IMAGINE TAMAKI
O relógio da sala marcava quase onze da noite quando Tamaki Amajiki finalmente largou o uniforme.
O zíper da jaqueta deslizou num som baixo, ecoando pelo apartamento vazio. As luvas caíram no chão, a máscara pousou sobre o balcão, e o herói que o mundo admirava — Suneater, o alfa que enfrentava monstros e salvava cidades — se permitiu um suspiro longo, cansado.
O apartamento era silencioso demais. Limpo demais. Sem vida demais. As paredes brancas refletiam a luz fria da luminária, e o som da chuva lá fora tornava o vazio ainda mais evidente.
Tamaki vivia entre extremos: o caos do trabalho e a monotonia da casa. Durante o dia, o herói, o exemplo, o símbolo da calma em meio ao desespero. À noite, apenas um homem solitário com medo do próprio silêncio.
Aos vinte e seis anos, já era um nome consolidado. Um alfa respeitado, disciplinado, poderoso. Mas ninguém via o quanto a glória podia ser... insuportavelmente quieta. Tamaki não era o tipo de alfa que frequentava bares, festas ou reuniões da agência. Não sabia conversar com facilidade, e sua timidez era lenda entre os colegas. As entrevistas o deixavam em pânico; as declarações públicas, um martírio.
Os amigos — Mirio e Nejire — tentavam arrastá-lo para a vida, lembrá-lo de que ainda era jovem. Mas havia algo em Tamaki que parecia preso. Como se parte dele tivesse se perdido no meio de tanto heroísmo.
O som da chuva bateu mais forte na janela. Tamaki observou as gotas escorrerem pelo vidro e pensou, sem coragem de admitir em voz alta: "Estou cansado de voltar para casa e não ter ninguém esperando."
Não alguém que o visse como herói, mas alguém que o olhasse como homem.
Ele passou a mão pelos cabelos úmidos, pegou o capuz e saiu. Talvez andar sem destino ajudasse a acalmar a mente.
A cidade estava mergulhada numa garoa persistente, fina, quase melancólica. As luzes dos postes refletiam no asfalto molhado, criando um brilho líquido nas ruas. Tamaki caminhava em silêncio, o capuz cobrindo metade do rosto, até que chegou à plataforma da estação.
O trem noturno chegaria em cinco minutos.
Ele não tinha realmente um destino. Apenas queria ouvir o som do mundo.
Encostou-se numa das colunas metálicas, observando as pessoas que esperavam: trabalhadores voltando de um turno duplo, jovens com mochilas pesadas, casais que cochichavam e riam entre si. A vida parecia pulsar em volta, e Tamaki se sentia... fora dela.
Um ruído metálico anunciou a chegada do trem. As luzes brilharam entre a névoa. O vento levantou o capuz de Tamaki, e por um instante, ele sentiu o cheiro do ar úmido misturado a perfumes, café, metal. O som das portas abrindo o tirou do devaneio.
Entrou.
Escolheu um canto perto da janela, apoiou o ombro na parede e respirou fundo. O vagão não estava cheio — apenas os que voltavam tarde demais de uma vida que nunca parava.
Ele observava. Sempre observava.
Uma mulher de uniforme cochilava com a cabeça apoiada no vidro. Dois adolescentes riam discretamente de um vídeo no celular. Um senhor lia jornal, indiferente à chuva lá fora.
E então, seus olhos pararam.
Poucos passos à frente, num dos bancos do meio, estava um ômega.
Tamaki o notou primeiro pelo riso — um som leve, vivo, quase infantil. O tipo de riso que parecia espantar a solidão. O ômega estava com o cabelo levemente úmido da garoa, o casaco claro manchado de água, e nos braços, um garotinho que devia ter uns quatro anos.
O pequeno ria alto, tentando segurar um chaveiro colorido — um coelhinho de borracha — que insistia em cair no chão a cada tentativa.
— Aiko, cuidado — disse o ômega, divertido. — Se continuar assim, o coelho vai fugir.
— Ele não vai fugir! — retrucou o garoto, emburrado. — Eu sou um alfa, papai, ele tem que me obedecer!
Tamaki precisou esconder um sorriso.
O garoto — Aiko, ele ouvira — tinha olhinhos brilhantes e um ar determinado demais para o tamanho. Mas bastava o pai sorrir para que toda a pose de pequeno alfa desmoronasse. Ele se encolhia, rindo, escondendo o rosto no peito do ômega.
O coração de Tamaki se apertou de um jeito estranho.
Não era ciúme, nem desejo imediato — era algo mais... distante. Uma admiração silenciosa. Um encanto pelo simples. Pela vida que ele não conhecia.
O ômega levantou o olhar por um instante, distraído, e Tamaki desviou o seu rápido demais. Mas foi o suficiente para que visse os detalhes: os olhos calmos, o contorno suave do rosto, a serenidade natural de quem sabia o que era amor.
"Bonito..." pensou, quase surpreso.
Bonito de um jeito que não o intimidava — bonito de um jeito que aquecia.
Aiko deixou o chaveiro cair de novo e se abaixou apressado. Tamaki, reflexo, inclinou-se também, pegando o brinquedo antes que o trem chacoalhasse.
— Aqui — murmurou, entregando.
O pequeno piscou para ele, desconfiado no início, mas depois sorriu com todos os dentes.
— Obrigado, moço!
O ômega também sorriu.
— Obrigado mesmo. Ele é... um pouco teimoso.
Tamaki balançou a cabeça, nervoso demais para responder algo mais.
— Tudo bem. É... normal.
Silêncio.
Mas um silêncio bom.
Tamaki ficou observando os dois de canto de olho — o garoto tagarelando, o pai ouvindo paciente, os dedos brincando no cabelo do filho. Havia uma leveza ali que ele não lembrava de ter sentido em lugar nenhum.
E pela primeira vez em muito tempo, desejou poder fazer parte de algo tão simples quanto aquilo.
O trem seguiu seu curso.
Tamaki sentia o balanço suave e o som constante das rodas sobre os trilhos, quase hipnótico. A cabeça encostada na parede, ele se permitia observar o reflexo do vagão na janela.
A luz branca, as sombras se movendo, o ômega balançando o filho no colo, as risadas misturadas ao ruído do trem.
Era uma cena comum.
E ainda assim, parecia perfeita.
"É isso que falta na minha vida," pensou. "Algo pequeno. Calmo. Real."
O pequeno Aiko começou a cochilar, e S/N o ajeitou contra o peito, cobrindo-o com o casaco.
O trem diminuiu a velocidade, o som do motor ecoando mais forte. Tamaki olhou para o painel digital acima da porta: faltavam duas estações até a dele.
Ele respirou fundo, tentando guardar a imagem dos dois.
O pai e o filho.
O ômega e o pequeno alfa.
Talvez, pensou, nunca mais os veria. Mas o mundo parecia um pouco mais leve só por ter presenciado aquela ternura.
E então, silêncio.
Um silêncio estranho.
Forte demais.
O som do motor cessou. As luzes piscarem. Um estalo metálico ecoou pelo vagão.
Tamaki ergueu o olhar — e viu o reflexo da janela se distorcer, o brilho das lâmpadas oscilando.
Aiko despertou, assustado.
S/N o apertou contra o peito, olhando em volta.
Tamaki sentiu o instinto heroico despertar antes mesmo do corpo reagir.
Um grito, o som agudo de algo rompendo.
O chão vibrou.
E o mundo se desfez em um segundo.
O rugido metálico cortou o ar, tão alto e violento que o peito de Tamaki pareceu implodir por dentro. O trem tremeu, o chão vibrou — e então tudo foi tomado por luz e ruído.
Um estouro.
Um clarão.
O som de ferro contra ferro, estilhaços voando, corpos sendo arremessados contra as paredes do vagão.
O impacto foi brutal.
Tamaki sentiu o corpo ser lançado contra o chão; o ar fugiu dos pulmões. O instinto gritou antes mesmo que a mente compreendesse — herói, dizia a voz dentro dele. Aja. Agora.
