Minha avó era apaixonada por um rapaz quando tinha cerca de 19 anos. Ele gostava muito dela também e o casamento estava tudo ajeitado. Eles eram noivos apaixonados. Um homem muito mais velho que ela lançou-lhe uma cantada, passou um 'bom' papo e a levou pra cama. Ela não queria estar ali, e disse isso ao homem. Ele deu-lhe a calcinha para que tampasse os olhos enquanto ele terminava o estupro. Em casa, suja e com dor ela teve que lidar com a situação, não mais virgem, o casamento foi cancelado e o amor da sua vida seguiu pela vida dele. O homem mais velho retornou, disse que assumiria minha jovem avó. Ele trazia dois filhos crianças de um outro relacionamento. Casaram-se. Ela perdeu o primeiro filho, logo após nascer. Pouco tempo depois teve uma linda menina. Uma fofinha de cachinhos e olhinhos de jabuticaba. Um dia na frente da sua casa, enquanto o marido estava no trabalho, parou um caminhão lindo, e um rapaz que ela bem conhecia os olhos. Ele a convidou pra ir com ele. Para irem ser felizes e buscarem a vida de amor que ambos haviam sonhado juntos. A filha a chamou no portão de entrada da casa. Toda a vida lhe chamou enquanto seus sonhos aguardavam na carroceria da frente de um caminhão com o destino livre e esfomeado por bons momentos. Ela não foi. Ele se foi. Elas ficaram. Fico imaginando como conviver com essas sensações. De ambos os lados. Passar por todo receio e ir atras do que se busca, mesmo após anos, mesmo após a vida ter tido seus desvios. Buscar quem se quer. Chamar pra viver. Sonhar todo o trajeto com a mulher da sua vida sentada ao seu lado, com uma filhinha linda, e assim serem felizes. Penso também na minha avó, que ficou. E, entre lágrimas, viu o caminhão distanciar e tudo o que ela sonhou anos atrás seguir em outra direção. Eu sinto MUITO pela minha avó. Sinto muito pelo rapaz. Pelas crianças e por todos os sonhos reprimidos.Tenho receios de replicar a mesma situação. Tenho medo de ser o rapaz. De estar sentindo o que ele sentiu após a separação. De estar pensando, como ele pensou, em ir atras dela, e, por uma última vez, chama-la. Sentir de uma vez e poder soltar tudo isso. Imagino que ele tinha vários pensamentos, várias situações na mente e o quanto aquela situação o segurava de viver, de ser pleno. Porque plenitude era o que ele havia sonhado, imaginado, junto da amada. Ele precisava ir atrás dela mais uma vez. Levando todos os sonhos e futuro sonhado. Havia a chance de acontecer o corrido, ela não o acompanhar, e o rapaz sabia disso. Ele sabia que ali poderia tudo se findar e necessitaria fazer uma auto-cirurgia e remover os resquícios daquele conceito de plenitude. Ele sabia. Mas havia uma pequena parcela que o movia, e eu a sinto. Ela é bem pequena. Muito mesmo. Mas é suficiente para nos levar a lugares que depois, provavelmente, nos arrependeremos. Mas ele precisava daquela viagem de caminhão. Precisava saber se eles juntos ainda existia. E assim, criar um novo conceito de futuro. A dor de ver a amada, em lágrimas, dizer que não poderia acompanha-lo, deve tê-lo devastado. Seu chão deve ter desabado e os pés deixaram de sentir o assoalho da cabine. Deve ter sentido por meses, anos, talvez. Mas havia uma chance dela dizer sim. E mesmo com toda a dor de acelerar o caminhão com o assento ao lado vazio, ela ainda era menor do que a de conviver sem ter tentado. Viver com os 'se's da vida e preso a memórias de um futuro passado. Findadas as chances, ele pôde seguir em frente. Ele nunca mais a buscou.Se ele continuou a amando ou se ainda sonhava com ela, mesmo após esse encontro, jamais poderemos saber. Eu imagino que sim. Porque eu me vejo, mesmo após seguir em frente, tendo apreço pelos momentos bons que vivi. Mas os dias antes da viagem dele até a casa da amada, as noites regadas de cigarros, receios, aprendizados e músicas que o sustentava, todos os dias que ele planejou, teve medos e não pode seguir em frente sem antes ter uma resposta final. Sem antes uma oportunidade final para seu sonho de rapaz, esse exato momento. É nesse exato momento que estou. Com todos os receios e pensamentos. Aguardando o momento da oportunidade. Talvez ele tenha achado que tomou tempo demais, que demorou demais pra ir atrás dela. Talvez tenha se arrependido de ter demorado tanto, ou até de ter ido, ferido. Nós nunca vamos saber. Ou talvez eu vá. Ainda estou no momento dos receios.
\\O que esse texto tem a ver com o Dia dos Pais? Realmente, nada. Porque a data comemorativa nem me veio a mente, eu fiquei o dia todo pensando na minha avó e nos sonhos que assistimos partir de caminhão.
\\Eu precisava postar isso em algum lugar