[spoilers] Yennefer de Vengerberg
Grã-mestra de Magia, a poderosa feiticeira era famosa e muito respeitada. Yennefer fora a mais jovem membro a integrar o Conselho dos Feiticeiros. Ex-combatente de guerra ela perdera a visão durante a 2ª Batalha por Sodden, porém esta fora recuperada através de magia. Diferente das outras magas, Yennefer não era membro de nenhum conselho real – como sua amiga Triss Merigold a serviço do rei Foltest. Às vezes, quando solicitado e por morar na capital de Aedirn em Vengerberg, Yennefer colaborava com o rei Demavend.
Descrita por muitos como inescrupulosa, caprichosa, soberba e bastante individualista, Yennefer assume seus traços. Sua personalidade forte se destaca assim que a personagem nos é apresentada. Quando a conhecemos não existe espaço para indiferença.
“Yennefer – prosseguiu Boholt – é uma mulher horrível, malvada e respondona. Ela não é como suas garotas, senhor Borch, quietas e simpáticas.”
Andrzej Sapkowski, A espada do Destino.
“Seu coração é como a joia que decora seu colo, duro como um diamante frio e insensível, mas afiado que obsidiana, capaz de ferir”.
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Yennefer era uma mulher atraente e sua aparência era de uma jovem de 20 anos, embora fosse muito, muito mais velha. Isto era possível devido à substância extraída da raiz de mandrágoras. O elixir impedia o envelhecimento. De seu pescoço pendia, numa fita de veludo, uma estrela de obsidiana com diamantes ativos incrustados. Conhecida por sempre usar preto e branco, seus volumosos cachos negros e o olhar violeta eram tão marcantes quanto seu perfume lilás e groselha.
“‘Como ela é deslumbrante!’, pensou. Tudo nela é lindo... e ameaçador. As cores que usa; o contraste entre a brancura e a negritude... beleza e ameaça. As mechas aneladas, negras como as asas de um corvo e tão naturais. As maçãs do rosto proeminentes, acentuadas por uma ruga que, nos momentos em que ela considerava apropriado sorrir, aparecia junto de seus lábios, maravilhosamente finos. As sobrancelhas, maravilhosamente irregulares sem a maquiagem com a qual ela as retocava durante o dia. O nariz, maravilhosamente comprido. As delicadas mãozinhas, maravilhosamente nervosas, agitadas e hábeis. A cintura fina e flexível, realçada por um cinto apertado ao extremo. As pernas esbeltas, que, ao andar, faziam ondular sua saia negra, dando-lhe uma forma ovalada. Linda.”
Andrzej Sapkowski, A espada do Destino.
O aroma lilás e groselha provinham de seu perfume e também de um elixir conhecido como “Glamarye”. A feiticeira sempre o usava em ocasiões especiais. Uma delas foi quando junto a Ciri – sua pupila e filha – adentrou a cidade de Gors Valen. E para que não reconhecessem a menina, optou por realçar sua beleza atraindo toda atenção para si.
“Ciri suspirou. Os olhos de Yennefer brilhavam como raios cor de violeta e seu rosto tinha uma beleza extraordinária. Resplandecente. Desafiadora. Ameaçadora. E inatural.”
Andrzej Sapkowski, Tempo do Desprezo.
No entanto, sua vida vai além das aparências, pois seu passado sombrio e suas experiências traumáticas deixaram-lhes marcas profundas. Em sua infância Yennefer sofrera tortura psicológica e agressões físicas de seus pais. Seu pai também a rejeitava por ser uma mestiça.
- Maria! Maria! Tira esse monstro corcunda da minha frente! Não quero olhá-la!
[...]
- Era em sua família que havia elfos feiticeiros. Foste tu que abortaste a primeira vez. É por isso. Tem o sangue e o ventre contaminados de elfo. Por isso dás luz a monstros.
[...]
- Papai! Mamãe!
- Sai daqui, anormal.
- Como ousa? Como ousa bater assim na menina?
[...]
- Mamãe... Por que choras? Por que me bate e me despreza? Pois se eu fui boazinha... Mamãe! Mamãe!”
Andrzej Sapkowski, A Torre da Andorinha.
“E, repentinamente, ele [Geralt] se deu conta da verdade. Sabia. Sabia quem ela fora. Sabia o que ela se lembrava. Do que não conseguia se esquecer e com o que convivia. Sabia quem ela fora antes de ser tornar uma feiticeira.
Por que o observavam frios, penetrantes, maus e inteligentes olhos de uma corcunda.”
Andrzej Sapkowski, O Último Desejo.
Anos mais tarde, após sua admissão na Academia de Magia em Aretusa, tais acontecimentos a levaram a tentar suicídio, cortando profundamente seu pulso chegando a lesionar seus tendões. Graças a sua tutora Tissaia de Vries, Yennefer pôde recuperar os movimentos das mãos. Além de ter sua deformidade corcova corrigida.
“Lamentou não estar num sonho e lamentou não ter conseguido.
- Não conseguiu – disse Tissaia de Vries -. Mas não por que não tentaste. Foi um corte profundo.
[...]
Yennefer tinha muita sede. Desejava que, ao menos, alguém lhe umedecesse os lábios, cobertos por uma camada viscosa. Porém não pediu. Seu orgulho a impedia.
[...]
- Cuidarei de você – repetiu Tissaia de Vries, acariciando o cabelo delicadamente -. E agora... estamos aqui sozinhas. Sem testemunhas. Ninguém está olhando e eu não contarei a ninguém. Chora, criança. Desabafa. Chora pela última vez. A partir de agora não será permitido chorar. Não há imagem mais deplorável que de uma feiticeira chorando.”
Andrzej Sapkowski, A Dama do Lago
“- Yen?
- Sim?
- Quando você estudou em Aretusa... Quando você dormia em quartinhos como este... Você tinha uma bonequinha sem a qual não conseguia adormecer e que colocava sentada na escrivaninha durante o dia?
- Não – respondeu Yennefer, agitando-se nervosamente. – Eu nem tinha uma bonequinha. Não me pergunte sobre aquilo, Geralt. Por favor, não pergunte.”
