Lee Sungmin e Zhou Mi ainda não haviam esquecido o que acontecera há poucos meses atrás, quando, inesperadamente e sem explicação alguma, Cho Kyuhyun ficara noivo de Im Yoona. Na época, haviam se sentido cruelmente traídos, e o orgulho ferido os levaram a arquitetar aquele que de certo listava entre os três piores castigos aplicados ao coreano.
A lembrança do ocorrido continuava bem vívida em suas mentes. Kyuhyun fora exemplarmente punido com três mini vibradores em seu reto, depois de ganhar uma dupla penetração seca e sem preparo de seus dois amantes. A expressão de dor no rosto do rapaz mais novo tinha despertado um sadismo que seus ‘carrascos’ jamais haviam experimentado antes. Zhou Mi classificara a fatídica noite como algo mágico, sem precedentes. Sungmin tivera a alma lavada no gozo farto de Kyuhyun. Fora uma trepada para ficar na memória, mas, naturalmente, só isso não tinha sido o bastante para aplacar a ira deles. Nem de longe só aquilo os abrandaria.
No entanto, decidiram dar o caso por esquecido, pelo menos por enquanto. Kyuhyun passara alguns dias andando engraçado e carregando uma discreta e compacta almofada pra onde ia, e vê-lo sofrendo e constrangido com o objeto debaixo do braço fazia com que a dupla se sentisse vingada. É claro que tinha sido agradável aquela tarde – além dos dildos, eles resolveram testar tudo o que fosse cilíndrico e com menos de cinco centímetros de espessura em Kyuhyun. Trocando em miúdos, fora uma ocasião deveras singular e que, segundo Sungmin, “valera a pena”.
O que quero dizer aqui, meus caros, é que Zhou Mi e Sungmin poderiam facilmente perdoar Kyuhyun e seguir a vida a três sem maiores traumas ou mágoas. Trata-se de duas pessoas de coração mole e espírito dócil. Se não fosse assim, por que raios Cho Kyuhyun ainda continuava vivo? De todo modo, aquele filho de uma puta nunca cessava. Seus amantes nem estavam preparados, e ele lhes dava uma rasteira pra ficar na história.
Daquela vez não havia sido diferente.
Sendo honesto, talvez não tenha sido tão terrível quanto na vez que ele oferecera uma aliança de noivado à Im Yoona. Contudo, aquela ‘sacanagem’ em particular trouxera à tona um ressentimento que já vinha de outros carnavais. A diva do Oldsmobile e o stripper mais cobiçado da costa oeste ficaram fora de si.
Os testículos de Kyuhyun estavam com os dias contados.
Estavam decididos – como jamais estiveram – a fazer Kyuhyun sofrer. Por dias a fio planejaram os métodos que iriam aplicar, os meios que iriam usar, como seria mais doloroso,mais épico, parafraseando um diabólico Sungmin. Quando Zhou Mi, furiosa e com os olhos injetados, sugeriu que o empalassem, decidiram que já bastava de tantas ameaças e planos mirabolantes.
Num lampejo de dignidade e altivez, Zhou Mi declarou, erguendo-se de súbito da cama onde até então estava prostrada tal qual uma prostituta do subúrbio que acabara de atender seu último cliente do dia.
“Nós também vamos a Paris. Nós sempre teremos Paris!”
Irrelevante frisar que sua citação fora totalmente fora de contexto e sentido.
Incoerências à parte, foi necessário três jantares por parte de cada um, cada noite com um velho entediante e galanteador diferente, todos eles saídos diretamente de algum canto escuro e isolado da boate de Siwon, a qual tinha a fama de ser muito bem frequentada por aqueles tipos solitários e sempre dispostos a pagar a quantia que fosse por uma companhia divertida e deslumbrando – Sungmin e Zhou Mi eram, portanto, perfeitos para o papel.
