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'UBERIZAÇÃO É UM PROBLEMA DO POVO, NÃO SÓ DE TRABALHADORES DE APLICATIVO...
O livro Psicopolítica, de Byung-Chul Han, apresenta diversas técnicas de poder atuantes em nosso tempo, que se direcionam para a mente e as emoções, utilizando psicotecnologias com o foco no aumento de eficiência e desempenho, fazendo com que as pessoas se sintam livres e alegres se autoexplorando constantemente. Aqueles que não conseguem alcançar as expectativas sofrem se deprimem, apesar disso não questionam o sistema ou esse modo de vida, mas se sentem inadequados, entendendo seu sofrimento como resultante de uma falha pessoal. A "cura" é apresentada por "autoajudas" motivacionais que estimulam um maior ajuste da pessoa a este modelo de vida. Fragmentos: O sujeito do desempenho, que se julga livre, é na realidade um servo: é um servo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora voluntariamente a si mesmo. O neoliberalismo é um sistema muito eficiente – diria até inteligente – na exploração da liberdade: tudo aquilo que pertence às práticas às e formas de expressão da liberdade (como a emoção, o jogo e a comunicação) é explorado. Quem fracassa na sociedade neoliberal de desempenho, em vez de questionar a sociedade ou o sistema, considera a si mesmo como responsável e se envergonha por isso. Aí está a inteligência peculiar do regime neoliberal: não permite que emerja qualquer resistência ao sistema. Já no regime neoliberal de autoexploração, a agressão é dirigida contra nós mesmos. Ela não transforma os explorados em revolucionários, mas sim em depressivos. A técnica de poder do regime neoliberal assume uma forma sutil, flexível e inteligente, escapando a qualquer visibilidade. O sujeito submisso não é nunca consciente de sua submissão. O contexto de dominação permanece inacessível a ele. É assim que ele se sente em liberdade. O sujeito do regime neoliberal perece com o imperativo da otimização de si, ou seja, ele morre da obrigação de produzir cada vez mais desempenho. A cura se torna assassinato. Referência: HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução: Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyné, 2020. Veja mais em: https://www.ex-isto.com/2021/10/psicopolitica-bchan.html
Estou me guardando para quando o carnaval chegar
Marcelo Gomes, diretor de "Estou me guardando para quando o carnaval chegar" (disponível na Netflix) é de Recife e foi muito para Toritama quando criança, sua narração em voz off na primeira pessoa nos conta que naquela época ele se lembra de poucas pessoas na rua, agricultores, e pouco barulho de carro. As imagens mostram as pessoas sentadas em cadeiras em frente de suas casas, como de costume ainda em algumas cidades interioranas, mas em cada colo tem um jeans para ser finalizado, colos de jovens e idosos. Toritama é um município no agreste Pernambucano, considerado um centro ativo do capitalismo local. Milhões de jeans são lá produzidos em fábricas caseiras que tomam conta da chamada "capital do jeans", responsável por 20% de toda produção nacional.
O contraste do agreste cujos moradores são majoritariamente negros e pardos, com os outdoors de publicidades de marcas de jeans apenas com modelos nos padrões eurocêntricos por si só já nos diz muito.
Os trabalhadores são entrevistados enquanto trabalham, trabalho que não pode parar, as crianças ficam passando entre as máquinas de costura, querem brincar, não há tempo para ficar com elas. Alguns personagens são muito interessantes, como Léo, um rapaz com um jeito até meio ingênuo e divertido que além de trabalhar com jeans faz vários bicos. Outro bom personagem é um pastor de cabras, o único que usa parte de seu tempo para olhar para o céu e se conectar com a natureza sabendo sobre os ciclos de chuva que se aproximam. O discurso da maioria é de como eles não trocariam aquela rotina de trabalho em que passam de 14 pra mais horas trabalhando, pela rotina de ter um patrão, e que agradecem por aquela vida, uma delas diz:
"a vida da gente não é ruim, não. Quem pensa que a vida da gente é ruim tá enganado, por que não é todo mundo que tem o privilégio de ter saúde, trabalho, ganhar o seu dinheiro (...) Gente que eu vejo passando aí, na televisão, na África, morrendo de fome, os países aí fora em guerra e, graças a Deus, aqui onde a gente mora não tem isso. Aí, isso é uma vida ruim? É nada. Ruim é para quem morre."
