Como vocês estão? Espero que estejam bem, porque eu acabei de sair viva de algo assustador.
Vou relatar desde o início.
Assim que saí da Terra após a Fest Comix fiquei sem combustível para minha nave depois de realizar mais uma dobra antes que os radares da Terra me encontrassem. E tive de descer no primeiro planeta que encontrei, então deixarei um aviso antes de contar do que escapei: NÃO DESÇAM EM PLANETAS DESCONHECIDOS CUJO NAVEGADOR SEQUER SABE O NOME.
Como eu já contei eu tive de fazer um pouso para reabastecimento. Depois de encher o tanque senti o cansaço bater e resolvi que seria bom encontrar um lugar por ali para dormir. Encontrei uma casa meio velha, mas estava boa ainda e sequer cheirava a mofo (se é que naquele lugar existe mofo). Entrei e me aconcheguei em um dos quartos. Eu estava no meio da noite quando escutei um choro, um choro agudo que até me lembrou um gato, mas gatos domésticos são raros pelo universo, então deduzi que era mesmo um bebê, já que a maioria das espécies se reproduzem e geram crianças. Eu me descobri para descobrir de onde vinha o barulho e foi ai que tudo começou.
Uma pequena bolota de carne cinzenta chorava deitada ao meu lado, os olhos completamente negros me fitaram e ele esticou os bracinhos, aquilo não poderia ser algo bom, eu devia ter suspeitado disso desde o começo. Me aproximei do filhote de sei lá o que e então ele me mostrou os vários dentes pontiagudos que guardava no que descobri ser uma bocarra. Me afastei assustada e fui buscar algo para me livrar daquilo, consegui chegar até a cozinha e encontrei algo como uma faca. Aquela casa era bem terráquea para um planeta não catalogado (isso deveria ter me deixado mais alerta ainda, mas fazer o quê).
Quando retornei com a faca o filhote de Cruz Credo não estava mais na cama e em nenhum lugar. Saí do quarto quando vi um vulto no corredor dos quartos, olhei e encontrei um Cruz Credo adulto. Se o pequeno já era uma visão horrível o crescido era ainda pior. Os olhos agora pareciam devorar sem se mover (eles não piscavam ou sequer moviam o que parecia ser um enorme globo ocular), ele tinha um corpo esguio que se movimentava de forma lenta. Eu me aproximei, quando ele disse algo. Meu tradutor não captou o que era, sequer conseguiu traduzir um A do que ele pronunciou. Nesse momento de erro do tradutor algo além do corredor de moveu, eu não via nada, mas dava para sentir que algo se aproximava, a adrenalina corria por minhas veias quase as rasgando. Outro Cruz Credo adulto apareceu.
Um já era o bastante para me assustar, mas o segundo ele era uma figura a parte. Tinha duas cabeças, porém a segunda saia da primeira (a que deduzi ser a primeira) que era a única a possuir um pescoço, o outro broto de cabeça não tinha um rosto e parecia ter sido atropelado várias vezes.
Aquele segundo ser também me encarou enquanto o Cruz Credo invisível se aproximava e cada vez mais rápido, até que parou... Os dois adultos, um de cada lado do corredor, me encaravam e falavam as coisas estranhas. De lugar nenhum surgiu um enorme tentáculo que teria dado inveja a qualquer polvo ou lula da Terra, aquela coisa se aproximou de mim quando finalmente consegui pensar em algo e o acertei com a faca que eu tinha em mãos, o enorme membro se recolheu com um som que me deixou tonta, me atordoou até que eu desmaiei.
Quando acordei alguém mais entrava na casa, era uma família. Não eram terráqueos, pela aparência vinham de algum planeta da estrela Kepler-18. Tentei avisá-los para não entrar, mas até passarem pela porta pareceram não me ver. A mãe deu um grito ao me encontrar, humanos terráqueos não são muito comuns por ai a fora.
O pai a acalmou enquanto os filhos pareciam curiosos.
Tentei alertá-los sobre o que acontecia na casa, porém o tradutor não estava mais funcionando, por mais que eu soubesse um pouco sobre o dialeto de Kepler não era o suficiente para explicar o que acontecia naquela casa. Então, me limitei a perguntar se eles tinham uma nave lá fora. O mais novo me explicou que tinham ficado sem combustível e por isso desceram até ali.
Depois dessa breve comunicação, andei pela casa em busca de ferramentas que pudessem me ajudar a arrumar meu tradutor. Encontrei um porão, lá tinha várias ferramentas além de um quarto montado aguardando por um hospede. Peguei o que eu precisava e voltei para a sala, fiz a nada confortável remoção do tradutor, eu precisava raspar meu dedo fundo na garganta até conseguir senti-lo, desativar seu sistema para, enfim, arrancá-lo. Comecei meu trabalho.
Eu estava quase concluindo quando escutei aquele som, o agudo que me intrigara na noite anterior. Olhei em volta e só, então, percebi que a família não estava ali. Gritei algo bem básico que na tradução seria: Mata o bebê.
Porém quando entrei no quarto já era tarde, e estranho. O pai segurava o filhote de Cruz Credo nos braços como se fosse o ser mais vulnerável do universo. A mãe voltava da cozinha quando algo a atraiu no corredor. O pai saiu do quarto para ver o que a mulher via, e o filho mais novo curioso fez o mesmo. O primeiro Cruz Credo surgiu, ele nos analisou e parou o olhar sobre mim, minha espinha deu um arrepio que acho que se ela conseguisse teria saído correndo. Algo voltou a se mexer no corredor.
