O Milagre da Multiplicação (e a Amnésia do Civismo)
Estamos perante um fenómeno sociológico fascinante. Segundo as autoridades, há burlões a espalhar dinheiro pelas contas dos portugueses na esperança de que a nossa "extrema bondade" nos leve a devolver o montante. É a burla da caridade forçada. O criminoso, num acesso de génio, deposita 200 euros na conta de um desconhecido e depois envia um WhatsApp a dizer: "Olha, enganei-me, podes devolver?".
É aqui que a estratégia do burlão esbarra naquela muralha intransponível que define o caráter nacional: a nossa profunda e arraigada desconfiança (e um jeitinho para o assobio).
O Dilema do "Achado não é Roubado"
Convenhamos, o burlão é de uma ingenuidade tocante. Ele acredita que vivemos num país onde, ao recebermos 200 euros vindos do éter, a nossa primeira reação é: "Meu Deus, que aflição, alguém perdeu este dinheiro, vou já devolver para repor a justiça cósmica!".
A realidade, como sabemos, é um pouco mais cinzenta. A maioria das pessoas, ao ver o saldo subir sem explicação, passa por três fases distintas:
Negação: "Isto deve ser um erro do banco, amanhã já tiram."
Euforia Contida: "Será que o reembolso do IRS veio cedo? Ou será que o tio da Suíça finalmente bateu as botas?"
Amnésia Seletiva: O dinheiro fica ali, quietinho, a ganhar pó digital, enquanto o proprietário da conta decide não olhar para o extrato durante um mês para não "quebrar o encanto".
Se as pessoas já oferecem uma resistência heroica a devolver dinheiro recebido por engano de instituições legítimas (quem nunca teve de ouvir uma ameaça de tribunal para devolver um ordenado pago em duplicado que atire a primeira pedra), por que carga de água haveriam de devolver dinheiro a um tal de "Número Desconhecido"?
A Burla que se Auto-Explode
O burlão pede a devolução. A vítima, agora avisada pelos telejornais de que isto é "lavagem de dinheiro", tem três caminhos:
O Santo: Contacta o banco, faz queixa na PJ e gasta três manhãs a preencher formulários para se ver livre de um dinheiro que não é seu.
O Justiceiro: Bloqueia o número do burlão e pensa: "Se é dinheiro ilícito, fica melhor na minha conta do que na dele. Vou considerar isto uma taxa de compensação pelo stress."
O Camaleão (A maioria): Apaga a mensagem. Bloqueia o contacto. Assobia para o lado com tanta força que parece um canário. "Dinheiro? Que dinheiro? Eu não vi mensagem nenhuma. O meu WhatsApp deve estar com vírus."
Conclusão: O Crime não Compensa (Literalmente)
Esta deve ser a primeira burla na história da humanidade em que o burlão começa por... enriquecer a vítima. É um modelo de negócio arrojado. O criminoso conta com a nossa "boa-fé", mas esquece-se que, em Portugal, a boa-fé é muitas vezes atropelada pelo "deixa lá ver no que isto dá".
Se receber 200 euros por engano, as autoridades dizem para não mexer. E o português médio, pela primeira vez na vida, vai cumprir a lei à risca: não vai mexer, não vai devolver e, se calhar, vai usar o valor para pagar a conta da luz, convencido de que foi um erro administrativo do destino a seu favor.
Burlões deste mundo, um conselho: se querem enganar alguém, não comecem por dar dinheiro. É que o tuga pode ser muita coisa, mas não é parvo o suficiente para devolver um "presente" do céu só porque alguém pediu por favor no WhatsApp. Atender o telemóvel a desconhecidos já custa, quanto mais para lhes fazer transferências.













