BRINCADEIRA SEM GRAÇA
Ontem, assim que entrei na sala do 6º ano A, um dos representantes da turma veio em minha direção e falou baixinho:
— Tia Lídia, hoje é o aniversário do Bernardo, a gente pode cantar parabéns pra ele?
— Claro, meu amor!
Ele então se posicionou perto do quadro e puxou o “parabéns pra você...”
Depois da cantoria, de algumas homenagens e de alguns cumprimentos, eu pedi silêncio pra fazer a chamada, mas uma aluna que senta lá no fundão levantou a mão e pediu a palavra.
— Pode falar, minha linda, é alguma mensagem para o aniversariante?
— Não, professora, mas tem a ver com ele.
— Como assim? — perguntei, intrigada.
— É que tem dois garotos aqui na sala planejando quebrar ovo na cabeça do Bernardo, quando a aula acabar.
— Que história é essa??? Quem são os garotos? — perguntei brava e chateada.
— Fulano e Beltrano — a menina concluiu a denúncia corajosamente.
— Bora, engraçadinhos, os ovos de galinha agora aqui na minha mão!
Era de dar dó a carinha de espanto do Bernardo, pois ao que tudo indicava, os delatados eram seus amigos.
O primeiro garoto, todo descabreado, tirou o ovo da mochila e me entregou. Olhei para o outro garoto:
— Cadê o seu? Coloca aqui também.
— Era só um mesmo, professora, mas eu já tinha desistido da “ovada”, só o fulano que ia fazer — respondeu o segundo garoto, visivelmente envergonhado.
— E você desistiu, por quê? — perguntei ainda chateada e meio incrédula.
— Porque eu não queria perder a amizade do Bernardo, tia.
Eita, por essa eu não esperava... Nem o Bernardo cujo olhinho voltou a brilhar.
Ontem quase que uma brincadeira estúpida e sem graça silenciava um momento de carinho e de empatia. Ainda bem que a coragem e a amizade falaram mais alto.
Lídia Vasconcelos