‘Trabalhar’ como dama ou cavalheiro de companhia era fichinha pra quem cogitara até mesmo afanar alguns trocados de Siwon. Tudo por aquela viagem. Dias se passaram e, de passaporte carimbado e passagens na mão, Zhou Mi e Sungmin congratulavam-se um ao outro. Estavam mais unidos que nunca e isso era muito bom pros negócios.
Como lhes fora informado por Siwon – o único da boate que recebera um convite para a cerimônia suntuosa que fora o casamento de Kyuhyun e Yoona –, logo após a recepção dos convidados no espaço designado para tal, os recém-casados iriam partir num voo expresso para a França. Investigando mais um pouco, descobriram o horário exato e o número do voo. Com tudo arquitetado, comprar as passagens e reservar dois assentos na primeira classe – parecia muito óbvio que Kyuhyun faria questão de esbanjar naquela lua de mel – foi fácil.
Assim que as recebeu no guichê da Air France, Zhou Mi agitou as passagens como se elas fossem seu leque.
“Eu estou levando um cabo de vassoura na minha mala. Você já pode imaginar pra quê ele vai servir, não é, Sungminnie?”
Pondo a mão sobre o peito, o mais velho suspirou tão profundamente que seus ombros penderam após ele exalar o ar de seus pulmões.
“Ah! Eu já imaginei e foi como se eu tivesse acabado de ter um orgasmo.”
Zhou Mi enfiou os papéis na bolsa de mão e lançou um sorriso cúmplice e malicioso para Sungmin.
“A propósito, por que mesmo precisamos do Kui Xian? Olha o que eu posso fazer com você! E nem estou usando minhas mãos...”
Sungmin murmurou um “stop, you”, agitando uma das mãos num gesto que pretendia ser tímido, e o sorriso de outrora nos lábios da mulher chinesa se converteu numa gargalhada doce e sonora.
A noite iluminada da capital francesa resguardava um brilho especial com a presença de Zhou Mi. Não que Sungmin também não estivesse especialmente belo e charmoso em seu blazer Armani, seus sapatos Gucci, todo produzido nas grifes italianas mais caras do mercado. Ele estava deslumbrante, para ser mais exato. Caminhava pelas ruas de Paris com as mãos enfiadas nos bolsos, uma sobrancelhas sobre-erguida e o olhar mais confiante e blasé que alguém conseguiria exibir – mesmo na França.
A beleza de Sungmin era inegável, inebriante, mas Zhou Mi... Zhou Mi estava magnifica.Quelle belle femme. Ela tinha esse dom. De ser como nenhuma criatura que já pisara sobre a terra. Celestial, embriagante, uma espécime retirada das páginas de um romance noir, só que sendo real.
Seu cabelo ruivo estava preso no alto da cabeça, num coque propositalmente desleixado e despojado, um penteado no qual Sungmin lhe auxiliara, um bem parecido com o que Brigitte Bardot eventualmente usava no auge de sua careira. Nos lábios, um batom um tanto mais claro do que os que costumava usar. Era de um rosa pastel, mais sóbrio que o comum. A longa piteira estava firme entre seus dedos, e as unhas de porcelana, a saia justa e agarrada às coxas, o cinto fino que lhe circundava a cintura, a blusa de tecido liso e o casaco de tweed que lhe cobria no outono gélido europeu, o sapato de salto médio e rosto redondo, tudo isso lhe dava um ar ainda mais etéreo, como se houvesse acabado de sair de um filme da nouvelle vague.
Podia ser a musa de Truffaut ou Godard, se um desses ainda estivesse em atividade, e indubitavelmente faria um bom trabalho.
Porque Zhou Mi, como ela própria costumava repetir, nascera para ser uma diva. E, de braço dado a Sungmin, ela caminhava por ai como um retrato vivo da diva mais digna e cheia de classe e estilo que o velho mundo conhecera.
Deu uma volta em torno de si mesmo. O mais velho ergueu os lábios num sorriso, aprovando o que via.
