Periscópio 5 - O desvelar do amor e da morte em Max Martins - N. L. Ribeiro
A interpretação vigente do Amor e da Morte tem o caráter de oposição entre essas duas instâncias norteadoras da existência. O homem busca encontrar no Amor uma maneira de burlar a Morte, tornando-se eterno através do ato erótico. Perpetuando, assim, sua existência através de seus primogênitos. Apesar de encontrar no Amor uma maneira para superar o fim, o medo pela Morte tornou-se em grande motor para a humanidade prescrutar a imortalidade. A sociedade busca e sempre buscou maneiras de concretizar o fim da Morte por meio da indústria científica e farmacêutica. Muitas são as pesquisas que buscam a cura de doenças e o retardamento do envelhecimento.
O olhar que se tem perante a Morte é de algo negativo, apenas como um fim. O do Amor, é conceituado como o encontro de duas pessoas apaixonadas. A oposição se dá pelo fato de que, com Morte, o Amor não vigorar mais entre os corpos. Diante destes conceitos postos como verdades absolutas pela sociedade vigente, a dimensão do Amor erótico e da Morte não se relacionam como experiências de abertura para o questionar existencial. O sentindo destas experiências encontradas na obra de Max são diferentes do que se prega na sociedade. Na poética martiniana, a dimensão erótica é um lugar para o contato mais íntimo com o Ser; na Morte, o Ser tem sua confirmação. Por conseguinte, ambas as experiências encontram-se abertas em sua plenitude do desvelar e do questionar na Linguagem(lógos). O estudo proposto tem como caráter de contrapor um estudo que torna a linguagem como instrumento, de acordo com a tradição metafísica.
Em linhas gerais, a tradição metafísica é um “manual de conhecimentos, ensinados já dentro da verdade lógica como disciplina” (CASTRO, 2014, p. 151). A interpretação vigente do real, da natureza e do homem busca instrumentalizar e tornar tudo em recursos naturais e humanos. Como consequência, transforma tudo em conceitos, entificando as questões e o Ser. Como podemos ver a interpretação vigente sobre a questão do Amor: temos um conceito de amor, vendido pelas mídias e grandes empresas, em detrimento do seu sentido ontológico. O Amor, em seu sentido originário, é um plexo de questões humanas em que o homem faz sua travessia existencial buscando seu próprio. Amar é ser, como aponta Manuel Antônio de Castro (2011), sobre a dinâmica do Amor como questão, em detrimento da conceituação marcada pela tradição técnico-científica:
Há a tradição humanista, onde se fundamenta tanto o ente quanto o amor. O nosso engano ao âmbito do amor, localizado nas relações amorosas, está no fato de eu o amor foi substantivado. Toda substantivação projeta o amar na entificação. Nesta a representação e conceitução substituem o acontecer do sentido do ser. Todo humanismo é uma entificação do ser. A crítica dos humanismos e a tentativa de tirar do esquecimento o sentido verbal do amar, reinstalando a questão do sentido do ser. Este vigora sempre no sendo verbal. O amar é a essência do agir levada à sua consumação pelo sentido do sentir. (CASTRO, 2011, p. 291-292).
Como podemos ver, a conceituação entifica as questões, tornando-as fundamentos. Retirando, assim, a humanidade do homem, que habita na interpretação da realidade em que está posto, lançado. Como consequência, o homem apenas reproduz um discurso: o homem não atinge a sua plenificação existencial. A tradição metafísica busca vender uma realidade, transformando-a em um paradigma, de modo que congela o pensamento. Manuel Antônio de Castro (2011) ilustra como a sociedade pautada pela conceituação e a entificação torna o homem prisioneiro de sua própria existência:
Não há lugar mais para dúvidas, somente certezas e verdade. Duvidar aí seria abalar o sólido edifício da realidade e que cada um acredita como um todo, medida na medida da sua certeza. Não será o questionar a medida da realidade? A realidade é feita de certezas e valores, que são conceitos nos quais aprisionamos, deixando notar algo tão evidente como a existência das diferenças, o mover incessante do tempo e da própria realidade. (CASTRO, 2011, p. 79).
