Trecho do Livro: "Ele é Primavera"
A festa já estava rolando por algumas horas; jovens adultos dançando e circulando ao som de uma banda genérica que a nova diretora havia contratado. Todas as vezes que meu olhar procurava por Gabriel Shaw, eu o encontrava dançando — às vezes com uma garota negra que eu nunca havia visto no colégio, outras vezes com Ian, Anny e até mesmo com Sean, que havia resolvido dar as caras ali. Ele estava cercado também pelos demais meninos do time de basquete do qual já fizera parte. Todos sorriam, e era nítido que a alegria de Shaw era contagiante.
Perto da hora de anunciar quem, de fato, havia ganhado a coroa de rei e rainha do baile, Ian e os meninos do time de basquete foram para perto do palco para apoiar Anny. Eu também me aproximei e pude ver que Sean e a garota que eu não conhecia estavam de mãos dadas, conversando com Ian. Gabriel estava meio afastado, sentado em uma cadeira; acho que ele não queria me ver de perto, e eu não podia culpá-lo por isso.
A diretora do colégio subiu, então, ao palco para anunciar os vencedores.
— Atenção, formandos do NOHS de 1994! É com muito orgulho e, como já era previsto, que comunico a vocês que o Rei do Baile é Benjamin Franklin e a Rainha é Anny Lisbon. Subam aqui para pegar suas coroas e fazer o discurso de vitória — concluiu a diretora.
Anny foi a primeira a discursar. Ela falou da importância de se ter amigos e do privilégio que teve de conhecer pessoas maravilhosas; dizia isso olhando para Ian. Eu busquei Gabriel com o olhar novamente e o vi de pé, ao lado de James e Dave, afastado do povo, mas bem no centro da quadra, onde ele tinha uma visão clara de mim e eu podia vê-lo por completo. Quando peguei o microfone para falar, James e Dave se afastaram dele, deixando-o sozinho naquele local.
— Eu só tenho a agradecer a todos. Ser o rei do baile é... — Todos já estavam batendo palmas e assoviando para mim; inclusive Shaw batia palmas discretamente e com um sorriso. Mesmo depois de tudo, ele ainda estava ali, feliz por mim. — Eu quero dedicar...
Não consegui concluir o que estava falando, pois um barulho estrondoso foi ouvido e uma espécie de suco vermelho caiu do teto bem no local onde Gabriel estava. Ele ficou encharcado e, por um momento, pareceu não acreditar no que estava acontecendo no dia de sua formatura.
Todos ali pareciam chocados. Olhei para um canto e vi James e Dave sorrindo vitoriosos; mais uma vez, eles haviam conseguido humilhar Shaw. Gabriel, no entanto, provou ali na frente de todos o quanto era forte: de cabeça baixa, deu um suspiro e, logo após, ergueu o rosto com um sorriso ainda mais aberto. Olhou para Ian e Sean, que já iam ao seu encontro, e fez um gesto negativo com a cabeça. Os meninos pararam.
— A noite não é minha, e eu não vou fazer com que seja sobre mim — ele começou a falar, para que todo mundo ouvisse. — Hoje é sobre nós, nossa formatura e nossos sonhos. E hoje, duas pessoas de quem eu gosto muito estão comemorando um título. Benjamin, continue seu discurso.
Naquele momento, todos se voltaram para mim novamente. Anny, que estava ao meu lado, sussurrou em meu ouvido:
— Isso é coragem, Benjamin. Está na hora de deixar sua covardia de lado, não acha?
Eu suspirei fundo e levei o microfone à boca.
— James e Dave, meus "melhores amigos"... vocês estão prestes a completar dezoito anos e ainda agem como se tivessem doze. Eu tenho tanta vergonha de vocês. Sempre achei que vocês eram bons e que tudo o que fizeram até aqui era algum tipo de fase ou de ciúme maluco. Mas não; vocês são escrotos mesmo. São egoístas a ponto de tentar estragar a festa de quem não está nem aí para a existência de vocês. São mesquinhos a ponto de estragar esta festa que estava linda para todos nós. — Olhei profundamente para aqueles que chamei de amigos desde a pré-escola e pude, finalmente, enxergá-los como sempre foram. — Mas eu estou cortando laços com vocês aqui. Não quero desculpas, pedido de perdão ou redenção; só quero distância.
Havia chegado a hora. O momento de fazer algo que eu devia ter feito há muito tempo. Aquele era o instante e o lugar necessários para eu aprender que a covardia não gera felicidade. Olhei para ele; olhei nos olhos dele e, mesmo com o cabelo molhado e as roupas encharcadas de suco, seus olhos brilhavam como se fossem dois faróis apontando para um cais.
— Ontem, na comissão de avaliação, a senhora me perguntou, diretora, o que eu queria para minha vida e o que eu aprendi aqui no colégio. Bem, eu disse que não tinha uma resposta certa, mas eu tenho. — Falava olhando para a diretora, mas, no exato momento da resposta, virei-me para ele: — Aprendi muito sobre matemática, ciências e biologia. Aprendi também a ser o melhor jogador de futebol americano que posso ser. Porém, a melhor coisa que aprendi aqui foi a amar. Esse amor me ensinou que sentimentos requerem coragem. Coragem de enfrentar xingamentos, socos, piadas de mau gosto e até banhos de suco. Aprendi que o amor não combina com covardia; aprendi que, para ser a gente mesmo e amar quem a gente ama, é preciso ser forte. Agora, estou olhando para quem me ensinou tudo isso. Estou olhando para quem me ensinou o que de fato é o amor — ou, pelo menos, no auge dos meus quase dezoito anos, o que eu acho que ele seja. Estou olhando para a pessoa que, mesmo depois de ser humilhada, está olhando para mim e sorrindo.
Estendi a coroa que agora segurava para que a diretora a pegasse antes de encerrar minha fala.
— Agora, eu vou descer deste palco e pegar o maior prêmio que este colégio poderia me dar. Sobre o que eu quero para a minha vida... bem, eu quero encher a minha vida de Gabriel Shaw, pois eu o amo.
Todos ficaram me olhando descer e, sem me importar com mais nada, eu o beijei. Beijei Shaw ali na frente de todos: colegas, amigos, inimigos, professores e de quem mais quisesse assistir. Ao terminar o beijo, ele me convidou para sair daquele lugar e assim eu, ele, Ian, Anny, Sean e a namorada dele fomos para o bar dos pais de Gabriel, deixando um monte de alunos surpresos em um baile de formatura que, tenho certeza, havia ficado totalmente sem graça. Naquele bar, localizado no número cinquenta da Bourbon Street, Shaw e eu dançamos a noite toda.
Autor: Robertyman R. | Capítulo: O Baile de Formatura








