O Retorno do Fio de Prata: Cartas, Doces e Magia.
Contém romance, muita fofura, conforto, reencontro, Qifrey x leitora femina casados.
Resumo: Afastada de casa há mais de dois anos para resolver uma complexa crise política na prestigiosa família de onde descende, a leitora finalmente consegue retornar ao Ateliê. Por causa de sua longa ausência, ela nunca conheceu pessoalmente as aprendizes de seu marido, Qifrey — Agott, Tetia, Richeh e a recém-chegada Coco —, embora sinta que as conhece profundamente através das dezenas de cartas que trocou com ele. Antes de subir a colina para o Ateliê, ela decide fazer uma parada na vibrante cidade de Kalhn para comprar um agrado. Coincidentemente, Qifrey levou suas quatro pupilas ao mesmo local para reabastecer os estoques de tinta e pergaminho. Em meio ao tumulto do mercado, a pequena Coco se perde. Enquanto Qifrey e as outras se desesperam procurando-a, a leitora encontra a menina chorando. Sem que nenhuma das duas saiba a identidade real da outra, um laço instantâneo de carinho e magia se forma entre elas durante uma tarde recheada de doces e confidências, pavimentando o caminho para um reencontro emocionante e inesquecível dentro de uma pequena loja de conveniências mágicas.
...
O ranger das rodas da carruagem contra as pedras da estrada real costumava ser um som monótono, quase hipnótico, capaz de embalar qualquer viajante em um sono profundo. Para você, no entanto, aquele som era a contagem regressiva dos batimentos de seu próprio coração. Cada solavanco no banco de couro desgastado representava um metro a menos entre o seu presente e o lugar que, por tanto tempo, pareceu um sonho distante guardado sob sete chaves.
Você olhou pela janela da carruagem, vendo as copas das árvores frondosas que cercavam a região de Kalhn começarem a se abrir, revelando os contornos familiares das montanhas ao fundo. Fazia mais de dois anos. Dois longos, exaustivos e burocráticos anos desde que um mensageiro com as insígnias de sua família biológica havia batido à porta do Ateliê de Qifrey, trazendo cartas seladas com cera vermelha e o peso de uma obrigação que você não podia ignorar.
Sua família era uma linhagem de bruxos prestigiados, donos de terras, assentos em conselhos e uma rede de influências que frequentemente colidia com os interesses do Grande Salão. Quando o patriarca adoeceu e as disputas por herança e segredos mágicos ameaçaram expor feitiços proibidos ao mundo dos ignorantes, você foi convocada. Não como uma escolha, mas como a única mediadora capaz de colocar ordem no caos sem permitir que o Conselho interviesse de forma destrutiva.
Durante todo esse tempo, sua identidade permaneceu atada a contratos, reuniões exaustivas à luz de velas e noites passadas em bibliotecas empoeiradas que cheiravam a pergaminho velho e mofo. Mas, no fundo da sua gaveta mais privada, no quarto que ocupava na mansão de sua família, repousava uma caixa de madeira de sândalo. Dentro dela, a sua verdadeira vida estava preservada.
Você deslizou os dedos pela bolsa de viagem que trazia ao colo, tateando o volume reconfortante do último maço de cartas que havia recebido. A caligrafia era elegante, fluida, com linhas que pareciam dançar pelo papel — a caligrafia inconfundível de Qifrey.
"Minha querida e amada," dizia uma das cartas, que você quase decorara de tanto ler sob a luz fraca dos candeeiros. "O Ateliê continua silencioso sem os seus passos no corredor superior, mas as coisas por aqui ganharam uma nova cor. Agott continua obstinada, uma força da natureza que se recusa a aceitar qualquer coisa menos que a perfeição. Tetia me pediu ontem para desenhar um feitiço que fizesse os sapatos flutuarem — ela quer que a limpeza do chão seja 'mais divertida', como ela mesma diz. E a pequena Richeh encontrou um novo canto no jardim onde gosta de se sentar e desenhar seus próprios círculos, ignorando completamente as minhas sugestões de simetria. Sinto falta de como você conseguia fazê-la rir sem que ela percebesse. Mal posso esperar para que você as veja com os próprios olhos."
E então, alguns meses depois, a tinta mudara para um tom mais reflexivo, quase preocupado, mas transbordando de um carinho paternal que fizera seu peito se apertar de saudade:
"Uma nova menina cruzou o nosso caminho, minha vida. O nome dela é Coco. Ela veio do mundo dos não sabem sob circunstâncias... complexas e dolorosas. Há uma luz nela que eu não via há muito tempo em nenhum bruxo nascido sob as regras rígidas do nosso mundo. Ela olha para o ato de desenhar magia como se estivesse tocando as estrelas pela primeira vez. Ela me lembra você, em seus dias mais curiosos. Sei que, quando você voltar, será o porto seguro que ela tanto precisa nesta transição. Por favor, termine logo o que precisa fazer. O Ateliê não está completo sem a sua senhora."
Você sorriu, uma expressão suave cruzando seus lábios enquanto lembrava das palavras dele. Você conhecia as quatro meninas perfeitamente. Sabia que Agott preferia chá de camomila com uma pitada de mel quando estava estressada; sabia que Tetia tinha o hábito de colecionar fitas coloridas; sabia que Richeh não suportava comidas muito doces e que a pequena Coco tinha uma predileção por histórias antigas. Você as conhecia através dos olhos do homem que amava. Mas elas? Elas não sabiam quase nada sobre você, exceto pelo fato de que o Mestre delas era casado com uma bruxa poderosa que estava "ausente resolvendo assuntos de Estado".
— Senhora? — A voz do cocheiro rompeu seus pensamentos, ecoando através da pequena portinhola frontal da carruagem. — Estamos nos aproximando dos portões de Kalhn. A senhora deseja seguir direto para a rota da colina ou faremos a parada solicitada?
Você piscou, ajeitando a capa de viagem sobre os ombros. O tecido era de um azul-noturno profundo, com runas de proteção sutilmente bordadas na bainha interna — um presente que você mesma havia costurado antes de partir.
— Vamos parar em Kalhn, por favor — você respondeu, sua voz firme, mas melodiosa. — Preciso comprar algumas coisas antes de subir. Não posso voltar para casa de mãos vazias depois de tanto tempo.