As luzes piscavam em vermelho e branco, e o vagão se contorcia como uma fera ferida. As pessoas gritavam, choravam, se agarravam umas às outras. O som era ensurdecedor: metal rasgando, vidro quebrando, o trem arrastando-se nos trilhos com força suficiente para partir o mundo em dois.
Tamaki tentou se erguer, mas a força da freada o jogou de novo contra a parede. As rodas chiavam, faíscas cortavam o ar. Um cheiro forte de ozônio e sangue se misturava ao pavor.
Ele viu — a poucos metros à frente — o mesmo banco onde S/N e Aiko estavam.
Mas agora o mundo era caos.
O vagão diante deles havia se desprendido parcialmente, pendendo para o lado. Um dos lados se rasgava, deixando entrar vento e chuva. E ali, no meio do caos, Tamaki viu o pequeno corpo de Aiko sendo segurado com força pelo pai, o ômega enrolado ao redor dele, como um escudo humano.
— EI! — Tamaki tentou gritar, mas o som se perdeu entre os gritos.
O vagão chacoalhou outra vez. O impacto o empurrou para trás, o jogando contra o chão de metal. Ele bateu o ombro, sentiu o gosto de ferro na boca — sangue.
O trem se inclinava. Caía.
E então, num piscar de olhos — o tempo... desacelerou.
O barulho se tornou um murmúrio distante.
O som de gritos virou eco.
As faíscas pareciam dançar no ar como vaga-lumes azuis.
Tamaki piscou. Tudo ao redor dele se movia em câmera lenta — o ar pesado, a poeira flutuando, gotas de chuva pairando suspensas.
Um brilho azul enchia o vagão, uma luz quase líquida, como se o tempo tivesse sido moldado em algo visível.
E ali, no centro do caos, Tamaki o viu.
S/N estava ajoelhado entre os destroços, os braços apertando o filho contra o peito. Havia sangue nos lábios, cortes pelo rosto e nos braços, mas os olhos — ah, os olhos — ardiam em azul, irradiando o poder que sustentava aquele instante impossível.
O ar em volta deles parecia dobrar, curvar-se, obedecer à vontade dele.
O tempo havia parado.
Tamaki mal conseguia respirar. Sentia a pressão da individualidade de S/N, como se o próprio ar o empurrasse para trás.
— Ele... congelou o tempo — sussurrou, entre espanto e medo.
As gotas de chuva pairavam no ar, imóveis. Um pedaço de vidro quebrado estava suspenso a centímetros do rosto de Aiko, sem tocar, congelado no meio do nada.
S/N o protegia com o corpo, o olhar fixo, determinado, selvagem — e desesperado.
Tamaki sabia: esse tipo de poder tinha um limite. Nenhuma individualidade, por mais poderosa que fosse, podia conter o tempo por muito tempo. E quando se quebrasse… tudo desabaria de uma só vez.
Ele precisou agir.
Mas se mover dentro do domínio de outro poder era como nadar contra uma correnteza invisível. Cada passo era um esforço sobre-humano. A atmosfera parecia grossa, pesada — como se o ar tivesse virado água.
Tamaki ativou o Manifest.
Seu corpo mudou. Tentáculos de polvo brotaram dos braços, ajudando-o a se ancorar entre as poltronas retorcidas. As pernas se transformaram parcialmente, firmando-se nas estruturas de metal. O sangue pulsava nas têmporas.
A cada movimento, o corpo protestava.
Mas ele avançava.
— Ei... — tentou dizer, a voz arrastada pela densidade do tempo. — Ei... me ouve...
S/N levantou o rosto. O olhar estava turvo, a respiração rápida demais.
— Eu... eu não posso deixar... ele se machucar... — murmurou o ômega, a voz quase um soluço.
Tamaki se ajoelhou diante deles, estendendo a mão.
— Eu sei. Mas você não pode manter isso por muito tempo. O seu corpo... vai quebrar.
S/N mordeu o lábio, os olhos marejando.
— Eu consigo. Só mais um pouco... só até o trem parar...
— O trem já parou — Tamaki insistiu. — Confie em mim. Eu te tiro daqui. Mas precisa me deixar te ajudar.
A respiração do ômega falhou. O brilho nos olhos vacilou por um instante. O azul intenso oscilou, como uma chama prestes a se apagar.
Tamaki viu — e entendeu: o tempo estava prestes a retomar.
Sem pensar, ele se moveu. Usou os tentáculos para envolver os dois, prendendo-os com firmeza.
— Quando soltar... corra. Eu te protejo.
S/N apertou Aiko com mais força e assentiu, lágrimas escorrendo pelo rosto.
O azul desfez-se.
O som voltou com violência.
O vagão rugiu, o chão rachou, vidro explodiu em mil fragmentos. O impacto do tempo voltando fez tudo parecer mais alto, mais real. Mas Tamaki já estava preparado — usou o corpo para amortecer os destroços, abriu caminho com os tentáculos, desviou dos cacos, da fumaça, do fogo.
— Por aqui! — gritou. — Tem uma abertura!
S/N correu atrás dele, ainda tremendo, mas com o instinto de quem só pensava em salvar o filho.
Aiko chorava, os bracinhos em volta do pescoço do pai. Tamaki o pegou nos braços quando uma estrutura desabou atrás deles.
O calor, o barulho, o cheiro de eletricidade queimada — tudo se misturava em uma cena que beirava o inferno.
— Preciso abrir passagem! — gritou Tamaki, ativando o Manifest de um caranguejo gigante que ele havia comido no almoço. Suas mãos se tornaram garras imensas, cortando pedaços de metal como se fossem papel.
— Eu posso desacelerar de novo — disse S/N, a voz trêmula. — Só alguns segundos.
— Não. Guarde isso. Use quando for inevitável — respondeu Tamaki, sem hesitar. — Eu te cubro.
Eles trabalhavam juntos, sem precisar de muitas palavras. A sincronia era natural — como se se conhecessem há anos.
Tamaki abria caminho, erguia escombros, bloqueava destroços com as asas etéreas que nasciam de suas costas. S/N, por sua vez, usava o poder para desacelerar pequenos trechos — uma pedra que cairia, uma barra que os atingiria — criando breves bolhas de tempo seguro ao redor deles.
Era lindo e aterrorizante ao mesmo tempo.
Cada vez que o azul brilhava, o mundo parecia suspirar.
Mas S/N estava exausto. O corpo coberto de cortes tremia, os lábios rachados. Tamaki via, de relance, o sangue escorrendo pelas mangas.
— Mais um vagão e saímos — disse Tamaki, tentando mantê-lo consciente. — Fica comigo.
— Eu... estou bem... — mentiu ele, ofegante.
Tamaki se aproximou, apoiando uma das garras no chão e oferecendo o braço.
— Segura em mim.
S/N o olhou — olhos turvos, cansados, mas cheios de vida.
— Você é... Suneater, não é?
— Tamaki — corrigiu ele, sem pensar. — Só... Tamaki.
O ômega sorriu, fraco.
— Tamaki... obrigado.
O som do nome dito naquela voz fez algo vibrar dentro dele, mesmo em meio à destruição.
Mais um passo.
Mais um empurrão.
Mais um segundo ganho.
Quando finalmente atravessaram a última parede retorcida, o ar frio da chuva os atingiu com força.
Tamaki respirou fundo — o ar cheirava a ferro e vida. Ele virou-se, ajudando S/N a sair do vagão. Os dois tropeçaram juntos, caindo na lama ao lado dos trilhos.
O pequeno Aiko ainda estava nos braços de Tamaki, agora dormindo de puro esgotamento.
O silêncio que veio depois parecia impossível.
A chuva caía sobre os três, lavando o sangue, a fumaça, o medo.
S/N se ajoelhou na lama, tremendo. Tamaki se abaixou também, colocando o menino com cuidado no colo do pai.
— Ele... está bem... — sussurrou S/N, com a voz falhando.
— Está — respondeu Tamaki. — Está vivo por sua causa.