Andrzej Sapkowski, Tempo do Desprezo.
Apesar de sua historia traumática envolver rejeição Yennefer nunca abandonou o intenso desejo de ser mãe. No entanto, ela nunca fora capaz de gerar filhos, pois seus ovários eram atrofiados e insuficientemente desenvolvidos. A propósito, a feiticeira podia ganhar uma soma elevada de dinheiro eliminando um bebê indesejado ou cobrando por um tratamento de fertilidade. Porém não era capaz de curar a si mesma.
“Yennefer, como a maioria das feiticeiras, era estéril. Contudo, era uma das raras que sofriam muito com tal condição.”
Andrzej Sapkowski, A espada do Destino.
No entanto, isso muda quando a feiticeira conhece:
Cirilla Fiona Elen Riannon, A Princesa De Cintra Ou A Leoazinha De Cintra.
Antes de Ciri nascer, seu pai Duny – Ouriço de Erlenwald – teve ajuda do witcher Geralt, para cumprir seu destino casando-se com Pavetta, filha de Calanthe, rainha de Cintra. Tal ato fez quebrar a maldição que Duny carregava há anos. Ele ficara tão grato que utilizou a Lei da Surpresa dando o direito a Geralt de lhe pedir qualquer coisa.
“-... O que quer de mim, Geralt?
- Duny – falou lentamente Geralt. – Quando um bruxo é defrontado com uma pergunta como essa, tem de pedir que ela seja repetida.
- Muito bem. Repito-a, então, pois quero que saiba que sou seu devedor. O que deseja de mim?
- Duny, Calanthe, Pavetta... Para se tornar bruxo, é preciso ter nascido sob a sombra do destino, e não são muitos os que nascem nessas condições. É por isso que somos tão poucos. Envelhecemos, morremos e não temos a quem transmitir nosso conhecimento e nossas aptidões. Faltam-nos substitutos, e este mundo está cheio do Mal, que apenas espera que sumamos de vez.
[...] Você me dará aquilo que já possui e que ainda não sabe. Voltarei a Cintra dentro de seis anos, para verificar se o destino foi generoso comigo.”
Andrzej Sapkowski, O Último Desejo.
Anos depois, após perder seus pais e também sua avó, Ciri fica sozinha no mundo. Cintra já não existe. Há apenas ruinas e cinzas em seu lugar depois da invasão do império de Nilfgaard. Tal ato ficara conhecido como O Massacre de Cintra. Todos passam a crer que Cirilla, então com 11 anos, estava morta assim como todos seus familiares. Mas poucos tinham o conhecimento de que a menina estava sã e salva em Kaer Morhen ao lado de Geralt enquanto treinava pra ser tornar uma witcher.
Witcher basicamente é um matador de monstro profissional. O aprendizado é iniciado na infância com um treinamento físico rigoroso e o controle básico sobre a magia que os witchers utilizam como Sinais. Eles também passam por um intenso processo químico para o aumento de força, agilidade, reflexos e resistência aos quais poucas crianças conseguem sobreviver. Quando a mutação obtém sucesso cria-se um witcher formidável, porém não imbatível. Além disso, eles são imunes a doenças, envelhecem lentamente e são estéreis. Também é possível reconhecê-los pelos olhos-de-gato amarelos.
E é durante seu treinando que coisas estranhas acontecem. Quando Ciri perdera os sentidos e começara a profetizar, os witchers não souberam o que fazer e decidiram pedir ajuda a uma feiticeira. Devido ao seu relacionamento conturbado com Yennefer e por estarem brigados, Geralt opta por solicitar ajuda a outra feiticeira, sua amiga Triss Merigold, que sentia uma forte atração pelo bruxo.
Triss era para Yennefer a mais próxima de suas amigas e sendo assim, observara de perto o conturbado e quase violento relacionamento dos dois. Uma relação que machucava e tinha tudo para ter um fim dramático. Mas nunca acabava. Eles sempre voltavam a ficar juntos mesmo sabendo que não seria por muito tempo. Que uma hora ou outra um dos dois acabaria sofrendo. E enquanto os observava Triss sentira fascínio e ciúme a tal ponto que o simples desejo de experimentar algo do tipo a levou a seduzir Geralt com magia.
“Ela seduziu o bruxo com a ajuda de um pouco de magia. Aproveitou um momento propício, quando ele e Yennefer brigaram mais de uma vez e se separaram de maneira violenta. Geralt precisava de carinho e queria esquecer.
[...] seu curto relacionamento com o bruxo não a deixou desapontada. Achou o que procurava: uma emoção sob a forma de culpa, medo e dor – a dor dele.
[...] Quanto à dor, somente havia pouco veio a compreendê-la, quando sentiu um irresistível desejo de estar com ele de novo. Por um breve momento, por um instante, mas estar.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Apesar do ocorrido, Triss não cogitava tirá-lo de Yennefer, considerava sua amizade mais importante do que seus sentimentos pelo bruxo. E no que se referia a Geralt, embora ele não se arrependesse, Triss sabia que para ele, tal relação fora um erro.
“- Os erros – disse Geralt com ênfase – também têm seu valor. Não os elimino nem da vida nem da mente. E jamais culpo os outros por eles. Você é importante para mim, Triss, e sempre será. Você nunca me desapontou. Nunca. Acredite em mim. [...] Sou eu quem deveria pedir perdão a você... E não somente a você.
- Você a ama a tal ponto. – Não era uma pergunta, mas uma afirmação.
- A tal ponto – admitiu baixinho, após um longo silêncio.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Logo em seu primeiro contato com Ciri, Triss prontamente sentiu uma áurea mágica entorno dela. Quando a menina entrou em estado mediúnico, a feiticeira percebera que estava lindando com o que sua confraria chamava de Fonte. O que a deixou preocupada, pois “crianças fontes” sem o devido treinamento e cuidado poderiam desenvolver uma séria doença mental e até por em risco pessoas próximas.