— Como desejar. Estaremos na praça do mercado em dez minutos.
Você respirou fundo, sentindo o ar fresco da montanha misturar-se com o cheiro familiar de terra molhada e flores silvestres. Você estava perto. Tão perto que podia sentir a assinatura mágica da região vibrando em sua pele. Kalhn era uma cidade charmosa, um entreposto onde bruxos disfarçados e mercadores locais se cruzavam em uma dança cuidadosa de segredos e comércio. Era o lugar perfeito para comprar os doces de amêndoa que Qifrey tanto gostava e, quem sabe, alguns tecidos novos para as meninas.
...
O mercado central de Kalhn estava excepcionalmente lotado naquela tarde de outono. O sol dourava as barracas de lona listrada, onde frutas frescas, tecidos coloridos e bugigangas de metal reluziam sob a luz morna. Mas, para um grupo específico de cinco pessoas que caminhava entre a multidão, aquele lugar não era apenas um mercado comum; era um tesouro de utilidades mágicas disfarçadas.
— Agott, por favor, não ande tão rápido. A Richeh vai acabar ficando para trás se encontrar outra barraca de minerais — Qifrey advertiu com um sorriso paciente, embora seus olhos azuis estivessem constantemente escaneando o movimento ao redor. Ele vestia suas túnicas claras habituais, os cabelos brancos levemente bagunçados pela brisa, e o óculos cobrindo o olho direito.
— Se a Richeh se perder por causa de uma pedra de quartzo, a culpa é da falta de foco dela, Mestre — Agott respondeu, a voz firme e a postura ereta de sempre. Ela carregava uma sacola de lona que já continha vários frascos de tinta de alta qualidade, essencial para o desenho de contra-feitiços.
— Olhem! Olhem aquelas fitas! — Tetia deu um pequeno salto, apontando para uma barraca que vendia artigos de costura e adereços para o cabelo. — Mestre, podemos comprar algumas vermelhas? Elas ajudam a segurar as mangas da túnica na hora de desenhar no chão!
— Claro, Tetia. Mas primeiro precisamos passar na loja do Sr. Nolnoa. O estoque de papel texturizado que ele reservou para nós é limitado, e eu não gostaria de perder a remessa deste mês — disse Qifrey, estendendo a mão para trás para tocar o topo da cabeça da mais nova de suas aprendizes. — Não é mesmo, Co...
A frase de Qifrey morreu no ar. Sua mão encontrou apenas o vazio.
Ele parou abruptamente no meio da rua de paralelepípedos, fazendo com que Agott quase trombasse em suas costas. Tetia, que estava prestes a dar mais um salto, congelou, e Richeh, que vinha logo atrás examinando um pedaço de vidro colorido através da luz do sol, parou com um olhar confuso.
— Mestre? — Agott franziu o cenho.
Qifrey olhou para a esquerda. Olhou para a direita. Olhou para trás. Entre a massa de camponeses com cestas de vime, crianças correndo e mercadores gritando os preços de suas maçãs, não havia nenhum sinal de uma capa pontuda com capuz largo e cabelos castanhos curtos.
— Cadê a Coco? — a voz de Qifrey perdeu a leveza habitual, adquirindo um tom tenso que imediatamente colocou as três meninas em alerta.
— Ela estava logo atrás de mim! — Tetia exclamou, os olhos arregalados enquanto girava no próprio eixo. — Eu juro que ela estava olhando os moinhos de vento de papel na barraca da esquina há menos de dois minutos!
— Eu disse para ela não se distrair — Agott murmurou, embora a irritação em sua voz tenha sido rapidamente substituída por uma sombra genuína de preocupação. — Kalhn é grande demais para quem nunca saiu de uma vila de ignorantes. Ela não sabe como se orientar aqui.
Richeh guardou o pedaço de vidro no bolso e cruzou os braços, os olhos fixos no chão.
Qifrey respirou fundo, tentando manter a calma para não assustar as meninas, mas o nó que se formou em seu estômago era real. Coco ainda era incrivelmente ingênua em relação aos perigos do mundo exterior e, pior ainda, ela não conseguia usar magia de forma defensiva sem as ferramentas certas e o espaço adequado. Se ela se sentisse encurralada, ou se fizesse algo que revelasse a magia para os ignorantes, as consequências seriam desastrosas.
— Ela se distrai fácil com qualquer coisa que brilha ou que se move. Deve ter seguido algo.
— Certo. Não entrem em pânico — Qifrey comandou, sua voz assumindo o tom de autoridade que usava quando a situação exigia seriedade absoluta. — Nós acabamos de passar pela loja Espada estrelada do Sr. Nolnoa. Lembram-se dela?
As três assentiram.
— Nós vamos nos dividir. Agott, você e Tetia procurem pelas barracas de tecidos e brinquedos na ala leste. Richeh, verifique a área dos alimentos e as ruelas que dão para a praça central. Eu vou refazer nossos passos até a entrada da cidade. Se alguma de vocês a encontrar, ou se derem trinta minutos e não a encontrarem, voltem imediatamente para a loja do Sr. Nolnoa. Entendido?
— Sim, Mestre! — responderam em uníssono.
Sem perder mais um segundo, o grupo se dispersou como folhas ao vento, deixando Qifrey no meio da multidão, com o coração acelerado e a mente correndo através de todas as possibilidades perigosas.
...
Enquanto isso, a algumas centenas de metros dali, em um beco estreito que funcionava como uma ramificação da movimentada avenida principal, uma pequena figura estava encolhida contra uma parede de pedra.
Coco puxava as bordas de seu capuz largo para baixo, tentando em vão esconder as lágrimas que rolavam por suas bochechas gordinhas. Seus joelhos estavam colados ao peito e as mãos tremiam levemente. Ela estava segurando seu caderno de desenho contra o corpo como se fosse um escudo protetor.
