O que a gente faz com o amor que ficou
Existe dias em que eu não sei o que fazer antes de dormir ou depois de levantar. Noites que eu gostaria de ficar acordada pensando no que fazer e manhãs que eu não queria acordar e ter que pensar de novo no que fazer. No fim das contas, parece que eu nunca vou chegar a conclusão nenhuma.
Às vezes, eu gostaria de apagar tudo e fingir que nunca existiu nada. Daria graças a Deus e abriria os olhos pacificamente a cada nascer de sol. Viveria uma vida tranquila sem nunca saber como doem os pés de andar pelo calvário. Seria grata por todo céu azul e contemplada por cada gentileza. Sentir-me-ia feliz e bonita e escandalizante. Segura e fiel a mim mesma. Pertenceria a esse mundo como pertencem as nuvens e as estrelas. Passaria por ele como uma brisa de verão.
Mas seria tão sem graça. Seria tão inútil viver sem conhecer as tempestades e as tormentas, sem ouvir o trovão e pensar que você sabe exatamente como é se sentir assim. Viver sem ter passado pela ressaca de um mar de vinho e nuvens de cigarro, com uma só infeliz pergunta em mente:
"E o que a gente faz com o amor que restou?"
Quando todo o resto foi embora e fecharam-se as cortinas desse circo que foi a nossa história, o que eu faço com todo com o amor que restou?
Como eu tiro de dentro se não posso por para fora?
Como eu decido que é isso e já deu e arranco esse teu resquício estranho, enveredado, enraizado como uma árvore que não deixa de crescer dentro do peito?
O que eu faço com as palpitações e as risadas à toa?
Como é que existe a memória e não existe o trovão?
O que é que eu faço com os sonhos?
Embaixo de que tapete eu escondo tudo
e o tanto
que eu senti?
Se tudo tem que ir embora, por que eu tenho que sentar aqui e tentar descobrir o que eu faço com o amor que ficou?
Se mais nada há de ficar...
