A menina, mais velha, saiu do quarto e virou para os outros quartos, justamente no corredor da criatura, foi quando percebemos que uma barreira tinha sido colocada ali. O segundo Cruz Credo apareceu e ao encarar a família fez todos se afastarem e o mais novo dar um grito ensurdecedor.
A coisa do corredor voltou a mexer e parou, dessa vez o que foi posto para fora não era um tentáculo, na verdade, não era nada, mas agarrou a mãe e a segurou como que tapando sua boca evitando gritos, ela foi sugada para o fundo do corredor e sumiu.
A menina desesperada correu para a porta (o que me fez pensar porquê eu ainda não tinha tentado fugir dali), passou e surgiu na outra ponta do corredor, ela deu um grito que por ele percebemos que não poderíamos fugir dali. Eu passei pela porta e saí ao lado dela. Mas o que raios acontece com esse lugar?
O pai olhava o bebê em seu colo quando os dentes surgiram e ele largou a criança que antes de atingir o chão tinha sumido. Estávamos os quatro presos e uma morta. Nesse momento de morte certa sentimos nossos instintos aflorarem, mesmo que você tenha se afastado trilhões de anos dos seus antepassados cavernosos você ainda vai sentir os instintos animalescos crescerem dentro de você.
Contei a eles do porão (depois de arrumar o tradutor). O pai empurrou a filha para lá antes do cair da noite, a trancou sozinha naquele lugar estranho, porém não mandou o mais novo, eu descobriria depois que o mais novo costumava pensar antes de agir, não que isso aumentasse suas chances de sobrevivência.
Ao cair da noite o choro ecoou pela casa, estávamos todos na sala, o menino olhou o pai que pediu para ele se acalmar. Minhas mãos suavam.
Nenhum Cruz Credo adulto surgiu naquela noite.
Durante o dia levamos comida e água para a menina do porão, ela estava péssima, mesmo que só tivesse passado uma noite ali.
- Era aniversário da minha mãe - ela me revelou quando levei o almoço - Ela queria assistir uma Supernova.
- Sinto muito... - eu me levantei.
- Você acha que tudo apenas acontece ai em cima? - eu a observei, ela sorriu - Você consegue nos tirar dessa, terráquea?
- Eu quero sair dessa - falei mais para mim do que para ela.
A noite voltou a cair, os ciclos ali eram mais curtos agora, a primeira noite, aparentemente durou 12 horas e agora durava alguns minutos.
- É como em casa - o menino falou.
Ele me descreveu como via a casa e percebi que ela se adequava ao psicológico de quem estava nela. Os dias eram os de Kepler, a estrutura cada um via da sua forma. Agora como iriamos nos livrar de tudo isso era o que mais me preocupava.
Ao cair da noite o choro voltou. O menino precisou ir ao banheiro e percebemos que algo com sua ida ao banheiro falhou, um Cruz Credo adulto passou pelo corredor, o pai foi correndo ver o filho. O menino estava de frente para o Cruz Credo bebê. Minhas mãos suavam com a faca, o movimento no corredor. No porão a menina batia desesperada na porta tentando sair. Algo estava muito errado com aquele lugar.
Me aproximei do primeiro Cruz Credo, aqueles olhos negros ainda queriam me devorar eu percebia isso e meus instintos primitivos pediam para eu ficar bem afastada dele. O segundo surgiu, a menina conseguiu derrubar a porta quando o corredor começou a se mexer.
Eu sentia náuseas. Meu estomago revirava em minha barriga, mas eu não tirava os olhos do Cruz Credo e então percebi, nada funcionava se eram encarados de frente.
- Saiam! - gritei para a família.
O pai tinha o Cruz Credo bebê preso em seu ombro, o mordia como se ele não tivesse ossos.
Os olhos do pai começaram a enegrecer...
Eu tinha perdido o contato visual, mas nada se mexia, nem o monstro se aproximava. Peguei a mão do menino e da menina e os puxei para fora da casa. Não voltamos para dentro dela, os dois correram para sua nave, eu corri para a minha. Da minha nave eu podia ver os seres na janela, nos observavam. Decolamos...
Pelo comunicador eu ouvia o menino chorar. A irmã mais velha tentava acalmá-lo. Me despedi dos dois e segui meu caminho tentado recuperar da experiência.
Os Cruz Credos se “reproduziam” pegando os visitantes. Eles brincam com as mentes daqueles que entram na casa e depois de capturá-los os transformam, assim como aconteceu com o pai das crianças.
Às vezes, eu ainda escuto um choro de criança, fecho meus olhos e só torno a abri-los quando ele cessa.
Eu não sei se é real ou coisa da minha cabeça, mas eu não quero arriscar.
Então é isso, Astronautas, Exploradores Espaciais e Suicidas Espaciais em Potencial. Essa foi uma das minhas piores experiências pelo espaço. Espero que ninguém nunca passe por isso e que eu consiga colocar esse lugar no sistema para que minha nave nunca mais pouse por lá. Aguardem pelo próximo evento.
Abraços e beijos anti-gravitacionais e até a próxima.