Tudo tinha acontecido tão rápido. Ela estava caminhando atrás de Tetia, maravilhada com as cores da cidade, quando viu uma borboleta de asas azuis transparentes — uma criatura que parecia carregar um toque de magia viva em seus movimentos. Sem pensar, Coco deu alguns passos para o lado para vê-la de perto. A borboleta pousou em uma carroça, que começou a se mover. Coco a seguiu por alguns metros, depois virou uma esquina, depois outra... e, quando a borboleta finalmente voou alto demais para ser vista, a menina olhou ao redor e percebeu que o mundo conhecido havia sumido.
Não havia Qifrey. Não havia Agott resmungando. Não havia a energia contagiante de Tetia ou o silêncio focado de Richeh. Havia apenas rostos estranhos, vozes altas que ela não reconhecia e ruelas que pareciam todas iguais.
— Mestre... Agott... — ela soluçou baixinho, limpando o nariz com a manga da túnica. — Onde vocês estão? Me desculpem... eu fui boba de novo...
O pânico começou a se instalar, daquele tipo que faz a garganta fechar e o estômago doer. Ela sabia que os bruxos deveriam ser discretos, que ela não podia simplesmente sair gritando por ajuda no meio de uma cidade cheia de não sabem. Ela estava presa, sozinha e terrivelmente assustada.
Até que um som suave quebrou o ruído de seu choro. O som de passos firmes, mas leves, aproximando-se do beco.
Coco encolheu-se ainda mais, temendo que fosse algum guarda ou um desconhecido ríspido mandando-a sair dali. No entanto, quando a sombra se projetou diante dela, não trazia nenhuma hostilidade. Era uma silhueta elegante, envolta em uma capa azul-noturno de tecido nobre que parecia capturar a pouca luz solar daquele beco.
Você parou a alguns passos de distância da menina. Você tinha acabado de sair de uma alfaiataria fina onde comprara alguns rolos de fita de cetim quando ouviu o choro abafado vindo daquela ruela. Ao olhar para dentro, seu coração de bruxa se apertou instantaneamente. Ali estava uma criança, vestindo roupas que você reconheceria em qualquer lugar do mundo: as túnicas de aprendiz de um Ateliê.
Suas botas não eram pontudas como as dos bruxos adultos, mas o corte da roupa e o caderno de feitiços apertado contra o peito não deixavam dúvidas. *Uma aprendiz.* Mas de quem? E o que uma menina tão nova fazia sozinha ali?
Você se agachou lentamente, para ficar na mesma altura que ela, garantindo que sua postura fosse o mais acolhedora possível. Você removeu o capuz de sua própria cabeça, revelando seu rosto e um sorriso caloroso e gentil.
— Olá, pequena — você disse, sua voz saindo como um sussurro suave, projetada para acalmar. — O que aconteceu? Você parece ter perdido o seu caminho.
Coco piscou, erguendo os olhos marejados. A primeira coisa que ela notou em você foi o olhar. Não era o olhar desconfiado dos mercadores ou o olhar distante dos ignorantes. Era um olhar que cheirava a casa, a tinta fresca e a algo caloroso que ela não sabia explicar. As runas bordadas na barra interna da sua capa brilharam de relance, e a sensibilidade mágica latente de Coco captou o sinal imediatamente: *uma bruxa.* Uma bruxa adulta e incrivelmente gentil.
— Eu... eu... — Coco tentou falar, mas um soluço interrompeu sua frase. Ela abraçou o caderno com mais força. — Eu me perdi do meu Mestre e das outras meninas. Eu vi uma borboleta e... e quando eu vi, eles sumiram.
Você sentiu uma onda instantânea de empatia. Você se lembrou de quando era jovem e de como o mundo da magia podia parecer vasto e assustador quando nos separávamos de nossos tutores.
— Ah, as borboletas de Kalhn são realmente muito persuasivas — você brincou levemente, estendendo a mão, mas mantendo-a a uma distância segura para que ela não se sentisse pressionada. — Elas adoram guiar as pessoas para fora do caminho só para verem as reações delas. Não se culpe por isso. É uma armadilha clássica para mentes curiosas.
Coco parou de chorar por um momento, processando as palavras.
— Sério? Elas fazem de propósito?
— Quase sempre — você sorriu, pegando um lenço de linho limpo de dentro de sua bolsa e estendendo para ela. — Aqui, limpe o rosto. Um rosto tão bonito não combina com marcas de lágrimas.
A menina pegou o lenço timidamente, limpando os olhos e as bochechas.
— Obrigada, senhora...
— Pode me chamar de... — você hesitou por um segundo, decidindo que não queria assustá-la com nomes formais de grandes linhagens. — Bem, pode me chamar apenas do que eu sou: uma amiga. E qual é o seu nome?
— Eu sou a Coco! — ela respondeu, a voz ainda um pouco trêmula, mas visivelmente mais calma.
*Coco.*
O nome ecoou na sua mente como um sino de prata. *A nova aprendiz de Qifrey.* A menina vinda do mundo dos não sabe, sobre quem ele havia escrito com tanto carinho e fascínio nas últimas cartas. Seu coração deu um salto de surpresa e alegria, mas você controlou perfeitamente suas feições. Olhando bem para ela agora, você conseguia ver exatamente o que Qifrey descrevera: aqueles olhos grandes e expressivos, cheios de uma pureza e uma curiosidade que eram raras entre os nascidos no berço da magia.
*Então o meu marido está por perto,* você pensou, uma onda de calor e expectativa subindo pelo seu peito. *E ele deve estar arrancando os próprios cabelos brancos de preocupação neste exato momento.*
Você estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.
— Bem, Coco. É um prazer enorme conhecer você. Que tal nós fazermos o seguinte? Eu conheço muito bem esta cidade. Nós vamos dar uma volta pelas barracas principais, ver se encontramos o seu Mestre e, enquanto procuramos, o que você acha de me ajudar a testar alguns doces locais? Ouvi dizer que a barraca ali na esquina tem os melhores algodões-doces de mirtilo da região.
Os olhos de Coco brilharam instantaneamente, as últimas lágrimas secando como se tivessem sido evaporadas por um feitiço de calor.
— Algodão-doce de mirtilo? Eles existem de verdade?
— Oh, sim. E eles mudam de cor se você soprar neles com a intenção certa — você piscou, guardando o lenço de volta e oferecendo sua mão para ela. — Vamos?