“Uma Fonte não controla seus dons e não tem domínio sobre eles. Ela é médium, uma espécie de transmissor. Ela entra involuntariamente em contato com a energia e a transmite também de modo involuntário.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Sabendo que lidava com forças a cima de suas capacidades, Triss informou a Geralt que a menina precisava de uma feiticeira mais poderosa além de confiável.
“Geralt, essa assunto é muito sério. A menina é uma médium extremamente forte. Não sei com o que ou com quem ela entra em contato, mas acho que não existe um limite para suas conexões. Algo quer se apossar dela. Algo que é... demasiadamente poderoso pra mim. Temo por ela. [...] Não sou capaz de dominá-lo. [...] Você vai ter que contar com a ajuda de uma feiticeira mais poderosa do que eu. Mais capaz e mais experiente. Você sabe de quem estou falando. [...] Posso imaginar por que você foi buscar meu auxilio em vez do dela. Sobrepuje o orgulho, supere a mágoa e a teimosia. Isso não faz o menor sentido. Você acabará torturando a si mesmo e porá em risco a saúde e até a vida de Ciri.
[...]
Vá pedir auxílio à Yennefer, Geralt.”
Andrzej Sapkowski, Sangue dos Elfos.
Durante sua estadia em Kaer Morhen, Triss fizera o possível pra ajudar Ciri, quem considerava sua irmã menor. Manteve-se ao seu lado dia e noite. Usava um manto de proteção enquanto zelava por ela porque a menina tinha pesadelos terríveis e acordava aos berros todas as noites. Acalmando-a com exilares e encantos. E quando por fim chegou à primavera Geralt e Triss foram ao templo de Melitele, em Ellander, para colocar Ciri aos cuidados da arquissacerdotisa Nenneke e dar continuidade ao aprendizado.
É através da Ciri que passamos a conhecer todas as nuances de Yennefer. A menina nos revela uma mulher mais cariciosa e simpática, mas não antes de superarem a pequena antipatia causada logo no primeiro encontro. Ciri não gostou nem um pouco da nova tutora. Inclusive pensou em fugir em protesto de volta a Kaer Morhen.
“- Quando eu cheguei aqui... - disse a feiticeira com a costumeira voz melodiosa e levemente sarcástica. – Quando nos encontramos pela primeira vez... você não gostou de mim.
Ciri permaneceu calada. ‘Nosso primeiro encontro’, pensou. ‘Estou lembrada. [...] Eu soube desde o primeiro momento que se tratava dela, porque já a tinha visto. Na noite anterior. Em meu sonho.
Ela.
Naquela época, eu não conhecia seu nome. Em meu sonho ela permaneceu calada. Apenas ficou olhando para mim diante de uma porta fechada... ’
Ciri soltou um suspiro. Yennefer virou-se da janela, e a estrela de obsidiana em seu pescoço brilhou com milhares de reflexos.
— Você tem razão – admitiu a garota, séria, olhando diretamente nos olhos cor de violeta da feiticeira. – Não gostei de você.
[...]
— Então essa é a famosa Surpresa – falou a feiticeira, contorcendo levemente os lábios. – Olhe-me diretamente nos olhos, menina.
Ciri tremeu e encolheu a cabeça entre os ombros. Não, eis uma coisa que ela não invejava em Yennefer, a única coisa que não gostaria de ter nem mesmo desejava ver: aqueles olhos cor de violeta, insondáveis como um lago sem fundo brilhando estranhamente, impassíveis. . . e maus. Terríveis.”
[...]
— Você deve estar espantada – continuou Nenneke – por assim, repentinamente, uma grã-mestra de magia concordar em pô-la sob sua proteção. Mas você é uma menina esperta, Ciri, e pode adivinhar a razão para isso. Você herdou de seus antepassados certos... dons. Sabe do que estou falando. Você costumava me procurar após aqueles sonhos, após aqueles pesadelos no dormitório. E eu não sabia como ajudá-la. Mas dona Yennefer...
— Dona Yennefer – interrompeu-a a feiticeira – fará aquilo que deverá ser feito. Vamos, menina.
— Vá – disse Nenneke, tentando em vão dar pelo menos uma aparência de naturalidade a seu sorriso. – Vá, criança. Saiba que ter como protetor alguém como dona Yennefer é uma grande honra. Não traga vergonha ao templo e a nós, suas professoras. E seja obediente.
‘Vou fugir esta noite’, decidiu Ciri. ‘De volta para Kaer Morhen. Vou roubar um cavalo da estrebaria e eles não vão me ver mais. Vou fugir! ’
— Só quero ver – falou a feiticeira, baixinho.
— Sim? – A sacerdotisa ergueu a cabeça. – O que você disse?
— Nada, nada – sorriu Yennefer. – Você só imaginou que eu falei algo. Ou fui eu que imaginei? Olhe para sua protegida, Nenneke. Está furiosa como uma gata selvagem. Seus olhos soltam faíscas e falta pouco para ela bufar; se ela soubesse, abaixaria as orelhas. Uma bruxinha! Vai ser preciso pegá-la com força pelo cangote e aparar suas garras.
— Seja mais compreensiva. – Os traços do rosto da arquissacerdotisa endureceram expressivamente. – Peço que você lhe demonstre coração e espírito de complacência. Ela não é o que você pensa ser.
— O que quer dizer com isso?
— Que ela não é sua rival, Yennefer.
[...]
- No que se refere à compreensão que você me pediu. . . Serei compreensiva. Quanto a demonstrar-lhe coração, pode haver uma dificuldade, pois, como é de conhecimento público, as pessoas acham que não possuo tal órgão. Mas tenho certeza de que nós duas acabaremos dando um jeito. Não é verdade, Surpresa?
Sorriu para Ciri, que, a despeito de si mesma, a despeito de toda a raiva e irritação, teve que responder com um sorriso. Porque o sorriso da feiticeira era inesperadamente simpático, amigável e sincero. E muito, muito lindo.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Sob a tutela de Yennefer, Ciri começou a aprender o básico da magia na teoria e na prática. E através das lições a feiticeira a ensinou a ser capaz de afastar os pesadelos que a aterrorizam durante a noite.
As duas também passaram a dormir juntas e aproveitavam-se disto para por em prática ensinamentos que não eram permitidos à luz do dia.