Como resultado do esquecimento sobre a questão do Ser, o “homem e coisa são esquecidos como questões e passam a ser aprisionados em conceitos” (FERRAZ, 2010, p. 12). A realidade é entificada. É esquecido o valor de ação, o movimento da existência. O verbal (agir) passa a ser interpretado como substantivo (fundamento). É esquecido o sentido originário do real, o qual reside na palavra grega alétheia, como podemos ler a seguir:
Não sabemos o que são o real e o homem, mas eles estão sempre mutuamente implicados. Esta é a condição originariamente metafísica do homem: ele está sempre entre (metá) as coisas (phýsis), não em face delas, o que lhe permitiria objetivá-las. Por isso, a verdade não é a predicação que o homem a respeito delas faz. A predicação verdadeira é apenas a predicação verdadeira, não a verdade. A verdade não são as idéias que temos sobre o real e, sim, o seu desvelar autovelante. O real sempre vela a sua realidade – tomando o termo “realidade” por aquilo que o real é de verdade, aquilo que ele efetivamente é. Não por outro motivo, atendendo a uma dimensão mais originária na compreensão da verdade, os gregos chamaram-na de alétheia, o desvelamento do real, o qual, por mais que se desvele, sempre vela sua realidade, por ação do Tempo: as coisas não são, elas estão sendo. (FERRAZ, 2010, p. 12).
A dinamicidade do real, o que vela e se desvela, habitando no devir, o que se mostra ao homem, torna a vida uma travessia poética. Devemos compreender esta vigência como o homem em seu sentido originário como interpretante da sua realidade, do seu próprio, que circunscreve a existência. Interpretando a realidade não como instrumento, mas o real como doação da phýsis, do que vem a luz, desconstruindo a padronização do pensamento. Isto é, o mover incessante, orgânico, de maneira cíclica do surgimento das coisas. Ou seja, a existência do homem de maneira originária está na dinamicidade da phýsis.
No fragmento 50 de Héraclito de Efeso (VI a.C), aponta que a Linguagem é o lugar em que há a reunião destas oposições, em detrimento à oposição que a metafísica propõe: “Auscultando não a mim mas o Lógos, é sábio concordar que tudo é um” (HÉRACLITO, 1991, p. 71). Então, as diferenças são um, a oposição deixa de existir na Linguagem. Na experiência do Amor, o ser humano encontra-se em sua origem (arkhé) e na Morte há a dimensão fase derradeira existencial (télos), o entre-lugar que vigora essas duas dimensões é na Linguagem (lógos).
A obra de Max Martins incorpora na Linguagem as condições mais plenas do Ser. Porém, retirando os conceitos empregados da tradição metafísica, a qual busca separar e opor as ideias de Amor e Morte, assim como de corpo e alma; Deus e o mundo material; bem e o mal. Regida por este paradigma, a sociedade não encontra espaço para o questionar. A poética de Max Martins encontra na Linguagem um lugar para conjugar estas dimensões. Buscando, assim, desvelar, tornando visível o que ficou escondido pelo o engessamento do pensamento. Dessa forma, descortina o sentido originário das temáticas do Amor e da Morte.
Será feito um diálogo com pensadores como Martin Heidegger, George Bataille e Octavio Paz. Neste artigo trabalhamos com uma perspectiva filosófica para expor a obra de Max Martins como lugar em que o Amor e a Morte se desvelam.