Coco não hesitou. Ela segurou sua mão com firmeza, sentindo uma segurança que só havia sentido antes com Qifrey. Havia algo naquela bruxa misteriosa que a fazia se sentir completamente protegida, como se estivesse sob a asa de alguém que já pertencia à sua vida há muito tempo.
...
A caminhada pelo mercado transformou-se rapidamente de uma busca tensa em uma pequena aventura mágica para Coco. Com você ao seu lado, a multidão que antes parecia sufocante agora parecia apenas um cenário vibrante.
Você comprou o algodão-doce para ela. Era uma nuvem imensa e azulada espetada em um palito de madeira fina. Quando Coco deu a primeira mordida, seus olhos quase saltaram das órbitas.
— É tão bom! — ela exclamou, com um pedaço de açúcar azul grudado na ponta do nariz. — E olhe, senhora amiga! Quando eu sopro, ele fica roxo! Isso é magia de verdade ou é só açúcar?
Você soltou uma risada clara e contagiante, tirando delicadamente o doce do nariz dela com o polegar.
— É um pouco dos dois. O confeiteiro usa uma pitada minúscula de pó de transmutação térmica na calda de açúcar. É um feitiço muito simples, daqueles que mudam a cor dos elementos de acordo com o calor do hálito. Não causa dano nenhum e faz as crianças ignorantes pensarem que é apenas um truque de culinária habilidoso.
— Uau... — Coco olhou para o doce com um respeito renovado. — A magia pode ser usada para coisas tão... tão divertidas e pequenas, não é? Eu achava que a magia servia apenas para coisas grandes, como limpar rios ou criar barreiras de proteção.
Você caminhava num ritmo calmo, mantendo os olhos atentos à multidão caso visse a cabeleira branca familiar de seu marido ou as capas das outras meninas, mas aproveitando cada segundo daquela conversa.
— A magia, Coco, é como a água — você explicou, gesticulando suavemente com a mão livre. — Ela pode encher um oceano inteiro e mover navios de guerra, mas também serve para regar uma única e pequena flor no canto de uma janela. O valor dela não está no tamanho do feitiço, mas no sentimento de quem o desenha. Se um feitiço traz um sorriso ao rosto de alguém que está triste, ele é tão poderoso quanto um escudo que para uma espada.
Coco parou de andar por um momento, olhando para você com uma admiração profunda. Ela abraçou seu caderno de desenho contra o peito.
— O meu Mestre diz coisas parecidas. Ele diz que a magia é um presente que deve ser compartilhado para trazer felicidade às pessoas, não para separá-las do resto do mundo.
— O seu Mestre parece ser um homem muito sábio — você disse, mantendo o tom casual, embora seu coração estivesse transbordando de orgulho por Qifrey.
— Ele é! Ele é o melhor Mestre do mundo inteiro!
— Coco disse com entusiasmo, as bochechas corando de orgulho. — Ele tem cabelos brancos que parecem nuvens e usa um óculos porque... bem, ele diz que é um segredo de estilo, mas eu acho que ele é muito misterioso. E ele é tão paciente comigo, mesmo quando eu erro os círculos mágicos ou borro a tinta no pergaminho.
Você sorriu internamente, imaginando perfeitamente a cena de Qifrey limpando tinta dos dedos de Coco com aquele olhar acolhedor que ele guardava para as pessoas que amava.
— E como são suas companheiras de Ateliê? — você perguntou, guiando-a suavemente para longe de uma carroça de feno que passava. — Você mencionou que estava com outras meninas.
— Ah! Tem a Agott! Ela é muito séria e às vezes parece brava, mas ela me ensinou a segurar a caneta de ponta de pena do jeito certo para o traço não sair tremido. Ela quer ser uma bruxa do Grande Salão, sabe? Ela estuda mais do que qualquer pessoa que eu já vi! — Coco começou a contar, gesticulando com o palito de algodão-doce. — E tem a Tetia! Ela é pura alegria! Ela quer criar feitiços que façam as pessoas sorrirem em todo o mundo. E a Richeh... a Richeh é muito quieta, mas ela desenha magias que ninguém mais pensa em desenhar. Ela gosta de fazer as coisas do próprio jeito, e eu acho isso incrível!
Ouvir Coco descrever as meninas era como ver as cartas de Qifrey ganhando vida em alta definição. Toda a saudade que você acumulara nos últimos vinte e quatro meses parecia estar se transformando em uma energia vibrante de pertencimento. Você finalmente estava voltando para o lugar onde seu coração residia.
— Elas parecem uma família maravilhosa, Coco — você comentou de forma doce, ajeitando uma mecha de cabelo que caíra sobre o rosto da menina.
— Elas são a minha família — Coco respondeu, a voz suavizando-se em uma nota de gratidão profunda. — Antes de conhecer o Mestre Qifrey, eu achava que nunca faria parte de algo assim. Eu era apenas uma menina em uma alfaiataria. Mas agora... agora eu sinto que tenho um lugar no mundo. Só sinto falta de uma pessoa que o Mestre sempre menciona nas cartas que ele escreve à noite.
Você parou os passos sutilmente, o interesse aguçado.
— Ah, é? E quem seria?
— A esposa dele! — Coco disse, olhando para você com os olhos arregalados de curiosidade. — O Mestre sempre se senta na mesa do escritório depois que nós vamos dormir e passa horas escrevendo para ela. Uma vez eu perguntei por que ele parecia tão pensativo, e ele me disse que ela estava longe, curando as feridas de uma grande árvore — Coco tentou lembrar-se da metáfora que Qifrey usara. — Ele disse que ela é a bruxa mais inteligente, forte e bonita que ele já conheceu, e que o Ateliê só tem uma cor de verdade quando ela está lá. Nós nunca a vimos, mas a Tetia e eu sempre tentamos adivinhar como ela é. A Tetia acha que ela tem asas de fada ocultas na túnica!
Uma gargalhada genuína escapou de seus lábios, atraindo o olhar de alguns passantes ignorantes, mas você não se importou. A imagem de si mesma com "asas de fada" era hilária, e o fato de Qifrey falar de você daquela forma para as aprendizes fez seus olhos arderem de emoção.