“Yennefer estava visivelmente satisfeita e tornava-se mais amável e simpática dia após dia. Com pausas cada vez maiores entre as aulas, as duas ficavam conversando sobre os mais diversos assuntos e até se divertiam com as delicadas gozações que faziam de Nenneke, que, eriçada e inflada como uma galinha, costumava “visitar” frequentemente as preleções e os exercícios, sempre pronta para colocar Ciri sob suas asas protetoras, defendendo-a da imaginária severidade da feiticeira e das ‘inumanas torturas’ da educação.”
“Certo dia, por iniciativa própria, Ciri explicou à feiticeira como foi seu primeiro encontro com o bruxo. Contou de maneira natural, alegre e divertida como se encontraram na floresta de Brokilon, entre as dríades que a haviam sequestrado e queriam retê-la a toda a força para transformá-la em uma delas.
— Ah! – falou Yennefer. – Pagaria uma fortuna para tê-lo visto. Refiro-me a Geralt. Fico tentando imaginar a cara que ele fez lá, em Brokilon, quando viu a Surpresa que lhe havia reservado o destino! Porque deve ter ficado com uma cara muito engraçada quando descobriu quem você era, não é verdade?
Ciri riu gostosamente, e em seus olhos cor de esmeralda brilharam chamas diabólicas.
— Oh, sim! – respondeu ela. - Você nem pode imaginar a cara dele! Quer ter uma ideia? Vou lhe mostrar. Olhe para mim!
Yennefer soltou uma gargalhada.
‘Esse riso... ‘, pensou Ciri, olhando para bandos de aves negras voando para o sul. ‘Esse riso, compartilhado e sincero, fez com que nos aproximássemos de verdade. Ela e eu. Nós nos demos conta, tanto ela como eu, de que podemos rir juntas falando dele. De Geralt. De repente, ficamos muito próximas, embora eu saiba que Geralt nos une e separa concomitantemente e que sempre será assim. Nosso riso comum nos aproximou.’”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Dando continuidade ao aprendizado, Yennefer adicionou o uso da espada de Ciri após conseguir persuadir Nenneke a liberá-la. A feiticeira deixou evidente que sabia bastante sobre a espada e a “dança” dos bruxos.
“Ciri aprendia a relaxar os músculos com simples encantos e concentrações mentais, a combater câimbras, a controlar a adrenalina, a dominar o labirinto do ouvido interno e seu nervo, a diminuir ou acelerar o pulso, a ficar sem oxigênio por determinado tempo.”
“Yennefer costumava visitar Kaer Morhen. Ciri adivinhava os motivos pelos quais, durante as conversas sobre a Fortaleza, os olhos da feiticeira adquiriam calor, perdendo o malvado brilho e a fria, indiferente e sábia profundidade. Se a menina tivesse de usar palavras para descrever Yennefer em tais momentos, seriam ‘sonhadora’ ou ‘absorta em seus pensamentos’.
Ciri adivinhava os motivos.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
As duas se tornaram inseparáveis. Yennefer costumava pentear e a aparar os cabelos de Ciri enquanto as duas conversavam sobre tudo. Elas tinham um acordo mútuo em que não se podia ocultar nada uma da outra durante o aprendizado. Muito menos mentir.
“Imersa em seus pensamentos, mexia nos cachos negros com uma das mãos, enquanto com a outra acariciava a cabeça de Ciri, sentada na grama e colada a quente coxa da feiticeira.
— Dona Yennefer?
— O que foi, feiosa?
— É possível fazer tudo com magia?
— Não.
— Mas é possível fazer muito, não é verdade?
— É verdade – respondeu a feiticeira, fechando por um momento os olhos e tocando as pálpebras com os dedos.
– Muitíssimo.
— Algo realmente enorme. . . Algo terrível. . . Muito terrível?
— Às vezes, até mais terrível do que se queria.
— Hummm. . . E será que eu. . . Quando serei capaz de fazer algo assim?
— Não sei. Talvez nunca. Tomara que você não seja forçada a isso.
Silêncio. Paz. Calor. O perfume de flores e grama.
— Dona Yennefer?
— O que foi agora, feiosa?
— Quantos anos você tinha quando se tornou feiticeira?
— Hummm. . . Quando prestei os exames para ingressar? Treze.
— Ah! É exatamente minha idade! E quantos anos você tinha quando. . . Não, não vou perguntar isso. . .
— Dezesseis.
— Ah. . . – Ciri enrubesceu ligeiramente e fingiu interessar-se por uma nuvem com um aspecto diferente acima das torres do templo.
– E quantos anos você tinha quando. . . quando conheceu Geralt?
— Mais, feiosa. Um pouco mais.
— Você vive me chamando de feiosa! Sabe como eu detesto isso. Por que você insiste?
— Porque sou maliciosa. As feiticeiras sempre são maliciosas.
— Mas eu não quero. . . não quero ser feiosa. Quero ser bonita. Realmente bonita, assim como você, dona Yennefer. Será que com magia eu poderei chegar um dia a ser tão bonita quanto você?
— Você não precisa de magia para isso. Nem sabe a sorte que tem.
— Mas eu quero ser bonita de verdade!
— Você é bonita de verdade. Uma feiosa bonita. Minha linda feiosa...
[...]
— E em que você tanto pensa? Está bem, está bem, vou ficar calada.
— Mal aguento de tanta felicidade. Já estava com medo de você me fazer mais uma de suas incomparáveis perguntas.
— Por que não? Eu gosto de suas incomparáveis respostas.
— Você está ficando insolente.
— Sou feiticeira. As feiticeiras são maliciosas e insolentes.
[...]
Silêncio.
— Dona Yennefer...
— Com os diabos! O que foi agora?
— Por que Geralt demora tanto. . . Por que não vem para cá?
— Na certa ele se esqueceu de você, feiosa. Deve ter encontrado uma menina mais bonitinha.
— Oh, não! Sei que não me esqueceu! Não poderia! Estou certa disso, tenho certeza absoluta, dona Yennefer!