“Você pareço uma versão menos puta da Jessica Rabbit. Só falta as luvas coloridas.”
Zhou Mi repousou seu cigarro na borda do criado-mudo.
“Você acha? Isso é bom. Mas aquelas luvas são de péssimo gosto, jamais reproduziria aquilo em qualquer produção minha.”
Sungmin ergueu-se da grande poltrona posicionada frente à cama de casal e ofereceu o braço à sua acompanhante.
“Vamos, Miss Chic. Nós ainda temos que constranger Kyuhyun por toda uma vida.”
A chinesa sorriu, exultante. Apanhou o braço alheio e desfilou na ponta de seu escarpam vermelho com todo o brio de que dispunha.
“Vamos, querido. Estou ansiosíssima por isso...”
Sungmin ordenou, voltando-se ao homem francês com quem conversava. Escorado no balcão do bar, na companhia dele, que era nada mais nada menos que o administrador do hotel cinco estrelas onde aproveitava sua estadia, ele discutia com seu interlocutor a performance-relâmpago da chinesa. O conhecera por acaso – se acaso existisse – e, conversa vai, conversa vem, soube que ele era o manager. Estava ali pra resolver um problema de ordem urgentíssima – a cantora que iria se apresentar aquela noite havia fraturado o tornozelo e não estava em condições de comparecer ao hotel. Consternado como estava, resolvera tomar algumas doses de whisky para relaxar.
Sungmin encontrou ali a oportunidade que caíra dos céus. Apenas tinham combinado de fazer Kyuhyun passar por grande vergonha, mas iriam improvisar, não tiveram nenhuma ideia que fosse boa. Zhou Mi cantando sobre o palco como uma aparição trazida como que por milagre da costa oeste o deixaria branco como papel, para dizer o mínimo.
Em nome disso, os dois orientais travaram uma não muito longa conversa com omanager, o convencendo a ‘contratar’ Zhou Mi para a apresentação de algumas músicas. Ficou estabelecido que seriam apenas três, não cobrariam nada, porém, se a chinesa fosse bem recebida pelos presentes, o manager marcaria outras apresentações.
Zhou Mi cantaria uma versão de Why Don’t You Do Right à lá Jessica Rabbit – a personagem realmente a havia inspirado aquela noite – Summer Wine e Fever. O administrador, que adorava Peggy Lee e Nancy Sinatra, concordou imediatamente. Sungmin, após aquela tão bem vinda afirmativa, correu até o quarto onde Zhou Mi voltara para dar alguns retoques em sua maquiagem, e lhe deu a boa notícia. Zhou Mi se apressou e, alguns minutos depois, já estava no palco, curvando-se perante a uma plateia de cerca de cem pessoas que degustavam tranquilamente seus jantares da fina culinária francesa.
Entre essas pessoas, figurava Im Yoona e seu consorte. Seu consorte que se gelara o sangue ao avistar aquela silhueta muito conhecida de si.
A mulher ruiva havia dado as costas para a plateia, já entoando as primeiras estrofes da primeira das músicas citadas e era oficial, era ela mesmo. Kyuhyun estava ciente disso e também do fato de que onde há fumaça, há fogo. Se Zhou Mi estava ali, Sungmin certamente também estava por perto. O coreano estava em maus lençóis.
Why don’t you do right, like some other men do?
Kyuhyun apertou o guardanapo em seu colo, suando frio. E tal gesto não passou despercebido à sua esposa, que, afinal, o seguia o todo tempo com os olhos calejados de rugas e marcas de expressão.
Ele suspirou, ouvindo Zhou Mi repetir o refrão da música. Yoona repousou a mão em seu ombro, mas ele a rechaçou, deixando-a sozinha no restaurante e rumando ao seu quarto. Havia avistado Sungmin e dirigiu-se a ele. Por sorte, estavam fora da visão de Im Yoona. Zhou Mi sorriu no último refrão, assistindo-os abandonar o recinto juntos.
