Não importa o quanto eu escreva, não sinto que a água passa do joelho. Como andar naquelas praias de água morna da infância, sempre pra dentro do mar, e andar, andar, e andar sem fim, e a água custando a chegar nas coxas. Então, na ansiedade do mergulho, acocorar, esperar as ondas e maresias pra abaixar ainda mais a cabeça e, em reverência, lavar a alma e sentir os olhos arderem do sal e espumas, enquanto a areia abraça os pés.
uma coisa que me deixa triste são ideias mal elaboradas. sabe aquele conceito, aquele mundo semi construído, que parece incrível mergulhar, mas quando pisas, vês o quão raso e quão ralo é? tão desperdiçado, antes mesmo de ser explorado.
tanto da minha vida acontece dentro de mim, e é tudo tão ensurdecedor e intenso, que se eu não escrever, se eu não fotografar esses momentos em palavras é como se eu não tivesse vivido.
sinto que seguiria como que prendendo a respiração, se não estravazasse. como que com viseiras, evitando esbarrar com mais sentimentos enquanto não deixo essa torrente ir pra algum lugar. consigo ficar semanas sem escrever, mas quando sinto esse acúmulo de gritos no meu peito, nada é mais importante pra mim do que sentar e ouvir eles todos.
quando me afogo em gritos internos, o mais difícil é escolher por onde começar a abrir a torrente. é uma cacofonia de sentimentos tentando sair, e enlouqueço um pouco nesse processo de dar voz ao caos.
às vezes eu sinto que estou me afogando em palavras. deslizam, escorrem, acumulam, enchem todos os espaços. transbordam. são palavras que toco com a pena e desenho no papel, dia após dia. mas ali, no segredo, na privacidade das páginas ásperas. presas nos registros de por onde andei obcecada. e tão prolífica, tão obstinada em cobrir todos os cantinhos mais ocultos da minha mente, exploro tudo. exauro. e me prendo também.
não faz sentido voltar a cansar a mão, a raspar a ponta da pena pra repetir pensamentos que não mudaram. pra falar mais aquilo que já foi dito. mesmo que a mente esteja presa ali, há dias, e dias. mesmo que minha mente esteja tomada, pesada, vagando pelos mesmos caminhos. me aprisiono. sinto a frustração por sentir demais. não faz sentido repetir o mesmo registro do que eu sinto naquele caderno que me conhece e já guarda os meus pesos. a não ser que...
a não ser que eu permita que elas voem. que eu não grude tudo que me afoga nos centímetros de papel. que eu não escrutinize cada pensamento como se tivesse que ser observado à minúcia. a não ser que eu permita a liberdade que as palavras podem ter. que eu deixe o romance fluir por essa enchente que se acumulou em mim.
e assim, simples assim, o acúmulo das palavras não é mais estagnado. e assim, as entrelinhas começam a falar mais, e ir além. o fluir retoma, sedoso e difuso. e elas se moldam, sinuosamente belas, em redemoinhos gentis, remexendo o que esteve travado, suavizando o que ficou viscoso, mesmo sem nada de novo, mas escorrendo nos contornos de sentimentos que sempre querem ser tocados.
e assim, me vem uma apreciação profunda de todo esse tanto sentir. uma celebração por ter tanto o que dizer, tantas entrelinhas prontas pra tocar. e assim, enfim, não sinto a frustração de parar no mesmo lugar, e afundar. o sentir demais vem como o alívio de todas essas águas, por todos os meus lados. um abraço. um auto-libertar.
photo: de um entardecer frio, úmido, e salgado, registrando o movimento da praia
Escrever é arte tão arte quanto qualquer outra arte. Escrever é doer, sangrar, se incendiar. É escolher a palavra perfeita, é criar e recriar significados. Dar nomes a sentimentos não identificados, nunca nomeados. É machucar e curar a alma.