O Saci Pererê dança de uma perna só.

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O Saci Pererê dança de uma perna só.
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Saci (As 100 melhores Lendas do Folclore Brasileiro - A. S. Franchini)
Nem sempre o Saci teve a figura que hoje conhecemos. Desde a sua primeira versão, ele sofreu uma série radical de alterações e acréscimos, até transformar-se na versão que hoje conhecemos. A versão mais autenticamente nacional do Saci é a indígena, que o apresenta como uma ave. (Matintapereira é uma das diversas aves às quais se atribui a gênese do mito.) Segundo a crença, essa ave misteriosa tem por hábito fazer com que os viajantes se percam na floresta, graças ao poder do seu canto enganador – o que também não é nenhuma novidade, já que, espalhadas por toda a América Latina, abundam aves similares, a ponto de muitas delas também terem se convertido, com o passar dos anos, em lendas como do nosso Saci (o Crispin argentino, ou o Ecaco boliviano – com gorro vermelho e tudo – são apenas dois exemplares da enorme lista que se estende da Argentina ao México). À medida que o mito desce para o centro-sul do Brasil, ele vai se transformando, por força da influência europeia e africana, até se converter no moleque que hoje conhecemos. Segue uma breve descrição do Saci: O Saci é um menino de uma perna só – muito raramente apresentado com duas – e aparece geralmente nu, portando apenas uma carapuça vermelha na cabeça. Além de tornar o Saci invisível, a carapuça, uma vez arrancada da sua cabeça, tem o dom de premiar o ladrão com pedidos mágicos. O Saci é personagem traquinas por excelência: além de extraviar viajantes e de promover toda sorte de bagunças no lar, gosta muito também de montar em cavalos e promover disparadas noturnas, fazendo uma maçaroca nas crinas dos bichos. Fuma feito um condenado e perde as estribeiras com todo viajante que se recusa a reabastecer o seu cachimbo. Anda invariavelmente no interior de um redemoinho e pode ser apanhado se o caçador de sacis atirar, bem no meio, uma peneira invertida, trançada em forma de cruz, ou um terço ou um rosário de capim. Alguns também o apresentam com as mãos furadas, detalhe importado, retirado do seu protótipo português, o Fradinho da Mão Furada, primo-irmão da Pisadeira e de outras entidades maléficas do pesadelo.
O Guaxinim Pererê
Nossa história se inicia em 10 de abril de 1912, com a brincadeira “Só a cabecinha ou quem quer ser um talarico” do jovem Jack – galanteador, cabelos loiros, pele branca, olhos tão azuis quanto o céu às 10h da manhã, em suma, uma aparência perfeita – muito parecido com um tal de Leonardo DiCaprio. Uma brincadeira que o levou à morte encefálica causada pela hipotermia, num naufrágio em meio ao Atlântico Norte, na madrugada de 15 de abril do mesmo ano. Rose – ruivinha maligna e egoísta, que não teve a capacidade de dividir o espaço sobre a porta gigantesca que a salvou naquela noite – era noiva, e foi o principal motivo da morte de Jack, após tê-lo induzido ao caminho da perdição. Ambos viveram uma linda história de amor, que durara somente cinco dias, mas resultara em algo para o resto da vida, um filho.
Nove meses após o acidente, nasce Frederico Martins, uma criança quase perfeita, se a mesma não tivesse nascido sem a perna esquerda. Fred, assim apelidado, sofreu abandono aos cinco anos, quando sua mãe Rose – que sofria com distúrbios mentais – decidiu aventurar-se em uma jangada, embarcando em uma jornada sem volta à procura do seu amor, que acreditava estar vivo e perdido no mar. Desde então, Fred foi criado pelos tios Tico e Consuelo.
Fred cresceu em meio a diversas dificuldades impostas pela ausência de sua perna esquerda. Sofreu muito bullying no colégio. Nas aulas de educação física, o mesmo era sempre o último a ser escolhido durante a divisão dos times de futebol. Os outros meninos sempre zombavam: “Quero ver você me dar uma rasteira, perninha”. Ainda assim, com todas as limitações, Fred conseguia se adaptar sem a perna. Tico, seu tio, sempre lhe mostrou o outro lado da moeda, dizendo que nada acontece por acaso e que tudo nessa vida passa, pois, apesar das dificuldades, no final as coisas sempre se resolvem. Apesar de ser o garoto mais zoado da escola, Fred cresceu com o caráter de um grande homem, devido às demais circunstâncias.