— Que bom que você tem tanta certeza. Isso faz com que você seja uma feiosa feliz.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
O Lobo Branco E A Feiticeira
“- O que há entre você e Geralt, dona Yennefer?
- Saudade – respondeu séria. – Mágoa. Esperança. E medo. Sim, acho que não me esqueci de nada.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
“Você é um mutante, e uma das principais características de sua mutação é a incapacidade de ter qualquer tipo de emoção.”
Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino.
Witchers não podem ter sentimento algum era o que costumava dizer o dito popular. Mas a crença sofre controvérsia quando a história de amor entre um bruxo de cabelos brancos e uma feiticeira de olhar violeta se torna famosa através das baladas do poeta Jaskier/Dandelion. Geralt ficou fascinando por Yennefer quando a conheceu em Rinde ao procurá-la para socorrer seu amigo bardo. E desde então ele nunca a tirara da mente. Nunca esquecera o cheiro de lilás e groselha. Não importava com quem estivesse nunca mais deixou de pensar nela.
“- Como já lhe disse, não pensei em você, mas nela.
- Chireadan?
- Sim?
- Você a... Você a...
- Não gosto de palavras pomposas – interrompeu-o o elfo. – Digamos que estou profundamente fascinado por ela. Não lhe espanta o fato de ser possível ter fascínio por alguém como ela?
Geralt cerrou os olhos para trazer a imagem à memória. Uma imagem que, inexplicavelmente, também o fascinava.
- Não, Chireadan – respondeu Geralt. – Não me espanta.”
Andrzej Sapkowski, O Último Desejo.
Enquanto Yennefer tentava aprisionar um djinn (gênio na mitologia árabe), Geralt conclui que ela morreria tentando e se prontifica a agir tentando fazer com que a feiticeira mudasse de ideia mesmo sabendo que sua vida também corria perigo. Geralt não guardara rancor por ter sido usado na vingança contra figuras importantes da cidade de Rinde. Ato que ele havia denominado de “travessura”. Com isso, deixar Yennefer a mercê do djinn era inadmissível para ele. E no momento em que é chegada a hora de realizar seu último desejo Geralt hesita, pois sabia que não poderia pedir qualquer coisa, porque assim que o desejo fosse atendido, o vingativo djinn atacaria fatalmente a feiticeira já enfraquecida.
“- [...] Vamos, Geralt! Faça seu desejo!
– Não, Yennefer. Não posso… É até possível que o djinn venha a realizá-lo, mas ele nunca lhe perdoará. Assim que ficar livre, vai voltar-se contra você e matá-la… Você não conseguirá pegá-lo, nem defender-se dele. Está exausta e quase não consegue manter-se de pé. Não vai conseguir, Yennefer.
– O risco é meu! – gritou ela, furiosa. – Por que você se importaria com o que vai acontecer comigo? Melhor seria pensar em si mesmo!
[...]
- Se ele... Se ele externar o desejo certo... Se ele de algum modo ligar seu destino com o dela...
[...]
- O desejo, Geralt! Rápido. O que você quer? Imortalidade? Riqueza? Fama? Poder? Força? Honrarias? Rápido, não temos muito tempo.
Geralt não respondeu.
- Humanidade – falou Yennefer repentinamente, sorrindo de maneira medonha. – Adivinhei, não é verdade? É isso que você deseja! É com isso que você sonha! Com a libertação, com o direito de ser quem quiser e não quem você é ou, melhor dizendo, quem você é obrigado a ser. O djinn pode cumprir esse seu desejo, Geralt. Basta externá-lo.
Geralt continuou calado enquanto ela permanecia parada, diante dele no meio do cintilante brilho da esfera mágica e dos multicoloridos feixes de luz que prendiam o djinn, com a vasta cabeleira esvoaçando e os olhos cor de violeta brilhando, ereta, esbelta, terrível... E deslumbrante.
Inclinou-se violentamente sobre ele e fitou-o bem no fundo dos olhos. Geralt sentiu o cheiro de lilás e groselha.
- Você não diz nada – sibilou ela. – Afinal, o que almeja bruxo? Qual o seu desejo ou não consegue se decidir? Procure a resposta dentro de si; procure profundamente e com cuidado, porque com certeza você nunca mais terá uma chance como essa.
[...]
No mesmo instante, o bruxo percebeu repentinamente que sabia o que queria pelo que ansiava.
E externou seu desejo.
[...]
A feiticeira tocou levemente os punhos dele, passando os dedos com delicadeza por sua mão.
- Queimei você...
- Bobagem. Apenas algumas bolhas...
- Desculpe-me. Você sabe que o Djinn fugiu para sempre?
- E você está chateada com isso?
- Não muito.
- Que bom! Ajude-me a ficar de pé.
- Espere um momento – sussurrou ela. – Aquele seu desejo... Não pude evitar ouvir o que você pediu. Fiquei pasma; achei que não tinha ouvido direito. Poderia ter imaginado qualquer coisa. Mas o quê... O que o levou a isso, Geralt? Por quê... Por que eu?
- Você não sabe?
Inclinou-se sobre ele e o tocou. Geralt sentiu no rosto o roçar dos cabelos cheirando a lilás e groselha e compreendeu que nunca mais esqueceria aquele perfume e aquele toque delicado, que jamais poderia compará-lo com outro perfume e outro toque. Yennefer beijou-o, e ele percebeu que nunca mais sonharia com outros lábios que não os dela, macios e úmidos, doces de batom. De repente, deu-se conta de que, a partir daquele momento, existiria única e exclusivamente ela, seu pescoço, seus braços e seus seios debaixo do vestido negro, sua pele delicada e fresca, incomparável com qualquer outra que tocara até então. Fitou de perto seus olhos cor de violeta, os mais belos olhos do mundo, que conforme temia se tornariam... Tudo para ele. Sabia disso.
[...]
Depois, o mundo voltou a existir, mas muito diferente.
- Geralt?
- Sim?
- O que vai acontecer agora?
- Não sei.
- Eu também não. Porque... Porque não sei se valeu a pena condenar-se a mim. Não sei... Espere um momento, o que você está fazendo? Eu queria lhe dizer uma coisa...
- Yennefer... Yen...