Sungmin ergueu o polegar na direção da chinesa e acompanhou seu amante. Do homem que era deles por direito.
Em seu celular de última geração – um dos últimos presentes que recebera de Kyuhyun – Peggy Lee cantava Big Spender. Era a trilha sonora ideal, que combinava perfeitamente com seus passos felinos e comedidos pelo hall e então pelo corredor do hotel. Levara o aparelho telefônico e os fones de ouvido para treinar as músicas que acabara de interpretar no salão do restaurante. No retorno aos seus aposentos, decidira ouvir outra canção.
Sua apresentação fora um sucesso. Um modesto contrato de alguns shows que aconteceriam durante aquele mês seria assinado na manhã seguinte. Mas isso era assunto para outra hora. Right to the point, Zhou Mi dirigiu-se ao que lhe trouxera até a França.
A porta do quarto foi aberta e, como era de se esperar, Kyuhyun estava esmaecido sobre a cama. Zhou Mi passou por ele, cumprimentando Sungmin, que voltara a sentar na poltrona defronte. Apanhando o cigarro no maço que jazia sobre o criado-mudo, ela deu meia-volta, encarando o coreano mais velho e então o mais novo. Esse último, ela fitou com um desprezo indizível.
Sungmin ergueu-se do estofado, buscando a garrafa de vinho branco detrás do balcão mais à frente. Tomou um bom gole.
“Tínhamos tantos planos e eu não sei o que fazer agora”, o homem mais baixo apoiou o rosto sobre a palma da mão, adquirindo uma expressão de enfado. Zhou Mi franziu o cenho – ouvira um dos maiores absurdos jamais proferidos.
“Como não sabe? Vamos enfiar o cabo de vassoura nele, castrá-lo e circuncidá-lo! Como ele ousa nos deixar em LA enquanto vai se divertir em Paris? Esse escroto! Vamos fazer tudo isso e então o deixamos na porta da barroca dele.”
Sungmin saiu detrás do balcão, voltando para onde estava até Zhou Mi chegar. Avançando mais uns metros, alcançou a ruiva, envolvendo-a em seu abraço. Ela recebeu a proximidade do outro com um risinho afetado e, trespassando os braços magros em torno do pescoço alheio, jogou a cabeça para trás, gargalhando livremente.
“Embrasse-moi, Sungminnie”
E Sungmin obedeceu. O beijo foi passional e, se enroscando na cama como dois gatos manhosos, eles até esqueceram Kyuhyun. Ele não fazia falta mesmo. Esse seria o pior castigo que Kyuhyun poderia receber: ser deixado de lado. Pena que não estava lúcido ou acordado para ver, ele estaria na fila do gargarejo daquele espetáculo que era Sungmin e Zhou Mi trepando – dois deuses do sexo.
Depois que eles haviam resolvido se aliar de uma vez por todas, não fora só Kyuhyun que colheu os frutos dessa coalizão. Eles próprios ficaram com o melhor quinhão de terem enfim decidido se comportar um com o outro como gente civilizada e não como duas pré-adolescentes disputando o mesmo garoto.
Só quem perdeu com isso foi Kyuhyun. Naturellement. Sungmin nunca perde nada, tampouco Zhou Mi. E era por esse, não por qualquer outro motivo, que eles não iriam deixar Kyuhyun seguir sua vida agora milionária e pacata com Im Yoona. Kyuhyun pertencia aos dois e, por mais que houvessem encontrado um no outro o amante com que sempre sonharam, o coreano não iria escapar de suas mãos possessivas. Nem fodendo.
Abriu seus olhos lentamente. Sentia-se estranhamente letárgico e lerdo e seu corpo inteiro doía como se houvessem lhe jogado numa máquina de triturar carne. Seu estado se assemelhava a como se encontrava depois de uma bebedeira dos diabos, as quais, invariavelmente, era seguida por uma ressaca inigualável. Era exatamente assim que estava, meio ofegante e tonto, mesmo que ainda mal estivesse desperto.