O ômega soltou um riso trêmulo, meio choro, meio alívio. As mãos tremiam tanto que ele não conseguia segurar o cabelo para trás.
Tamaki, sem pensar, tocou seu rosto. Os dedos frios, a pele quente.
— Você foi incrível.
S/N levantou o olhar, e por um instante, o azul dos olhos dele refletiu o dourado dos de Tamaki — o poder e a humanidade se reconhecendo.
Havia um brilho ali. Algo que o tempo jamais conseguiria parar.
Atrás deles, o som das sirenes começava a ecoar. Socorro chegando. Luzes piscavam à distância.
Mas naquele pequeno fragmento de tempo, nada mais importava.
Tamaki olhou para S/N, para o menino adormecido entre eles, e pensou que talvez — apenas talvez — aquela fosse a primeira vez em anos que ele sentia... vida.
S/N respirou fundo, fechou os olhos e apoiou a testa no ombro dele.
— Obrigado...
Tamaki o segurou de volta, com cuidado, o corpo inteiro ainda vibrando da adrenalina.
— Não me agradeça. Eu só... fiz o que tinha que fazer.
S/N sorriu, cansado.
— Então somos dois.
A chuva engrossou, lavando o sangue e o medo.
E ali, entre o som do trovão e o pulsar do coração, Tamaki Amajiki soube que algo dentro dele havia mudado.
Não pela tragédia.
Mas por ter encontrado — no meio do caos — alguém que fazia o tempo parar de um jeito completamente diferente.
O hospital cheirava a antisséptico e chuva. O som distante de passos e o gotejar ritmado de um soro compunham uma melodia triste, quase silenciosa, que preenchia o corredor branco onde Tamaki Amajiki caminhava em silêncio.
Ainda havia poeira de ferro sob as unhas dele — resquícios da tragédia. E na cabeça, um eco: o som do trem se partindo, o grito abafado de S/N protegendo o filho, a aura azul vibrando em meio à destruição.
Mesmo agora, horas depois, aquilo ainda queimava dentro dele.
Tamaki não era de fazer visitas. O simples ato de bater em uma porta de hospital já o deixava aflito, as palavras embolando na garganta. Mas algo nele o empurrava. Algo diferente da culpa ou do dever — era uma necessidade. Ele precisava saber se estavam bem.
Quando abriu a porta do quarto 207, o mundo pareceu desacelerar novamente.
S/N estava sentado na cama, o braço engessado, alguns curativos cobrindo cortes no rosto e na clavícula. Havia olheiras fundas sob os olhos. Aiko dormia num banquinho improvisado, a cabeça encostada na coberta, os dedos miúdos ainda entrelaçados à mão do pai.
Tamaki parou na soleira, incerto.
— Senhor… Amajiki? — S/N ergueu o olhar, surpreso.
Tamaki pigarreou.
— Eu… só queria saber se vocês estão bem.
Por um momento, o silêncio pareceu longo demais. Então, o ômega sorriu de leve — aquele sorriso cansado que esconde uma força silenciosa.
— Estamos vivos, graças a você.
Tamaki desviou o olhar, o rosto corando sob as luzes frias.
— Não… foi você quem salvou o vagão inteiro. Aquele poder…
— Aiko — interrompeu S/N, com um olhar que derretia. — Eu só pensei nele.
Tamaki assentiu devagar. E talvez por um instante, algo dentro dele se apertou. Uma lembrança vaga da infância solitária, das vezes em que desejou que alguém o olhasse assim — com amor absoluto, sem hesitar.
Aiko mexeu-se e abriu os olhinhos, sonolento. Quando viu Tamaki, piscou algumas vezes, confuso.
— O moço… do trem?
Tamaki abaixou-se, o instinto heroico — e algo mais terno — o guiando.
— Isso mesmo, pequeno.
O garotinho com cabelos bagunçados e olhos vivos, levantou-se de súbito e o abraçou.
Tamaki congelou.
O toque era quente, pequeno e cheio de confiança — como se aquele menino soubesse, instintivamente, que ele era um porto seguro.
S/N levou a mão aos lábios, rindo baixinho.
— Aiko, amor, ele deve estar cansado…
— Mas ele salvou a gente, papai! — o menino insistiu, apertando o herói. — Ele é tipo… tipo o Sol, não é?
Tamaki sentiu o coração acelerar.
— Eu… não sei se sou tanto assim — murmurou, a voz falhando.
S/N olhou para ele por um instante longo, profundo.
— O Sol também se esconde às vezes, sabe? Mas ele nunca deixa de brilhar.
A frase ficou no ar, suave como um sussurro.
Tamaki engoliu em seco.
— Você fala bonito.
— É o trauma — respondeu o ômega com um meio sorriso. — Depois de quase morrer, a gente aprende a achar poesia em qualquer coisa.
Um riso escapou de Tamaki, tímido, sincero.
E naquele instante, algo mudou.
O quarto, antes frio, pareceu aquecer. A luz amarela refletia no lençol, no soro, no rosto de S/N. Tamaki percebeu que estava olhando demais — cada linha do rosto ferido, o modo como o peito dele subia e descia devagar, o pequeno sorriso nos lábios.
Era… bonito. Forte. Vivo.
— Eu trouxe isto — disse Tamaki de repente, tirando um pequeno embrulho do bolso. Era um chaveiro em forma de coelhinho, o que Aiko deixara cair várias vezes no trem. Tinha achado entre os destroços, amassado, mas ainda inteiro.
Aiko arregalou os olhos.
— O meu chaveirinho!
— Achei perto do seu assento — Tamaki explicou, entregando. — Achei que talvez quisesse de volta.
O garoto o pegou com cuidado e o mostrou ao pai.
— Papai, ele achou! Ele achou!
S/N segurou o objeto, a emoção cintilando nos olhos.
— Obrigado… de verdade. — A voz dele quebrou um pouco. — Isso… era do pai dele..., quer dizer... o outro pai dele...
Tamaki baixou o olhar.
— Entendo.
O silêncio que seguiu não foi desconfortável. Era… cheio. Denso de algo que ambos entendiam sem precisar dizer.
Depois de um tempo, Tamaki se levantou.
— Eu já vou. Não quero atrapalhar o descanso de vocês.
Mas Aiko o puxou pela manga.
— Vai voltar?
Tamaki piscou, surpreso.
— Voltar?
— É! — o menino sorriu. — A gente pode tomar chocolate quente quando o papai melhorar!
S/N suspirou, mas o olhar era carinhoso.
— Aiko…
— Se quiser, claro — o menino completou, tentando parecer educado.
Tamaki sorriu — e foi como ver o sol nascer em um rosto que vivia nublado.
— Eu… adoraria.
Enquanto saía do quarto, o coração do herói batia rápido demais. A chuva lá fora ainda caía, mas já não parecia tão triste.
Dias depois, a cafeteria do prédio da Agência Heroica estava cheia naquele fim de tarde. O cheiro de café recém-passado misturava-se com o som distante de risadas e o burburinho animado de outros heróis. Para muitos, aquele era o único momento de pausa depois de longas horas de patrulha.
Para Tamaki, era o tipo de situação que normalmente o deixaria desconfortável — barulho demais, gente demais. Mas, naquela tarde, ele estava... diferente.
Talvez porque seu coração parecia leve.
— Olha só quem finalmente saiu da toca. — A voz brincalhona fez Tamaki levantar o olhar.
Mirio Togata, sorridente como sempre, pousou a bandeja ao lado dele e se sentou sem pedir permissão. Do outro lado, Nejire Hado se aproximava com um milkshake em mãos, o cabelo azul balançando como uma onda viva.
— Tamaki! — ela cantarolou, sentando-se. — Adivinha quem virou manchete de novo?
Tamaki piscou.
— Eu?
Mirio bateu com o jornal dobrado na mesa.
— “O Herói Suneater auxilia civil misterioso em resgate heróico de trem”! — leu em voz alta, com teatralidade. — Cara, você está em todas.
Tamaki ficou imediatamente corado.
