“ O que chamava de crise viera afinal. E Sua marca era o prazer intenso com que olhava as coisas (...)”
[ Urano em Touro - Netuno em Peixes no conto Amor de Clarice Lispector ]
Existe um conto da Clarice Lispector que me acompanha desde a época do ensino médio. A primeira vez que eu ouvi o conto “ Amor” foi na voz da Ana Vieira Pereira. Era a Ana narrando a transformação da Ana (personagem principal do conto). Toda vez que releio, relembro da voz da Ana, e de como este conto me mudou.
Recentemente, reli o conto para preparar a dica de leitura do @liquenprojeto. Foi quando olhei este conto por uma outra possibilidade de leitura, que hoje desejo partilhar aqui.
Existe no céu coletivo a presença dos planetas transpessoais, também conhecidos como planetas lentos. O ciclo destes planetas tem uma escala de tempo “ Não humana” como costuma afirmar o Marcos Hiath. No nosso mapa pessoal, esses planetas atuam em uma determinada área da vida( casa astrológica) por um período longo de tempo, provocando transformações ao interagirem com os planetas do mapa natal.
Esses planetas falam diretamente com o coletivo, muitas vezes marcando o pano de fundo de uma geração inteira.
Hoje, gostaria de convidar a olhar para Urano e Netuno, e sua passagem pelos signos de Touro e Peixes.
Como prometi, vou me apresentando aos poucos por entre as palavras deste caderno em desenho.Meu ascendente é Touro, e faz algum tempo que Urano chegou a tocar a minha “linha do horizonte”. É uma lenta, mas radical, mudança em pleno movimento.
Talvez seja pela inspiração que surge da conversa que este planeta vem tendo comigo (ainda mais diante de um céu tão marcado pela presença de Peixes), que resgato novamente o conto sobre a Ana e um capricho do acaso que movimenta seu mundo interno.
O espaço aqui é curto, mas vou tentar ir direto ao ponto. Mesmo que normalmente esse conto me trouxesse temas mais plutonianos, até por um lado visceral e sombrio de um trecho da narrativa. Ao reler percebi outras leituras. Urano, o planeta das revoluções, da inovação, nele existe a possibilidade de redescobrir o mundo. Touro é um signo ligado ao corpo e aos sentidos, o lado mais material de Vênus. A personagem acaba tendo seus sentidos aflorados, e isso é parte da transformação que está tomando seu corpo-alma naquele momento.
Tudo desperto por um encontro repentino com um cego ( Netuno em Peixes - a presença do mistério nos olhos do cego).
Peixes e Touro, quando se encontram, fazem um bom diálogo no céu. Água e Terra, corpo e espírito. E ao longo do conto percebo de outras formas essa relação. Há algo de Virgem, não nego, até pela presença marcante da rotina da personagem. Mas essa é uma conversa mais longa… que fica para uma próxima vez…
Quero destacar aqui um trecho, que me inspiram a começar a pensar nessa relação:
“Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiros de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. todo o jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha pelo qual estava rodeada?”
- O Mundo dos sentidos e mundo dos sonhos, habitando o corpo de Ana, em um estado profundo e transformador.
Meu convite é para quem se interessar, leia o conto, e busque nele a inspiração para ouvir o céu. Cada um à sua maneira, pois como costumo dizer é apenas uma das tantas leituras possíveis, nessas sincronicidades que vão desenhando a nossa narrativa-caminho.
E para finalizar, deixo aqui um último trecho, com o desejo que esta inspiração possa ecoar dentro de ti:
“ A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de Si”
[ referência: conto “ Amor” da Clarice Lispector extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19.]
Thyana Hacla - Caderno de Mercúrio.
04/04/22




















