Seeking out, looking for you wherever you're. | POV
Acertar as contas com Oswald não fora lá muito fácil, o agiota era esperto e estava sempre pronto para tirar vantagem. Tivera de inventar uma história a cerca de como ganhara o dinheiro numa aposta arrisca na cidade vizinha, deixando de lado qualquer coisa sobre seus pais. Oswald até tentara pressionar por mais, alegando juros, mas ele fizera questão de mostrar que só tinha aquilo e que era a última chance que teria de pagar, então era melhor que aceitasse – Oswald o fitara como se fosse mandar o matarem logo e levar todo o dinheiro, mas no fim das contas ele aceitara o cheque apenas com uma ameaça caso o valor não fosse compensado, e Alan ganhara um soco “leve” no estomago como despedida. Podia ter sido bem pior.
Seu apartamento, felizmente, continuava quase intacto – a fora a bagunça – e pelo menos quanto a isso não teria que se preocupar. Era só um lugar apertado, localizado numa parte nada nobre da cidade, mas era relativamente seguro e serviria de abrigo para Julie, caso ele precisasse trazê-la para lá. O problema seria conseguir resgatá-la, mas para isso ele tinha algumas ideias – não boas ideias, mas pelo menos ideias.
Alan sempre fora um bom mentiroso, e aquilo lhe veio a calhar naquele dia. Desde que fora solto tentara de muitas formas se aproximar do hospital e fazer contato com Julie, mas todas as tentativas foram frustradas pelo carrancudo Dr. Fletcher que ameaçara até mesmo denunciá-lo – desnecessário dizer que o médico tampouco quisera ouvir suas explicações quanto a sanidade de Julianne. Por isso tivera de apelar a outros meios, ainda que implícitos, para conseguir cumprir sua promessa. Infelizmente, sua habilidade de invasor era bem menor do que a sua de mentiroso, por isso tivera que implorar ajuda de seu velho colega de trabalho, e inventar uma bela história para conseguir entrar sem identificação durante um dos turnos de um guarda novato. Seu antigo uniforme de “moço do esfregão” lhe fizera parecer menos suspeito, e conseguira entrar nos andares mais baixos do prédio.
Para chegar até Julie teria que subir as escadas de três andares, não arriscaria pegar o elevador pelo risco de dar de cara com Fletcher. Pegara um dos esfregões para dar credibilidade a seu disfarce, e um velho boné que puxara sobre o rosto para tentar esconder-se. Era começo da noite ainda, ou seja, havia pouco movimento, mas o suficiente para lhe dar cobertura caso precisasse. A mesa das enfermeiras, de onde uma mulher robusta vigiava tudo, estava uma cacofonia de vozes vindas das enfermeiras mais jovens que aproveitavam o horário de troca de turnos para bater papo. Ele se esgueirou por debaixo do balcão, esforçando-se ao máximo para passar despercebido por todos. Seguiu pelos corredores, espiando as pequenas janelas nas portas em busca de Julie.
Ao chegar no fim do corredor, encontrou o quarto com o nome dela anotado no prontuário, espiou pela janela e nada viu exceto uma cama bem feita. Deixando a cautela de lado, entrou no recinto para verificar se os pertences dela ainda estavam ali. Dirigiu-se até a pequena cômoda, abrindo-a para achar algum dos pertences da namorada e respirou aliviado – se ela tivesse sido liberada, não sabia se ela saberia onde acha-lo ou se poderia encontra-la depois. Não obstante, seu alivio não durou mais do que uma fração de segundos. Sentiu a pancada forte nas costas, fazendo seu corpo protestar de dor, caindo para o lado como um saco de batatas. “Shit.” Resmungou, rolando sobre si mesmo para identificar quem o atacara e dando de cara com Ron.