— N-não foi nada demais…
— Nada demais? — Nejire inclinou-se sobre a mesa. — Você salvou um vagão inteiro! E dizem que o civil que te ajudou era superforte! Quem era?
Tamaki hesitou. As imagens do acidente ainda vinham à mente — o som metálico, a aura azul de S/N envolvendo o filho, o olhar determinado e, ao mesmo tempo, assustado.
— Ele era… incrível — murmurou, quase para si mesmo. — Um ômega.
— Opa… — Mirio ergueu uma sobrancelha, interessado. — Um ômega, é?
Tamaki percebeu o erro tarde demais.
— N-não é o que você está pensando!
— E o que eu estou pensando, Tamaki? — provocou o loiro, sorrindo como quem cheirava um romance no ar. — Que o nosso tímido herói conheceu alguém especial?
Tamaki tentou se encolher na cadeira, o rosto pegando fogo.
— Ele só… estava lá com o filho dele. Um garotinho. Alfa. Muito educado… e fofo.
— Fofo? — Nejire deu um gritinho agudo. — Você disse fofo!
Mirio caiu na gargalhada.
— Ele está completamente derretido!
Tamaki afundou o rosto nas mãos.
— Vocês estão exagerando…
— Nada disso — disse Nejire, com aquele sorriso de quem adorava cutucar feridas sentimentais. — Conta mais! Como ele é?
Tamaki hesitou, olhando para o vapor que subia de sua xícara. Por um instante, esqueceu que falava com amigos — era como se revivesse a cena, a voz de S/N ecoando, calma, em meio ao caos.
— Ele é… forte — começou, devagar. — Não só por causa da individualidade. É o tipo de pessoa que enfrenta o medo por alguém que ama. E ao mesmo tempo… tem um jeito doce, sabe? Quando fala com o filho, parece que o mundo inteiro fica menor, mais calmo.
Nejire apoiou o queixo nas mãos.
— Awwn…
Mirio soltou um assobio baixo.
— Tamaki, você acabou de descrever alguém que te deixou encantado.
O alfa desviou o olhar, o pescoço vermelho até as orelhas.
— Eu só… acho que ele é admirável. E o garoto também. Ele me abraçou, sabe?
Nejire bateu palmas.
— O pequeno alfa já aprovou o papai novo!
Tamaki quase engasgou no café.
— P-papai novo?! Não fala assim!
Mirio gargalhou, alto demais.
— Eu consigo até imaginar: Suneater, o herói reservado, virando o herói das tardes de parque!
Nejire suspirou teatralmente.
— Ele levando o menino pra escola e o ômega acenando na porta… tão romântico!
Tamaki colocou as mãos sobre os ouvidos, desesperado.
— Parem, por favor…
Os dois riram mais ainda, e até o barista do balcão lançou um olhar curioso. Tamaki queria desaparecer — e, honestamente, talvez usasse a parede pra isso se pudesse. Mas no meio da confusão, ele acabou rindo também. Um riso tímido, mas sincero.
Mirio percebeu, com aquele olhar amigo que via mais do que as palavras diziam.
— Ei, falando sério… — disse, com a voz mais baixa. — Você parece mais feliz, sabia?
Tamaki piscou, surpreso.
— Feliz?
— Sim. — Mirio deu de ombros. — Nos últimos tempos, você só falava de trabalho. Agora tá aqui, sorrindo, falando de um ômega e de um garotinho fofo.
Nejire assentiu.
— É bom ver você assim, Tamaki.
Ele abaixou o olhar, mexendo a colher no café, sentindo o peito aquecer.
— Talvez… — murmurou. — Talvez seja porque, por um momento, eu me senti parte de alguma coisa.
Os amigos se entreolharam em silêncio, compreendendo sem precisar dizer nada.
Mirio foi o primeiro a quebrar o clima.
— Então, quando vai ver ele de novo?
Tamaki piscou, surpreso.
— O quê?
— O ômega! — respondeu Mirio, já rindo. — Não me diga que vai deixar o destino decidir!
Tamaki corou de novo.
— Eu… prometi que voltaria pra tomar chocolate quente com o filho dele.
Nejire deu um gritinho empolgado.
— É um encontro!
— Não é um encontro! — Tamaki rebateu, a voz subindo meio tom. — É só… um café. Com chocolate. E uma criança.
Mirio bateu no ombro dele.
— E com sorte, um novo começo.
Tamaki ficou em silêncio, a mente flutuando longe dali — no quarto branco, no olhar de S/N, no abraço de Aiko.
Por algum motivo, o pensamento o fez sorrir de novo.
E enquanto os amigos continuavam a rir e a brincar, Tamaki Amajiki sentiu algo diferente crescer dentro do peito. Um calor tranquilo, mas profundo.
O sino da porta do café tilintou suavemente quando Tamaki entrou. O ar estava quente e doce, cheio do cheiro de café fresco e chantilly. Lá fora, o vento de fim de tarde brincava com as folhas das árvores, e pela janela ele avistou — como se o universo tivesse sussurrado o caminho — S/N sentado em uma mesa perto do vidro, rindo baixinho enquanto o pequeno Aiko tentava equilibrar dois marshmallows sobre o canudo do chocolate quente.
Tamaki parou por um instante. A cena era simples, comum. Mas para ele… era o suficiente para o coração vacilar.
— Amajiki! — A voz infantil o arrancou do transe. Aiko o viu primeiro, acenando empolgado. — Você veio!
S/N ergueu o olhar, surpreso — e sorriu.
— Pensei que estivesse ocupado demais salvando o mundo.
Tamaki ruborizou, coçando a nuca.
— Eu… sempre tenho tempo pra chocolate quente, às vezes.
— “Às vezes”? — Aiko colocou as mãos na cintura, tentando parecer bravo. — Um alfa de verdade nunca falta à promessa!
Tamaki piscou, e então riu.
— Você tem razão, pequeno. Um alfa deve cumprir a palavra.
S/N riu junto, balançando a cabeça.
— E lá vai você incentivar ele a usar esse termo o tempo todo…
— Mas eu sou um alfa! — Aiko insistiu, batendo no próprio peito. — Igual ao Amajiki!
Tamaki se ajoelhou ao lado da mesa, ficando na altura do menino.
— Então quer dizer que você é um alfa, é?
— Sou o mais forte! — Aiko respondeu, inflando o peito minúsculo.
Tamaki fingiu um olhar sério.
— O mais forte, é? Então me mostre o seu rugido de alfa superforte.
Aiko franziu as sobrancelhas e soltou um rugido tão agudo e desengonçado que metade do café se virou pra olhar.
S/N levou a mão à boca pra segurar o riso, os ombros tremendo.
— Tamaki… você está ensinando ele a assustar as pessoas?
— N-não… — murmurou o herói, completamente vermelho, enquanto Aiko rugia de novo. — É… treino de presença. Heróis precisam… inspirar respeito.
— “Presença”! — Aiko repetiu, tentando se colocar de pé sobre a cadeira. — Eu tenho presença!
S/N o puxou de volta antes que o pequeno caísse.
— Meu Deus, vocês dois… — Ele olhou pra Tamaki, rindo. — Eu não sei quem é o mais criança aqui.
Tamaki desviou o olhar, envergonhado, mas não conseguiu conter o sorriso.
— Talvez eu esteja um pouco enferrujado com interações sociais…
— Está se saindo muito bem, na verdade. — S/N respondeu com doçura. — Aiko te adora.
O menino, com o chocolate quente já pela metade, assentiu com entusiasmo.
— O Amajiki é legal. Ele é quietinho, mas tem cara de bravo quando quer!
Tamaki tossiu, desconcertado.
— Isso é… um elogio?
— É o maior! — Aiko afirmou, convencido.
S/N riu, apoiando o queixo nas mãos enquanto observava os dois. Aquela cena, de alguma forma, parecia saída de um sonho. Havia algo em Tamaki que o acalmava — mesmo com toda a timidez, ele emanava uma gentileza que fazia o coração de S/N se aquecer.
E ver Aiko tão à vontade, rindo, sendo apenas uma criança… aquilo valia tudo.