O AMOR: UMA TRAVESSIA PARA O SER
Quando tratamos da questão do Amor, é preciso fazer uma leitura das contribuições levantadas na obra O Erotismo de Georges Bataille (1989), o qual trata o homem quanto um ser interdito. Este homem limitado encontrará no amor erótico a possibilidade para o questionar existencial. Sua finitude é posta em jogo com a perda em que é lançado no ato erótico, como podemos ler no trecho a seguir:
O erotismo, eu o disse, é aos meus olhos o desequilíbrio em que o próprio ser se põe conscientemente em questão. Em certo sentido, o ser se perde objetivamente, mas nesse momento o indivíduo identifica-se com o objeto que se perde. Se for preciso, posso dizer que, no erotismo, EU me perco. Não é, sem dúvida, uma situação privilegiada. Mas a perda voluntária implicada no erotismo é flagrante. (BATAILLE, 1989, p.21)
Desta forma, o erotismo é uma possibilidade para a abertura do Ser, a qual encontra na Linguagem (lógos) sua vigência originária na poética de Max Martins, como questionamento. Sendo assim, a poética corporifica o homem na Linguagem, sendo uma possibilidade para desvelar o Amor em seu caráter de abertura, conduzindo o homem ao questionar, e não conceituar.
Em suma, na poesia martiniana há na experiência erótica a possibilidade para o questionar, como uma travessia iluminada pelo Amor em que o Ser se descortina. No poema man&woman (MARTINS, 2001, p. 175), a linguagem se manifesta como corpo, plasmando o encontro entre duas pessoas. O Amor erótico em Max Martins aprofunda o diálogo com o mundo. Além dos corpos, a Linguagem também é o habitar da experiência erótica, como podemos ler no poema a seguir:
Em man&woman, o qual aparece no livro Caminho de Marahu (1983), temos um campo lexical que abrange todo o poema: os gêneros. Há a presença do homem e da mulher representados pelas letras M de man e W de woman, respectivamente. O limite de cada letra-Ser representa a realidade do ser humano: sua finitude. Em outras palavras, a metáfora sugere no erotismo o habitar do questionamento da limitação do homem.
Como elucida Melissa Alencar (2011), “o amor sexual é gerador de todo outro amor, não é menos certo que uma genuína poesia erótica é, antes de todo como a de Max, uma poesia carnal” (ALENCAR, 2011, p. 209). Assim, como Paz (1994, p. 16) diz, só podemos ter o ato erótico quando um corpo busca outro. No poema, temos a união do homem (man) e da mulher (woman). Um corpo buscando o outro para que os seres encontrem na reprodução, no ato erótico um terreno para o questionar. Desta união, ambos sairão outros, pois o amor erótico é uma travessia para o ser, travessia de transformação.
A oposição entre homem e mulher torna-se obsoleta no poema. Na Linguagem (lógos), a identidade dos gêneros é superada, os corpos tornam-se um no esplendor erótico. Não havendo, assim, oposição homem/mulher, mas a união das diferenças criando um novo corpo, construído na chama do Amor. O sexo é, na poesia, a reunião de dois corpos ou letras entrelaçados pela plenitude em que o homem é lançado na realização do erotismo, reunindo a diversidade de duas existências em apenas um corpo.
Outro ponto importante a ser comentado do poema é o conexão do ato erótico com a Linguagem. Esta relação entre o erotismo e a linguagem é latente no poema. Para Octávio Paz (1994), “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e o segundo uma erótica verbal” (PAZ, 1994, p.12). A poética dos corpos encontra seu esplendor no ato erótico, e a poesia é a verbalização do erotismo em sua completude na obra de Max.
A poesia corporifica o amor carnal, e na união das letras-Ser, há a criação de um novo sendo que vigora o Ser em sua totalidade. No poema, a união e o acontecer poético sublime do erotismo encontram-se apenas com a busca de outro corpo, ou letra (Linguagem). O pensador espanhol Octávio Paz afirma que é apenas possível o acontecer erótico quando um corpo busca outro (PAZ, 1994, p. 16).
