Iniciativas maravilhosas e constatações desanimadoras
Estudantes de minha universidade criaram um grupo de discussão de gênero, sexualidade, raça, etc. Uma moça – acho que seu nome é Renata ou Roberta – trouxe um tema interessante: a dificuldade das pessoas cis em sair da “generificação compulsória”, tentar mudar de perspectiva nem que por dez minutos. Isso me lembrou de quando eu e minha tia conversamos sobre minha mãe.
Eu tinha me assumido para meus tios fazia só um mês, acho. Eles reagiram bem. Num de nossos encontros esporádicos, fui questionado sobre minha mãe. Falei de sua negação e posterior rejeição. Assim que terminei, minha tia disse: “Ah, mas você tem que entender o lado dela... Ela deve estar sofrendo muito.” Fiquei mais surpreso do que aborrecido. A conversa andou até minha tia dizer, como se justificasse a reação de minha mãe, que não sabia se aceitaria sua filha se ela se assumisse como homem trans. Que bom que não sou seu filho!, quis responder.
Acontece que a maior parte das pessoas cis com quem falei sobre minha mãe reproduziu as falas de minha tia. Me parece que elas se colocam na defensiva, como se se espelhassem na minha mãe e tentassem dar razão às reações dela, talvez pela simpatia com seu discurso. Bom, se elas se põem na defensiva é porque sentem que são responsáveis nessa história. Fui racionalizando esse pensamento até concluir que talvez elas saibam de sua responsabilidade e saibam de suas imposições subjetivas. Mas, como não podem – conseguem? – parar de reproduzi-las, se vitimizam, se projetam em minha mãe e a protegem como se protegessem a si próprias.
“Como sei que contribui para o sofrimento de muita gente ao reproduzir normativas de gênero sexistas e discriminatórias, devo parar de exercer os comportamentos que as impulsionam. Mas, como não posso parar de exercê-lo – pois foi nele em que toda a minha vida se baseia e sustenta –, anulo minha responsabilidade ao equiparar meu nível de sofrimento ao das pessoas que mais sofrem com ele. Assim, a culpa é invertida ou no mínimo igualada.”
Não acho que as pessoas cis sejam capazes de saber como uma pessoa trans experiencia a vida. Uma pessoa não tem como entrar na perspectiva de outra. Mas tem como ouvir e aceitar, respeitar, tentar aproximar sua compreensão afetiva e emocional à situação exposta pela colega. Ninguém precisa saber como é a rejeição da mãe pelo filho trans para saber como é ser rejeitado pela própria mãe. É tão difícil olhar no olho do outro e realmente escutar o que ele tem a dizer? Meu discurso não exerceu nenhum efeito sobre minha tia, só medo de ser deslocada de seu conforto.
Além disso, há o rebuliço que é tentar – pois não conseguimos nem avançar na discussão – explicar o que é de fato a ideologia de gênero, por que não se deve dizer homossexualISMO, qual a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. A delicadeza, a doçura, o amor, as boas intenções não fazem diferença alguma. Elas se sentem tremendamente ofendidas e silenciadas. E nossas demandas são mimimi, nosso discurso é repetitivo e chato, nossas correções e explicações são didatismos desnecessários.
Não se como lidar com essas pessoas. Explicar não adianta, tentar estabelecer conexão emocional não adianta, mostrar dados estatísticos de violências e mais violências – fake news ou fatos localizados. Às vezes bate um desânimo.
Mas aí vou a um grupo maravilhoso de discussão sobre gênero, sexualidade, masculinidade tóxica e tudo fica bem de novo. Estou me surpreendendo com o poder do afeto. Realmente funciona.