Tamaki, por sua vez, observava o ômega sorrindo, a luz do entardecer batendo de leve em seus cabelos. E percebeu — com uma pontada de surpresa — que talvez quisesse ver aquele sorriso todos os dias.
— Então… — começou S/N, quebrando o silêncio confortável. — Você é sempre assim com crianças, ou meu filho te conquistou de vez?
Tamaki corou.
— Acho que… foi ele quem me conquistou.
Aiko, distraído com o chantilly, levantou os olhos.
— E o papai também?
O herói piscou, surpreso. S/N arregalou os olhos.
— Aiko!
Mas Tamaki apenas sorriu, tímido.
— Talvez um pouquinho os dois.
O pequeno sorriu satisfeito e voltou a mexer o chocolate, e o silêncio que se instalou entre S/N e Tamaki era de um tipo raro — leve, sereno, cheio de algo novo nascendo entre as pausas.
Depois daquele dia, vieram outros.
Nem Tamaki nem S/N saberiam dizer quando exatamente aquilo deixou de ser apenas “encontros ocasionais”.
Às vezes era um piquenique num parque, com Aiko correndo entre as árvores enquanto Tamaki e S/N riam das trapalhadas dele. Outras vezes, um almoço rápido no meio da tarde, ou uma visita inesperada na escola, com o pequeno “alfinha” mostrando orgulhoso o desenho que fizera de um herói com orelhas de coelho e capa azul.
Tamaki guardava todos. Cada sorriso. Cada gargalhada. Cada toque distraído nas mãos quando os dois se despediam.
Era estranho, ele pensava. Passara anos vivendo entre o barulho dos vilões e o silêncio da solidão — e agora, bastavam as risadas de um ômega e de um pequeno alfa para preencher o mundo inteiro.
S/N também sentia.
Nos dias em que o tempo parecia frio demais, bastava lembrar do olhar de Tamaki para que tudo voltasse a se aquecer.
Entre cafés, tardes de chuva e chocolate quente com marshmallows demais, nasceu algo. Um alfa tímido, um ômega destemido e um alfinha curioso. Três corações diferentes, batendo no mesmo ritmo — como se o destino tivesse decidido, por fim, dar a Tamaki Amajiki o lar que ele nem sabia que procurava.
Numa dessas noite, Tamaki caminhava devagar, o casaco aberto, o pequeno Aiko dormindo pesado em seus braços. O garoto respirava fundo, a bochecha encostada no ombro do herói, os cabelos desgrenhados cheirando a pipoca e shampoo infantil.
A noite tinha sido longa, o filme — uma animação colorida sobre crianças alfas super-heroínas — tinha arrancado gargalhadas de Aiko desde o primeiro minuto. Ele vibrava, pulava, apontava para a tela a cada transformação ou ataque especial, até S/N, entre risadas e suspiros, sussurrar:
— Aiko, se continuar pulando assim, o cinema vai achar que você é parte do elenco.
Tamaki tinha tentado segurar o riso, sem sucesso.
Agora, caminhavam em silêncio, apenas o som suave dos passos e o ruído distante dos carros passando na rua. S/N andava ao lado, com as mãos no bolso do casaco, o olhar perdido nas luzes do estacionamento.
— Ele gosta mesmo de você, sabia? — disse de repente.
Tamaki olhou para o menino dormindo.
— Ele é… especial.
— É. — S/N sorriu de leve. — Ele sempre foi.
Por alguns segundos, ficaram quietos novamente. O vento frio soprou, fazendo o cabelo de S/N se bagunçar, e Tamaki quis dizer algo — qualquer coisa — mas as palavras fugiram. Até que o ômega falou de novo, olhando para o chão:
— O pai dele também era assim.
Tamaki ergueu o olhar.
— Era um herói — continuou S/N, e a voz tremia num tom contido, quase nostálgico. — Um bom herói. Gentil, responsável… Ele me fazia acreditar que o mundo podia ser melhor, mesmo quando tudo desabava.
Tamaki ouviu em silêncio, os braços ajustando o peso leve de Aiko.
— Nós nos conhecemos na academia — S/N sorriu, melancólico. — Eu também era herói na época. Queria ser alguém grande, sabe? Ajudar, salvar, marcar o mundo de um jeito bonito. E eu achava que estávamos conseguindo… até o dia em que um vilão o matou durante uma missão.
O som distante da chuva parecia diminuir, deixando a confissão pairar no ar.
— Eu… — Tamaki tentou dizer algo, mas S/N balançou a cabeça, com um sorriso triste.
— Foi rápido. E eu não sabia que estava grávido na época. Quando descobri, já era tarde. Eu tinha perdido ele, mas… ganhado algo que me fez continuar. — S/N olhou para o filho nos braços do herói. — Aiko é o motivo de tudo. Ele me lembra o pai em cada sorriso, em cada birra, em cada vez que insiste que vai ser um alfa herói quando crescer.
Tamaki sentiu um nó na garganta. Havia uma força silenciosa em S/N — um tipo de coragem que não vinha de lutar contra vilões, mas de continuar lutando contra a dor todos os dias.
— Você é incrível — murmurou ele.
S/N riu baixinho.
— Não… só faço o que um pai deve fazer.
Tamaki olhou para o pequeno nos braços, depois para o ômega.
— Mesmo assim… o que você faz é bonito.
S/N desviou o olhar, as bochechas corando de leve.
— Não estou acostumado a ouvir isso.
Chegaram ao carro. O ar noturno estava frio, mas Tamaki sentia um calor estranho subindo pelo peito — um tipo de emoção que o deixava leve e nervoso ao mesmo tempo.
Ele colocou Aiko cuidadosamente no banco traseiro, ajeitando o cinto e cobrindo o menino com a jaqueta. O pequeno resmungou baixinho, virando-se de lado.
Quando Tamaki se virou para S/N, os dois ficaram próximos demais. A luz do poste refletia nos olhos do ômega, e havia neles uma mistura de cansaço, ternura e algo mais.
Por um momento, ninguém falou. Só o som da respiração, o vento leve, o coração acelerado.
Tamaki levantou a mão, hesitante, e tocou de leve o rosto de S/N, os dedos roçando a bochecha carinhosamente.
— Você merece alguém que cuide de você também — murmurou.
S/N suspirou, a voz quase um sussurro.
— E você… está se candidatando pra isso?
Tamaki sorriu, tímido, mas firme.
— Se eu puder.
O silêncio seguinte bastou. Ele se inclinou devagar, o tempo se estendendo entre um suspiro e outro, e então os lábios se encontraram.
Foi um beijo lento, doce, cheio de cuidado — mas havia algo de inevitável ali, algo que parecia esperado há vidas. Um toque calmo, quente, em meio ao frio da noite.
O coração de Tamaki batia rápido, mas sua mão segurava firme a nuca de S/N, como se o mundo pudesse desabar de novo e ele não fosse deixar escapar.
Quando se afastaram, respirando fundo, S/N sorriu — um sorriso pequeno, verdadeiro, daqueles que aquecem até o silêncio.
E então, um som suave os interrompeu.
— Ecaaa… — A voz sonolenta veio do banco de trás.
Os dois viraram-se ao mesmo tempo. Aiko estava meio acordado, piscando devagar e com a expressão mais emburrada e fofa do mundo.
— Vocês tavam se beijando! Que nojo! — disse, enfiando o rosto na gola do casaco. — Eu vi!
S/N explodiu em risadas. Tamaki ficou vermelho até a raiz do cabelo, completamente perdido.
— Aiko, era só… — começou, gaguejando. — Um boa-noite!
— Boa-noite é beijo na bochecha! — o menino retrucou, ainda com a voz sonolenta. — Alfas e ômegas grandes são muito estranhos…
S/N gargalhou tanto que precisou se apoiar na porta do carro.
— Ele tem razão, sabia?
Tamaki suspirou, sem saber se ria ou se se escondia.
Mas quando olhou para o menino já adormecendo de novo e para o sorriso do ômega ao lado, percebeu que aquela era, talvez, a cena mais perfeita da vida dele.