No último ano do ginásio, durante um passeio escolar no zoológico Bronx Zoo, em Nova York, Fred não sabia que, ali, sua sorte iria mudar. Como sempre, o jovem estava fazendo rimas junto de seus amigos, Aristides e Célia. Durante a caminhada, o mesmo foi mordido por um guaxinim mutante que havia fugido de um laboratório secreto próximo dali. Após a mordida na nádega direita, Fred se sentiu indisposto, com tontura e alucinações. Todos à sua volta estavam ficando com cara de guaxinim. Atordoado, ele foi para casa.
No cair da noite as alucinações pioraram. De repente, o jovem sentiu algo recostado sobre sua perna; assustado, levantou-se rapidamente e, para sua surpresa, outra perna havia brotado no lugar onde nada havia. Fred sentia-se também mais forte, veloz e com todos os sentidos apurados. Para ele era um milagre. Junto às bênçãos concedidas, um sentimento de justiça nasceu dentro de si, como se uma missão fosse a ele imposta: a missão de lutar contra o mal de sua cidade, cujo índice de criminalidade era bastante alto.
A fim de treinar e aperfeiçoar seus poderes, Fred viajou para a Floresta Amazônica, no Brasil. Lá sentiu a natureza bem de perto, e pode conhecer o Mestre Maritaca, uma ave sábia de penas azuis, cujo criou um forte laço de amizade. O Mestre o treinou deixando-o cada vez mais forte, rápido e com os sentidos dez vezes mais apurados. Em meio ao treinamento, apareceu Xico - o macaco da floresta -, sempre serelepe, aprontando e fazendo farra. Xico, ao avistar Fred, logo disse que o mesmo se parecia muito com o pai. Encabulado com a afirmação, Fred perguntou:
- Xico, você conheceu meu pai?
- Sim, éramos amigos até ele se apaixonar por sua mãe. No dia de sua morte eu estava lá, fingindo-me de criança para entrar em um dos botes. Vi a tragédia de longe. Sua mãe, maldita seja, ignorou o fato daquela porta ser imensa. Cabiam muito bem os dois sobre ela. Vadia.
- O quê?
- Alegria, menino! Hoje você está aqui, com duas pernas e treinando junto ao Mestre Maritaca!
Após todo o treinamento, e com novos amigos na bagagem, Fred terminou sua jornada no Brasil com um ensinamento para a vida toda. Antes de sua partida, seu Mestre disse: “Lembre-se de quem você era e quem você se tornou. Você sempre foi forte e corajoso, mesmo sem uma das pernas.”. O Mestre Maritaca lhe deu o nome de Guaxinim Pererê para que ele nunca se esquecesse de seus ensinamentos.
De volta à Nova York, Fred deparou-se com a cidade submersa em caos. O homem Cotia - um cara perverso e maldoso - encontrava-se aterrorizando a cidade. Ali, o jovem Guaxinim Pererê encontrou a primeira oportunidade de se tornar um herói. Com seu novo uniforme preto e cinza, e sua máscara de guaxinim usada para proteger sua identidade, Fred enfrentou Cotia em uma luta intensa e, com muita dificuldade, dedo nos olhos e diversos outros golpes baixos, o Guaxinim venceu, conquistando a simpatia da população que, por sua vez, o promoveu herói da cidade.
Após isso, ele venceu outros diversos tipos de vilões, todos a mando da criatura mais perversa da cidade, Samantha, a Dona Joaninha - arisca, fria e sem sentimentos -, que queria dominar Nova York a qualquer custo, mas tinha como maior obstáculo o Guaxinim, seu mais novo inimigo mortal.
Fred andava tranquilamente pelas ruas quando encontrou Aristides, que de primeira observou as duas pernas de seu melhor amigo. Descrente do que via, Aristides perguntou:
- Mas como assim, duas pernas?
