NOVO LIVRO
MAR VERMELHO NA VILA TODA BRANCA, de José António Almeida
/// do livro:
Mar Vermelho na Vila Toda Branca é o volume I do ciclo METAMORFOSES [obra em curso] e o primeiro livro de poesia inédita publicado por José António Almeida desde 2013.
A capa foi composta a partir de colagem do autor.
# 21 da Colecção Mutatis-mutandis.
«O Alentejo não foi uma opção. Foram as circunstâncias, como diria Kavafis, que me impuseram uma certa “vila da província”. Talvez os meus poemas agradem mais ao homossexual dos velhos tempos do que ao jovem gay livre e emancipado dos dias de hoje. Para o meu labor, prefiro — acima de tudo — o leitor comum e entusiasta da poesia. Não saí do “armário” — há muitos e muitos anos, e a poesia foi a chave da porta — para ser engavetado, por quem não ama a poesia nem a vida e ainda menos a raiz erótica de ambas, no cacifo da literatura gay com um rótulo na testa ou uma etiqueta na nuca.» J.A.A.
https://livrosnaoedicoes.tumblr.com/post/702873813217591296/colecção-mutatis-mutandis-21-mar-vermelho-na
/// do autor:
José António Almeida nasceu em Lisboa a 8 de Fevereiro de 1960.
Livros publicados:
António Nogueira (Lisboa, edição de autor, 1984)
O Rei de Sodoma e Algumas Palavras em Sua Homenagem (Lisboa, Presença, 1993)
A Mãe de Todas as Histórias (Lisboa, Averno, 2008)
A Vida de Horácio (Lisboa, &etc, 2008)
O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste (Lisboa, &etc, 2009)
Obsessão (Lisboa, &etc, 2010)
Arco da Porta do Mar (Lisboa, &etc, 2013)
Memória de Lápis de Cor (Lisboa, &etc, 2014)
Obra reunida:
A Angústia da Azeitona Antes de se Transformar em Luz (Lisboa, não edições, 2019)
Pouca Tinta (Lisboa, não edições, 2020)
A Vida de Horácio e Outras Ficções (Lisboa, não edições, 2021)
/// O livro está disponível através de pedidos via [email protected]
e chegará nos próximos dias às habituais livrarias: https://naoedicoes.tumblr.com/livrarias
No hay cosa que haya deseado más que estar contigo, pero un día aprendí que ni deseando las cosas con todo el corazón estás llegarían a cumplirse, tuve que dejarte ir, sabiendo que podías ser mío, pero no mío completamente. No existe algo más libre que tú. Nunca pretendí cortar tus alas, ni frenar tu vuelo, te amo y siempre te amare, pase lo que pase y de aquí al otro mundo...
Tinha uma galeria rotativa. A dona era uma ricaça que ninguém nunca via por lá. Era um prédio de esquina, grande pra caramba. Cabia muita coisa. Mas só o que havia exposto lá dentro nos estandes era arte. De todo tipo. A proposta da dona foi dar um estande de um metro quadrado para cada artista selecionado. E a pessoa poderia expor ali o que desejasse, desde que ficasse mudando com certa frequência o que ia expor...
A dona também achava bom que o artista pusesse seu nome no estande, fosse o verdadeiro, pseudônimo ou nome artístico. O importante era que as artes tivessem sempre uma assinatura.
Clécio expunha partituras. Compunha e as deixava lá por um mês. Na esperança de que uma certa música se interessasse e decidisse tocá-las em seu violino.
A música era Dandara – por quem Clécio era apaixonado. Se perguntassem a ele quem amava mais: a música Dandara ou a música de Dandara, ele ficava todo confuso. E só sabia dizer que seu sonho era escutar Dandara tocar uma de suas partituras.
Em seu estande, Dandara deixava uma caixa de som e os CDs amadores que produzia, com as gravações das obras instrumentais que interpretava no violino. Ainda não tinha se dignado a interpretar algum Clécio. Mas era uma mulher aberta. Tinha tudo para querer fazer isso um dia. Só não queria desperdiçar os momentos iniciais da carreira (sempre os mais sofridos) interpretando quem ainda não tinha nome – para ajudá-la a fazer o seu.