Uma noite de chuva, um beijo inesperado, e uma pequena voz reclamando no fundo — como se o destino, por fim, tivesse resolvido ensinar o herói solitário o que era amor.
O tempo, para Tamaki, havia ganhado um novo ritmo.
Um ano. Doze meses inteiros desde o acidente na linha do trem, e sua vida agora tinha cheiro de café fresco e risadas pequenas logo cedo. Aiko sempre acordava antes do sol, invadindo o quarto de S/N e pulando na cama com energia demais para um corpo tão pequeno. Tamaki, acostumado a madrugadas solitárias, agora aprendia a dividir o travesseiro com um ômega que dormia enroscado nas cobertas, e um alfinha que insistia em se enfiar entre os dois.
— Taki, acorda! — Aiko dizia quase todas as manhãs, a voz alegre, o cabelo bagunçado.
E Tamaki sorria. Um sorriso preguiçoso, tímido, mas verdadeiro. O tipo de sorriso que, até conhecer os dois, ele não sabia que ainda existia em si.
O apartamento de S/N era pequeno, mas tinha vida em cada canto. Brinquedos espalhados pelo chão, desenhos colados na geladeira, e o som constante de algo borbulhando no fogão. Era ali que Tamaki descobriu o quanto amava o simples: preparar o café enquanto S/N arrumava Aiko para a escola, observar o ômega se movimentar pela cozinha com aquele jeito natural e calmo, os cabelos bagunçados, a camiseta larga demais para o corpo.
Esses detalhes começaram a doer — de um jeito bom e ruim. Porque Tamaki os desejava.
Não era apenas afeto; era algo que queimava baixo, no fundo do peito, e que o fazia perder o sono. Às vezes, quando S/N ria de algo que ele dizia, ou quando o olhava com aquele ar calmo e acolhedor, Tamaki sentia o corpo responder — o instinto alfa despertando, pulsando sob a pele. Era um desejo diferente de tudo que já sentira: não uma fome descontrolada, mas uma vontade doce, profunda, de se entregar e ser aceito.
E isso o deixava completamente perdido.
Durante as noites, quando Aiko finalmente dormia, Tamaki e S/N se sentavam no sofá, um filme rodando baixo na TV, o pequeno corpo do garoto adormecido entre eles. Às vezes os dedos de Tamaki roçavam nos de S/N. Só um toque. Só o suficiente para fazer o coração disparar. O ômega, por sua vez, parecia perceber — mas nunca recuava. Apenas deixava o toque acontecer, leve, silencioso. Um gesto tão pequeno que dizia tudo: “Eu sei.”
Mas S/N não parecia disposto a avançar. E Tamaki, tímido demais, respeitoso demais, se punha em uma corda bamba entre o amor e o instinto. Era um alfa adulto, e mesmo assim corava só de pensar em S/N daquele jeito. Às vezes, quando a casa dormia, ele se deitava de costas e deixava o corpo queimar sozinho — tentando apagar na mente o rosto de S/N, mas sempre falhando.
Ele se sentia culpado por isso. Como se trair aquele lar silencioso com pensamentos que jamais ousaria dizer em voz alta. Mas era impossível conter.
S/N era tudo o que o atraía — a força, a doçura, o modo como cuidava do filho e ainda encontrava espaço para cuidar dele, Tamaki, um alfa desajeitado e carente.
E havia momentos em que o desejo se misturava ao amor, de um jeito tão forte que Tamaki mal conseguia respirar.
Certa noite, o sofá da sala se tornou o refúgio dos três. O filme passava, e Aiko, como sempre, acabou se empoleirando sobre Tamaki. O pequeno adormeceu ali, o rosto enterrado no peito do alfa. S/N se aproximou para ajeitar o cobertor sobre os dois, e Tamaki levantou o olhar — aquele olhar quieto, quase hesitante.
Os olhos de S/N encontraram os dele, e o tempo pareceu se esticar entre um piscar e outro.
Tamaki engoliu em seco. A respiração saiu trêmula. O cheiro do ômega — aquele aroma morno e acolhedor — o atingiu de cheio.
Ele sentiu o corpo reagir, o calor subindo pelo pescoço, o coração batendo descompassado. E foi ali, naquele instante simples, com o pequeno Aiko dormindo entre eles, que ele percebeu: estava completamente perdido.
Não era só atração.
Era amor.
Um amor que se infiltrava pelas brechas do cotidiano — entre um café e outro, entre risadas e brinquedos no chão. Um amor que o fazia desejar S/N não apenas com o corpo, mas com tudo o que era.
Tamaki fechou os olhos por um instante e sussurrou para si mesmo, quase sem voz:
— Eu... só quero que ele saiba...
Mas não disse mais nada. O ômega o olhava com ternura, e talvez tivesse ouvido. Ou talvez tivesse entendido de outra forma — o suficiente para sorrir e encostar a cabeça no ombro dele.
A casa estava estranhamente quieta.
Era a primeira vez, em muito tempo, que o apartamento de S/N não ecoava as risadas ou os passos apressados de Aiko. O pequeno tinha ido para a festa do pijama da escola — uma noite inteira de doces, filmes e travesseiros voando com os amigos. S/N o deixara animado e sorridente na entrada, sentindo o coração apertar de um jeito engraçado. Era só uma noite, mas parecia que a casa tinha perdido sua alma.
Tamaki estava no sofá, folheando distraidamente uma revista que nem lia. S/N se aproximou com duas canecas de chocolate quente, o vapor subindo devagar.
— Está muito silencioso, né? — ele disse, tentando soar casual.
Tamaki riu baixo, meio sem graça.
— É... meio esquisito sem ele correndo por aí.
S/N se sentou ao lado dele, perto o bastante para que seus joelhos se tocassem. Por um momento, ficaram só ali, ouvindo o som do mundo e o eco distante da cidade adormecendo.
Tamaki virou o rosto, os olhos pousando no perfil do ômega. S/N parecia perdido em pensamentos, os lábios entreabertos, o olhar suave. E então, sem aviso, ele virou-se para Tamaki — devagar, decidido, como quem toma coragem depois de muito tempo evitando o óbvio.
— Tamaki... — murmurou o nome, quase um sussurro.
O alfa ergueu os olhos, e o mundo pareceu prender a respiração.
O beijo veio antes de qualquer resposta.
S/N o puxou pela gola da camisa, os lábios colando-se aos dele com uma urgência contida, um desejo antigo que finalmente encontrava saída. Tamaki congelou por um segundo, surpreso, mas logo as mãos dele subiram instintivamente, segurando a cintura do ômega, puxando-o para mais perto.
O sabor do chocolate quente ainda estava ali, doce e quente entre as bocas. O toque era desajeitado, mas real — cheio de tremores e respiros que diziam mais do que qualquer palavra.
S/N se moveu sobre ele, devagar, até se sentar em seu colo. As mãos de Tamaki se perderam no tecido da blusa dele, sentindo o calor do corpo por baixo. O coração do alfa batia forte demais, o instinto o empurrava para frente, mas o respeito o segurava firme.
Os lábios se separaram só o suficiente para que pudessem se olhar — e o silêncio entre eles agora estava cheio de tudo o que não havia sido dito nos últimos meses.
— Eu não devia... — Tamaki começou, a voz rouca.
S/N sorriu, um sorriso pequeno e terno, encostando a testa na dele.
— Eu quero, Taki.
E era verdade. Havia desejo nos olhos de S/N, mas também algo mais profundo — confiança, carinho, amor. Aquele tipo de sentimento que não precisa ser gritado, apenas sentido.
Quando os dedos de S/N subiram pela barra da camiseta de Tamaki, o alfa apenas respirou fundo, os olhos se fechando por um instante. O tecido subiu devagar, revelando a pele clara, os músculos definidos sob a luz suave do abajur. Cicatrizes cortavam o peito e o abdômen — marcas antigas de batalhas, de um passado que ele raramente mostrava.
