Será que tem cura para minha safadeza?

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Será que tem cura para minha safadeza?
Conversei com uma estrela honesta. Ela me disse para conhecer outras galáxias, pois a nossa está superlotada de corpos vazios.
todasaspalavrasvazias
E eu num sei se eu consigo esquecer as merda que esse mundo já me fez pensar.
Mc Sid.
A GAROTA DA JAQUETA DO ARCTIC MONKEYS ------------------------------------------------ Dia chato e monótono. Mais uma tarde de terça feira que está chegando ao seu término. O Sol já não tem mais toda aquela força e vai perdendo a luta contra a Lua aos pouquinhos. Fábula batida que eu escutei há tempos de algum louco por aí, que dizia que todos os dias a Lua brigava com o sol para iniciar a noite. Se for isso mesmo, o Sol sempre ganha um aliado forte uma época do ano aqui na região do Brasil na qual habito: o horário de verão. Por causa disso, ele sempre resiste mais algumas horas antes da Lua vencer. Mas que chato deve ser a vida do Sol. Nunca vence a batalha. Sempre deixa a Lua ganhar. O movimento dessa cafeteria já não é mais o mesmo. Desde que trocaram a atendente pra outra, a clientela baixou consideravelmente. Não consigo entender porquê. Achei essa nova muito mais simpática. As pessoas que estão chegando em mais de dois anos indo todo fim de tarde naquele lugar, nunca vi mais gordas. Um pessoal completamente diferente entrou e se alojou lá dentro. Muito burburinho. Vejo chegar uma moça na pressa, com os longos cabelos loiros emaranhados em seu rosto. Era fio no olho, na boca, na sombrancelha. Todos estavam a esperando. Me veio uma boa energia daquela moça. Não achei ela muito desengonçada, apesar da pressa em chegar na mesa dos que estavam à sua espera. Não pude deixar de reparar no traje que ela vestia. All star verde com cano alto, calça jeans rasgada e uma jaqueta preta, maior que ela. Logo depois que ela se virou de costas para mim, percebi a magnificência. Estava escrito One For The Road, da maneira mais Tumblr possível. Conheça Arctic Monkeys e ganhe meu coração. Esse é o meu lema. Depois de tantas emoções, o papo entre ela e os amigos da mesa fluía de uma maneira na qual eu nunca vi fluir uma conversa sequer minha nos últimos meses. Dava gosto só de ver tamanha animação para falar. A maneira que a moça gesticulava, olhava para a amiga, pegava o cabelo, arrumava as mangas, abria um sorriso tímido seguido de uma risada segurada, quase a ponto de se tornar gargalhada. Porém, a vergonha não deixava com que ela se soltasse por completo, mesmo o assunto sendo tão engraçado. Aquela moça me fez eu voltar a usar técnicas nas quais já estavam quase enferrujando. Faço uma visão panorâmica, e "sem querer" passo meu olhar no rosto dela. Ou então, encaro-a mesmo, sem nenhuma vergonha na cara. E se eu perceber que ela irá olhar para mim também, desvio meu covarde olhar para o canto. São maneiras diferentes e infinitas de se olhar o que não pode. Certa vez, já até fingi estar tirando uma selfie para tirar foto da outra pessoa. Mas, imagine. Ninguém deve fazer isso. Só uma loucura particular minha. Aquela cena de ver a moça acompanhada de tantos gestos majestosos junto com o pôr do sol me fez gastar muitos minutos daquele fim de tarde - ou, como dizia aquele louco - o fim de mais uma batalha do Sol contra a Lua. A vontade de ir falar com ela era cada vez mais forte. Era como se tivesse um ímã nela e eu estivesse resistindo. Nisso, ela e os amigos de mesa resolvem dar uma passeada a pé. A pessoa mais normal e sã do mundo pensaria que foi ótimo ter tido esse devaneio de fim de tarde, mas que ali seria o ponto final. Como diria Radiohead: But I'm a creep. I'm a weirdo. Resolvi que iria seguir o grupo. Iria seguir a garota. Passamos na frente do café, onde tem aquela parede enorme de folhas. Ela naquela luz de pôr do sol, foi a vista mais linda que vi naquele dia. Por alguma razão, ela achou que prendendo o cabelo iria diminuir o cansaço da caminhada. Eu amei ver aquela cena. Mas o tempo foi passando, os centímetros viraram metros percorridos e a vontade de chegar nela e falar que gostou da jaqueta só aumentava. Porém, meu medo em fazer aquilo da maneira mais ridícula possível e se tornar chacota das pessoas que nos rodeavam, me deixou só mais uma vez devanear em pensamentos e realidades nas quais nunca irão acontecer na vida real. Decidi atravessar a rua e tomar meu rumo. Sabia que jamais a veria novamente. Fiquei com aquela ideia de falar sobre a jaqueta com ela martelando durante vários minutos. Depois, voltei à minha vida pacata. Mal sabia eu que aquela jaqueta era grande no corpo dela porque era de seu namorado. Ele tinha emprestado pra ela não passar frio. A moça loira nem sabe o que é Arctic Monkeys. Mais uma vez, minha intuição me salvando de furadas. Só espero que a coisa seja boa da próxima vez, pois viver assim é bem arriscado.
Cidades cheias de pessoas completamente esgotadas de tanto sentir.
Machado, N.
Melhor coisa para ouvir/dizer durante um sexo: BOTA PRA FODER.
Eis aqui o que tenho constatado desta vida: nem tudo acaba em farelos como grãos de areia e, às vezes, a possibilidade de se transformar em pérola nos assusta. Não pela beleza que ela tem e a nossa falta de merecimento, mas o processo e sua dor. Sou covarde, eu confesso. Todas as vezes que dei um passo e retornei 3. Dei um tapa e avancei mais 2. Chorei e paralisei. Trombei com alguém e recebi consolo até a casa 6 desse jogo da vida. É isso. Um jogo do foda-se quem ganhar, o caminhar já é uma merda. Quero traduzir o que queremos dizer quando indagamos o por quê buscar um sentido pra vida e todo esse não-sei-o-quê de missão na terra. Tudo isso já é uma merda. Não é falta de fé, não é falta. São indagações, pra que? Quem sabe a pérola seja produzida, porém nunca encontrada, cara. Ninguém sabe se vale a pena. Se vale passar uma vida se esquivando do mal porque quer o paraíso vindouro. Ou então só viver quando tiver aceitado que o inferno não é tão devastador assim. Queimar e não ser consumido é algo digno, não? A sarça não fez isso no deserto e o ambiente era santo? Morrerei com a ideia de que em algum momento saberei como a sarça se sentiu. Tanto faz. Minha vida ainda nem se esfarelou, eu tenho um longo processo pela frente.
Machado, N.