… Felipe e Nanda não tivessem brigado no capítulo 9?
[Trecho retirado do capítulo 9 em itálico]
C. S. Lewis, certa vez, escreveu uma frase que me chamou bastante atenção. Segundo ele, todos dizem que perdão é uma ideia maravilhosa até que possuam algo para perdoar. Aquele pequeno conjunto de palavras provocou um efeito enorme em mim, confesso. Era tão simples, mas tão verdadeiro e profundo. Falamos sim constantemente sobre perdão; Pregamos a política da segunda chance, do amar o próximo ainda que ele tenha nos ferido. Cultuamos um conceito de extrema humanidade e compaixão, mas esquecemos dele em segundos quando a decepção bate a nossa porta. Afinal, se perdoar é algo tão simples, por que parece uma tarefa tão árdua quando é nosso coração que está ferido?
Talvez sejamos seres egoístas, de fato. A dor que sentimos sempre aparenta ser maior que a dos outros. E naquele momento, a minha era uma das piores do mundo.
As lágrimas escorriam desenfreadas por minha bochecha, misturando-se com as gotas de chuva que despencavam cada vez mais fortes do céu. Eu estava lá, largada no meio da rua, chorando de maneira estúpida e sentindo minhas roupas se encharcarem. Mas é claro, as coisas podiam piorar. Elas sempre pioram.
Ao menos já estava longe do colégio.
— Você está bem? — Felipe murmurou, sentando-se ao meu lado na borda da calçada.
— O que você acha? — Resmunguei, não me dando ao trabalho de encará-lo. Não sabia nem sequer porque ele ainda estava ao meu lado.
— Sinto muito. — Respondeu-me, e enfim criei coragem para encará-lo. Seus cabelos loiros estavam completamente molhados. — Deveria ter me pronunciado antes. Pedro disse para não me meter na conversa de vocês, entende?
— E você deveria ter o escutado — Afirmei, sentindo seus olhos pousarem sobre mim de modo confuso. — Não tinha que se intrometer.
— Se não fosse por mim, você não teria se livrado dele tão fácil.
Uma risada irônica escapou de minha boca. — Claro. Perdoe-me, Felipe. Você foi realmente meu salvador. — Minha voz soara extremamente sarcástica. — Obrigada por me tirar de lá. Eu com certeza não conseguiria sair sozinha.
— Tudo bem, dá próxima eu posso te deixar chorando na frente de metade do segundo ano, se é assim que prefere. — Ele resmungou, erguendo-se de forma abrupta. Eu o segui quase instantaneamente.
— Prefiro sim. — Assenti — Melhor do que ter você só piorando a situação.
— Piorando? — Ele questionou. — Francamente Fernanda, você me decepciona. Não está fazendo isso direito, sabia? — Ele arqueou as sobrancelhas, enquanto aproximava lentamente seu corpo. — Eu fiz minha parte e te resgatei do vilão. Agora cabe a você, sendo a mocinha, dar o meu prêmio.
— Eu não pedi pra você interferir em nada, seu idiota — Resmunguei, cruzando meus braços de maneira defensiva. Estava irritada, ainda que seu tom brincalhão deixasse-me ligeiramente mais calma. — Não sou nenhuma donzela em perigo para ser salva.
— Não era você que queria viver num mundo de princesas sequestradas e cavalheiros corajosos?
Um vestígio de sorriso surgiu em minha face. Não era um sorriso de alegria, de qualquer forma. — É, mas parece que o meu príncipe virou sapo. — Dei de ombros, desviando meus olhos para o chão. — Acho que esse papo de conto de fadas é furada.
Felipe suspirou, parecendo ponderar sobre minhas palavras. Repentinamente, sua mão pousou sobre meu queixo, erguendo meu rosto até estar na mesma altura que o seu.
— Tudo bem, eu sei que não tenho uma armadura, nem sou da realeza ou saio montado num cavalo branco — Ele sussurrou, e só então notei que suas íris azuis estavam fixas em minha boca. — Mas posso te mostrar que ás vezes podemos viver um pouco de fantasia.
Meu coração disparou diante de sua fala.
— E como você pretende fazer isso? — Forcei uma pequena risada a escapar por meus lábios, em uma tentativa falha de disfarçar meu nervosismo.
— E não é que dessa vez você seguiu o roteiro? — Um sorriso estranhamente sugestivo surgiu em sua face. Franzi o cenho, confusa com sua reação. — Vou te mostrar como.
Assim que Felipe pronunciou aquela frase, seu braço envolveu minha cintura, puxando-me abruptamente para perto. Naquele momento, a única coisa em que conseguia pensar era na sua proximidade relativamente preocupante. Tudo parecera tornar-se mais atrativo e bonito. Seu perfume ficara mais forte; O azul de seus olhos, intensificara-se. Cada mínimo detalhe de seu rosto parecia, de alguma maneira esquisita e sem sentido, ganhar mais brilho e forma.
E sua boca.. Bom, ela nunca esteve tão próxima.
Quando seus lábios se encontraram com os meus, eu não me afastei e tampouco os desviei. Me permiti sentir tranquilamente a pressão que eles exerciam um sobre o outro, e o quanto pareciam ter sido feitos especialmente para se encaixar.
E naquele instante, eu esqueci por completo tudo que ocorrera minutos atrás. Esqueci o motivo que nos levara a sair do colégio e a discutir, o que me fizera chorar e machurara meu peito. Esqueci tudo que não envolvesse aquele beijo inesperado.
Leia as outras cenas:
…Felipe nunca tivesse atrapalhado a conversa de Nanda e Lucas no capítulo 9?










