Eu sou imigrante. Expatriado é o nome que se dá à pessoas com características específicas.
Normalmente pessoas ricas e brancas. Há algumas excessões em cor, em classe social, mas o país de onde ela emigrou pode ter influência para a utilização do termo.
Eu venho da América do Sul, Brasil, e me estabeleci na Europa, Portugal. Minha "passabilidade" de branca me deu certos privilégios e consegui me encaixar em grupos sociais locais pela facilidade do mesmo idioma (resultado da colonização portuguesa no Brasil) e da minha carga de estrangeirismos que aprendi ao longo da vida num páis que idolatra os produtos estrangeiros e neocoloniais.
Mas essa "passabilidade" está em jogo. Portugal está a entrar numa política anti-imigratória.
O mais difícil, talvez, mas também merecido, é a rejeição e olhares desconfiados dos locais que antes já me ofereceram sorrisos; eu sempre soube que eu tinha a "passabilidade", eu sempre soube que eu era como a mascote que eles decidiram adotar, eu sempre soube que nunca fora vista realmente como uma igual, embora eu tivesse esperança que um dia o fosse.
E eu digo que foi merecido exatamente por isso: por ter me deixado levar. Por ter baixado a guarda. Por ter tentando me encaixar e agradar e caber, quando desde o princípio deveria ter rejeitado o "afeto" de quem descrimina (mas não à mim), segrega (mas não à mim) e faz "piadas" (mas não sobre mim). (Ainda).
E daí a pergunta: por que não volta para a tua terra, então?
Porque conheci pessoas maravilhosas. Conheci verdadeiros aliados dentro de um lugar onde poderiam se deleitar nos seus privilégios e ignorar qualquer situação social alheia, como eu já fiz, mas que ao contrário, escolheram a luta.
Me senti uma traidora ainda mais indecente quando comecei a me radicalizar. Por que não estou ao lado do meu povo? Por que a luta que agora travo aqui, não a faço de volta em minha terra? Por que tive que deixar a minha gente para que me crescesse essa visão?
Foi quando li sobre individualismo e coletivismo, e a literatura da psicologia talvez diga que eu tenha sentido reafirmação e validação na interpretação desses conceitos.
Quando você se torna um militante, sua posição social muda? O motivo que te fez deixar sua casa, de onde supõe-se que estava desconfortável, e por isso se deu a sua saída, de repente e magicamente foi resolvido?
Também só não faz mais sentido que você tenha compreendido as chagas que acompanham o trabalhador em QUALQUER lugar que ele pise? Uns com mais privilégios que outros, mas sempre um trabalhador que é portador das mazelas do sistema que foi feito e desenhado para dividir e conquistar?
Será que não vejo o trabalhador branco, português, pegar a mesma fila que eu para uma consulta num postinho médico público? Será que nós, os dois, não estamos a passar pelos mesmos problemas financeiros e de dignidade da vida neste exato momento?
Será que não foi o político, que por acaso também é empresário, que apontou o dedo para mim e disse: "cuidado, essa imigrante quer roubar a sua vaga na fila!", ao mesmo tempo em que precarizava o serviço público de saúde que estamos a tentar usar? Será que não foi ele que retirou o investimento dessa entidade e o transferiu para um mercado predatório em crescimento vertiginoso, como o mercado imobiliário, por exemplo? Ou da hospitalidade/turismo?
E ora, também um adendo, não acontece casos de xenofobia e rivalidade entre pessoas da mesma nação, mas de regiões/estados/distritos diferentes?
Parece-me que essa questão toda seja um bocado mais profunda que a pesquisa e leitura que eu tenha feito. Há que se estudar mais.
A citação "Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é uma partícula do continente; uma parte do todo...", embora pertencente à um jacobino, John Donne, que foi dicutido por alguns lá nos primórdios do liberalismo, é a que com mais frequência me vem à cabeça quando penso no assunto.
Já ouvi a icónica frase de comando: Volta para a tua terra!
E digo que não volto! Ou volto quando eu quiser! Ou quando me obrigarem de maneiras fascistas, mas aí já terão mostrado suas verdadeiras cores, e a luta pela equidade dos seres na terra se tornará então cada vez mais forte diante dos atos opressores, divisórios, excludentes e violentos, vindos de um pequeno grupo que, nos dias em vigência, realmente ainda detêm o poder.
E que na terra não há nada de ninguém ou alguém. Ou pertencemos à ela, como iguais, mesmo em nossas individualidades, ou pereceremos todos.