Despertador toca. Silencio por mais dez minutinhos. “É a última vez, na próxima levanto, senão vou me atrasar de novo”, penso, como um alerta. Mentira. Silencio por mais duas vezes antes de levantar. Atrasada. Culpo a festa do dia anterior – meia verdade. Prometi pra mim mesma que iria tomar só uma ou duas cervejas, mas acordei com uma dor de cabeça que me denunciava pulsando: mentirosa, mentirosa. Aos tropeços e atordoada, procuro na bagunça uma roupa para vestir. Meu quarto está bem bagunçado, tão bagunçado que preciso defender mentalmente, como se estivesse num tribunal, que talvez ele não esteja tão bagunçado assim. Com essa constatação duvidosa, puxando do cabide o primeiro vestido que encontro pela frente, respiro aliviada me sentindo confortável na minha própria desorganização. Me olhando no espelho, percebo que estou péssima. Dormi menos de quatro horas essa noite. “Tudo bem! Não preciso de mais do que isso, preciso?”, indago sabendo a resposta, mas finjo que na minha realidade ela é “não”. Prendo os cabelos num coque e, tentando fugir da realidade desastrosa que será meu dia, digo em voz alta triunfante: – Tá tudo sob controle. Vai dar tudo certo! – Rio nervosa. Parece que tirei essa ideia daquele livro de autoajuda O Segredo que afirma que se você mentalizar com convicção que vai dar certo, vai realmente dar certo (mesmo que seja uma grande de uma mentira). Saio de casa muito tarde e desvio da rota tradicional para passar na farmácia. Com pressa, paro o carro bem embaixo de uma placa de proibido estacionar. “É só por cinco minutos, vou rapidinho comprar uma aspirina. Não tem problema”, minto, tentando aliviar o peso da irresponsabilidade. Retorno para carro, depois de quinze vezes o tempo estipulado, com o remédio, uma bota nova irresistivelmente barata (talvez não tão barata, nem tão irresistível) e torcendo para não ter levado nenhuma multa. Continuo meu caminho com pressa prometendo que vou estudar para a próxima prova, que vou parar de beber, que não vou mais mandar mensagem para aquela pessoa, que vou cumprir a dieta. Prometo que é a última vez que cometo os erros que venho cometendo. Prometo que vou mudar. Ensaio um discurso para me convencer que dessa vez é verdade. “É pra valer mesmo, senão…”, invento punições. Mais mentiras. Uma atrás da outra. Me tranquilizando. Me confortando. Amenizando a situação. Parada no trânsito, ligo o rádio para esquecer a culpa e justo Renato Russo vem me lembrar que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Dou um sorriso amargo. “Não tenho tempo para pensar nisso agora, mas quando as coisas se acalmarem, eu vou tomar jeito”. Tenho tempo. As coisas estão calmas. Não vou. Mais uma nota mental. Mais três mentiras.
Ana Aires











