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com @pasqualinas
dueto surpresa
A dinâmica entre elas sempre teve algo de estranho. Estranho no tipo de relação que fazia Olivia franzir a testa de vez em quando, tentando entender em que momento passou a se importar. Não era só afeição — embora existisse. Não era só manipulação — embora também existisse. Era uma zona cinzenta onde Olivia, geralmente tão hábil em separar afeto de interesse, acabava tropeçando. Ela sabia que usava Lina, às vezes. Sabia, e até ria disso, internamente, como quem brinca com um bichinho fofo que poderia muito bem ser engolido inteiro se quisesse. Mas Deus me livre alguém tentar o mesmo. Pasqualina era dela. E só ela podia brincar com os limites daquele afeto torto.
Ela foi pega de surpresa quando, mais uma vez, alguém do coral a escolheu para o dueto surpresa. Foi levada, e esperava sua dupla encostada na lateral do palco improvisado, observando a movimentação da Fiera dei Sensi como quem assiste a uma peça que não lhe interessa de verdade — até que viu a figura tímida se aproximando. Lina. Olivia não precisou de mais do que meio segundo pra notar o jeito hesitante do andar, o olhar que evitava o dela como se cada centímetro do chão fosse subitamente fascinante. Ah, então íamos fazer de conta que aquele quase-beijo no baile não existiu? Ótimo. Olivia era campeã olímpica em fingir que nada aconteceu. Sorriu largo, descarada, como se estivessem num comercial de pasta de dente. — Que sorte a minha! — disse, animada de propósito, puxando a atenção da menina com a confiança de quem sabe que é adorada mesmo quando não deveria ser. — Será que vão nos colocar pra cantar algo dramático? Ou vamos de popzinho romântico? — piscou, falando baixinho para que o público não a ouvisse. A provocação estava ali, flutuando no ar, mas diluída o bastante pra ser confundida com brincadeira.
Enquanto olhava de relance pros organizadores, esperando que colocassem a música, Olivia soltou uma risada discreta, baixando um pouco a voz como quem compartilha um segredo indevido. — Tomara que não seja um louvor. — murmurou, fazendo careta teatral. — Nada contra, Lina, me desculpa. É que eu não sei cantar nenhum. E, sinceramente… já bastam os julgamentos do seu pessoal quando me veem nas ruas com meus decotes. Olha, hoje estou comportada. — apontou para a própria roupa. Um vestido amarelo, comprido, cheio de pequenas flores e um caimento leve. A expectativa da música, da apresentação, do momento performático — tudo aquilo era o combustível de Olivia. Mas ter Lina ao lado, mesmo naquela tensão muda pós-baile, era um tempero especial. Um lembrete de que, mesmo quando tudo saía do controle, ela ainda conseguia manter a pose.
@khdpontos














