Lembrança significativa ou má recordação.
09.10.18
Dois dias se passaram desde as eleições; dentro de tantos acontecimentos devido as escolhas dos eleitores que deixou tudo dividido entre opiniões e certezas o que nos deixa em estado de calamidade. Só nos resta esperar pelo dia do segundo turno para nos prepararmos para o que vier e então sentir o peso do voto nos próximos meses e anos. O dia da eleição sempre me deixa em total nostalgia, pois vamos à escola para votar. No meu caso, não voto na escola em que estudei nem mesmo antes do ensino fundamental, mesmo assim é uma sensação intrigante. O que consegui pensar e decidir desta vez foi em passar na escola da qual me formei. Na maioria das votações vou acompanhada de um amigo que também se formou comigo. Éramos da mesma sala, e como um dos dois únicos amigos que fiz na escola ele foi o escolhido para visita-la comigo nestas eleições. Assim que saímos da outra escola fomos a um mercado comprar uma bebida já que eu tinha planos de encontrar uma amiga e uma “paquera” – que no fim acabou dando tudo errado – e em seguida íamos para a nossa antiga escola, porém essa foi a sentença que ele soltou “não vou a nossa escola com a bebida, mesmo que não estejamos bebendo, não quero correr o risco de ser preso hoje”. Ele riu, e eu achei um exagero já que estava numa sacola, mas não queria ser presa também. Nunca se sabe o que se passa na cabeça das pessoas. Mais tarde do mesmo dia assisti a vídeos na internet onde mulheres eram fortemente questionadas e acusadas de fazer boca de urna com suas camisetas estampando seus respectivos candidatos, neste caso talvez tenham perdido a chance de votar, mas não sei ao certo o desfecho. Decidi levar a bebida até em casa desde que a escola fica apenas uma rua de distância; mantive a bebida em casa pois haviam furado com os planos, e ele aproveitou para pegar a blusa e um livro que o presenteei. Chegando na rampa para entrar na escola senti uma sensação tão forte que respirar fundo quase me fez cair no choro. Perguntei a ele se ele também sentia, ele negou, mas eu não acredito. Bom, talvez seja isso mesmo, algumas pessoas sentem outras não. Por cada quadro de plano que enxergava me via nos tempos de aulas e me vejo recordando as atividades que aconteciam. Uma vez da qual tentei fugir da professora de português pois sabia que ela me daria aquela bronca pelo trabalho de fim de semestre mal feito, ali no corredor da diretoria. Ela sabe que até hoje me envergonho de não ter dado o meu melhor, mas isso não o torna esquecido, talvez perdoado. Recordo-me da quinta série onde tivemos a Feira das Nações e o país escolhido para a minha sala era o Japão. Fizemos tanto por esse trabalho que até fizemos uma apresentação de dança e ganhamos a colocação em terceiro lugar, e o prêmio era assistir à peça “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” de graça. Essa foi a primeira vez que fui ao teatro e me apaixonei logo de cara. A maioria das pessoas choraram emocionadas pelo fim trágico, já eu não chorei mas fiquei completamente deslumbrada. Descendo as escadas ao rever meus primos no palco mais à frente, logo a direita percebi que o banheiro havia mudado. A lembrança mais forte que navegou pelos meus pensamentos foi de uma garota que até hoje tenho um contato meio raso, mas que sempre achei uma boa pessoa. No primeiro ou segundo ano do ensino médio estudávamos juntas. Nunca nos falamos em classe, por ela ser uma garota muito tímida. Eu já entendia o bullying nessa fase da minha vida, pois já o havia ignorado por tantos anos, mas nunca compreendi como alguém consegue se intrometer com uma pessoa tímida que não fala nada com ninguém e nunca incomodou a ninguém. Mas me lembro perfeitamente de uma outra garota que mexia muito com ela só para o próprio prazer doentio de tirar-lhe a paciência. Isso ocorria várias vezes durante um dia e por vários dias, mas assim como em nós existe muita paciência, uma hora ela se esgota fazendo aparecer que ela nunca esteve ali. Por que ninguém vê uma pessoa praticando bullying com outra ao ponto de se incomodar também e intervir, assim como foi com essa história. Nunca tive a coragem de falar em nome dela ou me impor para que parasse de uma vez por todas. Todo o bullying que sofri anos e anos durante quase toda a minha vida colegial foi ignorado. Sendo assim achei que ela conseguiria lidar da mesma forma que eu, pois das duas uma, ou você ignora e uma hora o ódio cessa ou você aprende a se impor e com essa escolha, muitas coisas podem acontecer. Como a pessoa que pratica o bullying parar de vez por perder a graça ou ficar com medo, a pessoa se irritar e ocorrer uma briga física, ou a pessoa continuar até que outra medida seja tomada. No fim da penúltima aula tudo já estava saindo de controle com a situação das duas. Pedi para ir ao banheiro e lavando minhas mãos e bebendo água acidentalmente pude ouvi-la numa ligação com sua mãe de forma breve e direta, ela disse: “logo vai dar o horário de saída e eu vou entrar em uma briga com uma garota que não me deixa em paz, então vem logo à escola para me liberar, porque pode piorar muito. Em outras palavras “corre porque eu cheguei ao meu limite e não tenho outra opção senão a agressão”. Fiquei assustada pois jamais imaginaria ouvir isso dela, mas a entendi antes e a entendo agora. Para muitos o bullying é fácil de ignorar e conviver, mas torna a vida insuportável. Na escola se têm um outro tipo de preocupação, com notas e em alcançar os requisitos de aprendizado, e não se vai conseguir prestar à aula porque existe alguém ali enchendo sua paciência e te ameaçando. Todo o bullying que sofri e que foi ignorado, hoje reflete em quem eu sou e nas repetidas vezes em que me senti insegura com quem eu sou, com minhas atitudes e meus passos por não me sentir suficiente e ser julgada por isso. Leva muito de você mesmo para entender que nada daquilo pode dizer quem você é. Hoje vejo que errei em não dizer isso para alguém com autoridade, mas pensei que sobraria tudo para ela quando na verdade ela era a vítima. Resolvi me calar e esperar, e assim foi feito até que bateu o sinal para irmos embora e a menina mexeu com ela novamente, na saída. No meu âmago gosto de pensar que ela já havia desistido da agressão até dar o horário, mas este foi o fiasco para acontecer de vez. Não foram nem vinte passos de distância da porta da sala para onde estavam grudadas uma na outra investindo com golpes desengonçados e puxões de cabelo. Todos ao redor se afastando para dar chance de elas continuarem a perder a compostura no confronto e resolver a rixa que pensaram ter ou se faziam para não culpar a si mesmos por estar apreciando cada momento daquilo. Lembro da mãe de um amigo que não estudava lá, mas que era inspetora e segurou a garota que só queria paz, e eu agarrei com força a que praticava bullying mas não antes de a outra dá-lhe um tapa digno que de certa fúria senti em meus braços. As levamos para a direção, e tudo que presenciei foram as duas aguardando. Fui embora com receio de que saíssem aos tapas ali mesmo, e também de que na manhã seguinte pudesse acontecer novamente, ou em outras manhãs até o fim do ano, entretanto, acabou naquele dia. Foi como fechar os olhos na frente daquele banheiro, me recordar daquela ligação, de todo o ocorrido e abri-los como nos filmes. E toda a saga de lembranças continuaram a cada passo dado naquela escola. Meu único arrependimento foi não ter verificado como está a biblioteca. Certamente, sei que posso voltar em 19 dias e fazê-lo.
- A


