O nascimento de um outro corpo se dá através da união de dois corpos. Forma-se, no poema, uma nova dimensão. Com a união de homem (M) e da mulher (W), não é possível perceber onde acaba uma letra e termina a outra, assim como o entrelaçamento amoroso no ato sexual. Deflagrando, assim, a limitação de cada ser humano, mas que é superada no ato erótico, criando uma novo corpo. Esta criação moldada no poema ocorre pelo fato da descontinuidade do homem:
Os seres que se reproduzem são distintos uns dos outros, e os seres reproduzidos são distintos entre si como são distintos daqueles que os geraram. Cada ser é distinto de todos os outros. Seu nascimento, sua morte e os acontecimentos de sua vida podem ter para os outros certo interesse, mas ele é o único diretamente interessado. Só ele nasce. Só ele morre. Entre um ser e outro há um abismo, uma descontinuidade.” (BATAILLE, 1989, p.11)
No poema, podemos perceber que o erótico é o lugar em que o homem procura sua essência de transformação, de recriação e abertura para o Ser. E quem dá sentido a essa busca é a Linguagem, pois é na poesia que há a conjugação do homem e a mulher. A experiência erótica e da poética martiniana é uma travessia do desvelamento. Pois, assim como na linguagem poética, “toda concretização do erotismo tem por fim atingir o mais íntimo do ser” (BATAILLE, 1989, p. 16).
A obra martinina também questiona o amor egocêntrico, aclamado como autovalorização do homem. Retomando, em seu tempo, a dimensão do mito de Narciso. A história da personagem mitológica de Narciso é sobre um homem que amava a si mesmo de tal forma que apaixona-se pelo seu reflexo espelhado na aguá. Vendo-se refletido na aguá, mergulha para encontrar seu duplo, afogando-se e, consequentemente, morrendo. Podemos perceber a leitura do mito feita por Max no poema Narciso (1952):
Esta atitude de pôr os olhos além das flores
Pensando sobrepujando céus.
Não que eu tenha muitas gravatas
Nem mesmo porque negros sejam meus olhos!
No vazio, deves compreender
Como podemos ver em Narciso, Max Martins instaura a valorização da busca de um outro, um outro corpo, pois relaciona o amor egocêntrico como “sem eco”, sem reverberação e infértil quanto a constituição de um outro, lançando-se tão somente a uma simples exaltação estéril, não conseguindo atingir o Ser. Paz (1994) diz que “o território do amor é um espaço imantado para o encontro de duas pessoas” (PAZ, 1994, p. 35), não como lugar para a procura da valorização egocêntrica.
A atitude de não olhar para as “flores” e “mulheres”, excedendo o olhar para além dos “céus”, caracteriza a negação pela busca por outro corpo. No quarto verso, “Deves compreender”, podemos interpretar como uma maneira de interação com a própria personagem de Narciso ou o próprio leitor. Apontando assim, o egocentrismo como questão que perdura na sociedade.
Há um amor “no vazio”, caracterizando um movimento cíclico, voltado para o próprio homem em sua negação de amar outro. Não concretizando, desta maneira, uma busca pela origem criadora do homem, não concretizando o desvelamento que dará a abertura para o Ser.
A POÉTICA COMO EXPERIÊNCIA DA MORTE
A carga funesta empregada na Morte como fim da vida vela o questionar sobre a existência. Isto é, o caráter da Morte como confirmação da existência, apontado por Martin Heidegger (2012) não é interpretada por conta do subjetivismo que habita a nossa era. A sociedade encara o fim da vida apenas como um evento triste, não como abertura para questionamentos. A interpretação do poema que vislumbra a Morte como lugar para o questionar e a poética como lugar da experiência deste fenômeno é Elegia III, oriundo do livro Estranho de 1952:
Nenhum pássaro na manhã cantou o teu soluço.
Calço os teus sapatos (mas o teu silêncio como dói)
E com eles caminho meio mundo inultimente:
E a tua voz impertubável.
Mas me falta o jeito de carregá-lo
Se cinco anos andei com teus conselhos
Agora estou só com tua camisa.
