As coisas iam especialmente bem no início, antes de estar tudo completamente arrumado, quando havia sempre alguma coisa por fazer, comprar isso, encomendar aquilo, mudar esse móvel de lugar, arrumar aquele outro. E, embora houvesse briguinhas ocasionais entre marido e mulher, ambos estavam tão satisfeitos e havia tanta coisa a fazer que tudo isso passava sem discussões mais sérias. No entanto, quando não havia mais nada para decidir, as coisas começaram a ficar enfadonhas, parecia estar faltando alguma coisa, mas daí eles começaram a conhecer pessoas, entrar dentro da mesma rotina e preencheram suas vidas.Ivan Ilitch, depois de passar a manhã no Tribunal, vinha em casa almoçar e no início ele até que tinha bom humor, conquanto esse bom humor estivesse sempre prestes a ser estragado e exatamente por causa da casa nova (qualquer mancha na toalha da mesa ou na forração, a gravata da cortina um pouco gasta, tudo o irritava: tivera tanto trabalho para arrumar tudo que lhe magoava ver qualquer coisa estragada). Mas, de modo geral, a vida de Ivan Ilitch seguia seu curso como ele achava que deveria ser: calmamente, agradavelmente e dentro das normas estabelecidas, levantava às nove horas, tomava seu café, lia os jornais, vestia seu uniforme e ia para o Tribunal. Lá chegando, caía imediatamente na sua rotina de trabalho e preparava-se para lidar com petições, processos e as sessões públicas e administrativas. Em tudo isso, fazia-se necessário excluir dali tudo o que contivesse vida dentro de si – o que sempre perturba o andamento normal das coisas oficiais.