Continuando com as reflexões. Há um ponto a ser pensado, um ponto adicional ao que busquei trazer no texto a cima. Talvez algumas questões iram se repetir nesse texto mas gostaria de elaborar um pouco mais sobre isso.
Diante de uma diversidade de possibilidades, ao mesmo tempo diante de um futuro impreciso, vejo que a incerteza é algo permanente. Não tinha compreendido esse ponto de vista e tenho entendido que a maioria das teorias criam maneiras de assegurar algo, ou seja, uma busca por uma solução dos problemas presentes para chegarmos a um futuro ideal. Vejo que o problema presente em tais teorias reside na centralização, na busca por um verdade presente em determinados dados. Reich viu no corpo o centro de suas investigações, Jung viu no conceito de inconsciente coletivo o reconhecimento de sentido, Freud viu nas relações parentais o desenvolvimento da personalidade do indivíduo.
Portanto, uma perspectiva de fato libertária deve abrir mão dessa centralização e buscar descentralizar cada vez mais, não buscando um meta ou princípio, mas criar uma abertura de possibilidades. A partir dessa abertura onde há a possibilidade para a criação, em busca do novo, contrário aquilo que já está posto. Assim, o enfoque não está nem no que já foi feito e pensado e nem numa busca por um projeto futuro, mas uma volta para o que acontece agora, para o momento presente.
Essa proposta não seria na realidade uma imposição rígida a compreensão de tempo, seria sim uma perspectiva voltado ao fluxo da temporalidade. Se não há uma proposição de um futuro e nem uma tentativa de retomar o passado, nos resta nos focar na realidade presente, que está em constante transformação. Isso implica também numa ética, numa ética do encontro com o outro, de um partilhar com o outro. Vivenciando o outro como alteridade, como um sujeito em relação a nós, não há uma imposição de ideias, mas sim dialogo, encontro. Descentralizamos aí não só um ideal de verdade, mas também a centralidade do eu, do indivíduo.
É nessa perspectiva de incerteza onde se pode criar, onde podemos nos encontrar com o diverso, com o múltiplo. É aí onde os papéis se modificam e se transformam. No futuro incerto podemos refazer o caminho da humanidade, onde não se busca um futuro harmonioso, mas abre a possibilidade de criar ferramentas novas para lidar com os novos problemas. Não buscando uma solução última para todos os problemas geramos soluções que estejam ligadas a vivência concreta e que assim também não visem uma solução completa, mas que permita um constante contato com o mundo e uma mudança na nossa percepção desse mesmo mundo.