Outro caminho
O dia que atropelei uma senhora, seu nome é Elvira. Pelo que me foi dito no local do acidente, ela quebrou a clavícula, não sei agora se algo mais. Ela se urinou, talvez pelo susto, talvez pelo impacto. Foi na travessa da Frei Gaspar, na Marechal Deodoro. O sinal estava verde para mim, ela atravessou fora da faixa. Consegui ver ela correndo pra tentar chegar do outro lado rápido. Estava sem os óculos pois havia acabado de comprar e o médico ou alguém do qual não sei quem, a pediu para não colocá-los. Irei averiguar outro dia. Ela estava na calçada do mercado Dia, atravessando para a calçada do posto Shell. Minha velocidade era de 45 km/h, acredito. Um de seus familiares conseguiu chegar à cena do acidente. Mas apenas tenho o número de telefone de sua irmã Cida. A viseira do capacete quebrou, apenas desencaixou. O farol da frente quebrou, e mais alguma peça na frente da moto. O freio esquerdo novamente encontra-se duro. Havia arrumado ontem e estava perfeito. Sinto inchaço na mão esquerda, joelho e osso da frente da perna do lado direito. Meu cotovelo direito também está machucado. Sinto que bati a cabeça, mas não há nenhuma sequela por conta do capacete. Talvez há outras partes do corpo com feridas, mas ainda não tirei a roupa para verificar. Apenas consigo lembrar de seu grito e toda a sua dor. Quando a ajuda chegou, a ouvi dizer para um dos socorristas: "Por favor, não me leve para outros hospitais, eu não tenho dinheiro". Isso me mata, pois essa não deveria ser a sua preocupação, e sim com seu corpo e seu bem estar, porém vivemos em um país quebrado, sem governo, e genocida. Me sinto como o meu próprio país, completamente quebrado, até mesmo sem governo e genocida. Não sei se agradeço pela velocidade não estar a mais do que aquilo, mesmo tendo conhecimento de que o sinal estava verde para mim e a senhora não estava na faixa de pedestres. O jeito como me sinto nunca me aconteceu antes, e sei que estou sujeita à esse tipo de acidentes, pois há 3 meses sou motorista de moto. A vida é uma correria, as pessoas estão sem tempo, as pessoas precisam trabalhar, precisam correr atrás do seu. E eu atropelei uma senhora de idade, pois também estava na correria. A pretensão era de buscar meu exame de sangue no Colsan, pois havia doado sangue 1 mês atrás e em 1 mês a carteirinha fica pronta. Depois disso iria buscar a minha namorada para que pudéssemos ir à academia, já que o plano era treinar a semana inteira. E mais tarde trabalhar. Meu desespero maior após o acidente mostra como estamos vivendo em um sistema completamente fodido. Pensei em como pagaria pelos danos causados à moto, pensei na saúde da senhora, pensei que poderia perder minha permissão para dirigir, pensei que minha mãe se envergonharia de mim. Poderia ter sido ela, tentando chegar do outro lado da calçada, sem enxergar e logo após o ocorrido, também pensaria "como irei pagar por essas despesas não planejadas?". Penso que nem ela tem dinheiro para arcar com os danos da moto e nem eu tenho dinheiro para arcar com os danos de seu corpo. É tudo um enorme pesadelo do qual ainda não consegui acordar. Tive crises andando na moto, muita vontade de chorar, saindo da local do acidente e também quando finalmente parei em um lugar. Estou em uma praça escrevendo a minha dor, sendo confortada por lágrimas e os pensamentos naquela senhora não cessarão. Eu peço a Deus e ao universo que cuide dessas pessoas que não tem condições financeiras para arcar com algo tão terrível assim e até mesmo para que se possível, não passem por isso. Não consigo encontrar consolo e nem mereço. Espero apenas que ela fique bem, que se recupere rapidamente. Espero não ter destruído sua vida, e também que não lhe peçam para pagar nada pela ajuda e recuperação. Irei lembrar de ti assim que receber dinheiro em minhas mãos. Coincidentemente moramos no mesmo bairro, mas não me recordo de um dia ter visto seu rosto. Se puder visitá-la, farei a primeiro momento. Ajudarei da melhor forma que puder, pois dessa vida não levamos nada, e eu me importo com essa senhora. Deus ajude-a primeiro que a mim, em tudo que precisar. Lhe devo essa, e a mim, não sei o que pedir, mas ajude-a, eu imploro. Perdão.
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