A GENTE SEMPRE SE ACOSTUMA...
Fazia já algum tempo que elas estavam comigo. Uns três ou quatro anos, não lembro ao certo. Elas eram de estimação, quase uma extensão de mim, essenciais à minha existência.
Eu não me imaginava sem elas e eu tenho certeza de que elas sem mim perderiam o sentido, a nossa relação era muito íntima e insubstituível! Elas eram muito especiais para mim. Mas eu percebi que, de uns tempos para cá, elas já não eram mais as mesmas. Pareciam bem menores do que antes, e isso me incomodava, pois passei a andar meio encurvada por causa delas. Uma delas, inclusive, começou a me machucar. E eu, com jeitinho, esquivava-me daquela “pequena garra” que me causava tanto desconforto. O machucado virou um calo, não doía mais. Então achei que estava tudo bem.
Até que um dia, já sem poder andar direito, decidi trocar de muletas!
Não foi fácil. Lá na loja, não tinha nenhuma que eu considerasse interessante. Achei todas feias e inadequadas para mim. Depois de muita conversa e de um ótimo desconto, comprei outro par de muletas. Odiei a sensação que elas me proporcionaram. Uma das minhas axilas já estava acostumada àquela curvatura na base quebrada de uma delas. Senti minha coluna se aprumar e isso foi, no início, bem desconfortável. Mas não tinha outro jeito.
Foi com pesar que aposentei minhas velhas muletas de guerra, mas estava na hora, elas não estavam mais me fazendo bem. E isso fez com que eu refletisse sobre a minha incrível capacidade de adaptação.
A gente sempre se acostuma com tudo, não é? Com coisas boas, com coisas ruins... Mas não deveria ser assim! As coisas ruins deveriam nos afugentar e nos causar repulsa. Ninguém deveria se adaptar e se acostumar ao sofrimento! Essa passividade que parece politicamente correta pode ser a desgraça de muita gente, inclusive a minha.
Há muitas muletas em minha vida que precisam ser trocadas. Outras ainda que precisam ser jogadas fora e sem direito a substituições.
Não quero mais andar encurvada, eu não preciso de novos calos. Eu quero fazer adaptações na minha adaptabilidade. Eu vou me acostumar à felicidade. Sofrimento consentido? Nunca mais!
Lídia Vasconcelos