Levou algum tempo até que se firmasse na realidade. Quando o fez, a pergunta que imperou em sua mente tinha o tom do desespero: o que fizeram comigo?
A resposta estava logo a sua frente. Seus orbes foram de uma Zhou Mi de testa e lábios crispados – ele sabia muito bem o que isso significava – e um Sungmin que batia insistentemente o pé no assoalho.
Tentou falar, mas sua boca estava amordaçada. Zhou Mi, aproveitando-se da vulnerabilidade e da imobilidade de Kyuhyun – o haviam amarrado a uma cadeira – pôs-se a matraquear sem pausa. Retirando as mitenes de seus dedos, atirou-os no rosto do moreno. Porque era isso o que ele merecia por aprontar das suas consigo e com Sungmin: levar na cara.
“De novo, Kui Xian. De novo você nos fez de idiota. De novo você nos enganou e nos iludiu. Você não se lembra do que nos prometeu? ‘Suíte presidencial no hotel mais caro de Paris, vamos rasgar o dinheiro dela’”, Zhou Mi imitava o tom de voz melífluo e arrastado que Kyuhyun usara na ocasião. Fazê-lo recordar até dos mais desprezíveis detalhes era a sua estratégia de ataque. Iria tripudiar. Chegara a sua vez. “Mas você mentiu, Kui Xian. Você não cumpriu o prometido, você pegou o primeiro avião de LA pra Paris, você e sua esposa que cheira a talco e naftalina. Numa hora dessas, a única coisa que posso pensar é que você está mesmo apaixonado por ela. Pra nos trocar por ela, só pode ser amor verdadeiro.”
Sungmin irrompeu em gargalhadas.
“Puta que o pariu! Ele deve ter se apaixonado pela velha mesmo! Hahaha, caralho, Kyuhyun-ah!”
Kyuhyun agitou-se na cadeira, aparentando indignação diante daquela acusação. Apaixonado, ele? Nada mais impensável! De onde aqueles dois lunáticos tiraram aquela ideia?
“Sim, Sungminnie. Olhe a expressão em seu rosto. Ele está mesmo apaixonado”, dizendo isso, Zhou Mi curvou-se diante de Kyuhyun. No ato, os olhos do mais novo convergiram para o busto avantajado da chinesa, o qual estava mal encoberto por um decote que mostrava mais do que escondiam. Cravaram-se ali como se fosse uma questão de vida ou morte. “Você está louquinho por Im Yoona, admita!”
E desferiu uma tapa contra a face esquerda de seu amante renegado, porque ser teatral daquela forma fazia parte da natureza de Zhou Mi. Sungmin riu mais, e a ruiva considerou aquilo como um incentivo – acertou novamente as costas da mão na face de Kyuhyun. Em seguida, arrancou de uma só vez a fita adesiva grossa que lhe servia de mordaça. Kyuhyun urrou de dor – então era assim que as mulheres se sentiam ao se depilar com cera?
“SUA LOUCA! COM QUE DIREITO VOCÊ ME BATE, SUA-“
Kyuhyun ofegava, sequer tinha condições de rebater alguma coisa. Zhou Mi e Sungmin o examinavam com atenção. Até ele conseguir reunir força para gritar novamente, demorou alguns minutos.
“ME TIREM DAQUI, SEUS ESCROTOS!”
Os guardas a fitavam como um bando de cachorros quando veem uma cadela no cio. Que seja. Ela já estava acostumada com todo aquele assédio. Quem parecia incomodado era Sungmin que, algemado ao lado dela, lançava aos outros homens o pior olhar de que era capaz.