Gilmar fazia esculturas e peças em cerâmica. E a filha dele era pintora. Tinham cada um o seu estande, é claro, mas viviam brigando, porque a menina queria pintar as peças do pai.
– É tudo muito sem graça! Deixa eu pôr uma corzinha, que fica melhor.
– Você me respeita, menina. Se a madame deixou eu ficar aqui, é porque minha arte é boa também.
– Não falei que não é boa. Só falei que dá pra melhorar, velho chato.
Isso porque a frase “Você me respeita, menina” era o comentário fixo do pai sempre que conversava com ela. Bem educadinha, a moça. Mas, ao menos, era boa. Pintava bem. Talento inato, coisa de família.
Samuel expunha seus desenhos feitos à mão, e tinha uma quedinha pela filha boca dura do Gilmar. Mas só de ver o jeito como ela tratava o pai, já ficava acuado pensando na dureza que seria namorar com ela. Casamento então? Eita... Nem pensar. Mas, sempre que acordava se sentindo mais corajoso, ia lá apartar uma briga, levando um original para ela pintar com técnica de aquarela (que ele amava mais que ela). E Gisele dava o sorriso vitorioso de quem tem o talento reconhecido, zombava mais um pouquinho do pai, dizendo “Viu? Ele sabe o que é bom!”, e isso bastava pra deixar o dia de Samuel mais colorido... literalmente... (Eita, trocadilho não intencional).
Eram vários estandes no total. E os artistas que ficavam mais perto uns dos outros acabavam fazendo essas amizades, trocando essas fagulhas de existência cotidiana, dando um cigarro pra quem estava sem, ajudando a pessoa ali próxima a se sentir tão valorizado quanto qualquer artista deveria se sentir – com ou sem público.
Numa ala mais afastada, a dona tinha consentido em haver um estande meio misterioso. A pessoa escreveu só “Criador” no letreiro próprio para cada artista deixar seu nome ou codinome e, assim, identificar o estande.
A maior parte do tempo ordinário do dia, o estande ficava vazio. E quando surgia algo, ninguém via o dono do estande trazer. E nunca acontecia de alguém ver algo exposto ali ao mesmo tempo que outra pessoa. Era sempre uma experiência solitária. Só a pessoa e o artista.
Um dia, Gisele estava andando pelo prédio pra ver se tinha lixeiras de separação de lixo reciclável – decidida a deixar uma reclamação na caixa de sugestões se não achasse. Em sua andança por corredores nunca antes visitados, ela passou pelo estande do tal “Criador”, e voltou correndo berrando para junto do pai.
– O que foi, minha filha? O que foi, minha menina? Fala pro seu pai.
Samuel veio logo acudir também. Mas se limitou a ficar acariciando bem de leve o ombro dela, esperando com um olhar preocupado e ansioso, enquanto ela se acalmava. Depois de minutos que pareceram horas, Gisele começou:
– Ti... tinha um... coração, pai... Um coração... de gente, batendo, com sangue e tudo...
Os dois homens se olharam. Havia a mesma mensagem em seus olhos, e eles assentiram um para o outro com a cabeça, já decididos a fazer a única coisa lógica a se fazer:
– Vamos chamar a polícia... – disse Gilmar.
– Vamos lá ver... – disse Samuel.
E como suas frases tinham saído ao mesmo tempo, acabaram surpreendendo um ao outro ao se darem conta de que tinham pensado coisas tão diferentes.
Diego Castro se aproximou da comoção. Era o único artista que fazia questão de ser chamado pelo nome e sobrenome, conforme colocara em seu letreiro – embora fosse tudo nome artístico, e o verdadeiro fosse Mariano Gomes Monteiro... da Silva, como não podia deixar de ser. Se tem gente que não gosta do nome, pode saber que termina em Silva, da Silva ou outro sobrenome basicão.
