Interações com a Morte #1
A realidade é maior do que minha consciência. Coisas saem do meu controle e se manifestam como surpresas e rupturas.
E há um aspecto de clareza: a impermanência é aguda, intensa, selvagem. Se não cuido de estar presente, me sinto desafiado, confrontado, atacado.
Noto que uma vez mais congelei a realidade dentro de deverias e poderias, dentro de fantasias, daquilo que talvez fosse melhor para mim.
E essa realidade congelada não tem chance diante da verdadeira realidade que é bastante irreverente em relação ao que sonho.
Aprendo a notar o hábito de congelamento, ou fixação da realidade. Abro mão imediatamente do deveria, da esperança, do conhecimento mofado.
Surge o corpo, contraído, palpitando, ainda sob efeito da fixação mental. Então alinho-me com o tato, relaxo músculos, fluo a respiração.
Demandas do corpo atendidas, volto, por assim dizer, à mente. Noto que estou travado numa certa consciência que não dialoga com a realidade.
Essa consciência me impede de ver as coisas como são, e normalmente é autocentrada e fundamentalista. Então, libero essa consciência.
Sobra um senso de um sujeito dentro disso tudo, esse "eu" que parece contínuo e que deve ser protegido. Noto: trata-se de um mero pensamento.
A mera ciência de que esse eu tem a substância de um pensamento parece produzir ausência de luta, algo como, digamos, abertura-frescor.
Agora volto para re-conhecer o que parece estar à frente de modo mais refrescado, com maior presença, talvez a partir de ângulo mais hábil.
Esses ângulos já são fixações mas podem ser consciências ampliadas, menos atulhadas, menos autocentradas, quem sabe melhor humoradas.