— Asas de fada, é? — você limpou uma lágrima de riso do canto do olho. — Bem, quem sabe a Tetia não esteja certa no final das contas? A magia faz coisas bizarras com as pessoas.
— Você acha que ela vai gostar de mim quando voltar? — Coco perguntou de repente, a voz caindo para um tom inseguro que partiu seu coração. Ela olhou para os próprios sapatos. — Eu sou tão desajeitada... e ainda não sei fazer feitiços complexos como a Agott. Tenho medo de que ela ache que eu não deveria estar no Ateliê.
Você se ajoelhou novamente na frente de Coco, sem se importar se a barra de sua túnica nobre estava tocando a poeira da rua de Kalhn. Você segurou os ombros pequenos da menina com firmeza e olhou diretamente nos olhos dela, transmitindo toda a verdade do seu ser.
— Escute-me bem, Coco — você disse, a voz cheia de uma autoridade amorosa. — A esposa do seu Mestre já ama você. Eu tenho certeza absoluta disso. Pelas coisas que você me contou, ela sabe exatamente o quanto você é especial, o quanto o seu coração é puro e o quanto você traz felicidade para aquele Ateliê. Ela não se importa se você borra a tinta ou se erra os círculos. Ela se importa com o fato de você ser a Coco. E quando ela voltar, o maior desejo dela será dar um abraço muito apertado em você e dizer: 'Obrigada por cuidar do meu marido e por trazer tanta luz para a nossa casa'. Você entendeu?
Coco olhou para você, as bochechas avermelhadas e os olhos brilhando com uma nova onda de emoção, mas desta vez não era de tristeza. Era de uma validação tão profunda que ela sentiu como se um feitiço de cura tivesse sido lançado em sua alma.
— Entendi... — ela sussurrou, abrindo um sorriso radiante. — Obrigado, senhora amiga. Você realmente sabe muito sobre o coração das pessoas.
— É o meu trabalho — você piscou, levantando-se e limpando a poeira da túnica. — Agora, chega de conversa sentimental. Nós temos um Mestre desorientado para encontrar. Olhe ao redor, você reconhece alguma dessas lojas onde costuma passar com ele?
Coco girou o corpo, examinando a rua em que estavam entrando. Era uma alameda ligeiramente mais calma, com fachadas de lojas mais antigas e tradicionais. De repente, os olhos dela fixaram-se em uma placa de latão que balançava suavemente com o vento acima de uma porta de carvalho escuro. A placa mostrava o desenho de uma balança estilizada.
— Aquela ali! — Coco apontou com entusiasmo, pulando no lugar. — Aquela é a loja do Sr. Nolnoa! Foi a primeira loja onde nós fomos quando chegamos em Kalhn! O Mestre me disse que se nós nos separássemos, aquele seria o ponto de encontro! Como eu fui esquecer disso?
Você olhou para a fachada da loja e um sorriso cúmplice surgiu em seus lábios. Você conhecia muito bem o Sr. Nolnoa; ele era um fornecedor de itens mágicos de longa data de Qifrey e da sua própria família.
— Excelente memória, pequena borboleta — você elogiou, dando um leve toque no capuz dela. — Vamos entrar. Mesmo que o seu Mestre não esteja lá dentro agora, o Sr. Nolnoa com certeza pode enviar uma mensagem mágica para ele ou nos dizer se ele passou por lá recentemente.
Coco agarrou sua mão novamente, puxando-a com uma energia renovada em direção à porta de carvalho.
...
Dentro da loja do Sr. Nolnoa, a atmosfera era o oposto do caos do mercado externo. O ar cheirava a cera de abelha, sândalo e o aroma metálico característico de tintas ricas em minerais mágicos. Prateleiras do chão ao teto exibiam potes de vidro com pós coloridos, rolos de pergaminho de todas as espessuras e penas de escrita provenientes de aves raras de todo o continente.
Atrás do balcão de madeira polida, um homem idoso de óculos redondos e cabelos grisalhos organizava alguns frascos. Mas ele não era o único ali dentro.
Perto da lareira apagada, o ambiente estava carregado de uma tensão pesada. Qifrey estava encostado contra uma mesa, a testa franzida e a mão direita massageando as têmporas com visível exaustão mental. Ele já havia refeito os passos até os portões da cidade duas vezes, sem sucesso.
Ao lado dele, as três meninas pareciam igualmente exaustas e desanimadas.
— Eu verifiquei todas as barracas de doces e frutas na ala norte — Richeh disse, sentando-se em um banco de madeira baixa, com as pernas balançando. — Ninguém viu uma menina com o capuz do Ateliê. Só uma mulher vendendo tortas que achou ter visto alguém parecido ir em direção ao rio, mas era um alarme falso.
— Nós vasculhamos a ala leste inteira — Tetia murmurou, a energia vibrante de antes completamente dissipada. Ela estava sentada no chão, encostada nas pernas de Agott. — Perguntei para todos os mercadores de fitas e brinquedos. Nada. Mestre... e se alguém a levou? E se os cavaleiros de Moralis ou... ou os Chapéu de Aba a encontraram?
— Não diga bobagens, Tetia! — Agott ralhou, embora sua própria voz estivesse um oitavo acima do tom normal, denunciando seu nervosismo. Ela estava de pé, com os braços cruzados, os olhos fixos na porta da loja. — O Mestre não deixaria nada acontecer com ela. Nós só precisamos... pensar de forma lógica. Ela não pode ter ido longe. Ela não conhece a cidade.
Qifrey ergueu os olhos, a expressão sombria sob a luz fraca da loja. O óculos parecia destacar ainda mais as linhas de preocupação ao redor de seu único olho visível.
— A Agott está certa, Tetia. Não vamos tirar conclusões precipitadas — ele disse, embora sua própria voz estivesse mais rouca que o normal. Ele tentava manter a fachada de pilar de sustentação para as meninas, mas por dentro, o medo de que os Chapéus de Aba tivessem aproveitado aquele momento de distração para capturar Coco estava corroendo sua mente. — O Sr. Nolnoa já está preparando um feitiço de localização usando um pedaço do fio da túnica que a Coco deixou no Ateliê. Nós vamos encontrá-la. Eu prometo.
O Sr. Nolnoa, ouvindo a conversa, ergueu os olhos de seu trabalho no balcão.