Mesmo trabalhando mais de 10h por dia (entra aqui a normalização das cargas excessivas), ter problemas físicos e mentais por isso, um trabalho que não trás bem coletivo e individual, que existe desse jeito para manutenções estruturais e que podia ser diferente, ainda assim ela não pode reclamar, porque tem gente que está morrendo de fome na África ou que tem países em Guerra. (Detalhe: As duas coisas são realidades do Brasil).
Essa fala é muito compreensível e significativa porque existe essa cultura de que temos que sempre agradecer pelo trabalho em qualquer circunstância. Uma ideia neoliberal para tirar o senso critico e de mudança. Você não precisa odiar seu trabalho (também não é obrigada a amar) ou não ter momentos de agradecimentos em sua vida. Mas sim entender que as relações de trabalho são de troca, não de favores. A questão principal é normalizar e aceitar determinadas condições como se fosse algo muito bom e a única forma que temos de viver. Não ter senso crítico e achar que você tem que aceitar tudo ou agradecer por tudo, só porque poderia ser pior, mesmo não sendo bom.
Você pode amar o seu trabalho, facilita muito, e vai acontecer principalmente (mas não exclusivamente) com quem não ta sobrevivendo, trabalha com o que tem, no que da. E ainda que você seja um professor, uma estilista, uma costureira, uma criadora de starup, o trabalho nos moldes que vivemos, não vai te trazer só bem estar. E não é uma questão de nem tudo são flores e tudo tem prõs e contras. É princpalmente uam questão de que isso envolve características que não são mais ética, humanas, que precisam deixar de existir. Frases como: ame seu trabalho e não trabalhará ou o trabalho edifica o homem, muitas vezes são usadas em contextos e de forma que podem levar a idéia de que você não pode ser crítico à mudanças, apenas porque poderia estar pior. Quanto mais a gente comprar essas ideias, mais normalizamos o absurdo, enquanto reclamamos desse mesmo absurdo. Como disse o filósofo Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”
A indústria da moda é uma das mais poluentes do planeta, o poliéster requer bilhões de barris de petróleo, viscose exige a derrubada de milhões de árvores, o algodão não orgânico pesticidas que agridem solo e água, e a saúde de quem os planta e colhe, uma camiseta feita de algodão não orgânico ou orgânico também gasta muitos litros de água, trilhões de água são gastos em tingimentos de roupa que usam corantes de custo mais baixo e mais variedade de cor, mas que contaminam a água e a saúde desses trabalhadores (principalmente mulheres na Índia). E produção de um jeans? custa 11 mil litros de água. Lixões e aterros tem montanhas de roupas, e praticamente não existe reciclagem de tecido ainda. É uma indústria de exploração de recursos naturais e humanos. A maioria de nossas roupas são produzidas na China, na Índia, Paquistão e também do Brasil, como Toritama.
Quando chega o Carnaval algumas pessoas vendem geladeiras e outros utensílios e dizem que depois se viram, mas precisam sair um pouco de Toritama, ir pra praia, pular carnaval. Afinal é o momento que tem para se divertir. É apenas nessa época do ano que a cidade para, assim como o barulho das máquinas de costura, a cidadezinha tem nesse momento, o silêncio. A celebração em nosso estilo de vida está reduzida a datas comemorativas, finais de semana, com anestesiamento e consumo, apenas como formas de descarga de uma vida adoecida e sobrecarregada física e emocionalmente. Mas é também necessário, é também sobrevivência.
Toritama trás um panorama perfeito do discurso neoliberal, você pode fazer seu próprio horário e ser seu próprio patrão, mas dentro de uma lógica de modo de produção que envolve sempre algum tipo de exploração de quem tem o controle e acúmulo de riqueza, é uma ilusão de liberdade.
"O diagnóstico de que não temos tempo para nada se tornou comum em nossa sociedade hiperprodutiva. Somos privados do tempo pelo sistema econômico que mede o trabalho em horas e dias, meses e anos. Sabemos que o tempo é usado no capitalismo para fins que o eliminam."
Márcia Tiburi.
“Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.” Antônio Cândido
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Estou me guardando para quando o carnaval chegar me fez lembrar de GIG - A uberização do trabalho, produzido pela Repórter Brasil, Ong de combate ao trabalho escravo no Brasil.
Como diz a sinopse: "O trabalho mediado por aplicativos e plataformas digitais cresce no mundo todo. Mas o avanço da “gig economy”, chamada no Brasil de “uberização”, vem despertando debates sobre a precarização e a intensificação do trabalho."
O filme acompanha as dificuldades de trabalhadores autônomos e principalmente os que trabalham mediados por um app, desde de faxineiras, motoristas, entregadores de alimentos e professores. Um professor entrevistado ganha 60 reais por 2h de aula e não tem nenhum outro benefício, uma faxineira diz que o app paga pelo tempo, mas não calcula se ela vai chegar em uma casa e a pessoa é muito desorganizada, se a louça vai até o teto, se pra limpar o chão tem que tirar um monte de brinquedo, "nisso você trabalha as vezes mais de 1h de graça". E as jornadas de trabalho vão ficando mais intensas para conseguir sobreviver (porque cadê o tempo pra viver?), dando muitas aulas, fazendo muitas faxinas, corridas, entregas.
bike boys descansam entre os atendimentos. a mochila e bike são alugados ou comprados pelos dos entregadores.
Entregadores que usam bicicleta em vez de moto tendem a trabalhar mais horas e fazer salários menores, uma vez que as corridas dependem da energia, disposição, força física. A jornada costuma ser o dia todo, começa cedo e vai até o fim da noite, e a maioria mora em regiões menos centralizadas, onde tem mais fluxo de pedidos. Quem não mora perto do trabalha sabe que conta muito o tempo de locomoção até o trabalho e de volta para casa.
Em uma das falas um especialista diz "Todas as horas do profissional estão registradas ali pra sempre, graças a tecnologia. Do ponto de vista técnico nunca foi tão fácil regular um trabalho. Do ponto de vista político talvez nunca tenha sido tão difícil"
Empresas que trabalham através de um aplicativo não tem nenhum vínculo empregatício com o funcionário. Se quem tem vínculo já tem problemas com leis trabalhistas (principalmente depois das ultimas mudanças) quem dirá com as novas formas de trabalho. E quem sai ganhando e quem sai perdendo com isso? Da uma pesquisada no faturamento anual do Ifood e da Uber.
Diariamente diversos entregadores, motoristas, faxineiras e outros sofrem acidentes e ficam impossibilitados de trabalhar, e saem de mãos abanando. Mas eles precisam trabalhar, e estão balizados pela ideia de que ao menos você é seu chefe, você tem uma certa liberdade, você "faz seu horário", mesmo nessas condições.
Ainda que possam ter algumas vantagens esse tipo de trabalho autonomo, não quer dizer que é tudo aceitável, que não pode ter mudanças.
E qual a visão desses trabalhadores? Em geral é: "prefiro assim do que trabalhar em um escritório e não ser registrado", ou "prefiro assim do que ser CLT, mas ter que passar por relações que já não aguento mais, aqui ao menos tenho outro tipo de contato com o superior" ou "quando era CLT não ganhava isso, as vezes tenho que trabalhar bem mais, mas pelo menos faço meu salário".
Tudo isso é compreensível, ser uma pessoa autônoma tem prós e contras. Mas todas essas visões só mostram como o trabalho dentro desse modus operandi é precário, injusto e problemático.
Um tempo atrás rodou uma imagem de um entregador de comida por app atravessando enchente pra levar a comida para o cliente e todo mundo batendo palmas: "garoto esforçado". Ele corria muitos riscos ali, mas precisava do emprego, isso tem outro nome e foi romantizado. Não é sobre não empreender (que é outra coisa) ou não aceitar trabalhar por app se não tem opção melhor no momento, é sobre a perspectiva da forma que vivemos e as ações a partir disso.
A tecnologia tem trazido muitos benefícios e facilidades e pode ser usada de forma muito mais inclusiva, mas já foi corrompida dentro da lógica exploratória, estamos agora 24h à serviço do capital. No mundo inteiro a "economia gig" já é sinônimo de precarização e intensificação do trabalho, e só cresce.