First Impressions [Lily&Ophélie]
“Abençoados os que estão diante dos corruptos e dos ímpios e não estremecem. Abençoados os soldados da paz, os campeões dos justos.” Proferia Ophélie, com ambas as mãos diante do semblante pendente sobre o altar. Devastadora era a visão daquela Redcliffe estilhaçada. Os choros inocentes dos infantes misturavam-se de um modo plangente com os murmúrios assustados de quem não tinha esperança de durar mais um dia. A bard, que já de há algum tempo não acreditava ser portadora de um coração tal era a quantidade de sangue que lhe tingia as mãos, sentia um aperto no ainda duradouro membro. Quanta amargura, quanta tristeza. Não acreditava que estava, ali, naquele momento, à beira das lágrimas. “Abençoados os íntegros, a luz nas sombras. No seu sangue está escrita a vontade do Criador.” Concluiu a sua oração, pedindo com toda a convicção que não se dessem mais mortes naquele local… Que a própria Andraste abraçasse as pobres almas inocentes e as guiasse, para que mais vidas não fossem colhidas.
E então, recolhendo as lágrimas que insistiam em correr sem controlo com a manga das vestes antes de se colocar sobre ambas as pernas. Ainda deixou a vista deambular sobre os vários rostos encardidos que a encaravam, alguns com surpresa e muitos sem qualquer expressão, tal era a falta de esperança naquele momento. E então Ophélie lançou as mãos ao peito antes de deixar escapar por entre os lábios as palavras da antiga canção. “Hahren na melana sahlin, Emma ir abelas.”
Que estas palavras inspiram e encorajem estes rostos apáticos, rezava, que estas pessoas se possam erguer, que o Criador esteja do lado deles uma vez mais. “Vir samahl la numin, Vir lath sa'vunin.” Finalizou. Recebeu das escassas clericais presentes um agradecimento silencioso, ao que respondeu com a mais humilde das vénias. E então, agarrando com mais força a alça da sacola às costas, abandonou a Chantria.
Pouco metros andou na direção do sol antes de ser abordada numa esquina. Dois bandidos que a haviam seguido desde o edifício até local longe o suficiente da vista dos soldados preparavam-se para dar o golpe. Talvez noutro momento qualquer tivesse tentado conversar, arranjado uma maneira pacífica de se escapar àquela investida… Mas naquele momento, pouco depois de se deparar com tanto desespero, não tinha como racionalizar assim. Então, com um sorriso amargo curvando-lhe os lábios, adentrou o beco sem saída, aguardando que a seguissem. Rapidamente um deles tentou agarra-la pelo braço para “negociarem”. Assim que deu por isso agarrou-lhe com firmeza um dos dedos e quebrou-o. Logo desembainhou de uma das suas adagas, movendo-se com grande agilidade, rolando desviou-se do machado que o seguinte fazia balouçar sobre a sua cabeça. Cravou-lha bem fundo na garganta, sem mais nem porquê. Os olhos do outro bandido esbugalharam-se de tal maneira que Ophélie pensou se ele não via agora ali diante dos mesmos todos os pecados que já havia cometido na vida. “Vá! Foge cobarde!”
Não teriam sido precisas palavras para ele fugir como fez. Então, a moça colocou-se de joelhos diante do corpo que jazia no chão cuja vida ia abandonando aos poucos. Olhou-o nos olhos, como tantas vezes fazia com as suas vítimas, como se lhe pedisse perdão por breves segundos. Quando os olhos ficaram apáticos, Ophélie pousou ambos os dedos sobre as pálpebras, fechando-os, e extraiu a adaga da ferida. Quando se levantou para prosseguir a viagem, reparou que mais alguém assistia.