— O feitiço está quase pronto, Qifrey. Mas você sabe que em uma cidade com tanta interferência mágica latente como Kalhn, a precisão pode demorar alguns minutos para se estabilizar...
Antes que o velho lojista pudesse terminar a frase, o sino de bronze acima da porta de carvalho badalou com um som claro e estridente.
*Trim-trim.*
O som cortou o silêncio tenso da loja como uma lâmina. Instintivamente, todas as cabeças no recinto se viraram em direção à entrada.
A porta abriu-se por completo, deixando entrar uma lufada de vento fresco da tarde e a luz dourada do sol poente. E, cruzando o limiar, com um pedaço de algodão-doce azul pela metade em uma das mãos e um sorriso gigante que ia de orelha a orelha, estava ela.
— Mestre! Meninas! — Coco gritou, a voz transbordando de alegria pura, quebrando instantaneamente toda a atmosfera de velório que dominava a loja.
— Coco! — Tetia deu um salto tão rápido que quase derrubou Agott no processo, correndo em direção à amiga.
— Você está bem! — Agott exclamou, dando dois passos à frente, deixando escapar um suspiro longo de alívio que ela tentou disfarçar rapidamente com uma expressão severa.
Qifrey sentiu como se um peso de dez toneladas tivesse sido retirado de seus ombros. Ele não andou; ele praticamente voou através do espaço entre a mesa e a porta, caindo de joelhos na frente de Coco e segurando-a pelos ombros, examinando cada centímetro de sua túnica e de seu rosto para garantir que ela não tinha nenhum arranhão.
— Coco! Pelos céus, onde você estava? — a voz de Qifrey tremeu sutilmente, revelando a extensão de sua angústia anterior. — Nós procuramos por você em todo o mercado! Eu achei que...
— Me desculpa, Mestre! Me desculpa mesmo! — Coco disse, abraçando o pescoço dele com a mão livre, tomando o cuidado de não melar o cabelo dele com o algodão-doce. — Eu me perdi seguindo uma borboleta azul. Eu fiquei com muito medo e comecei a chorar num beco escuro...
Qifrey fechou os olhos por um segundo, abraçando-a de volta com força.
— Está tudo bem... o importante é que você está salva. Mas como você conseguiu voltar para cá? Você lembrou o caminho sozinha?
— Não! — Coco desfez o abraço, apontando com entusiasmo para a figura que ainda estava parada logo atrás dela, sob a sombra do portal da loja. — Eu tive ajuda! Uma bruxa incrivelmente gentil me encontrou no beco. Ela me deu um lenço, limpou minhas lágrimas, comprou algodão-doce de mirtilo para mim e nós conversamos sobre um monte de coisas legais sobre magia! Ela me ajudou a achar a loja do Sr. Nolnoa!
As outras três meninas — Agott, Tetia e Richeh — aproximaram-se, os olhos fixos na figura misteriosa que acompanhava Coco. Elas notaram imediatamente a elegância da túnica e a aura de poder sutil, mas refinado, que emanava dela.
Qifrey, ainda de joelhos, começou a se levantar, ajustando suas próprias vestes. Ele colocou a mão no peito, preparando-se para fazer a saudação formal dos bruxos e expressar sua gratidão eterna à desconhecida que salvara sua aprendiz mais preciosa de um destino potencialmente terrível.
— Eu não sei como agradecer a sua bondade, senhora... — Qifrey começou, erguendo o olhar para encarar a salvadora de Coco. — A sua intervenção hoje salvou não apenas esta menina, mas o coração de todo o nosso Ateliê...
A voz dele falhou. As palavras simplesmente sumiram de sua garganta, morrendo no ar antes que ele pudesse terminar a frase de agradecimento.
Você, que estivera observando toda a cena com um sorriso terno nos lábios e os braços suavemente cruzados sob a capa, deu um passo à frente, saindo da sombra do portal e entrando plenamente sob a luz morna que entrava pela janela da loja.
Você removeu completamente o capuz de sua capa azul-noturno, deixando que seus cabelos balançassem levemente com o movimento. Seus olhos encontraram o único olho visível de Qifrey. Aquele azul profundo que você tanto vira em seus pensamentos nos últimos dois anos estava ali, arregalado em uma mistura de choque absoluto, descrença e uma alegria tão avassaladora que parecia que ele ia desabar ali mesmo.
Você abriu um sorriso largo, aquele sorriso específico que guardava apenas para ele nas manhãs silenciosas do Ateliê.
— Ora, Qifrey... — você disse, sua voz soando suave, divertida e carregada de uma saudade profunda. — É esse o tipo de recepção formal que eu recebo depois de passar dois anos lidando com os burocratas da minha família? Esperava pelo menos um abraço em vez de um discurso de agradecimento digno de um oficial do Grande Salão.
O silêncio na loja tornou-se absoluto. O Sr. Nolnoa soltou uma risada baixa e rouca atrás do balcão, ajustando os óculos. Agott franziu o cenho, processando as palavras. Tetia olhou de você para Qifrey com os olhos arregalados, e Richeh deu um passo à frente, expressando a primeira reação visível de surpresa do dia.
— M-Mestre? — Coco gaguejou, olhando para você e depois para Qifrey, completamente confusa. — Você... você já conhece a senhora amiga?
Qifrey não respondeu a Coco. Ele parecia ter esquecido como se falava, como se respirava ou como se movia. Seus olhos examinaram seu rosto, fixando-se em cada detalhe que ele passara as últimas setecentas noites tentando recriar em sua mente. A curvatura do seu sorriso, o brilho acolhedor do seu olhar, a presença reconfortante que sempre fora a sua âncora no mundo.
— ...É você — ele finalmente conseguiu sussurrar, a voz saindo quase como um sopro, frágil e trêmula. — Você... você voltou.
— Eu voltei, meu amor — você respondeu, dando mais dois passos em direção a ele, diminuindo a distância que os separara por tanto tempo.