- Yen – repetiu ela, cedendo totalmente a ele. – Ninguém jamais me chamou assim. Diga outra vez, por favor.
- Yen.
- Geralt.”
Andrzej Sapkowski, O Último Desejo.
E juntos, ambos descobrem o que eram meiguice e ternura. No entanto, a história se complica mediante ao conflito interno de cada um, pois eles não se acham dignos de serem amados. No mais profundo de sua alma Yennefer confessa que desejava ser amada. Só luxúria não lhe bastava. Geralt não sabia lidar com seus sentimentos. Ele aceitara que como bruxo, isto não era possível por terem lhe privado de tais emoções. E se reprimia.
“– E você quer passar por um frio profissional? – indagou Essi, com um estranho sorriso nos lábios. – Passar por alguém que pensa com a lâmina da espada? Se quiser, eu lhe direi como você é de verdade.
– Eu sei como sou de verdade.
– Você é sensível – falou Essi em voz baixa. – No fundo de sua alma, você está cheio de inquietude. Não me engana sua expressão pétrea nem sua voz pausada. Você é sensível, e é exatamente essa sua sensibilidade que o faz temer que aquilo que você enfrentará com uma espada na mão poderá ter lá as próprias razões, levando, com isso, uma vantagem moral sobre você...
– Não, Essi – respondeu Geralt lentamente. – Não procure em mim um tema para uma balada sentimental, uma balada sobre um bruxo com dramas de consciência. É possível que meu desejo fosse esse, mas a verdade é outra. Todos meus dilemas morais são resolvidos por meu código de conduta e pela maneira como fui educado... ou adestrado. [...] O código resolve os dilemas do bruxo.
– Todos os dilemas, Geralt? – perguntou, de súbito.
‘Ela sabe de Yennefer’, pensou Geralt.”
Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino.
Mesmo existindo um forte sentimento, Geralt e Yennefer nunca tiveram uma relação contínua ao longo dos anos. O desejo de Geralt foi para que seu destino estivesse ligado ao de Yennefer, mas só isso não bastava para permanecerem juntos. Era preciso algo mais.
“– Perdoe-me a sinceridade e a franqueza, Yennefer. O que vou dizer está estampado em seus rostos, de modo que nem preciso me esforçar para ler suas mentes. Vocês foram feitos um para o outro, você e o bruxo. Só que nada acontecerá. Nada. Sinto muito.
– Sei. – Yennefer empalideceu levemente. – Estou ciente disso, Villentretenmerth. Mas é que eu queria também acreditar que não há limite para o possível ou, pelo menos, que ele está ainda muito distante.”
Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino.
Como sabemos, o maior desejo da feiticeira era ser mãe e sendo ela e Geralt estéreis, isso nunca ocorreria. Contudo, os dois sempre voltavam a se reencontrar a cada saudoso e longo intervalo de separação. E não importava suas motivações. Ambos quando separados desejavam estar juntos e quando juntos acabavam se ferindo com o término. Sempre.
“- E eis que damos de cara um com o outro, após... Quanto tempo se passou? Um ano?
– Um ano, dois meses e dezoito dias.
– Estou comovida. Foi intencional?
– Sim.
[...]
Embora tenso, Geralt ficou acariciando os cachos de Yennefer, aspirando seu perfume de lilás e groselha. ‘Se eu desejá-la demais, ela vai logo detectar e ficar na defensiva. Ficará eriçada como um ouriço e se afastará de mim. O melhor que posso fazer é perguntar o que há de novo em sua vida... ’
– Não há nada de novo em minha vida – afirmou ela, com um leve tremor na voz. – Nada que valha a pena contar.
– Não faça isso comigo. Não leia minha mente. Fico encabulado.
– Perdoe-me. Foi uma coisa instintiva. E quanto a você, Geralt, o que há de novo em sua vida?
– Nada. Nada que valha a pena contar.
Ficaram em silêncio.
[...]
Abraçou-a com força e ficou se balançando para frente e para trás, como se aninhasse uma criança. Ela não objetou. Geralt não se espantou, pois sabia que era exatamente disso que ela precisava.
– Sabe de que senti mais falta, Geralt? – falou ela, mais calma. – De seu silêncio.
Geralt tocou seus cabelos e sua orelha com os lábios. ‘Desejo-a, Yen’, pensou. ‘Desejo-a, e você sabe disso’.
– Sei – sussurrou ela.
– Yen...
– Somente hoje – disse ela, soltando um suspiro e olhando para ele com olhos bem abertos. – Somente esta noite, que passará logo. Que isto seja nosso Belleteyn. Separar-nos-emos amanhã cedo. Peço-lhe que não conte com mais nada do que isto, porque não posso... não poderia... Perdoe-me. Se o ofendi, dê-me um beijo e vá embora.
– Se eu a beijar, não poderei ir embora.
– Era com isso que eu contava.
[...]
Silêncio. Toda a eternidade contida num silêncio. Belleteyn... Fogueiras sem fim...
– Yen?
– Sim, Geralt?
– Você está chorando?
– Não!
– Yen...
– Eu prometi a mim mesma... Prometi...
– Não diga mais nada. Não é preciso. Você está com frio?
– Estou.
[...]
– E agora?
– Está bem melhor; mais quente.
O céu clareava num ritmo assustador. A negra parede da floresta adquiria contornos, fazendo surgir da disforme escuridão uma clara e serrilhada linha de copas de árvores. Por trás dela aparecia o azulado prenúncio da alvorada, estendendo-se ao longo do horizonte e apagando as lamparinas das estrelas. O ar esfriou. O bruxo abraçou-a mais forte, cobrindo-a com a capa.
– Geralt?
– Sim?
– Está amanhecendo.
– Eu sei.
– Feri você?
– Levemente.
– Vai começar de novo?
– Nunca acabou.”
[...]
Yennefer beijou-o no lugar onde o pescoço se transformava em clavícula; depois, colocou lá sua cabeça, fazendo cócegas com seus cachos.