Deixaste uns gestos tristes nos espelhos
Com uma imensa interrogação à minha filha
E muitas vezes é o teu próprio riso que trazem até
Hoje o mundo corre abaixo de teu retrato.
A Morte é vista apenas como um evento de lamentação e luto. Max Martins vai além, propõe uma interpretação deste fenômeno quanto questionamento da finitude humana. Superando, assim, a ideia do homem como medida de todas as coisas. Mostrando a essência finita do homem, pois sua condição de homem o torna pequeno perante a natureza (physis).
Comecemos a interpretação pelo título. Elegia tem em sua origem o termo grego "elegeia" (ἐλεγεία), criado na antiguidade clássica. A palavra caracteriza o verso em dístico elegíaco, com temáticas que abordavam vários assuntos, entre eles a Morte. Elegias apresentam um tom triste e suave. Algumas elegias eram feitas para a construção de epítafios de túmulos. Seu significado original no poema de Max ainda tem a característica funesta da expressão grega.
O poema tem dois campos lexicais principais: objetos e ações. Os objetos representam o que restou, materialmente, do ente que partiu. Eles são representados pelas palavras “sapatos”, “guarda-sol”, “camisa”, “espelhos”, “cadeiras” e “retrato”. As ações as quais são feitas pelo eu-lírico utiliza dos objetos supracitados para a permanência do ente. O eu-lírico usa os “sapatos” e a “camisa” para rememorar a presença do morto.
No segundo verso, “Calço os teus sapatos (mas o teu silêncio como dói)”, o eu-lírico utiliza o sapato de alguém já falecido, o que restou dele. A dor do silêncio representa a saudade, égide da rememoração de uma elegia em tons funestos. O eu-lírico utiliza o sapato deixado pela pessoa que já partiu. A dor gerada na humanidade sobre questionar quanto a finitude do homem e o silêncio doloroso da Morte como um fim pode ser vislumbra na poesia de forma plena. Nos versos seguintes, perdura a ideia essencial do poema. A “camisa”, que pertencia ao ente que já não está mais vivo, é utilizado pelo eu-lírico.
O eu-lírico continua utilizando-se dos objetos da pessoa morta. Tentando, assim, perdurar a existência do outro nele, ou buscando a permanência da figura paterna. O que denuncia uma relação de parentesco do entre o eu-lírico e o morto é o verso: “Deixaste uns gestos tristes nos espelhos”. Ao olhar o superfície espelhada, o eu-lírico vislumbra a imagem do homem morto, sugerindo uma semelhança entre os dois. Essa semelhança também pode ser interpretada nos “gestos tristes” deixados no espelho, esses gestos também podem ser compreendidos como a saudade e o luto. Sugerindo, assim, uma relação parental.
Ao longo da tessitura poética, o ambiente funesto e a saudade perduram. Nos versos “Resta o guarda-sol/ Mas me falta o jeito de carregá-lo”, novamente, o eu-lírico depara-se com algo que lembra a pessoa a qual é dirigida a elegia. Tenta, outra vez, apropriar-se do objeto, pois,de certa forma, tenta resgatar por meio da memória os jeitos do falecido.
Percebemos que o eu-lírico intenta ao longo do poema descrever uma maneira de apropriar-se da identidade do outro, do possível pai falecido, por meio dos objetos deixados. Por consequência, na perda agoniza entre ser quem é e a influência do possível pai em sua constituição como homem. Aproximando-se, assim, do questionar existencial o qual a Morte lança o ser humano, sua condição mais essencial, o que permanece e o irremediável. É retratado no poema a permanência do mundo e dos sobreviventes que restaram para a continuação da vida do ente falecido.
