Não estando completamente convencida com o propósito da minha Intenção e Conceito para o meu artefacto, ao passar para a etapa da prototipagem do método a/r/cográfico, este constituiu o momento decisivo no desenvolvimento do meu projeto, pois marca a transição do conceito para a prática, através de ciclos iterativos de investigação, experimentação, reverberação e filtragem. Aqui defini o nome do artefacto “Píxeis e Palcos”, que já vem a acompanhar-me desde o início deste percurso de doutoramento. Esta etapa foi particularmente relevante, dado o carácter híbrido e inovador da obra, que articula inteligência artificial, instalação audiovisual imersiva e a celebração simbólica da diversidade cultural do Festival MED.
Após a reformulação do conceito inicial, em que o projeto visava criar um artefacto inclusivo que proporcionasse uma experiência sensorial adaptada a pessoas com deficiências auditivas e visuais, através de vibrações, som tridimensional, audiodescrição e estímulos táteis, o objetivo era permitir que todos os públicos, incluindo os com deficiência sensorial, vivenciassem o Festival MED de forma imersiva e sensorialmente acessível. Depois de refletir bastante e saber que o público com deficiência sensorial é mínimo no Festival MED, esta seria uma proposta demasiado ambiciosa e difícil de concretizar, coloquei os “pés na terra”, e desloquei o meu foco para a criação de uma instalação audiovisual imersiva, com destaque no uso da inteligência artificial generativa para a criação de imagens e uma interação profunda entre som e imagem. Embora o objetivo de proporcionar uma experiência sensorial envolvente seja mantido, a proposta direciona-se mais para uma homenagem ao Festival MED, celebrando a diversidade cultural e o legado imaterial do evento, ao invés de centrar-se na inclusão sensorial de pessoas com deficiências.
A obra explora a interatividade da tecnologia digital e não depende exclusivamente de estímulos físicos (como as vibrações ou a audiodescrição em tempo real) para a acessibilidade, mas sim de uma abordagem poética e abstrata da cultura mediterrânica e das tradições musicais do festival.
Iniciou-se um primeiro ciclo de investigação, orientado pela necessidade de aprofundar os conhecimentos técnicos, estéticos e culturais subjacentes ao projeto.
Este processo envolveu, por um lado, o levantamento e pesquisa de referências de ferramentas de IA para vídeo e, por outro, um estudo do contexto identitário do Festival MED e das estéticas associadas à world music e à cultura mediterrânica. Esta dupla vertente da investigação — técnica e simbólica — permitiu verificar a originalidade da proposta e expandir o campo conceptual do projeto, ao explorar as possíveis abordagens à linguagem visual.
Em paralelo, avançou-se para a fase de experimentação, com a criação de protótipos visuais e sonoros preliminares. Esta fase revelou-se particularmente desafiante, pois implicou a manipulação de ferramentas de IA generativa, a calibragem das respostas visuais aos prompts textuais e o estabelecimento de dinâmicas coerentes entre os fluxos sonoros e as transformações visuais. Foram testadas diversas plataformas de criação de imagem por IA, com variações nos estilos, ritmos e graus de abstração visual, em busca de uma estética que fosse simultaneamente poética, simbólica e sensorialmente envolvente. E foi o programa Neuralframes que se adequou-o mais àquilo que eu pretendia criar, pois usa IA para gerar vídeos inteiros com base em descrições textuais (prompts) fornecidas pelo utilizador. Ou seja, nós simplesmente descrevemos o que pretendemos (como cenas, personagens, ambiente, ações) e a IA gera o vídeo correspondente.
A experimentação sonora incidiu na curadoria de faixas musicais que captassem a diversidade rítmica e cultural do festival, bem como no estudo da sua interação com os elementos visuais.
A seguir, iniciou-se um processo de reverberação, em que os resultados foram avaliados com base na proposta inicial, permitindo um retorno constante e ajustes ao longo do processo. Esta reverberação envolveu uma escuta crítica dos protótipos — tanto visual quanto sonora — e a reflexão fenomenológica sobre a experiência estética proposta. Questões como a legibilidade simbólica das imagens, a fluidez na narrativa audiovisual, o grau de imersividade alcançado e a fidelidade poética ao espírito do Festival MED foram centrais neste momento. A cada nova iteração, emergiram aprendizagens não previstas, incluindo a identificação de respostas estéticas inesperadas por parte da IA, ou o reconhecimento de sinestesias entre ritmos sonoros e padrões visuais que enriqueceram o universo da obra.
Estes resultados foram, então, submetidos a um processo de filtragem, segundo três categorias previstas no método a/r/cográfico: (1) elementos que se revelaram adequados e coerentes com o projeto foram incorporados no artefacto final — por exemplo, determinadas texturas visuais geradas por IA que evocavam atmosferas mediterrânicas de forma abstrata; (2) elementos que não se encaixavam no projeto atual, mas possuíam potencial estético ou conceptual, foram documentados para exploração futura — como certos estilos visuais gerados automaticamente que, embora descontextualizados para este projeto, mostraram força poética própria; (3) por fim, descartaram-se os resultados que não apresentavam pertinência estética ou conceptual, nomeadamente imagens incoerentes que quebravam a imersão pretendida.
Todo este processo de prototipagem foi desenvolvido num ambiente restrito e íntimo, respeitando o princípio de resguardo criativo próprio da metodologia a/r/cográfica. Evitou-se, nesta fase inicial, o excesso de feedback externo, precisamente para proteger a relação ainda incipiente entre criador e obra, e permitir que o projeto amadurecesse de forma orgânica e sensível. Com o decorrer dos ciclos, observou-se uma convergência crescente entre conceito, método e resultado, sinal de que os caminhos exploratórios estavam a consolidar-se numa linguagem estética própria e coerente.
Além disso, a etapa de prototipagem também contribuiu para o meu fortalecimento da confiança como a/r/cógrafo — tanto no domínio técnico das ferramentas digitais como na capacidade de tomada de decisões estéticas informadas. Os achados periféricos, como por exemplo a descoberta de correlações não previstas entre timbres sonoros e formas visuais, foram acolhidos como metáforas do arco em ação, demonstrando a potência criativa dos desvios e da investigação aberta. Estes ganhos não só enriqueceram o artefacto final, como também ampliaram o repertório expressivo e metodológico.
Em resumo, a etapa de prototipagem de “Píxeis e Palcos” constituiu o momento fulcral de maturação do projeto, permitindo que o conceito inicial fosse alterado, enriquecido, reformulado à luz da prática artística e testado num processo de iteração e refinamento contínuo. Esta etapa não apenas consolidou o artefacto enquanto obra sensorial e poética, mas também aprofundou a relação entre artista-investigador e o meu objeto de criação, em consonância com os princípios éticos, epistemológicos e estéticos do método a/r/cográfico.