Dilluns, 25 d'Agost | Lluna 0 (Negra), Setmana 35 de 2014 | Barcelona
A Espanha é conhecida por ser um dos países mais machistas e católicos da Europa (acho que perde pra Itália no segundo quesito mas ganha no primeiro). Assim, é natural que o tema das relações não-monogâmicas tenha penetração meio limitada aqui. Há basicamente dois grupos: o Poliamor Madrid, em Madrid, e o Poliamor Catalunya, em Barcelona. Dentro deste segundo, há um setor que, para além do apoio mútuo dos não-monogâmicos, enxerga o grupo como um grupo político, que tem muita clareza sobre a luta das relações ser uma luta contra a monogamia enquanto estrutura social, situada dentro da luta geral contra o patriarcado e da luta mais geral de esquerda (inclusive, a maioria dos membros luta também pela independência da Catalunha, e até mesmo força a barra para as reuniões do grupo serem em catalão -- o que é particularmente dificultador para os muitos estrangeiros que moram aqui).
Uma figura proeminente desse cenário é a Brigitte Vasalio, que eu vejo como bastante alinhada às ideias políticas gerais do RLi brasileiro. O resumo da posição dela pode ser visto nesta entrevista em vídeo e nesta matéria da imprensa. Ela organiza coisas sob a insígnia #occupylove, inspirada nos movimentos Occupy que aconteceram na Europa e nos EUA no ano passado. A descrição do grupo contém:
Este es un grupo para pensar desde lo político la construcción de los afectos, los vínculos sexo-afectivos y las relaciones no-monógamas consensuadas (...) No es un espacio apto para personas alérgicas a miradas feministas o a análisis estructurales.
Hoje a Brigitte conduziu uma edição especial do seu taller, com a dinâmica de sempre mas especialmente dimensionado para ser filmado pelo documentário da Mariana.
A atividade começa como tudo sempre começa: discutindo a monogamia como um problema estrutural e político. Isso dura uns 40 minutos. Depois vem a atividade propriamente dita. A mediadora (no caso, a Brigitte) pede quatro voluntários da platéia, de qualquer gênero, pra representar os papéis de Pepi, Luci, Bom e El Montón (baseados no filme do Almodóvar). O plot é simples: Pepi e Luci são um casal (de qualquer gênero) monogâmico, mas Luci passa a noite com Bom (também de qualquer gênero) e eles começam a ter um caso. El Montón é o entorno, o resto da sociedade.
Então ela vai perguntando, para os autores e para a platéia, o que se passa na cabeça e no discurso de cada um dos personagens -- e vai anotando as ideias num quadro. Primeiro Pepe, o traído, recebe conselhos do Montão: deixe a Luci / mate a Luci / você está paranóico, não deve ser nada / respeite o tempo dela / outras coisas ligadas à ideia de vingança, ou de pena.
Depois, o que passa pela cabeça de Pepi: "Eu pensava que ela me amava, mas não era amor de verdade", "Eu não mereço isso, eu sempre fui tão dedicado etc.", "Eu mereço isso, nossa relação era um fracasso", "Ainda por cima um homem [Pepe e Luci eram mulheres, nessa encenação], que pode dar pra ela algo que eu não posso", e outras ideias alternadas de injustiça, culpa, humilhação, vingança, raiva e pena.
Depois, Luci: se sente culpada, passa por uma fase de negar o que aconteceu (não foi nada / foi só um deslize / eu tava bêbada), depois de buscar justificativas (o nosso relacionamento não era mais o mesmo / Bom é melhor que Pepi nisso e nisso), depois a fase de confissão redentora diante de Pepi (que por sua vez não sente como nada redentor isso), a comunicação perversa (eu vou comentar tal coisa pra ver como ela reage e aí vejo o que mais digo), e a pressão interna dela sobre ter que escolher com quem ficar.
Depois Bom, que até agora foi tratado apenas como um objeto na discussão sobre a relação entre Pepi e Luci, mas no fundo do peito dele também bate um coração. Ele pode se sentir culpado também, por estar interferindo na outra relação, ou pode se sentir bem ("eu sou solteiro e não tenho nada a ver com essa crise, eu estou só aproveitando a vida" -- nesse momento a mediadora perguntou: Se Bom fosse alguém não-mono, interagindo com Luci que, ele sabe de antemão que está em uma relação mono, como isso muda o cenário?). Mas aparecem misturados outros sentimentos de ter sido menosprezado, usado, etc. Aqui apareceu mais forte a discussão de gênero: a situação de Bom muda bastante se ele é homem ou mulher, e se Luci é homem ou mulher.
Depois de todo mundo se colocar no lugar dos quatro, vem a segunda ronda do exercício: a mesma situação, mas todos são poliamorosos. O que Pepi precisa para se sentir bem? Disseram: comunicação (escutar e ser escutado, nomear o que o incomoda), colocar seus próprios limites (aqui apareceu a discussão sobre liberdade nas relações, individualismo, neoliberalismo, etc. mas a mediação salvou o debate introduzindo a diferença entre "não quero que você veja Bom com tanta frequência" e "eu sei que quando você vê Bom com tanta frequência eu me sinto mal -- e preciso de ajuda pra lidar com isso sem sofrer"). E Luci, o que ela precisa? Que tanto Pepi quanto Bom falem claramente, sem estratagemas e joguinhos, Que ela tenha espaço para administrar o tempo entre os dois e o tempo pro resto da vida dela. E Bom? Que seja perdoado, caso Pepi tenha se sentido mal com o affair, que se sinta não como um intruso, mas acolhido (acolhido inclusive por Pepi, porque uma vez que os dois se relacionem com Luci, há uma relação entre eles também, nem que seja somente de parceria -- já que os dois estão interessados no bem de uma relação com a mesma pessoa.)
O debate todo durou duas horas e meia e foi encerrado com uma ronda rápida pra cada participante dizer, em 140 caracteres, qual foi a principal conclusão ou questão para a própria vida amorosa que saiu dessa encenação. Essas conclusões, no geral, foram bem inspiradoras de se ouvir.
Essa atividade é legal porque é mais interativa do que só ouvir falar, e vai na linha da catarse teatral: a partir de situação que está presente no imaginário de todo mundo, as pessoas tem que se colocar no lugar de cada um dos personagens. Elas vêem que todo mundo sofre na situação, e ao mesmo tempo que isso gera acolhimento, isso despersonaliza a situação e faz as pessoas enxergarem o problema na estrutura e não nas pessoas específicas. Além disso, elas revisitam seus próprios sofrimentos passados, mas agora não olhando mais eles como sofrimentos individuais, mas como algo que se passa com basicamente todo mundo. Isso cria uma solidariedade maior entre todos, e também aponta para o sentido social global do problema. Já a segunda rodada, na situação poliamorosa, mostra, superficial mas decididamente, que é possível construir relações fora desse impasse, desde que elas sejam baseadas em outros tipos de valores (comunicação sincera, cumplicidade, acolhimento, etc.).
Por outro lado, a abordagem das soluçõa ainda me parece conceitual demais, sem se aproximar de verdade do que move as tripas das pessoas. Bom, não se pode ter tudo, e em breve eu pretendo dar minhas contribuições ao tema, fazendo algo mais introspectivo, que puxe as pessoas pelo avesso, mas de um jeito suave, como acontece, por exemplo, em Tamera.