Antes que você pudesse dar o terceiro passo, Qifrey quebrou qualquer protocolo de postura ou elegância que um Mestre bruxo deveria manter. Ele avançou o espaço restante em um piscar de olhos, envolvendo os braços ao redor de sua cintura com uma força que quase tirou seus pés do chão. Ele enterrou o rosto no vão do seu pescoço, respirando o cheiro do seu perfume — que ainda era o mesmo de lavanda e folhas de chá que ele tanto lembrava.
Você soltou um pequeno suspiro de alívio e surpresa, envolvendo os braços ao redor dos ombros dele com a mesma intensidade. Suas mãos acariciaram os cabelos brancos e macios de seu marido, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. Toda a exaustão dos últimos dois anos, todas as noites mal dormidas resolvendo disputas familiares, todas as assinaturas de contratos enfadonhos... tudo aquilo desapareceu no segundo em que os braços de Qifrey se fecharam ao seu redor.
Você estava em casa.
— Eu senti tanto a sua falta — ele murmurou contra a sua pele, a voz abafada, mas carregada de uma emoção tão crua que fez seus próprios olhos lacrimejarem. — Todo dia. Toda noite. O Ateliê estava tão cinzento sem você.
— Eu também senti sua falta, meu querido — você sussurrou de volta, apertando-o contra si, permitindo-se esquecer por alguns instantes que havia quatro crianças e um lojista idoso assistindo à cena. — Mas eu cumpri minha promessa. Tudo foi resolvido. Eu não vou a lugar nenhum agora.
...
Enquanto o casal permanecia abraçado no centro da loja, assimilando o impacto do reencontro, na ala lateral, quatro pares de olhos observavam a cena com diferentes níveis de iluminação mental.
Tetia de repente bateu uma mão contra a outra, dando um salto que chamou a atenção de todas as outras meninas.
— Espera aí! Espera aí! Se o Mestre chamou ela de 'meu amor'... e se ela disse que estava resolvendo problemas de família... e se ela conhece o Mestre... isso significa que ela é...
— A esposa do Mestre — Agott completou a frase, sua voz caindo em um tom de surpresa respeitosa. Ela ajustou a postura, olhando para você com um olhar totalmente novo, avaliando a presença poderosa e elegante que você emanava. — A bruxa de quem ele sempre fala.
Coco, que ainda segurava seu algodão-doce, abriu a boca em um formato perfeito de 'O'. Seus olhos alternaram entre você e Qifrey umas três vezes antes que a ficha finalmente caísse em sua mente com o impacto de um meteoro mágico.
— Você... você é a esposa do Mestre? — Coco exclamou, as bochechas ficando vermelhas como pimentões ao lembrar-se de tudo o que dissera para você no caminho. — A bruxa de quem ele escreve as cartas? A pessoa que eu achei que ia me achar desajeitada?
Qifrey finalmente desfez o abraço sutilmente, embora mantivesse uma das mãos firmemente entrelaçada na sua, como se temesse que, se a soltasse, você desapareceria como uma ilusão mágica. Ele se virou para as meninas, exibindo um sorriso que era o mais radiante e genuíno que as aprendizes já haviam visto em seu rosto desde que entraram para o Ateliê.
— Meninas, por favor, aproximem-se — Qifrey chamou, a voz transbordando de orgulho. Ele olhou para você com um carinho infinito antes de gesticular para as quatro pupilas. — Esta é a minha amada esposa. A verdadeira senhora do Ateliê. Aquela que mantém este lugar — e a mim — em ordem.
Você deu um passo à frente ao lado dele, mantendo a mão dele firme na sua, e olhou para as três meninas que ainda não tinha tido a oportunidade de saudar.
— É um prazer enorme finalmente conhecer vocês pessoalmente — você disse, sua voz enchendo a loja com um tom caloroso e materno. — Agott, Tetia, Richeh. E, claro, a pequena Coco, com quem eu já tive a honra de compartilhar uma tarde deliciosa.
Tetia deu um passo à frente, curvando-se com tanto entusiasmo que quase perdeu o equilíbrio.
— É uma honra conhecê-la, Senhora! O Mestre fala tanto da senhora que eu achei que a senhora tinha asas de fada! Desculpe por isso!
Você soltou uma risada suave, piscando para Tetia.
— Está tudo bem, Tetia. Na verdade, as asas de fada estão guardadas no armário do Ateliê, junto com as túnicas de gala. Eu só as uso em ocasiões muito especiais.
Tetia soltou um som de admiração genuína, enquanto Agott revirava os olhos com um leve sorriso no rosto. Agott deu um passo à frente, curvando-se de forma muito mais formal e elegante.
— É uma honra tê-la de volta, Senhora. O Mestre tem sido... consideravelmente mais distraído do que o normal na sua ausência. Esperamos que sua presença ajude a focar as lições novamente.
— Ah, eu pretendo fazer exatamente isso, Agott — você respondeu com um olhar cúmplice para a jovem prodígio. — E eu trouxe algumas tintas minerais raras da biblioteca da minha família que acho que você vai achar fascinantes para os seus estudos de contra-feitiços.
Os olhos de Agott brilharam de imediato, sua postura rígida quebrando-se por um segundo em puro entusiasmo de estudante.
Richeh aproximou-se em seguida, as mãos atrás das costas, olhando para você com aquela curiosidade silenciosa que era só dela. Ela inclinou a cabeça para o lado.
— O Mestre disse que você sabe fazer feitiços que conversam com as plantas do jardim sem precisar desenhar círculos no chão de terra. Isso é verdade?
— É um segredo de família que envolve a preparação certa da tinta na sola dos sapatos, Richeh — você sussurrou de forma misteriosa, fazendo com que a menina abrisse os olhos em um vislumbre de puro interesse. — Eu ficarei feliz em mostrar a você amanhã de manhã.
Por fim, Coco aproximou-se lentamente, parecendo um pouco encabulada por não ter reconhecido você antes. Ela olhou para o lenço de linho que ainda segurava na mão.
— Desculpe por não ter percebido antes, Senhora... — ela murmurou. — Eu falei tantas coisas...
— Coco, o que foi que eu disse para você lá no mercado? — você perguntou com uma voz doce e acolhedora. — Eu disse que a esposa do seu Mestre já amava você. E eu não estava mentindo. Obrigada por cuidar tão bem do Qifrey e por trazer tanta alegria para a nossa casa enquanto eu estava fora. Você é exatamente a menina maravilhosa de quem ele me falou nas cartas.