O delegado, num gesto muito cavalheiresco, chamou primeiro a dama. Zhou Mi se encaminhou até o gabinete do mesmo, de algemas nos pulsos e sendo escoltada por dois dos policiais que estavam por ali. Ao adentrar o escritório do delegado, ela tomou assento, como uma respeitável e distinta senhora da sociedade. Num inglês carregado de sotaque, o delegado lhe pediu que começasse a falar. Numa mesa próxima, o escrivão já se preparava para tomar nota de cada palavra sua. A ruiva lhe sorriu, estonteante, e apertando os lábios carmim num biquinho tipicamente francês, deu início ao seu depoimento.
“O que aconteceu, meus senhores, foi que eu e meu companheiro, Lee Sungmin, viemos de Las Vegas, Estados Unidos da América, para resgatar nosso amante, que, não por acaso, é Cho Kyuhyun, o homem que nos tão covardemente nos delatou e nos traiu. Pela segunda vez, aliás. Talvez eu esteja nos incriminando ainda mais com essa declaração, mas os senhores hão de convir que esse é caso encerrado. Não foi prestada queixa nem nada assim. Resolvemo-nos entre nós. Mas isso não vem ao caso. Como eu ia dizendo antes, Kyuhyun fugiu de nós, quebrando uma promessa que ele havia feito logo depois de noivar com Im Yoona.
Ele havia nos prometido que nos traria à Paris e não cumpriu. Ele próprio veio, no entanto, na companhia de sua esposa. E nos deixou em Las Vegas. Queríamos tirar essa história a limpo e cruzamos o oceano, chegando à França no voo que sucedeu ao dele. Nos hospedamos no mesmo hotel que eles, num quarto no andar superior ao deles. Com isso, tínhamos sim toda a intenção de provocá-lo e lhe perturbar a paz, não vou omitir esse detalhe de nosso plano. Na ocasião, estávamos odiando Cho Kyuhyun com todas as nossas forças e não mediríamos esforços para nos vingarmos dele, na medida em que achávamos que ele merecia.
Não pretendíamos assassiná-lo ou causar-lhe algum dano irreversível, longe disso. Precisamos dele inteiro e bem vivo, ele só nos é útil se tem o perfeito domínio de suas faculdades mentais e físicas. Só queríamos puni-lo, nada muito sério. Ele havia pedido por isso, afinal... Enfim. Nós o encurralamos depois que eu fiz o primeiro de quatro shows para os quais fui contratada. Como eu já contei ao senhor delegado, eu sou cantora profissional, artista burlesque e atriz. E, enquanto eu cantava a segunda música de três, ele seguiu Lee Sungmin, que se dirigia para nosso quarto. Não o levamos até lá à força de modo algum, Cho Kyuhyun foi com seus próprios pés.
Ao fim de minha apresentação, troquei algumas palavras com o manager do hotel e retornei aos nossos aposentos. Chegando lá, encontrei Kyuhyun desmaiado sobre a cama. Sungmin o havia dopado com clorofórmio, já fizemos isso várias e várias vezes, para ser honesta. Nunca percebi dano algum em Kyuhyun. Ele sempre foi normal, exceto por essa mania de extorquir velhas decrépitas. É o que acontece entre ele e Im Yoona, ele deu o golpe do baú nela, e daria o golpe da barriga também, se pudesse enfiar um útero dentro de si. Cho Kyuhyun não tem escrúpulos, monsieur delegado.
No dia seguinte, quando ele acordou, começou com seu escândalo habitual, e nós já estávamos cheios disso. Ameaçamos dopá-lo com clorofórmio e ele propôs trégua. Nos entendemos e combinamos de partir para Saint-Tropez ainda naquela manhã. Ele voltou ao quarto que dividia com Yoona, nós o escoltamos até lá, mas deixamos que entrasse sozinho. Estávamos convencidos de que ele não diria nada à velha coreana. Como esperávamos, ele voltou com uma valise, na qual continha uma muda de roupa, cartões de crédito e um talão de cheques, além de seus documentos e, é claro, seu passaporte. Eu e Sungmin arrumamos nossos pertences e deixamos o hotel.