S/N parou, o olhar percorrendo cada linha, como se aquelas marcas contassem uma história que ele queria ouvir com as mãos.
— Você é... — sussurrou, incapaz de terminar a frase.
Tamaki desviou o olhar, envergonhado, mas S/N sorriu e passou os dedos sobre uma cicatriz no ombro dele.
— Bonito demais — completou, com a voz baixa, firme.
Aquelas palavras quebraram algo dentro de Tamaki. Uma parede. Uma defesa.
Ele retribuiu o gesto, puxando a blusa de S/N num movimento lento, quase hesitante. O tecido deslizou pelos braços até cair no sofá, e por um instante o alfa ficou imóvel — os olhos presos à pele do ômega, à delicadeza e à força que se misturavam ali.
O corpo de S/N era um convite e um desafio, tudo nele parecia gritar o quanto desejava aquele momento. Tamaki sentiu o pau endurecer de forma dolorosa, o coração disparar, e o instinto começar a dominar o bom senso.
S/N notou. Claro que notou.
A pressão entre os corpos denunciava o quanto Tamaki o desejava, e um sorriso provocante curvou os lábios do ômega. Ele se moveu levemente começando a roçar aquela bundinha contra o pau do alfa, o suficiente para arrancar um som baixo, um gemido involuntário de Tamaki.
— S/N... — Tamaki murmurou, a voz trêmula, quase um pedido de clemência.
— Shhh... — o ômega respondeu, o olhar firme. — Só sente.
Mas Tamaki já estava completamente entregue à sensação, o desejo consumindo cada centímetro do seu corpo. O membro latejava dolorosamente dentro da calça, implorando por libertação, enquanto S/N se movia com um propósito sensual e provocador. A cada roçar daquela bunda perfeita, o alfa sentia um jorro de prazer intenso percorrer sua espinha, o pau pulsando ao ritmo das investidas do seu parceiro.
As mãos de Tamaki apertaram a cintura de S/N, puxando-o ainda mais perto, colando aqueles corpos em uma dança erótica e há muito tempo adiadas. Ele queria tocar em cada centímetro da pele exposta, queria sentir o calor do ômega penetrando sua alma. O beijo se aprofundou, línguas dançando em uma coreografia apaixonada, enquanto os gemidos e sons de prazer ecoavam pelo pela sala.
O beijo foi interrompido com lentidão, o desejo de S/N era evidente em seus olhos enquanto ele se ajoelhava entre as pernas de Tamaki. Com um sorriso provocante, o ômega abriu lentamente o botão da calça do alfa, revelando o membro rígido e pulsante que se erguia sob o tecido da cueca. Tamaki respirou fundo, porra, era agora...
— Quer mesmo fazer isso...?
S/N riu baixinho ao ver a expressão constrangida do alfa, achando ainda mais adorável o quanto aquele homem forte e corajoso podia ficar tímido diante dele. Com uma voz suave, S/N deixou escapar um comentário doce:
— Você é tão lindo, Taki... Quero te provar todo.
Tamaki não teve tempo de responder antes que S/N descesse a cueca e envolvesse a ponta de seu pau com os lábios macios e úmidos. Um gemido alto escapou da garganta do alfa ao sentir o calor sedutor da boca do ômega ao redor do seu membro. Ele agarrou uma almofada do sofá e afundou o rosto nela, completamente envergonhado.
S/N começou a sugar o pau de Tamaki devagar, a língua explorando cada centímetro da pele sensível. Ele deslizou os lábios pela extensão do membro, provando o gosto do pré-gozo que já brotava da cabecinha. O interior da boca de S/N era quente, úmido e convidativo, e o pau de Tamaki pulsava em resposta ao toque habilidoso.
Tamaki sentia como se estivesse derretendo sob o toque de S/N. Cada lambida e chupada enviava ondas de prazer pelo seu corpo, e ele tinha dificuldade em permanecer parado. As mãos de S/N envolviam a base do membro, o incentivando a entrar ainda mais fundo na boca. O barulho molhado dos lábios e da língua de S/N no pau de Tamaki ecoavam, misturando-se aos gemidos abafados do alfa.
Longos minutos se passaram, cheios de gemidos abafados e sons molhados enquanto S/N o provocava habilmente com a boca O membro do alfa latejava dolorosamente, implorando por alívio, enquanto ele lutava para não gozar, ser rápido demais e se perder completamente no êxtase.
Até que, finalmente, S/N parou. Ele deu uma última lambida, desde a base até a ponta, antes de sorrir para cima, o rosto manchado pela saliva e pelo pré-gozo do alfa. Com uma voz provocante, o ômega fez a pergunta que Tamaki estava desesperado para ouvir:
— Você quer me foder?
Tamaki não hesitou nem por um segundo. Com um rosnado possessivo, ele agarrou S/N pela cintura e o puxou para o colo, levantando-se do sofá. Segurando o corpo macio do ômega contra o seu, Tamaki começou a levá-lo em direção ao quarto, os passos apressados e determinados.
— Claro que eu quero, S/N... — a voz do alfa era rouca de desejo. — Mais do que qualquer coisa.
Ao entrarem no quarto, Tamaki deitou S/N na cama com um beijo apaixonado e faminto. Suas mãos exploraram cada centímetro do corpo do outro homem se livrando das últimas peças de roupas dele, acariciando e provocando, enquanto ele se posicionava entre as pernas abertas de S/N. O pau duro e pulsante de Tamaki roçou contra a entrada úmida do seu S/N, ambos gemendo ante a perspectiva do que estava por vir.
Tamaki sabia que não haveria volta depois daquilo. Ele ia se perder completamente no corpo sedutor de S/N, ia se enterrar tão fundo dentro dele que nunca mais quereriam sair. Com um olhar intenso e cheio de desejo, ele pediu permissão pela última vez:
— Posso te fazer meu, S/N? Completamente meu...?
S/N apenas assentiu, os olhos cheios de desejo e antecipação. Tamaki sorriu com um olhar apaixonado e possessivo ao ver a expressão no rosto dele. Ele ajeitou as pernas do ômega contra seus ombros, abrindo ainda mais as coxas de S/N. Com uma mão, o alfa segurou a base do seu membro e guiou a ponta para a entrada úmida e convidativa.
Ao primeiro toque, ambos gemeram alto, um som de puro prazer ecoando pelo quarto. Tamaki começou a penetrar lentamente a passagem apertada, centímetro por centímetro, sentindo as paredes quentinhas do interior de S/N envolverem seu pau. O calor era intenso, quase insuportavelmente delicioso, e Tamaki tinha que se concentrar para não se perder completamente logo no início.
S/N envolveu os braços ao redor do pescoço de Tamaki, puxando-o para um beijo apaixonado e profundo. As línguas dançaram em uma coreografia apaixonada enquanto o alfa continuava a penetrar mais fundo, até que finalmente, com uma última investida dos quadris, Tamaki estava completamente enterrado dentro dele.
Eles ficaram assim por um momento, o corpo de S/N envolvendo completamente o pau duro de Tamaki, o calor e a pressão insuportavelmente deliciosos. Tamaki podia sentir o pulso acelerado do ômega sob a pele, podia ouvir a respiração ofegante saindo dos lábios de S/N. Ele sabia que nunca queria sair daquele lugar perfeito, queria ficar enterrado dentro do seu amor para sempre.
Com um sorriso apaixonado, Tamaki sussurrou no ouvido de S/N:
— Você é meu, S/N... Minha alma gêmea, meu tudo. Eu te amo...
— Eu também te amo, Taki...
E então, começou a se mover. Com movimentos lentos e controlados, Tamaki iniciou um ritmo constante de vai e vem, penetrando ainda mais fundo em S/N com cada investida. O som dos corpos se encontrando ecoava pelo quarto, misturado aos gemidos e gritos de prazer de ambos os amantes. Eles estavam perdidos um no outro.
Tamaki começou a foder S/N com mais força e rapidez, os movimentos dos quadris se tornaram mais intensos e hábeis. As penas macias de S/N estavam moles contra os ombros do alfa, e ele as segurou com as mãos enquanto continuava a meter com força.
