interior espanhol. Você pode sair da sua casa e tomar qualquer trajeto até lá. No entanto, há caminhos “clássicos” (que eu assim os chamo) através da Espanha, Portugal, França e Alemanha (depende de onde você parte) que lhe oferecem toda a logística para realizar o caminho como pousadas e restaurantes. Sem contar as famosas flechas amarelas orientando seu caminho com destino a cidade-alvo na Galícia.
Os caminhos “clássicos” são:
O caminho Francês saindo da França na cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port, o mais tradicional, popular e cheio de todos os caminhos
O caminho do Norte que passa pela costa norte espanhola
O caminho Português saindo de alguma cidade portuguesa ou da fronteira norte de Portugal com a Espanha
O caminho Primitivo, trajeto mais curto saindo do interior espanhol
A “Vía de la Plata” que será longamente descrito ao longo deste livro
E muitos outros. Para mais, sugiro visitar o site España Fascinante (https://espanafascinante.com/camino-de-santiago-espana-fascinante/)
O mais importante que se deve saber é o tempo (dias, semanas, meses) que você terá para caminhar e, de acordo com esse tempo, escolher de onde começar dentro desses caminhos por pura questão de comodidade. Nada impede de você começar de onde você quiser, porém, talvez não exista a infraestrutura ou descontos para peregrinos em seu trajeto (a ser falado mais no futuro).
Voltando a mim, eu, querendo ser “diferentão”, escolhi o caminho partindo do sul espanhol, da província da Andaluzia. A “Vía de la Plata” é um caminho audacioso, mais longo que o usual caminho Francês, com 1000 km em 37 etapas, mais desgastante e “perigoso” por ser menos povoado que os demais caminhos. Ou seja, isso faz com que não haja flexibilidade nas etapas diárias. Esse caminho de peregrinação estabelecida sobre uma via romana antiga, prateada pelas pedras brancas, começa em Sevilha e termina em Santiago de Compostela (ou onde tiver que acabar).
Talvez a ideia de caminhar 1000 km tenha soado algo em mim, uma cifra bonita para se carregar como troféu (invisível e por vezes idiota).
Já é tarde, estou escrevendo por mais de 1 hora em minha cama do albergue em Sevilha e preciso descansar. O caminho começa amanhã (ou já começou quando sai da minha casa no Brasil?) e espero sentir durante todo o caminho aquilo que senti ao ver a placa com a flecha amarela pela primeira vez no vilarejo de Baena quando viajava de ônibus de Madri para a Andaluzia. Indescritível o que senti! Olhos marejados e um turbilhão de pensamentos. Talvez tenha enfim me enxergado no caminho.
Chegou minha vez. Sem motivos claros, talvez por uma sucessão ou construção de eventos, eu me decidi em realizar o caminho do santo e de muitos não-santos (a ser explicado no futuro). Quem sabe naquele momento, fui cumprir a promessa de outros ou, então, simplesmente caminhar, o que mais fiz e ainda faço na vida. Talvez esse seja o meu porquê.
Ultreya e suseya! (Saudação e réplica de peregrinos quando se cruzam ao longo do caminho)











