Amá-lo foi como estender as mãos ao pôr do sol: eu sabia que jamais o tocaria por completo, mas ainda assim me aquecia na esperança. Só não previ que, ao me doar tanto, ficaria à sombra da ausência dele, esperando que um coração indeciso aprendesse a me escolher.
Havia algo de sagrado na maneira como meu coração se inclinava ao dele, como se pressentisse que ali poderia habitar um amor sereno e profundo. Eu não precisava que ele dissesse muito, bastava a presença, o olhar meio desviado, o quase, para que meu peito se enchesse de promessas que ele nunca chegou a fazer.
E por isso a dor foi tão silenciosa: porque não houve mentira, só ausência de certeza. Não houve rejeição, só a falta de um gesto que dissesse “sim”. E esse quase-amor, essa esperança que me alimentava sem nunca me nutrir de fato, foi se tornando o lugar onde me perdi de mim.
Cada vez que ele sorria e depois partia, levava um pedaço da minha coragem. Cada silêncio dele me fazia duvidar da minha intuição, como se o erro fosse amar demais, querer demais, esperar por algo que talvez só existisse dentro de mim.
Mas não se ama menos por precaução, e eu não soube amar com freios. Fui inteira. Me entreguei com a delicadeza de quem cuida de um jardim, mesmo sem saber se haveria primavera. E esperei. Esperei que um coração hesitante despertasse, que meus gestos fossem suficientes, que minha constância o tocasse.
Só que há corações que vivem na penumbra, por escolha ou por medo. E amar alguém assim é como tentar aquecer-se num sol que se põe: bonito, mas efêmero. Intenso, mas inalcançável. E, no fim, fui eu quem ardeu, não de amor, mas de ausência.
Hoje entendo: o amor não deveria me deixar nesse lugar de quase. Porque quem sente de verdade não hesita, não foge, não responde com metades. E por mais que parte de mim ainda deseje que ele me veja com outros olhos, a outra parte, a que aprendeu a se amar, sabe que mereço ser escolha, não esperança.
— G.C.S. numa tarde em que o pôr do sol já não doía mais.