– Fomos feitos um para o outro – sussurrou. – É bem possível que até predestinados para que isso aconteça. No entanto, nada resultará disso. É uma pena, mas, quando amanhecer, vamos ter de nos separar. Não pode ser de outra maneira. Temos de nos separar para não nos ferirmos. Nós, os predestinados um ao outro, os feitos um para o outro. É uma pena. Aquele ou aqueles que nos fizeram um para o outro deveriam ter se preocupado com algo mais. A predestinação por si só não basta. É preciso algo mais. Perdoe-me, mas eu tinha de lhe dizer isso.
– Eu sei.
– Eu sabia que não fazia sentido nós nos amarmos.
– Pois saiba que estava enganada. Fez sentido, apesar de tudo.”
Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino
“Algo mais” é o que Ciri vem se tornar. O elo que lhes faltava. Yennefer finalmente realiza o desejo que sempre almejou quando a toma como filha. É por causa dela que Geralt para de fugir de seu destino, pois o bruxo nunca acreditara nele, e aceita suas emoções.
“– Você me encontrou! Oh, Geralt! Quanto tempo eu esperei! Foi uma espera muito longa... Agora, ficaremos juntos, não é verdade? Ficaremos juntos para valer, não é? Diga, Geralt! Para sempre! Diga!
– Para sempre, Ciri.
– Assim como diziam, Geralt! Assim como diziam... Sou seu destino? Diga, Geralt! Sou seu destino?
- Você é algo mais, Ciri. Algo mais.
Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino.
Quando Yennefer se desarma da imagem fria e insensível contemplamos sua lealdade e o cuidado com quem lhe é próximo e importante.
Certa vez Geralt teve suas espadas roubadas. E sua busca se tornara em vão quando soube que o ladrão conseguiu com que elas fossem leiloadas. Perdendo assim qualquer rastro seguinte. Contudo, mesmo estando separados, Yennefer demonstrou não deixar de se importar. Chegando até a descobrir os ladrões e a enviar um amigo para arrematar suas espadas no leilão.
“- Era pra ser segredo – começou a explicar com desenvoltura – Me deram instruções para lhe entregar as espadas discretamente e as escondidas para logo desaparecer. Mas as condições mudaram de repente. [...] Te negar explicações agora não seria apropriado. Por isso não me negarei e assumirei a responsabilidade. As espadas me foram dadas por Yennefer de Vengerberg há duas semanas em Novigrad.
- Como... – Geralt engoliu saliva -. Como está? Yennefer? Está tudo bem com ela?
- Muito bem, eu diria. – Tiziana Frevi lhe fitou -. Tem um aspecto invejável. Eu a invejo, para ser sincera.”
Andrzej Sapkowski, Estação de Tormentas.
Numa outra ocasião, Yennefer salvara a vida de Jaskier. Amigo e em diversos momentos companheiro de viagem de Geralt. O poeta estava sob tortura enquanto seu opressor exigia informações sobre o paradeiro da princesa de Cintra.
Jaskier era um famoso bardo e suas baladas também tinham o mesmo reconhecimento. Embora ele não citasse nomes, seus ouvintes tinham ciência de quem eram protagonistas.
“- Em sua balada não é citado um nome sequer, porém todos nós sabemos que o bruxo tão decantado pelo senhor não é outro que não o famoso Geralt de Rívia e que a feiticeira pela qual ele nutre tanta paixão é a não menos famosa Yennefer. Já a Criança Surpresa prometida e predestinada ao bruxo é Cirilla, a infeliz princesa de Cintra, um país devastado por invasores. Não é verdade?
Jaskier sorriu altiva e misteriosamente.
— Eu canto acerca de assuntos universais, generosa benfeitora – afirmou. – Acerca de emoções que podem ser sentidas por qualquer um. Não acerca de pessoas concretas.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Se não fosse por Yennefer, Jaskier teria contado tudo que sabia ao torturador e sendo morto logo em seguida. A feiticeira matou os capangas e quando o líder percebeu com quem estava lidando, fugiu num portal. Mas não sem antes receber um “presente” de Yennefer. O lado esquerdo do rosto completamente desfigurado.
“— [...] Muito obrigado, Yennefer. Agradeço-lhe por me ter salvado. Aquele maldito Rience não me deixaria vivo. Teria arrancado de mim tudo o que sei e, depois, me degolado como a um carneiro.
— Também acho. – Yennefer encheu os dois canecos de vinho e ergueu o seu. – Diante disso, brindemos a sua saúde, Jaskier.
— E à sua, Yennefer. À saúde pela qual, a partir de hoje, vou rezar em toda oportunidade que tiver para isso. Sou seu devedor, bela dama, e pagarei essa dívida com minhas baladas. Derrubarei nelas o mito segundo o qual os feiticeiros não se importam com sofrimentos alheios ou não se esforçam para ajudar os desconhecidos, pobres e infelizes mortais.
— O que se pode fazer? – sorriu ela, semicerrando levemente os belos olhos cor de violeta. – Um mito tem lá seus motivos; ele não surgiu do nada. Além disso, você não é um desconhecido, Jaskier. Afinal, eu conheço e gosto de você.
— É mesmo? – sorriu também o poeta. – Tenho de admitir que você soube ocultar tal fato com muita habilidade. Cheguei a acreditar que você me detestava como a própria peste.
— E detestava – respondeu a feiticeira, repentinamente séria. — Depois, mudei de opinião. Então, fiquei-lhe grata.
— Grata por quê, se é que posso perguntar?
[...]
- Gosto demais de você e devo-lhe demais...
— Já é a segunda vez que você diz isso. O que você me deve, Yennefer?
A feiticeira virou a cabeça e ficou em silêncio por um bom tempo.
— Você viajava com ele – disse, por fim. – Graças a você ele não ficou sozinho. Você foi seu amigo. Esteve com ele.”
Andrzej Sapkowski, O Sangue dos Elfos.
Yennefer também se prestou a socorrer uma completa estranha quando ela não pensou duas vezes ao ouvir um gemido alto de uma empalidecida grávida já desmaiando. A feiticeira se aproximou imediatamente, ajoelhou-se e tocando a barriga da mulher lançou um feitiço para assim evitar o rompimento do cordão umbilical e a placenta. Sem deixar de apaziguar com um encantamento o bebê que chutava a barriga com força.
