Desde criança a vida me ensinou a ser forte
Dez anos de idade e sem poder contar com a sorte
Senti a mão da mulher branca no meu peito
Ela dizia: “Quem você pensa que é negrinha?”
Num gesto brusco indicando: Pare!
A mulher continuou o dispare:
“Daí para frente você não vai mais”
“Só as crianças brancas podem entrar”
Naquela ocasião, lembro-me bem
A professora do gesto absurdo
Assimilou o gesto de Cleuza
Qual o meu limite para a vida
Se for para ir mais um pouquinho
Daqui eu não posso passar
As mãos de Cleusa no meu peito
Fez-me entender meu lugar
Aos 13 anos de idade fui trabalhar
Pai peão, mãe dona de casa
Era o único jeito de a minha família eu ajudar
Meus estudos, meus sonhos
E aquele vestido azul com laço
Estavam do lado de lá da linha
Que aprendi com uma professora
Que minha vida seria sempre do lado de cá
Levando porrada na trincheira
A esposa e empregada doméstica
E eu entrei na vida do avesso,
A única coisa que me disseram
“A vida pra nossa gente é dura
Você vai ter que se virar”
Eu me virei do jeito que sabia
Dadá vêm de da-da, doa-da
Investi a minha vida à doação
“Dadá, não limpou os meus sapatos?”
“Hoje você não leva as sobras do jantar”
Congelou aos dez anos de idade
Quando Cleusa colocou a mão
E com um gesto simples e castrador
Ensinou-me meu lugar no mundo
Seria impossível realizar
Meus desejos mais simples
E uma vida inteira de doação
Ainda posso sentir aquela mão
Que aquela excursão seria
“Lavei e quarei o seu uniforme,
Mais tarde vou lá na Fatinha
Para escola, que é pra professora
Se aquele não era o meu lugar
Na cadeira que descanso agora,
Balançando para frente e para trás
Te conto olhando nos olhos
Minha história tão mordaz
Leva essas histórias para o mundo
A voz que tu ouve no coração
De homens e mulheres humilhados
Nas palavras de corte e veludo
De uma geração de iluminados
Conscientes do passado e do legado
Geração que entende a importância
De reverenciar seus antepassados
E garantir que nossa história seja contada
Suas vidas com mais dignidade
Escrito em 02 de maio de 2019