- Cara, fui até o Brasil fazer um tratamento pelo SUS. Aleguei estar com dor no pâncreas e eles me deram uma perna de carne e osso! Impressionante! Os médicos brasileiros são muito avançados, um verdadeiro país de primeiro mundo.
Após muitas gargalhadas, Fred contou a verdade para o seu melhor amigo, desde a mordida na nádega direita até o fato de ser o Guaxinim Pererê, herói da cidade. Porém, nenhum deles havia notado a presença da Formiga – extremamente invejosa, sorrateira e pequenina –, que ouvia discretamente o diálogo entre os amigos. Tomada pelo recalque, Formiga foi à procura de Samantha e revelou a identidade secreta do seu arquirrival. Samantha, a Dona Joaninha, resolveu se aproximar de Fred usando a tática de Dalila com Sansão, a arte da sedução seguida da busca por um ponto fraco.
Fred, por sua vez, ficou totalmente cego pela vaidade, orgulho e autoconfiança. Não percebeu que, quando o ser humano ganha muitos bens, passa a se sentir superior a tudo e todos. Com o ego inflado, acabou se afastando de seus amigos e colocando de lado todos os ensinamentos de seu antigo Mestre. Nosso herói começou a ser perder e, em uma de suas batalhas, sofreu um grave ferimento na perna ganha, percebendo que toda a sua força havia sido reduzida. Eis o seu ponto fraco: a perna que havia nascido era a mesma que lhe dava todas as suas novas habilidades.
Samantha já havia conquistado a confiança de Fred e, em uma de suas conversas, o mesmo acabou contando o segredo que ela tanto buscava. Na primeira oportunidade, enquanto Fred dormia, Samantha sutilmente se levantou da cama e, com uma peixeira exorbitantemente afiada, arrancou a perna esquerda de Fred.
Estava consumado, nosso herói sofria sem força, habilidade e perna. Assim, Samantha pôs em prática seu plano maligno, tomando Nova York para ela. Na escuridão, totalmente perdido sem os amigos, Fred se deparou com a Formiga que, totalmente arrependida do seu feito, se voltou ao herói dizendo:
- Você não pode desistir, lembre-se de quem você era!
As palavras o atingiram como um golpe, fazendo-o se lembrar dos ensinamentos do Mestre Maritaca: “Lembre-se de quem você era e quem você se tornou. Você sempre foi forte e corajoso, mesmo sem uma das pernas.”. A frase, mais uma vez o fez refletir e, mesmo sem sua perna e poderes, Fred vestiu o seu antigo uniforme e partiu para o tudo ou nada na mansão da Dona Joaninha.
Lá eles travaram uma luta emocionante, que resultou em diversos ferimentos para o nosso herói, que já não dispunha mais de toda a sua força e habilidade. Samantha, em um de seus golpes, o lançou fortemente contra uma parede que desmoronou em cima de Fred. Seria o fim de nosso grande herói.
Embaixo das pedras, Fred viu o filme de sua vida passar em sua cabeça, toda a sua infância, sua mãe e tios, os ensinamentos do Mestre. De repente, com um grito alto e forte, Fred viu seu corpo começar a brilhar e ter sua força restabelecida. Mesmo sem a perna que lhe concedia tudo aquilo, o jovem Guaxinim Pererê teve todos os poderes de volta, devido aos seus sentimentos mais profundos de superação. Totalmente restituído, o Guaxinim lutou bravamente contra sua arquirrival Dona Joaninha, e triunfou, tomando Nova York de volta.
Após a batalha, a única vitória que ainda o interessava era a de resgatar as suas amizades. Com tudo normalizado, ele reencontrou seus melhores amigos e, com um sincero pedido de desculpas, os uniu novamente.
Pouco tempo depois, nosso herói retornou ao Brasil para novamente treinar com o seu Mestre e fazer o tratamento no SUS, acreditando na possibilidade de reaver sua outra perna.
Wesley
Algumas capas de livros feitos aqui do estúdio. Fiz a paginação e o tratamento de imagens. É sempre uma correria, um prazer e um grande divertimento fazer esses livros com o mestre Ziraldo. =]