Eles permaneceram assim por horas, a noite toda, com Tamaki fodendo S/N em uma variedade de posições diferentes. Hora com S/N de costas para ele, hora com o alfa por trás fodendo S/N de quatro com os rosto enterrado no travesseiro e Tamaki segurando a cintura dele com um pressão que com certeza deixaria marcas.
Não importava a posição, a sensação era incrível, e ambos estavam completamente perdidos um no outro.
Cada vez que chegavam ao clímax, era com gritos de êxtase, os corpos tremendo e se contorcendo juntos. O quarto estava cheio de sons de prazer, de gemidos altos e suspiros satisfeitos. Mesmo depois de gozarem, eles não pararam, querendo explorar ainda mais o desejo que sentiam um pelo outro.
Tamaki nunca tinha se sentido tão perto de outra pessoa, tão conectado a alguém. Era como se suas almas tivessem se fundido, como se tivessem se tornado uma só. Ele nunca quis nada mais do que ficar desse jeito para sempre, enterrado dentro do ômega que amava tanto.
Eles finalmente desabaram na cama, exaustos e satisfeitos, os corpos suados e entrelaçados. Tamaki puxou S/N para um beijo profundo e apaixonado, sussurrando contra os lábios de S/N o quanto o amava.
CENA BÔNUS
O quarto era o mesmo de sempre — paredes claras, cortinas leves, o aroma de café vindo da cozinha —, mas havia um novo som preenchendo o ar: o riso suave de um bebê.
O berço ficava encostado perto da janela, adornado com pequenos móbiles coloridos que balançavam devagar ao vento da manhã. Dentro dele, um bebê de olhos curiosos ria alto, os bracinhos se movendo de forma desajeitada, tentando agarrar o móbile que girava. Aiko, sentado ao lado, observava cada movimento com a concentração de um herói em missão.
— Ele entende o que eu falo, papai? — perguntou, a testa franzida.
S/N, sentado na poltrona, segurando uma mamadeira, sorriu.
— Talvez entenda um pouquinho, Aiko. — respondeu. — Mas, por enquanto, ele só escuta o som da sua voz. E gosta disso.
Aiko abriu um sorriso orgulhoso, o peito estufado.
— Então ele vai ser forte como eu!
Tamaki, encostado na porta, riu baixo.
— Ele já é. — disse, com um carinho que parecia preencher o cômodo inteiro. — Afinal, tem dois pais incríveis e um irmão alfa protetor.
Aiko inflou o peito ainda mais, como se aquelas palavras o fizessem crescer dois centímetros.
O bebê — pequeno, redondo e curioso — se chamava Haru. Um nome simples, escolhido numa tarde de primavera, enquanto os dois ainda tentavam acreditar que aquele sonho era real. S/N lembrava do momento exato em que Tamaki segurou o filho pela primeira vez: o olhar assustado, as mãos trêmulas, e então aquele sorriso tímido que fez as lágrimas brotarem.
Agora, meses depois, aquele mesmo sorriso estava ali — nos gestos, nos silêncios, no jeito como Tamaki observava os três juntos. A casa, antes marcada pelo som solitário da chuva, agora vivia cheia de vida.
Naquela manhã, Tamaki falava ao telefone, apoiado na bancada da cozinha. A voz calma, mas animada, enquanto conversava com Nejire e Mirio. Do outro lado da linha, risadas.
— Férias de paternidade, hein? — Mirio zombava. — Nunca pensei ver o grande Suneater trocando o uniforme de herói por fraldas e mamadeiras!
Tamaki riu, o rosto corando instantaneamente.
— É... acho que minha vida mudou um pouco.
— “Um pouco”? — Nejire soltou, divertida. — Você soa mais calmo. Mais... feliz.
Tamaki olhou para o berço, onde Aiko fazia caretas e Haru gargalhava com os bracinhos esticados.
— É... eu estou. — respondeu, sincero.
— E o ômega sortudo? — Mirio perguntou, rindo. — Já te colocou pra dormir no sofá alguma vez?
Tamaki soltou um suspiro divertido.
— Ainda não. Mas ele tem esse olhar...
— O olhar do “não esquece de lavar as mamadeiras”? — Nejire completou, gargalhando.
Tamaki apenas riu, balançando a cabeça.
— Esse mesmo.
A conversa seguiu leve, cheia de brincadeiras e promessas de visitas futuras. No fim, quando desligou, Tamaki ficou em silêncio por alguns segundos, olhando pela janela. O reflexo mostrava o homem que ele era agora: ainda o mesmo herói tímido, mas com o olhar diferente — mais sereno, mais vivo.
S/N apareceu atrás dele, abraçando-o pela cintura.
— Falando com os seus amigos?
Tamaki assentiu.
— Eles disseram que vão vir conhecer o Haru. E que querem te agradecer.
— Agradecer?
— Por ter me feito sorrir de verdade. — ele respondeu, simples, e virou-se para beijar a testa de S/N.
O ômega sorriu, encostando a cabeça no peito dele.
— Eu devia ser eu quem agradece, Taki. Você me devolveu o que eu achei que tinha perdido.
Tamaki passou os dedos pelos cabelos dele, um gesto quase automático.
— O que você perdeu?
— A vontade de acreditar... — S/N disse baixinho. — Depois que o pai do Aiko morreu, eu achei que nunca mais ia ter isso. Um lar. Uma família.
Tamaki segurou o rosto dele entre as mãos, fazendo-o levantar o olhar.
— Você me deu uma família também. S/N riu, os olhos marejados. — Então estamos quites.
O beijo veio leve, como um selo de algo que já estava completo.
Mais tarde, enquanto o sol descia e o céu ganhava tons de pêssego e ouro, Aiko corria pelo quintal com uma toalha amarrada nas costas — seu “manto de herói” —, enquanto Tamaki o observava da varanda. Haru dormia no berço portátil, e S/N lavava a louça, cantarolando uma canção suave.
Tamaki fechou os olhos por um instante. O som das risadas, o cheiro da comida, o farfalhar das folhas — tudo parecia formar uma melodia perfeita. Uma que ele nunca quis parar de ouvir.
S/N apareceu na porta, enxugando as mãos no pano.
— O que foi? — perguntou, vendo o olhar distante dele.
Tamaki deu de ombros, sorrindo.
— Só... pensando em como tudo isso parece um sonho.
S/N se aproximou, encostando-se a ele.
— Então é um sonho que vale a pena viver.
Tamaki passou o braço pelos ombros do ômega e o puxou contra si. Aiko, ao longe, gritava algo sobre salvar o mundo, e Haru soltou um barulhinho sonolento, como se respondesse ao irmão.
— Você acha que eles vão se dar bem? — Tamaki perguntou, olhando para os dois.
S/N sorriu.
— Aiko vai ser o irmão mais protetor do mundo.
O alfa riu, baixo.
— Ele puxou você nisso.
— Talvez tenha puxado o pai dele. — S/N respondeu, olhando para Tamaki com um brilho nos olhos que fazia o peito do herói doer de amor.
O vento soprou leve, mexendo o cabelo de ambos.
E naquele instante, Tamaki percebeu algo simples e definitivo: ele não precisava mais correr atrás do mundo para se sentir completo. Ele o tinha, ali, em suas mãos.
O lar, a família, o amor — tudo aquilo que sempre pareceu distante agora cabia dentro de uma casa pequena, de uma risada infantil, de um abraço morno ao fim do dia.
S/N se encostou mais nele, fechando os olhos.
— Está ouvindo?
— O quê? — Tamaki perguntou, confuso.
— O som. — ele respondeu, sorrindo. — É o som da nossa vida.
E Tamaki ouviu.
Ouviu o vento, o riso de Aiko, o resmungo sonolento de Haru, o bater suave do coração de S/N contra o seu peito.
Ouviu o lar que sempre sonhou.
E, naquele momento, soube que não havia missão, glória ou fama capaz de se comparar a isso.
Ele estava, enfim, completo.














