TASK Nº01
Ford não costumava sonhar. Sempre foi algo difícil, ou pelo menos suas memórias mais antigas já continham a frustração de não ter sonhos para contar como outras crianças. Uma frustração misturada com um alívio que ele não entendia de onde vinha, mas que parou de questionar ao longo dos anos. Sua criatividade não parecia depender de saber como o subconsciente processava as informações durante o sono, então não havia motivo para se preocupar.
Hoje, porém, durante o sono profundo alimentado pela insônia de toda uma semana, ele sonha. No início não há nada, só o escuro conhecido, até vir o primeiro flash. Não uma imagem, mas sensações. Do vento nos cabelos enquanto se corre, do cheiro de ozônio que substituía o de fogo queimando as roupas, o frio da vastidão do espaço. Tudo estranhamente familiar, como se a pele tivesse gravado a experiência em cada nervo que Ford carregava.
Então veio a raiva. O rancor. O sentimento de traição, o eco de um acontecimento, múltiplos acontecimentos. Ele não conseguia entender quais, mas as emoções fortes que queimavam a boca do estômago não mentiam sobre como tudo lhe afetou. Ele sabia que naquele momento, apenas a justiça - restituição, vingança - aplacaria o que rugia dentro de si.
Finalmente, vieram as imagens. Peças metálicas se encaixando, a luz que saia em raios de uma solda, as mãos de cinco dedos finos, calejados e conhecidos - mas não lembrados - o ajudando a montar aquele objeto de destruição. O peso do metal nas mãos era não só visível, mais sentido, e seus olhos encaixavam perfeitamente no alvo triangular antes de disparar o primeiro raio que o desestabilizador quântico pôde produzir. Ele escuta ao longe, distante como se no fundo de um corpo d'água em que se afundava: "Acho que precisa calibrar-- Nessa potência toda pode ser perigoso! Para você, Stanford!".
E então Stanford Pines acorda de supetão, se vendo sentado na cama em segundos, o suor frio rolando por debaixo do pijama que grudava no corpo. Ele sabia que arma era aquela. Ele sabia que poderia montá-la novamente: não com os mesmos materiais, não, a original era uma colcha de retalhos de tecnologias que ele-- Ele não faz ideia de onde vem. Mas ele sabe o que ele precisa. Sabe como cada engrenagem encaixa em certa posição, quantos parafusos são necessários.
Ele se lembra.
Quando se levanta, pernas bambas, o bolo no estômago presente e ignorado, ele tem o protótipo inteiro desenhado na cabeça. Coloca a primeira roupa que vê e parte em direção ao seu laboratório, desmontando uma pequena parte da sua máquina para começar a arma num impulso que é quase inexplicável, que beira o instinto. Talvez ele devesse estar muito mais incomodado em sacrificar o trabalho de sua vida, mesmo que em pequena escala, mas não. Ele só se recorda da urgência de ter aquele objeto em mão, do desespero da sua construção. Do deleite de saber que seu alvo agora tinha um gatilho a altura.
Mas agora, no presente momento? Ele apenas precisa de peças novas.











