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Arte por [RodrigoDraws] - Link original
An Archive of Our Own, a project of the Organization for Transformative Works
(og: The Important Things by becauseplot)
Ele tem apenas uma mão no volante.
Esse detalhe o pega sem sobreaviso. Ele está muito ocupado tentando processar essa mudança brusca de panorama sem bater a van quando a desorientação bate com tudo. Mas no momento em que ele se orientou novamente em relação ao espaço (meio da noite, dentro da van, passageiro vazio, ele está se afastando do Perímetro?), ele se dá conta de que apenas uma de suas mãos está no volante. E ele só tem uma das suas mãos no volante porque a outra está segurando um bebê contra seu próprio peito. Veríssimo é um Veríssimo. Um homem da ordem. Ele fez sua vida encarando o horrendo, o impossível, e o absurdo. Tem pouquíssimas coisas que podem apavorá-lo. Ele mete o pé no freio e encosta no canto da estrada antes que ele possa processar o que ele acabou de fazer. ~*~ Ou, Veríssimo sai do Perímetro, se torna um pai, faz uma ligação duvidosa, mente sobre dar uns pegas em alguém, se lembra de algo que não aconteceu, e quase bate uma van. Não necessariamente nessa ordem. (OU o que acontece depois que o Veríssimo sofre de amnésia quando sai do Perímetro com um bebê.) Essa obra é adaptada do Inglês para o Português com o consentimento do autor original.
FINALMENTE! Todos os capítulos foram publicados! Aproveitem :)
Eu me pergunto se o Veríssimo e a Sofia se apaixonaram antes ou durante a missão do Perimetro, mas de um jeito ou de outro, o depois deve ter sido uma tortura pro Veríssimo.
No primeiro caso, eu imagino o Veríssimo correndo sem parar com a Mia nos braços e quando ele finalmente para, ele se pergunta aonde estão os outros, aonde está Sofia, então ele nota e percebe com horror o quanto o bebê ensanguentado nos braços dele se parece com ela, o quanto tem um buraco na memória dele convenientemente durante a ida ao Perímetro.
No segundo caso, é ainda mais caótico: um bebê nos braços dele que ele nem tem certeza de *quem* é inicialmente, mas depois de um tempo ele liga os pontos de que ela é filha dele e da colega dele, Sofia. Ele se pergunta por um longo tempo como que isso aconteceu, mas ele decide não abandonar a criança. Ele mal acredita que ele realmente fez algo assim, mas ele sente que aconteceu sim. Ele se pergunta como foi, o que levou a eles dois terem se aproximado.
Mas de um jeito ou de outro, ele pensa amargamente que até isso o paranormal levou: os momentos que ele se apaixonou e amou alguém.
o veríssimo sempre insiste em pedir o lanche tando com o arnaldo no motorista
Conto de verão n° 2: Bandeira branca
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um mantinha de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o mantinha, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
— Como é teu nome?
— Janice. E o teu? — Píndaro.
— O quê?!
— Píndaro.
— Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
— Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse “Até o Carnaval que vem” e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
— Me dá alguma coisa.
— O quê?
— Qualquer coisa.
— O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
— Você vomitou a alma — disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
— Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
— E aquela bailarina espanhola?
— Nem me fala. E o toureiro?
— Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse “Píndaro?!” e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro.
Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo “não vale, você cresceu mais do que eu” e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse “quase não reconheci você sem fantasias”. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora “preciso te dizer uma coisa”, e ela dissera “no Carnaval que vem, no Carnaval que vem” e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
— O que você ia me dizer, no outro Carnaval? — perguntou ela. — Esqueci — mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...
- Luís Fernando Veríssimo
me apaixono por flores.1
a primeira era um cravo. cravo porque, como bem diz Veríssimo: “coisas que começam com C viciam” e acho que essa deve ser a única explicação pra obsessão que eu sentia. cravo também, porque essa flor tem espinhos e apesar de que eu apenas sentia o perfume (ou ao menos ignorava tudo ao sentí-lo), ela me furava. me furava por maior que fosse o cuidado que eu tivesse com a mesma, e ela sabia que o cuidado era muito!
era cravo porque apesar de conhecida, esta não é uma flor que normalmente procuram, não é uma flor comum, longe disso... como a própria. Cravo que ela foi, bravo me tornei, abafado me deixei até de novo me soltar. desta flor errado fui ao regar, achando que apesar dos espinhos, ela só tinha a me alegrar. esqueci que na vida existem vários jardins e flores a molhar, outras até mesmo com espinhos, mas sem a intenção de furar a quem elas quer ajudar.
não foi fácil deixar essa flor, tanto não foi quanto não pude. ela precisou ir de vez e por conta própria para que eu me libertasse, para que eu não mais a regasse. demorou e, por muito tempo, meu regador cheio eu deixei, a espera de que o cravo pra mim voltasse. mas aos poucos percebi que ele não voltaria e que mesmo assim é bom ter o regador cheio... nessa caminhada de jardim em jardim. outras flores estão por aí.
eu amei o meu cravo. na realidade, de todas as minhas flores, até hoje, ele foi o único verdadeiro amado, mas dediquei água demais a uma flor que não merecia. que não me merecia e que talvez eu não deva chamar de minha. mas ti, cravo vermelho e com espinhos: aprenda a mais perfumar do que furar. que você encontre alguém que te regue como eu quis e fiz, mas que você faça e só tenha isso por merecer. é louco dizer - apesar de fácil de entender - mas por ser, entre todas as minhas flores, a que eu amei, você foi, também, a que mais sobre mim teve poder.
hoje, depois de tudo e tanto, é bom e posso dizer: sou eu e moldado em mim o único dono desse poder.
- P. Soares
E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem.
L. F. Veríssimo (comédias para se ler na escola)