Com seu típico ar de superioridade, falou como se pudesse resolver o enigma:
– Ora, deixem disso. Que mané polícia. E não adianta ir lá ver. Já deve ter sumido. Eu sou um dos poucos que pode se gabar de ter visto obras desse lunático mais de uma vez. E é sempre assim. Aparece, some dali um pouco, e é sempre coisa tétrica: olhos, fígado, um par de mãos. Já andei colhendo depoimentos por aí. Eu, pessoalmente, vi quando estava exposta uma coluna cervical e, na segunda vez, eram pulmões.
A fala de Diego incomodou Samuel de um monte de jeitos diferentes. Ele detestou o tom, ficou bravo com o pouco caso que ele fez do pânico em que Gisele estava, sentiu que estavam perdendo tempo precioso escutando a ladainha, quando podiam estar correndo lá para ver se flagravam alguma coisa, e ficou indignado que algo tão maluco pudesse estar acontecendo e esse sujeito ficasse falando como quem conta o último capítulo da novela.
Mas... pobre Samuel. Ele era jovem. Depois ele aprende. Era Diego Castro quem já estava com bagagem suficiente para tratar a coisa toda como aquilo que ela realmente era: um mistério. E não ia adiantar ninguém se debater, espernear, se jogar no chão ou coisa do tipo.
Enquanto isso, os jornais da região vinham registrando, com um pouco mais de frequência, as histórias felizes de pessoas que andavam conseguindo se curar de situações terminais, por receberem os órgãos de que precisavam. As matérias começaram a surgir de um jeito aleatório. Mas quando as ocorrências aumentaram, os jornais notaram um padrão, e as manchetes vinham quase sempre no esquema: nova doação anônima salva paciente de 54 anos que precisava de rim; doações anônimas de órgãos continuam salvando vidas e despertando as suspeitas da polícia; seriam as doações anônimas obra de algum justiceiro infiltrado no mercado de órgãos?
E o mistério da galeria continuou. Até a rotatividade natural da proposta do prédio acabar renovando os artistas e transformando a história em lenda urbana.
Enquanto o mistério das doações anônimas permaneceu sem solução, e os jornais pararam de noticiar os casos, pois, se não sai nos jornais, não está acontecendo. E, se não está acontecendo, não importa mais.
*
Explicando à sua filha como ela deveria gerir a galeria quando chegasse sua vez, a ricaça e dona do prédio comentou:
– Eu amo arte, minha filha. Amo os artistas mais ainda. Mas não acho que entendo muito disso. Nem sei se arte é algo feito pra entender. Acho que é mais pra sentir...
– Mas a senhora nunca pensou em fazer um concurso entre os artistas do prédio? Montar alguma premiação? – perguntou a filha. – Esse tipo de coisa sempre atrai gente, dinheiro, enfim. Seria um evento. Tem investimento, mas acho que o retorno vale a pena.
– Sua mãe já vai partir em breve. Quando eu passar tudo pra você, pode fazer como achar melhor, meu bem. Eu confio em você...
A jovem ofereceu à mãe um sorriso de emoções mistas. E ficaram as duas em silêncio um pouco, como se contemplassem a ideia da morte com aquela mesma vontade de entender que a pessoa leiga sente diante de um quadro intricado demais.
O silêncio das duas abriu espaço para que a melodia de violino subindo do toca-vinil penetrasse o ambiente com mais força. Era um adágio de Clécio Ventura, executado pela violinista negra Dandara Ventura.
Depois de tomar mais um gole de seu chá, admirando a bela xícara de estilo gilmariano, pintada por ninguém menos que Gisele Ferraz, a herdeira de Gilmar e esposa do também renomado desenhista Samuel Reis, a ricaça moribunda disse (talvez mais para si do que para a filha):
– Só sei que, se você fizer um concurso para premiar o artista mais anônimo e mal compreendido de todos os tempos, o “Criador” vai precisar mandar alguém descer do Céu pra receber o prêmio em nome d’Ele.