“- Estava contigo quando prestaste ajuda a uma mulher grávida que esteve a ponto de abortar. De joelhos, sem se preocupar com o vestido de pelo de camelo muito caro. Eu vi. E jamais darei ouvidos às histórias de que as feiticeiras são insensíveis e egoístas.”
Andrzej Sapkowski, Torre da Andorinha
Sendo feiticeira e um dos cinco membros do Conselho, Yennefer tinha obrigação de reportar sobre Ciri e seus poderes ao Capítulo dos Feiticeiros. Mas ela não o fez. Culminando assim um dos atos de cumplicidade mais notável ao aceitar educar e a pôr Ciri sob sua proteção a pedido de Geralt num período em que os dois estava há anos sem se falar. Yennefer até chegou por vez a questionar a consideração que Geralt ainda nutria por ela. Demonstrando sua insegurança em relação aos dois.
Então, quando Ciri veio a se tornar tudo para Yennefer a menina desaparece. E a feiticeira promete se vingar de quem atentou contra sua filha.
“Eu, Yennefer de Vengerberg, considero a Ciri minha filha. [...] tenho intenções de por mãos à obra. Com meus métodos. E ativamente, Crach, ativamente. Eu não sou de sentar e chorar com as mãos na cabeça. Eu atuo!”
Andrzej Sapkowski, Torre da Andorinha
E ela atua. Mas não sem pagar um preço. A feiticeira fora torturada durante três meses e mantida em cativeiro nas mais terríveis condições. Tudo na intenção de que ela revelasse, por sonda empática, o paradeiro da princesa de Cintra.
Aliás, Ciri também desenvolve uma ligação forte com Yennefer. Passando a considera-la sua mãe e por isso fora capaz de se entregar em prol da liberdade da feiticeira.
“Ciri havia compreendido, finalmente, que não era somente o terror que oprimia sua garganta. O feiticeiro a amordaçava e a estrangulava magicamente. Estava zombando dela. Humilhando-a. Na frente de todos.
- Liberte... a Yennefer – conseguiu pronunciar, como se tossisse, contraindo-se do esforço – Liberte-a... E comigo pode fazer o que quiser. [...] Eu vim sozinha e sozinha me entregarei a você. Por Yennefer. Por sua vida.”
Andrzej Sapkowski, A Dama do Lago.
Outro momento que vemos Ciri demonstrando seu afeto e admiração por Yennefer é quando durante a reunião com a Loja das Feiticeiras ela precisa escolher um sobrenome, pois perdera o título Real.
“[...] Todas nós estaríamos dispostas a renunciar a qualquer coisa, inclusive a esta Loja, inclusive ao destino dos reinos e do mundo inteiro, só para ter uma filha como você. Mas é impossível. Sabemos que é impossível. Por isso temos tanta inveja de Yennefer.
- Obrigada, dona Filippa – declarou Ciri depois de alguns instantes -. Também me sinto honrada com a proposta de levar o sobrenome Tancarville. No entanto [...] devo agradecer a ambas e escolher eu mesma. Quero me chamar Ciri de Vengerberg, filha de Yennefer.”
Andrzej Sapkowski, A Dama do Lago.
No fim, Geralt estava decidido a largar tudo para tem uma vida com Yennefer e Ciri. Sem mais trabalho de bruxo. Nem mesmo portar uma espada. Ele só queria estar com sua família. Mas seus planos são frustrados quando um pogrom em Rívia lhe tira a vida. Yennefer mesmo sabendo que era impossível trazê-lo de volta, esgotou-se até a morte ao usar de magia para tentar salvá-lo. Ciri levou seus corpos inertes a Ilha de Avallac’h e lá os deixou.
“A princípio ninguém soube o que a menina queria e que ajuda esperava. O primeiro a perceber foi Jaskier. [...] Tomou em seus braços a Yennefer, que seguia inconsciente. Pasmou-se com quão pequena e leve ela era. Poderia jurar que alguém lhe ajudava a transportá-la. [...] Os anões ergueram o bruxo e Triss lhes ajudou.
[...]
- Pronto, Ciri – disse a feiticeira com voz inaudível -. Sua barca espera.
Ciri afastou os cabelos do rosto e fungou o nariz.
- Peça perdão as senhoras de Montecalvo, Triss – disse -. Pois não pode ser de outra forma. Não posso ficar se Geralt e Yennefer se vão. Simplesmente não posso. Devem compreender.
- Devem.
- Adeus, Triss Merigold. Cuide-se, Jaskier. Cuide-se todos.”
[...]
“Geralt abriu os olhos incomodados pelo jogo de luz e sombras que se infiltrava através de suas pálpebras. [...] Sentiu o toque delicado de uns dedos em sua têmpora e bochecha. Uns dedos que conhecia. Que amava tanto que até doía.
- Fiquei tranquilo, meu amado – disse Yennefer com voz aveludada -. Fiquei tranquilo. Não se mova.
- Onde estamos, Yen?
- Por acaso importa? Estamos juntos. Você e eu.
Os pássaros cantavam, verdilhão ou tordos. Cheirava a ervas, alecrim, flores. Maçãs.
- Onde está Ciri?
- Se foi.
Ela mudou de posição, liberou delicadamente seu braço de debaixo da cabeça dele e deitou ao seu lado, na grama, para que pudesse olhar em seus olhos. Lhe mirava fixamente, como se quisesse pregar sua imagem, como se quisesse guarda-la para o futuro, para toda a eternidade. Ele também lhe fitou e a lembrança apertou sua garganta.
- Íamos com Ciri numa barca – recordou Geralt -. Por uma lago. Logo por um rio. Um rio de forte correnteza. Entre a névoa.
Os dedos dela encontraram sua mão e a apertou com força.
- Fique tranquilo, meu amado. Fique tranquilo. Estou contigo. Não importa o que aconteceu, não importa onde estivemos. Agora estou contigo. E nunca mais te deixarei. Nunca.
- Te amo, Yen.
- Eu sei.”
Andrzej Sapkowski, A Dama do Lago.