Nos dirigimos ao aeroporto e partimos rumo à Saint-Tropez. Já no litoral, alugamos uma embarcação por 20 mil euros o dia. Nós bebemos e fizemos sexo pelos três dias e quatro noites que passamos lá, nada que perturbasse a paz alheia. Mas Im Yoona, sentindo falta de seu marido, deu parte na polícia e Kyuhyun fez todo aquele escarcéu em Saint-Tropez. Nós não o raptamos, ele foi por livre e espontânea vontade. E não demonstrou vontade de ir embora em nenhum momento. É tudo o que tenho a lhes dizer, senhores. Cho Kyuhyun é uma cobra traiçoeira e não confiem nele quando ouvir seu depoimento. Ele não é digno de confiança.”
O delegado mordeu a ponta da caneta que até então batucava sobre a superfície da mesa. Fitou Zhou Mi no fundo de seus olhos e ela não desviou: sustentou o olhar.
Só quando o telefone tocou, o contato foi rompido.
Após murmurar algumas palavras em francês, o delegado pôs o fone no gancho e voltou sua atenção à Zhou Mi, que ainda o observava, sem expressão, nem um traço de apreensão em sua face.
“Cho Kyuhyun e sua esposa pagaram a fiança, você e seu companheiro estão liberados.”
Zhou Mi ergueu-se de seu assento e curvou-se num ângulo de noventa grau aos policiais.
“Merci beaucoup, monsieur delegado. Monsieur escrivão.”
Kyuhyun estava abalado. De tanto insistir, Zhou Mi e Sungmin haviam conseguido o que tanto desejavam: acabar com a sua vida.
Sequer estava com energia para discutir ou fazê-los se arrepender do mal que lhe haviam causado. No canto de seus olhos, pediam-se lágrimas que desciam por sua pele, queimando-a. Nunca se recuperaria daquilo, estava certo de que não.
Todavia, seus amantes estavam um de cada lado seu, no voo de volta a Los Angeles. Cada um tinha uma mão sobre os ombros do mais novo. Longe de aplacar sua raiva, aquele gesto só o inflamava ainda mais. No entanto, naquele momento, Kyuhyun escolhera sofrer calado, ruminar sua angústia até onde suportasse. Ainda estava tentando compreender as motivações daqueles dois imbecis, como eles podiam ser tão tolos e mesquinhos a ponto de liquidarem sua galinha de ouro?
“Vocês acabaram com meu casamento. Vocês são minha ruína!”
Zhou Mi examinava as próprias unhas, Sungmin soltou um suspiro, entediado.
“Você se recupera dessa, Kyuhyun-ah, não seja tão dramático.”
“Não... Não me recupero, como poderia? Vocês me destruíram!”, assoou o nariz com a manga da camisa e se desvencilhou dos dois, indo para o fundo do avião, onde, por sorte, havia um assento vago. Enquanto Zhou Mi e Sungmin discutiam e chegavam à conclusão de que foram justos, Kyuhyun conhecia Jessica Jung, uma francesa que acabara de perder o marido milionário, um empresário chinês que sofria de Alzheimer.
Jessica Jung tinha cinquenta e anos e uma conta de alguns milhões de euros.
“Você não ouviu Siwon dizendo que eles pretendiam se mudar para Seul? Nós o iríamos perder definitivamente, Mimi!”
“Eu sei, certo? Mas mesmo assim... Estou com pena dele.”
“Pena, você? Ah, me poupe, Mimi. Pois eu acho que foi bem feito pra ele!”
“Eu acho que ele nunca vai superar o fato de ter perdido uma velha rica e generosa o bastante pra sustentar as extravagâncias dele.”
“Pelo menos ele comprou aquele barco antes de a velha dar um pé na bunda dele e voltar pra Coreia.”
“Você acha que ele nos levará para Saint-Tropez pra passear naquele barco de novo, Sungminnie?”
“É claro! Se ele não vender antes, né...”
“O que importa é que o temos de volta, não é?”