Não há como vivenciar a Morte no morrer próprio, mas chegamos bem próximo dessa experiência através do outro, como destaca o pensador alemão Martin Heidegger:
A morte se desvenda sem dúvida como perda, porém mais como uma perda que os sobreviventes experimentam, e no padecer pela perda, não se tem acesso, porém mais como que os sobreviventes experimentam, e no padecer pela perda, não se tem acesso, porém, à perda-do-ser que como tal o que morre “padece”. Não experimentamos em sentido genuíno o morrer dos outros, mas no máximo só estamos ‘presentes a’ ele. (HEIDEGER, 2012, p. 661)
O último verso, “Hoje o mundo corre abaixo de teu retrato”, o poeta constrói a imagética da Morte quanto fenômeno necessário para a evolução, a continuação do fluxo da vida. O pensador alemão Heidegger (2012) ressalta que “no morrer dos outros se pode experimentar o notável fenômeno-de-ser que deve se determinar como a mutação de um ente a partir de um modo-de-ser do Dasein (ou da vida)” ( HEIDEGGER, 2012, p. 659). O eu-lírico depare-se com o fenômeno-de-ser na Morte por meio da experiência do outro. Plasmando o vivenciamento da Morte no poema.
A Linguagem é a morada do Ser, nela é possível, então experimentar o fenômeno da Morte. A poesia, consequentemente, seria um lugar em que o homem pode se questionar e ter a dimensão desse fenômeno-de-ser. A experiência da obra de Max é uma travessia poética para a essência do questionar e do pensar. No poema, a temática da Morte não é construída apenas de maneira funesta. O homem tem na morte a confirmação de sua existência, um espaço para o ser humano perceber-se ínfimo, rompendo o pensando de que o homem é força fundadora de tudo e de todos.
O engessamento do pensamento e da construção técnica do real, retira-se do homem seu vigorar poético no mundo. Em face disso, não se questiona mais, ao contrário, tudo se torna em conceitos. Porém, na obra de arte que funda um mundo, fazendo a interpretação incessante da realidade como movimento orgânico, o homem encontra-se no existindo de forma plena. Na obra de Max, não há conceitos sobre o Amor, ou respostas sobre a Morte. Há uma travessia para o Ser, o qual é proposto pelo poeta. A linguagem é o caminho, as questões são apenas o ínicio para uma travessia poética existencial.
Em Max Martins, as palavras transformam-se em corpo para o ato erótico, desvelando o sentindo primevo do Amor. A Linguagem na poética martiana também plasma a Morte, vivenciando este fenômeno por meio da poesia. Na poética martiniana há um lugar para a experiência do tessitura literária como abertura para as questões intrínsecas do ser humano. Há um desvelamento destas questões, rompendo com modelos determinados, construídos pela sociedade. Nos poemas interpretados, a Morte e o Amor encontram-se na Linguagem, instaurando o princípio e o fim, os momentos em que o Ser se mostra em sua plenitude.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALENCAR, Melissa da Costa. 1952: A poesia de O estranho de Max Martins. 2011 - Dissertação ( Mestrado em Letras – Estudos Literários) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Pará.
ANAXIMANDRO; PARMÊNIDES; HERÁCLITO. Os pensadores originários. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis: Vozes, 1991.
BATAILLE, George. O erotismo. Tradução de Antônio Carlos Viana. — Porto Alegre : L&PM, 1989.
CASTRO, Manuel Antônio de. Arte: o humano e o destino. – Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011.
FERRAZ, Antônio Máximo. O que é uma questão?. Revista Litteris - Ciências Humanas – Filosofia. Número 6. Niterói, RJ: UFF- Universidade Federal Fluminense, 2010.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. – Campinas, SP: Editora da Unicamp; Petropólis, RJ: Editora Vozes, 2012
MARTINS, Max. Poemas reunidos, 1952 — 2001. - Belém: Editora da Universidade do Pará/ EDUFPA, 2001.
PAZ, Octavio. Dupla chama: Amor e erotismo. –São Paulo: Siciliano, 1994.
N. L. Ribeiro é mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolvendo a pesquisa As questões do amor e da morte em Max Martins. E-mail: [email protected]