Você se soltou gentilmente da mão de Qifrey e se agachou mais uma vez na frente de Coco, pegando as mãos pequenas dela entre as suas.
Coco olhou para você, sentindo toda a insegurança que carregara desde que entrara no mundo dos bruxos se dissipar por completo. Ela não resistiu e deu um passo à frente, envolvendo os braços ao redor do seu pescoço em um abraço apertado e sincero. Você a acolheu com carinho, sentindo que o Ateliê tinha ganhado não apenas mais uma aprendiz, mas uma alma preciosa que completava a família de vocês.
Qifrey assistia à cena com o peito tão cheio de felicidade que parecia difícil respirar. Ele olhou para o Sr. Nolnoa, que apenas assentiu com um sorriso sábio, feliz por ver o jovem bruxo finalmente completo novamente.
...
Depois que os agradecimentos formais ao Sr. Nolnoa foram feitos — e você fez questão de pagar pelas tintas e pergaminhos que Qifrey esquecera de finalizar devido ao pânico —, o grupo finalmente deixou a loja.
A carruagem que trouxera você estava esperando na praça, mas com a noite caindo e o céu se transformando em um manto de veludo azul salpicado pelas primeiras estrelas, você e Qifrey decidiram que caminhar de volta para o Ateliê seria muito mais agradável. As bagagens pesadas e os suprimentos foram colocados na carruagem, que seguiu à frente pela estrada principal.
O caminho de subida para a colina era silencioso, iluminado apenas pela luz suave de algumas lanternas mágicas que Tetia e Coco haviam desenhado em pequenos pedaços de papel, fazendo-as flutuar ao redor do grupo como grandes vaga-lumes dourados.
À frente, as quatro meninas caminhavam juntas. Coco e Tetia iam na liderança, rindo alto enquanto Coco tentava terminar seu algodão-doce antes que ele derretesse completamente com o frio da noite. Agott caminhava logo atrás, ocasionalmente corrigindo a postura de Tetia ou advertindo as duas para não tropeçarem nas pedras do caminho, mas havia uma leveza em seus passos que não estava lá antes. Richeh vinha ao lado de Agott, com os olhos fixos no céu estrelado, talvez imaginando como traduzir as constelações em um novo padrão de feitiço.
Alguns metros atrás delas, você e Qifrey caminhavam em um ritmo lento, desfrutando da proximidade física que lhes fora privada por tanto tempo. Seus dedos estavam firmemente entrelaçados com os dele, e a capa azul-noturno de você roçava sutilmente na túnica clara dele a cada passo.
— Elas são realmente incríveis, Qifrey — você comentou em voz baixa, olhando para as quatro silhuetas à frente. — Suas cartas foram maravilhosas, mas ver a dinâmica delas pessoalmente... você fez um trabalho extraordinário como Mestre.
Qifrey parou os passos por um momento, puxando você sutilmente para a beira do caminho, onde a colina oferecia uma vista panorâmica de toda a cidade de Kalhn iluminada lá embaixo. Ele se virou para você, o vento da noite agitando seus cabelos brancos.
— Eu fiz o melhor que pude — ele disse, a voz suave e cheia de uma honestidade profunda. — Mas a verdade é que eu estava apenas guardando o lugar para quando você voltasse. O Ateliê precisa da sua guia tanto quanto precisa da minha. Eu sou o Mestre delas, mas você... você é o coração daquela casa. Ver como a Coco se apegou a você em questão de horas... você tem esse dom. Sempre teve.
Você ergueu a mão livre, tocando o rosto dele, os dedos traçando a linha de sua mandíbula até a borda do óculos.
— Eu senti tanta falta de ouvir você dizer essas coisas cafonas.
Qifrey soltou uma risada baixa, aquela risada que fazia os olhos dele se curvarem em linhas de pura felicidade. Ele segurou a sua mão que estava em seu rosto, pressionando uma muda de beijos calorosos na palma da sua mão.
— Eu posso ser o homem mais cafona do mundo, desde que seja com você — ele respondeu, os olhos fixos nos seus com uma intensidade que fez seu coração acelerar exatamente como na primeira vez em que ele se declarara para você, anos atrás. — Obrigado por voltar para mim. Obrigado por voltar para nós.
— Eu sempre voltaria para você, Qifrey. Em qualquer vida, em qualquer circunstância — você prometeu, aproximando-se mais e selando aquela promessa com um beijo longo, terno e profundo.
O beijo carregava o gosto da saudade que finalmente terminava, o calor do outono de Kalhn e a promessa de um futuro brilhante que vocês dois construiriam juntos a partir daquela noite. Quando vocês se separaram, ele envolveu o braço ao redor dos seus ombros, puxando você para perto enquanto recomeçavam a caminhar colina acima.
Você ergueu os olhos, olhando além das copas das árvores. Ali, encrustado na rocha da montanha, com suas janelas circulares emitindo um brilho caloroso e acolhedor de velas e lareiras, estava o Ateliê. O lugar onde você aprendera o verdadeiro significado de lar.
— Ei! Mestre! Senhora! — a voz de Tetia ecoou de mais cima na colina. Ela estava parando na curva da estrada, apontando para frente. — Olhem! Já dá para ver as luzes do Ateliê!
Coco parou ao lado de Tetia, acenando para vocês dois com um sorriso radiante.
— Vamos logo! Eu quero mostrar para a Senhora o meu canto de estudos e o desenho que eu fiz ontem!
— Nós já estamos indo, Coco! — você respondeu de volta, sua voz ecoando pela noite da colina.
Qifrey apertou o abraço ao redor de seus ombros, um suspiro de contentamento absoluto escapando de seus lábios.
— Bem-vinda de volta para casa, minha vida.
Você olhou para o Ateliê, para o homem ao seu lado e para as quatro meninas que esperavam por vocês na entrada do caminho. O fio de prata que unia suas vidas, que por tanto tempo fora esticado pela distância, agora estava firmemente amarrado no lugar a que pertencia.
— É muito bom estar de volta — você sorriu, e juntos, vocês deram os últimos passos em direção à luz.