“Não pensei que fosse ser tão burro de voltar aqui depois de foder com meus assunto, mas você é muito mais idiota que pensei.” Ron falou em tom baixo, como se não quisesse chamar muita atenção, porém o ódio era claro nos seus olhos. O chute que veio a seguir já era esperado, então Alan, usou o braço para evitar a pancada no torso e rastejou para longe do alcance do loiro. Seu braço doía a valer, e provavelmente ficaria uma bela marca amanhã, mas ele se esforçou para ignorar a dor – que se somava a dor nas costas – e levantar-se para enfrentar Ron. “Sabe como é, eu nunca deixo de ser teimoso e você nunca deixa de ser um tarado nojento.” Retrucou com uma ponta de bom humor, o que só irritou ainda mais o outro. Ron se lançou sobre ele, pronto para socar-lhe o nariz e Alan desviou, acertando um ponta pé nele. “E um tarado lerdo, ainda mais.” Provocar não era lá uma boa ideia, afinal ele sempre fora bom em fugir de brigas, não em ganha-las. Por isso quando Ronnald, irado, o atacou de novo ele tentou fugir em direção a porta, mas foi pelo pela roupa e antes que se desse conta o braço de Ron já estava sob seu pescoço e pressionava firme, lhe tirando o ar. Ele se debateu, mas a falta de ar começava a diminuir sua força e Ron não diminuía a pressão. “Se acha muito esperto, não é, Bradford?” A visão de Bradford começava a oscilar, sua mãos tentando desvencilhar os braços do loiro de si, mas era tudo inútil. “Não será mais tão esperto quando eu te jogar numa das lixeiras atrás do hospital e ir procurar aquela sua amiguinha. Quem sabe do além você ainda consiga ouvir os gritos dela enquanto eu f...” A voz de Ron cessou no mesmo instante em que o aperto dele sumia, e seu corpo grande caia para trás arrastando Alan com si.
Bradford se desvencilhou, do agora inerte faxineiro, com dificuldade, massageando o pescoço dolorido e olhando ao redor para descobrir quem o ajudara. “Dr. Fletcher?!” Sussurrou, ainda com a garganta em frangalhos. O homem mais velho parecia mais frio do que o usual, com um olhar gélido voltado a Ron. “Aparentemente você não mentiu sobre Warner também. A segurança tomara conta dele logo.” O médico ofereceu-lhe a mão e Alan a aceitou, ainda aturdido e surpreso com a mudança de atitude. “O que quer dizer com ‘também’?” Ele aprumou-se, seguindo o médico para fora do quarto. Fletcher trancou a porta do lugar com gestos vagarosos, tomando seu tempo para responder. “Julianne passou em todos os testes que fizemos. Não há sinal de distúrbio mental.” Fletcher o fitou sério. “A história de vocês sobre a acometida ser a Sra. Carmine foi comprovada por documentos antigos que encontramos em outra instituição.” Alan teve que conter uma risada, aquele velhote demorara semanas para lhe dar ouvidos, condenando ele e Julie há dias terríveis, mas ainda assim agia como se tivesse a situação sob controle. Claro que não disse nada disso ao médico, só perguntou se poderia ver Julie então. “Não estou dizendo que estou feliz com sua conduta quanto a Srta. Carmine, mas agora compreendo que foram necessários métodos extremos para assegurar a segurança dela e que você nunca a expôs a um risco real. De todo modo, a alta dela acabou de ser assinada, ela é livre para ir onde e ver quem quiser. Por isso que conto com você para mantê-la a salvo agora também.”
Um sorriso largo e aliviado surgiu em seu rosto e ele assentiu. “Se você diz, doutor, farei isso!” Fletcher assentiu, gesticulando em direção ao macacão que o moreno usava. “E se quiser isso de volta legalmente, talvez possa ter de volta. Venha aqui na segunda-feira ver isso.” Alan bateu de leve no ombro do homem. “Nos vemos segunda, Doc!” Despediu-se com um aceno, correndo em direção ao térreo que era onde os pacientes liberados ficavam aguardando para sair. Só mais cinco minutos e veria Julie de novo. Mais cinco minutos de separação, e nunca mais precisariam passar por aquilo.